quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A primeira tentativa
quase sempre dá em nada.
A segunda é mais do mesmo.
A terceira, malograda,

faz a pessoa pensar,
questionar metas e métodos,
antes de embarcar na quarta,
que dá num naufrágio épico.

A essa altura, desistir
não é mais uma alternativa:
o fracasso se tornou
a própria textura da vida,

e a hipótese do acerto
não entra sequer no cálculo.
Assistir à própria queda
agora é todo o espetáculo.


Paulo Henriques Britto
Eu acredito. Acredito no tempo. O tempo é nosso amigo, nosso aliado, não o inimigo que traz as rugas e a morte. O tempo é que mostra o que realmente valeu a pena, o tempo nos ensina a esperar, o tempo apaga o efêmero e acaba com a dúvida.
(...)

Caio Fernando Abreu

UM ERRO HISTÓRICO

É melhor devolver o Brasil pros índios e ainda pedir desculpas.

O que faz da Noruega o melhor país para ser escritor

Se a Noruega, com seus administráveis cinco milhões de habitantes, suas produtivas reservas de petróleo e sua devoção à cultura, não é o melhor país da Europa para ser escritor, pelo menos tem as condições para sê-lo:
Um autor emergente pode sonhar em viver apenas da literatura porque as bolsas-salário equivalentes a 25.000 euros (cerca de 92.700 reais) por ano são uma realidade que não é dada a conta-gotas.
Um escritor consagrado, digamos Karl Ove Knausgård, autor da saga Minha Luta, também pode ser contemplado, e o foi, com as ajudas – de até 50% – concedidas pelo Governo por meio da Norla (Norwegian Literature Abroad) para a tradução de livros escritos em norueguês: 499 títulos vertidos para 46 idiomas em 2016, entre elas o quarto volume do rei da autoficção traduzido ao espanhol e português.
Publicar é menos arriscado do que em outros países. O Estado tem um programa de aquisição de livros para bibliotecas, único no mundo por sua dimensão, pelo qual compra a cada ano 773 exemplares de 85% dos títulos de ficção e 1.550 exemplares dos títulos de literatura infantil e juvenil, quando a tiragem média ronda os 2.500 exemplares.
Os livros de papel são isentos de impostos – uma raridade que na Europa só é reproduzida no Reino Unido, Irlanda, Albânia, Ucrânia e Geórgia – e impera um sistema de preço fixo, semelhante ao de países como Espanha, França e Alemanha, graças ao qual não se pode reduzir o valor dos exemplares até maio do ano seguinte ao da publicação.
A escrupulosa gestão dos direitos autorais por empréstimos de bibliotecas e por cópias particulares, e a educação, que fez com que a pirataria não fosse um problema, garantem que cada um receba o que é seu.
A tributação da cultura é bonificada e, como na Alemanha, Áustria, Portugal e Itália, o escritor aposentado pode receber os royalties de suas obras sem ter de renunciar à pensão, ao contrário do que acontece em países como Espanha, Irlanda e Malta.
E o mais importante, que explica o que foi dito anteriormente: existe um respeito reverencial pela cultura e pelo criador. E essa veneração tem em uma das nações mais ricas do mundo uma tradução econômica (1,44 bilhão de euros para a cultura em 2017; 85,6 milhões para o setor do livro) que pouco sofreu durante a crise e um impacto no desenvolvimento do talento nativo e sua expansão pelo mundo.
(...)

Maribel Marín, El País, 16/08/2017, 23:19 hs

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

burocratizar o  pensamento
quem faz  melhor
que  a  Academia
no seu dia-a-dia?


A.M.

ALEXEY SLUSAR


APOCALIPSE

As tecnologias da imagem, veiculadas pelos equipamentos de informação e comunicação (internet, celulares, TVs, etc) produzem formas de sentir, perceber, pensar e agir que chamamos de subjetividade contemporânea. Este fato atualíssimo alterou profundamente a consciência, o eu, a razão, valores, códigos, afetos, enfim, elementos psíquicos que respondiam pelo que outrora se chamava "pessoa". O "mundo interno", então constituído como território existencial de si mesmo, espécie de autonomia individual do ser-no-mundo, se desfez, se desfaz e desmorona a olhos vistos. Simples: considere o aumento da morbidade dos transtornos mentais. A fenomenologia e todas as doutrinas do pensamento calcadas no poder da consciência (inclusive o materialismo histórico) ruiram sob o efeitos da era da Tecnologia, ao que parece irreversível.  Veio para ficar. Nós não somos mais nós mesmos. De toda a parte as notícias e os comunicados chegam como recheio subjetivo para fatos, situações, tragédias, acontecimentos que não nos dizem respeito e ao mesmo tempo nos dizem respeito. O tempo não é mais a temporalidade de uma vivência e sim, ao contrário, a vivência é que está no Tempo Mundial (que importam os fusos horários?) e transfigura em éter o que era tão certo como este corpo-aqui-visível-de-carne. Há uma rachadura nas certezas do eu. As crenças vacilam. O virtual é o real. Não mais existe "o tempo vivido", mas o tempo mundial descarnado, evaporado, codificado, por exemplo, em mensagens do zap, a confluir naquilo que Virilio chama de cataclísma. Uma velocidade estonteante do tempo desconcerta a todos, mesmo quem não o saiba.Trata-se de uma mudança "espiritual" muito mais profunda do que se imagina, já que as comodidades objetivas (o mundo-em-mim-sem-sair-de-casa) escondem e legitimam a vertigem da loucura do cotidiano normal. Não mais é possível a nostalgia de tempos idos (bons tempos!) sob pena de afundarmos numa depressão coletiva. O que fazer? Não se tem a menor idéia! Em suma, as tecnologias da imagem nos fabricam à sua imagem e semelhança qual um deus profano que se expressa e se impõe pela ubiquidade, simultaneidade e pelo desaparecimento do passado e do futuro, portanto, da História. Se há um devir-revolucionário (sempre há!) ele é tragado pelas ondas gigantescas das imagens planetárias. Um novo conservadorismo sóciopolítico emerge; a direita se reveste de ciência triunfante. O axioma do progresso técnico se afirma como religião do capital. A busca de referências de sentido muitas vezes se instalam em fascismos políticos ou religiosos. Ou as duas coisas.Todos rezam. 


