domingo, 6 de agosto de 2017

A CONSCIÊNCIA É UMA TELA

Propomos substituir o conceito de consciência e do eu, pelo de modo de subjetivação. Quem fala são os modos de subjetivação.A subjetividade surge como um conjunto de linhas expressivas materializadas no contexto do Encontro com o paciente. Um modo de subjetivação pode ser devido, por exemplo, ao contato do paciente com o seu meio profissional, o papel/função que lá desempenha, suas condições de trabalho. Ou, num caso mais  óbvio, no encontro do paciente com as condições  de um serviço de saúde mental, o Caps. A consciência (modo de subjetivação) funciona de acordo com instâncias concretas de vida, territórios existenciais e dobras subjetivas. A semiótica psiquiátrica traz o conjunto qualitativo das alterações do nível da consciência e deixa de perguntar que forças psíquicas desencadeiam e/ou mantém tais condições psicopatológicas. Então, falamos de outra coisa: um sistema aberto  às causas extra-médicas que se prolonga em trajetórias afetivas não codificáveis por equipamentos tecnológicos.A psicopatologia clínica inscreve-se nesse campo subjetivo movediço e por si mesmo caótico. Um caotizar incessante do movimento infinito dos devires. Daí, ser preciso realizar um corte no caos para tornar as significações estáveis. Entramos num universo irredutível à psicopatologia médica. Fora da psiquiatria há outros mundos. Não é possível psiquiatrizá-los senão com golpes de força ou dissimulação objetiva de uma violência subjetiva. São subjetivações não “cadastradas” pelos cânones da razão sapiente. Elas resistem...  à Norma: a experiência religiosa e não-religiosa sob os mais variados credos, matizes, ideologias e rituais: catolicismo, oração carismática, candomblé, espiritismo, evangélica, esotérica, espiritualista, cósmica, mística, zen budista, transes, experiências amorosas, artísticas, literárias, poéticas, experiências de saída do corpo, casos de para-normalidade, etc, situações onde a noção de consciência e do eu se esfuma em prol de uma vivência mais alargada da realidade: multiplicidades em série. As categorias nosológicas tradicionais da psiquiatria de nada servem para captar esses “interiores” subjetivos. Ao contrário, elas os torcem em nome de um apego irrestrito à ciência positivista e conservadora.
(...)

A.M.

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