sábado, 5 de agosto de 2017

Mais leve que o ar                  

Poemas não são
especialmente pesados.
Enquanto a bola de tênis sobe
ela é, penso eu,
mais leve que o ar.

O hélio, é claro,
a inspiração, essa comichão
no nosso cérebro,
o fogo de santelmo
e os números naturais.

Eles pesam quase nada;
para não falar
dos números transcendentais,
e dos seus primos distintos,
embora sejam incontáveis.

Até onde sei, isso vale também
para a radiação dos ímãs,
que nós não vemos,
para a maioria dos nimbos
e para todas as valsas, sem exceção.

Mais leve que o ar,
como uma mágoa esquecida
ou como a fumaça azulada do cigarro
— definitivamente o último —
é, naturalmente, o Eu,

e, tanto quanto sei,
o cheiro das oferendas queimadas,
que aos deuses tanto agrada,
sobe sempre ao céu.
Assim como o zepelim.

Em todo caso, muita coisa
fica em suspenso.
E talvez pese menos que tudo
aquilo que resta de nós
quando estamos debaixo da terra.


Hans Magnus Enzensberger

(tradução de Cide Piquet)

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