A.M.


P.S. - Texto revisado e repostado.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O SENTIDO

Para o amante, o ser amado é a transparência do mundo. O que transparece no ser amado é exatamente o que irei focar mais adiante, a propósito do erotismo divino ou sagrado: é o ser pleno, ilimitado, que a descontinuidade pessoal já não limita; é a continuidade do ser, entrevista como liberação a partir do ser amado. Existe nesta aparência um absurdo, uma horrível confusão, mas através do absurdo, da confusão, do sofrimento, há uma verdade  de milagre. No fundo, nada é ilusório na verdade do amor: para o ser que ama, e ainda que (o que pouco importa) só para ele, o ser amado equivale a verdade do ser. O acaso permite que, através dele, desaparecida a complexidade do mundo, o amante entreveja o fundo e a simplicidade do ser.
(...)

George Bataille 

BERNARD HERMANN - Tema de Taxi Driver - Gil Ventura e sax


O rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.


Manuel Bandeira 
JUSTO  VERÍSSIMO

(...) 
Há um divórcio entre o sistema político e os cidadãos. Um dos exemplos dessa separação foi a votação que não aceitou a denúncia contra Michel Temer, ainda que a maioria dos brasileiros fosse favorável às investigações. O que causou essa separação entre o povo e o poder?

Sérgio Abranches – A Câmara votou a favor de Temer de costas para a sociedade. Na melhor das hipóteses, o raciocínio dos deputados foi que valia a pena contrariar os eleitores para obter o máximo de concessões do presidente. Depois, eles usariam essas concessões para agradar a suas bases e fazer as pazes com o eleitorado. Estou convencido de que uma boa parte dos deputados votou com a expectativa de tentar sufocar a Lava Jato. Há, de fato, um movimento nesse sentido nos Três Poderes, mas não creio que serão bem-sucedidos.
O custo desse divórcio será muito alto. Ele dividirá o Congresso e tornará cada rodada de votação impopular mais difícil e mais cara para Temer. Ele não será capaz de pagar muitas rodadas. Talvez nem a próxima. Na primeira, ele agravou a crise fiscal e operou no limite de suas possibilidades.
(...)

Sérgio Abrantes, Entrevista, Época, 14/08/2017, 12:09 hs

TANGERINAS, direção de Zaza Urushadze, 2013


Ao estudar as características e a índole dos animais, encontrei um resultado humilhante para mim.

Mark Twain
FILOSOFIA E POESIA

Lula pôs em funcionamento uma operação para refazer sua imagem para 2018, convencido de que será candidato às presidenciais. Com isso revela seu grande faro político e sua capacidade de se metamorfosear, exatamente no momento em que toda a velha guarda política está petrificada e contra as cordas.
Que Lula está à procura de uma nova imagem para 2018 acaba de ser revelado em quatro linhas de sua coluna em O Globo, por Ancelmo Gois, um dos jornalistas mais bem informados do país. Ele disse na segunda-feira que Lula, em um jantar na casa do ator Fábio Assunção, confiou um segredo: “que está cada dia mais interessado pela filosofia e pela poesia”, o que alguém já traduziu como seu desejo de aparecer mais tranquilo, banhando-se nas águas calmas do saber e da arte. Nasce assim também a nova imagem do Lula leitor, tão diferente do antigo, ao qual ler “dava sono”, ou para o qual a leitura era “pior do que fazer o exercício na esteira”. Agora ele lê, não romances, mas filosofia e poesia.
(...)

Juan Arias, El País, 14/08/2017, 21:07 hs

JOAN MIRÓ


A Piedade

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos


Roberto Piva

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

NADA A CRITICAR

Sob a ótica da diferença, a crítica à psiquiatria não é uma crítica. É comum à crítica conter um elemento paranóide que toma o seu objeto como persecutório. Além disso, sob as condições do capitalismo axiomático, a crítica se torna um dispositivo social que abastece o discurso midiático, por exemplo, de redundâncias sintáxicas e semânticas. Uma crítica que não ofende. Ela funciona no modo logorréia... pomposa até o infinito... veja políticos explicando a saúde. Ao contrário, a diferença quer escapar do universo da representação (como o da Academia dos doutos) e mergulhar no real-cruel-empirico da clínica. Este é o lugar do não-lugar: o da loucura. Não aquietar paixões e/ou resfriar intensidades do corpo! É outra coisa: mora no avesso da história psiquiátrica oficial e infiltra-se no tecido da prática clínica cotidiana. Não, pois, é uma crítica, mas uma micropolítica.

A.M.

CHICO BUARQUE - Olha Maria, de Jobim e Chico


MAS O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, pagará hoje os salários de maio e junho e de todos os servidores, ativos e inativos. Amanhã, pagará os de julho.
Ficará devendo somente o 13º.

Blog do Ancelmo Gois, 14/08/2017, 14:55 hs

domingo, 13 de agosto de 2017

Consoada

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.


Manuel Bandeira 

GUERRA NUCLEAR DOS TOPETES ESCROTOS!


QUAL HORIZONTE?

(...)
Por dever de ofício, continuarei acompanhando a cena brasileira, aos trancos no meio da semana, em detalhes no fim. Mas na conjuntura que se abre, o investimento maior é na possibilidade de renovação.
Olhar apenas para o que está aí é deprimente. É preciso um horizonte, conhecer o que se move, apontar possíveis conexões e até ajudar com a experiência vivida de erros e acertos. Todos os países nessas circunstâncias tendem a achar seu caminho de renovação. O Brasil seria um caso inédito de país que não se mexe com vigor quando é explorado por sistema partidário voraz pilotando dispendiosa máquina estatal.
Não se trata de algo solene do tipo ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. Mas para muitos o dilema pode ser no futuro próximo: ou acabar com essa pilhagem ou se despedir do Brasil.
Apesar de partilharmos uma cultura, uma História nacional, não dá para nos sentirmos num país de verdade quando as quadrilhas pilham os seus recursos. Nem acreditar em justiça quando se anula, em nome da privacidade empresarial, um processo de Mariana, que trata de 19 mortes, centenas de pessoas expulsas de casa e um rio envenenado.
Ao aceitar a permanência de Temer em nome da estabilidade, mercado, empresários e até mesmo uma parte da imprensa não percebem a mensagem que enviam aos políticos inescrupulosos que reinam em Brasília. Eles são espertos o bastante para avançarem sempre que, por meio de atos repulsivos, conseguem a indiferença enojada da sociedade. Mas são mais espertos ainda para entenderem que mercado e empresários estão dispostos a pagar tudo pelo que consideram, erroneamente, a estabilidade.
Sem pressão da sociedade e com o beneplácito de um mercado imediatista, compreenderam muito rapidamente que o momento é do banquete das hienas. Todo esse desastre por causa da estabilidade, do medo de caminhar, paralisia com o mito de que sem Temer acabaria a reconstrução econômica e um PT na lona é o bicho-papão que voltaria ao poder.

Fernando Gabeira, 11/08/2017
Em vez de serem apenas bons, esforcem-se para criar um estado de coisas que torne possível a bondade; em vez de serem apenas livres, esforcem-se para criar um estado de coisas que liberte a todos!

Bertolt Brecht

SALVADOR, MEU AMOR

Forte de Humaitá

onde anda a política
que muda?
onde  anda a muda
que floresce?


A.M.
O CUSTO TEMER

Como custo de sobrevivência do presidente Michel Temer (PMDB), o ajuste fiscal virou promessa distante e os serviços federais sucumbem às barganhas do governo para manter o apoio do Congresso a um presidente acusado de corrupção passiva, investigado por obstrução de Justiça e participação em organização criminosa. A blindagem na Câmara dos Deputados na semana passada adiou o início de uma ação penal contra Temer, mas a sobrevida do presidente custou mais de R$ 4 bilhões em emendas parlamentares antecipadas e mais de R$ 10 bilhões em dívidas refinanciadas em condições generosas para produtores rurais. A salvação estourou uma rebelião na base aliada. PP, PR, PSD e outros partidos do "centrão" cobram ministérios, cargos e verbas para apoiar Temer contra novas denúncias e votações na Câmara dos Deputados.

Em cada fatia cedida do orçamento para grandes doadores de campanha, como os ruralistas, e para interesses paroquiais de parlamentares, Temer destruiu o ajuste fiscal da equipe econômica do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, como mostrou reportagem do EL PAÍS. Essa sobrevida veio com um custo direto, com barganhas no orçamento, e também indireto, com a rodagem de juros da dívida pública em patamar mais alto do que seria esperado em condições normais de governabilidade. Por isso, embora a ex-presidente Dilma Rousseff e o PT tenham quebrado a economia do país e levado as contas públicas a essa situação de descalabro, Temer também não ajuda. O presidente atrasa a recuperação, porque sua permanência no poder custa fatia relevante do orçamento público – até agora, mais de R$ 14 bilhões – e dificulta a queda de juros, essencial para a retomada da atividade econômica.


Daniel Haidar, El País, 13/08/2017, 04:55 hs

sábado, 12 de agosto de 2017

Nos chamam de loucos, num mundo em que os normais fazem bombas.

Bob Marley

ALEXI ZAITSEV


O devorador devorado

Os amantes se comem entre si de ponta a ponta, todos todinhos, todo-poderosos, todo-possuídos, sem que fique sobrando a ponta de uma orelha ou um dedo do pé. 
(...)

Eduardo Galeano
O NAZI-FASCISMO VIVE


Charlottesville (45.000 habitantes, Estado da Virgínia) disparou a tensão nesta cidade sulista dos Estados Unidos, provocando enfrentamentos com contramanifestantes, nos quais várias pessoas ficaram feridas e houve um número indeterminado de detidos. A prefeitura tinha declarado o ato ilegal antes de seu início. O governo estadual ativou o estado de emergência e deslocou um forte contingente de unidades antidistúrbios.

Sob o lema Unir a direita, centenas de membros da ultradireita racista norte-americana se reuniram para protestar contra o plano de retirada de uma estátua em homenagem a Robert E. Lee (1807-1870), general do Exército Confederado durante a Guerra Civil Americana, que os extremistas de direita reivindicam como um símbolo histórico do poder branco sulista, e que lutou sem êxito contra os Estados do Norte para manter o sistema de escravidão dos negros. O grupo antirracista Southern Poverty Law Center denunciou que o ato representa “o maior encontro de ódio em décadas”. Os radicais racistas, incluindo elementos do velho grupo de extrema direita Ku Klux Klan, portavam bandeiras confederadas, entoavam slogans nazistas e se armaram de capacetes, escudos e cassetetes. Acredita-se até que tenham utilizado gás pimenta e lacrimogêneo contra seus oponentes. Antes do meio-dia já se havia desencadeado a situação de violência, concentrada no campus da Universidade da Virgínia. Entre os contramanifestantes se destacava o agrupamento antirracista Black Lives Matter (as vidas dos negros importam). Os protestos eram de uma violência desenfreada.
(...)

Pablo de Llano,  El País, Miami, 12/08, 16:54 hs

TIM MAIA - Primavera


Nunca discutas com um idiota. Ele te arrasta até ao nível dele, e depois te vence em experiência.


Mark Twain
Manoel por Manoel

Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.


Manoel de Barros

PSIQUIATRIA NEUROBIOLÓGICA

O  choque no cérebro

A PSIQUIATRIA E A DIFERENÇA

Na medida  em que o Caps “herda” o modelo hospitalocêntrico, mesmo que anuncie o inverso, o “fenótipo institucional” tem uma aparência antimanicomial, ou busca isso, até para justificar a sua existência. A psiquiatria científico-acadêmica adentra ao serviço como uma espécie de cisto benigno para, entre outras coisas, afrouxar as tensões em torno da suposta periculosidade e estranheza do louco. Mas não estamos nessa. O anti-modelo da psiquiatria materialista ( ou da diferença) compreende “outra” psiquiatria, onde os fluxos de saberes e práticas (não necessariamente científicas) impulsionam linhas de desejo para uma operação de desmontagem da clínica hegemônica. Uma semiótica do Encontro. que é a própria semiótica da loucura.Isso leva a considerar a “loucura” como produção de sentidos múltiplos, ou mais precisamente, de multiplicidades clínicas. Algo que precede o transtorno mental e com ele se mistura. A função da psiquiatria clínico-hegemônica (atualmente a  famigerada versão neurobiológica) se reduz a um equipamento técnico, no caso, o psicofármaco, indicado em situações pontuais, como na chamada “crise”. Ao contrário, introduzir o desejo na produção e a produção no desejo (Deleuze-Guattari) torna-se a operação de conectar a clínica psicopatológica aos fluxos coletivos que chegam de fora, mas que estão dentro do serviço como sua consistência prática: o real-cruel-concreto-empírico. Este é um corpo sem órgãos (composto por signos desejantes, devires inauditos, singularizações móveis, fluxos nômades, linhas de potência, territórios de vida e suas conexões ao infinito) a ser experimentado. No entanto, quem suporta tamanho estilhaçamento de sentido?

A.M.

ABBEY LINCOLN & MARC CARY


O OUTRO

só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro


Chacal

CARLOS PEDRAZA


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Disposição de guerreiro

Precisamos da disposição de guerreiros para todos os atos, senão ficamos fracos e feios. Não existe poder numa vida onde não tenha essa disposição. Olhe para si. Tudo o ofende e perturba. Geme e reclama e acha que todo mundo esta abusando de você. É uma folha à mercê do vento. Não existe poder em sua vida. Um guerreiro, ao contrário, é um caçador. Calcula tudo. Isso é controle. Mas, uma vez terminados seus cálculos, ele age. Entrega-se. Um guerreiro não é uma folha a mercê do vento. Ninguém pode empurrá-lo, ninguém pode obrigá-lo a fazer coisas contra si ou contra o que ele acha certo. Um guerreiro é preparado para sobreviver e ele sobrevive da melhor maneira possível. Um guerreiro pode ser ferido, mas não ofendido. Para um guerreiro, não há nada ofensivo nos atos de seus semelhantes, enquanto ele estiver agindo dentro da disposição correta.
(...)

Carlos Castañeda

O DUELO


O CÉREBRO MENTE

Existe uma equação (equívoca) cérebro=mente. Num encadeamento  lógico, vem outra: mente=substância. Na prática clínica, as consequências são danosas ao paciente. Podemos citar ao menos três: 1-o paciente é tratado como "cérebro avariado"; 2- o paciente é considerado como "coisa", mesmo uma coisa valiosa. Onde estaria o sujeito? 3- o paciente é tratado com psicofármacos, ou primariamente com psicofármacos. Não diremos que a psiquiatria é a única responsável por tamanha aberração metodológica e ética. Há muitas outras forças (instituições) em jogo.

A.M.

GRANDES ESCRITOS


Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande reação aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo
Na casa antiga da quinta velha.
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…
Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do princípio!

Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como pairam em taças
Aquelas que o vinho tem e amodorram o vinho.


Fernando Pessoa
BOLSA  ELEIÇÃO

O Congresso assa em fogo alto o que os parlamentares chamam de reforma política. Na verdade, trata-se de uma reforma eleitoral. O miolo da picanha é o Bolsa Eleição, um fundo criado para financiar com verba pública as campanhas políticas. Coisa de R$ 3,6 bilhões. O gasto é inevitável, pois o Supremo Tribunal Federal proibiu em boa hora as doações eleitorais de empresas. Mas há um problema: criado por um Congresso apodrecido, o novo fundo pode servir para sujar verba limpa.

No Brasil, a propaganda eleitoral na TV consome quase 50% da verba de uma campanha. Contratado a peso de ouro, o marketing-espetáculo não realça as qualidades do candidato, esconde os seus defeitos. Pior: forja qualidades inexistentes. O eleitor elege uma coisa e recebe outra. Como não pode devolver o produto, tem que aturá-lo por quatro anos, até a próxima eleição.

Na prática, o financiamento público já vigora no Brasil, por meio do horário eleitoral gratuito e do fundo partidário, que custam algo como R$ 1,8 bilhão. Outra parte passa por baixo da mesa. Os políticos retiram dos cofres públicos o grosso do dinheiro gasto na eleição, trocando apoio empresarial por contratos públicos. A Lava Jato escancarou essa prática. Como a pseudoreforma não inclui providências para baratear as campanhas, o Bolsa Eleição pode derramar a verba limpinha do contribuinte no mesmo caldeirão de lama que inclui o caixa dois.

Do blog do Josias de Souza, 11/08/2017, 00:20 hs

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Todos os caminham levam à morte. Perca-se.

Jorge Luis Borges

PHILIP GLASS - The Secret Agent


O QUE É VIVER

As linhas da diferença estão em toda parte. No entanto, caso prevaleça o olho da Consciência, acesso impossível. Ao contrário, trata-se do cultivo de percepções finas, sutis, delicadas, para além e aquém das formas subjetivas do eu-importante. Experimentar viver sem clichês, poucas respostas ou referências de verdade, é buscar a diferença. Para isso, dobras psíquicas e corpos intensivos fazem novas conexões afetivas. A diferença é o que sobrou dos afetos produzidos ao sabor dos encontros. Um "resto" que ainda é composto de afetos que irão encontrar novos afetos, e assim por diante, numa repetição prenhe de nuances artísticas. A diferença é a arte. Não a arte mercantil ou monumental, mas a arte como processo de criação de mundos. Traçar essa linha, linha de força ativa, linha de potência, linha de vida, quem consegue sai de si mesmo, enlouquece de amor ao amar.  

A.M.
Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que 
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui 
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso 
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos 
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado 
e disse que eu tivera um vareio da imaginação. 
Mas que esses vareios acabariam com os estudos. 
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li 
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio. 
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande 
saber. Achei que os eruditos nas suas altas 
abstrações se esqueciam das coisas simples da 
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase: 
A imaginação é mais importante do que o saber. 
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei 
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu 
olho começou a ver de novo as pobres coisas do 
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam 
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no 
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas 
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania 
nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros
RAZÃO DE ESTADO

A Coreia do Norte confirmou nesta quinta-feira (10) que planeja disparar quatro mísseis contra a ilha americana de Guam, no Pacífico, alegando que apenas a força faz sentido para o presidente Donald Trump, alguém que "perdeu a cabeça".
"Um diálogo sensato é impossível com um sujeito assim, desprovido de razão, e com ele só funciona a força absoluta", indicou a agência estatal KCNA, citando o general norte-coreano Kim Rak-gyom.
(...)

France Press, 10/08/2017, 05:0 hs
A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas dentro de alguns instantes era alguma coisa mais. Era a primeira revelação tácita, mas consciente, do sentimento que os ligava. Nenhum deles procurara esse contato de suas almas, mas nenhum fugiu. O que eles disseram um ao outro, com os simples olhos, não se escreve no papel, não se pode repetir ao ouvido; confissão misteriosa e secreta, feita de um a outro coração, que só ao céu cabia ouvir, porque não eram vozes da terra, nem para a terra as diziam eles. As mãos, de impulso próprio, uniram-se como os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma consideração deteve essa fusão de duas criaturas nascidas para formar uma existência única.
(...)

Machado de Assis

HONESTITE


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

As coisas sempre podem piorar.
Não há limite para o abismo estreito
que se abre justamente no lugar
onde a relação entre causa e efeito
parece indicar que a crosta é mais dura
e é mais remoto o risco da ruptura.

E no entanto, aberta a fenda, uma vez
desmascarada a aparência enganosa
de integridade e estrita solidez,
a mente busca uma saída honrosa
e com algo assim por fim se contenta:
Agora sei onde a corda arrebenta.

Refeita, pois, do golpe, e sem temer mais nada,
expõe um novo flanco à próxima porrada.


Paulo Henriques Britto

CARYBÉ


Ou você se ocupa da política ou a política se ocupa de você.

Jean Paul Sartre
INDÚSTRIA DO ESCÁRNIO

Ao admitir a existência de estudos para aumentar mais impostos, entre eles o Imposto de Renda, Michel Temer fez uma opção preferencial pelo escárnio. Para salvar o próprio mandato, Temer escancarou os cofres públicos, franqueando-os aos interesses mais inconfessáveis. Produziu duas vítimas. Primeiro, assassinou o discurso de austeridade que justificava sua Presidência. Agora, cogita esfolar os contribuintes.

No alvorecer do seu governo-tampão, Temer prometeu responsabilidade fiscal e prosperidade econômica. Antes da delação da JBS, gastou baldes de saliva para alardear que a economia estava nos trilhos. Sua equipe econômica chegou a prever um crescimento de 2% para 2017. Tudo lorota. Se o PIB ficar no zero a zero será um grande feito.

Temer não realizou as privatizações que prometeu. Sem a reforma da Previdência, seu teto de gastos estourou. Acusado de corrupto pela Procuradoria, o presidente reativou a aliança com o atraso, que sonha diariamente com o estancamento da sangria da Lava Jato. Prevalecendo os estudos do governo, o brasileiro pagará mais impostos e continuará financiando a corrupção que faz com que a sociedade receba menos serviços. Definitivamente, o escárnio é a única indústria que prospera no Brasil.


Do Blog do Josias de Souza,08/08/2017, 20:18 hs
Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras. Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto. Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia. Celebrar moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo. Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa. Poesia não presta para demonstrar nada. Ela só presta para dar néctar.
(...)

Manoel de Barros

ZECA BALEIRO - Bicho de Sete Cabeças


CAPS: BASES DA CLÍNICA PSICOPATOLÓGICA

De início, pode-se identificar (entre outras) duas dificuldades que condicionam o funcionamento de um Caps. Ambas se ligam à realidade fora do Caps. Sem ordem de importância, a primeira está acoplada à Rede de Atenção Básica, a segunda ao perfil clínico de um paciente do Caps. Elas estão ligadas entre si, consumando-se na composição dos usuários e no projeto terapêutico singular (PTS). Estão dentro e fora como duas realidades numa só: a Clínica.  Se esta vem de fora, o Caps é uma realidade voltada para fora. Mas se esse "fora" está "dentro", é possível tornar o “fora” a própria realidade. Então, do que se trata, concretamente, dizer que “ o Caps é o próprio fora?" Significa dizer que o “fora” é o real, o real-concreto,o real-social, o mundo em seu fluir incessante configurando a clínica – o Encontro - como superfície (multiplicidade) de práticas voltadas à produtividade e autonomia do paciente. Trabalhar nessa ótica implica num compromisso ético do técnico em saúde mental. Sendo assim, não se trata de atender o paciente ao modo mecanicista (consertar um organismo) mas de fazer produzir linhas de diferenciação existencial, ainda que sob as condições mais adversas. É que a semiótica da loucura (dissolução dos códigos estáveis, fim de mundo, apocalipse...) incomoda aos serviçais do senso comum e do bom senso, esteios subjetivos da Ordem Estabelecida. Ela foge do lugar da consciência normativa. O trabalho com o paciente está, pois, para além do paciente e ao mesmo tempo é o paciente como o Outro-em-nós colocado como linha de risco, risco de enlouquecer. Quem sou? Que fazer? Estamos diante dos perigos constitutivos da clínica e do serviço no qual ela se instala e se produz. Talvez seja possível apenas começar a pensar como: 1- evitar  o reducionismo tosco da visão biomédica, não usando a CID-10, as imagens do cérebro e os psicofármacos como únicos (ou principais) promotores de saúde mental; 2- evitar os princípios morais da racionalidade, do eu e da consciência na avaliação clínico-psicopatológica; 3- não usar as relações de poder inscritas no contato com o paciente como a forma pura da técnica, poder que remete ao item 1; 4- não considerar o paciente duma perspectiva estritamente individual, pessoal, egóica, devendo-se incluir na etiologia os vetores sociopolíticos, econômicos, culturais, institucionais, familiares, espirituais, etc, que atuam e produzem modos de subjetivação; 5- Não “sentir pena” do paciente, mesmo quanto aos mais graves, humilhados e destruídos, livrando a prática clínica da aura de um humanismo salvacionista e esgotado.


A.M.

QUE ESQUERDA?

A dificuldade de enxergar que é fundamental uma renovação. Foi um problema que se colocou de forma muito explícita em junho de 2013. Novos atores estavam se apresentando ali na cena política e foram rechaçados pela esquerda, que não conseguiu até hoje dar um sentido para junho de 2013 e entender as pautas, as formas de organização, a estética... Não conseguiu entender o movimento.
(...)

Tatiana Roque, trecho de Entrevista a El País, 08/08/2017, 22:59 hs


OVACIONADO EM SALVADOR


na  medicina
tudo  começa
com a anatomia

superfícies crespas
objetos sólidos
chanfraduras

mas  ainda  bem
que  o ar  do mundo
abastece os  neurônios

A.M.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.
(...)

Eduardo Galeano

DEVIR-LUA


QUANDO SERÁ?

A Coreia do Norte disse nesta quarta-feira (9, pela hora local) que está "examinando cuidadosamente" um plano para atacar o território americano de Guam, no Oceano Pacífico, com mísseis, apenas algumas horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmar que qualquer ameaça aos Estados Unidos seria respondida com "fogo e fúria".
(...)

G1, Globo.com, 08/08/2017, 19:26 hs
BILLIE HOLIDAY
NA PORTA DOS FUNDOS

quanto abismo cabe
na palavra abismo,

quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,

quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,

quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos

para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul

chamado névoa, vulcão,
solitude?


Ademir Assunção

O MESSIAS


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Não há tempo, tão curta é a vida, para discussões banais, desculpas, amarguras, tirar satisfações. Só há tempo para amar, e mesmo para isso, é só um instante.


Mark Twain
ONZE CONTRA ONZE

Nenhum esporte provoca mais paixões que o futebol. Este é um fato facilmente observável na sua história nacional, internacional e no andamento , por vezes, surpreendente, das partidas. Um gol nos acréscimos...? Viajando sobre o tema, destaco algumas "explicações"; 1-o futebol trabalha com os pés e as pernas, órgãos com pouca precisão de movimentos, se compararmos com as mãos; 2-possui um número elevado de jogadores (22), o que implica em muitas possibilidades e variáveis em cada jogada; 3-adota  um sistema de regras por vezes confuso, impreciso, como é o caso de uma falta (foi falta ou não foi falta? foi penalty ou não?), o que faz com que o juiz erre com frequência(o célebre juiz ladrão...) que nem sempre é ladrão (*); 4- atrelado ao item anterior, temos o fato de que o erro do juiz faz parte do jogo; dir-se-ia que é um jogo meio torto, malandro, dissimulado, e não é por acaso que deu certo no Brasil; 5- a arte lhe é um atributo essencial, muitas vezes superando a técnica, como é o caso dos grandes jogadores; 6-a dimensão psicológica, por isso mesmo, instável, plástica, influi diretamente no desempenho dos atletas; 7- por fim, mas não a última "explicação" (há dezenas...) ,tudo que foi dito se conjuga para o resultado final de uma partida ser imprevisível, mesmo que os dois times sejam de qualidades técnicas muito desiguais; no basquete, por exemplo, dois times muito discrepantes em técnica tornam o jogo previsível e monótono; no futebol, não, pois"tudo é possível", ao ponto do grande Nelson Rodrigues, amante confesso do futebol, criar o personagem Sobrenatural de Almeida para explicar o inexplicável. Como foi possível o Brasil perder a Copa de 1950 para o Uruguai em pleno Maracanã ? 


( * ) Nelson Rodrigues costumava dizer que o juiz ladrão faz parte do jogo; sem ele, o futebol não é futebol. 

GEORGI PETROV


As Sem-Razões do Amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade 

O QUE MUDA SUA VIDA ?


Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar,um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
(...)

Mia Couto

domingo, 6 de agosto de 2017

QUAL ÉTICA?

A psiquiatria carece de um trabalho ético profundo, radical. Uma ética não idealista, mas encravada nas condições da prática clínica. Sabemos que as suas bases teóricas são simplórias e frágeis, mas se mantém atuantes e poderosas. É que alianças institucionais (estado, família, academia, direito, polícia, escola, medicina e tantas outras) capturam o paciente dito mental num retrato irracional em tempos de razão técnica. Assim, garantem a permanência do Mesmo sob os disfarces do crônicamente Novo (a reforma psiquiátrica, as políticas de saúde mental, os debates acadêmicos, etc).  Trata-se de uma sedação sem remédio... 


A.M.

WOJCIECH KILAR - The Brides, do filme Drácula de Bram Stoker, dirigido por Francis Ford Coppola, 1992


Não sou contra que você entre na universidade, mas não deixe isso atrapalhar seus estudos.

Mark Twain
KAFKA,  MÁRQUEZ  E  BUÑUEL

Ao desligar a televisão, na quarta-feira passada, a tarde do processo contra Temer no Congresso brasileiro, tive a sensação de que as obras-primas da literatura e da arte mundial, como as dos escritores Kafka e Gabriel García Márquez e do cineasta Luis Buñuel, amigo de Lorca, não são mais surreais que o vivido ali.
Ninguém sabia se se tratava de uma festa ou de um funeral. Alguns se debulhavam, gritando ao pronunciar seu “não” para acabar com Temer, e outros pareciam estar nas pontas dos pés, sussurrando um “sim” para salvá-lo, como se estivessem no quarto de um doente em coma ou tivessem vergonha de seu voto.
Ninguém entendia nada, como no Processo de Kafka, porque era difícil saber se se tratava de salvar um inocente ou de aniquilar um criminoso, porque todos dizia o mesmo para bendizê-lo ou maldizê-lo.
(..)

Juan Arias, El País, 06/08/2017, 15: 36 hs
Aquilo que sobra

gosto daquilo que sobra.
daquilo que as pessoas desprezam.
na feira, recolho entre os dejetos
a semente da abóbora, a folha da mandioca.
no empório, compro o farelo do trigo, do arroz.
gosto de me alimentar de coisas nutritivas.
pessoas principalmente.
mas nossa cultura, assim como os grãos, refina
as pessoas.
tira delas o mais nutritivo e deixa apenas o miolo
sem sustância.
por isso gosto do que sobra.
das pessoas desprezadas como eu.


Chacal
Me entenda. Eu não sou como um mundo comum. Eu tenho a minha loucura, eu vivo em outra dimensão e eu não tenho tempo para coisas que não têm alma.

Charles Bukowski

JOÃO BOSCO - Indeciso Coração


TRANSFORMAÇÕES INCORPÓREAS

(...)
A paz e a guerra são estados ou misturas de corpos muito diferentes; mas o decreto de mobilização geral exprime uma transformação incorpórea e instantânea dos corpos. Os corpos têm uma idade, uma maturação, um envelhecimento; mas a maioridade, a aposentadoria, determinada categoria de idade, são transformações incorpóreas que se atribuem imediatamente aos corpos, nessa ou naquela sociedade. "Você não é mais uma criança...": esse enunciado diz respeito a uma transformação incorpórea, mesmo que esta se refira aos corpos e se insira em suas ações e paixões. A transformação incorpórea é reconhecida por sua instantaneidade, por sua imediatidade, pela simultaneidade do enunciado que a exprime e do efeito que ela produz; eis por que as palavras de ordem são estritamente datadas, hora, minuto e segundo, e valem tão logo datadas. O amor é uma mistura de corpos que pode ser representada por um coração atravessado por uma flecha, por uma união de almas etc; mas a declaração "Eu te amo" expressa um atributo não-corpóreo dos corpos, tanto do amante quanto do amado. Comer pão e beber vinho são misturas de corpos; comunicar com o Cristo é também uma mistura entre corpos propriamente espirituais, não menos "reais". Mas a transformação do corpo do pão e do vinho em corpo e sangue do Cristo é a pura expressão de um enunciado, atribuído aos corpos. Em um seqüestro de avião, a ameaça do bandido que aponta um revólver é evidentemente uma ação; da mesma forma que a execução de reféns, caso ocorra. Mas a transformação dos passageiros em reféns, e do corpo-avião em corpo-prisão, é uma transformação incorpórea instantânea, um mass-media act no sentido em que os ingleses falam de speech-act. As palavras de ordem ou os agenciamentos de enunciação em uma sociedade dada — em suma, o ilocutório — designam essa relação instantânea dos enunciados com as transformações incorpóreas ou atributos não-corpóreos que eles expressam. 
(...)

Gilles Deleuze e Félix Guattari, in Mil platôs, vol 2
Além disso, pela primeira vez em minha vida sentia uma espécie de desconfiança, e até mesmo receio, das pessoas que passavam- homens embuçados atrás das barbas, mulheres camufladas por cosméticos e perucas, crianças que pareciam anões, ou vice-versa.Os automóveis faziam um barulho irritante e soltavam uma fumaça preta, pareciam dispostos a me atropelar. Até o céu, sem uma única nuvem, exibia um azul falso, de Fra Angelico mal restaurado. Que diabo estava acontecendo comigo?
(...)

Rubem Fonseca