quinta-feira, 31 de agosto de 2017

DELEUZE: O Charme na Loucura


A  DOENÇA  DO  PODER

Usando Elias Canneti do livro “Massa e Poder”, é possível identificar a “doença” do poder: a paranóia. Há sempre, de fato, na medida e no miolo das correlações de forças, uma circulação de desconfiança a priori, um incentivo ao medo, um convite à fobia, uma expectativa angustiante, uma melancolia disfarçada, um pânico frente à desordem, enfim, a grande suspeita contida numa peça sem autoria e, daí, sem sujeito. Quem é o poder? A paranóia não é individual, e sim coletiva, mesmo que surja em alguém isolado. Há regimes significantes eternizados como suplícios dos dominados. Veja o caso dos Estados e das Igrejas. Esta parece ser a regra que a história timbrou, ou finge que. Pode ser o rei, o presidente, o papa, o príncipe, o chefe de estado, o prefeito, o governador, figuras de autoridade, os poderosos... O que importa é que eles se inserem em modos de subjetivação como verdades dadas e contabilizadas, a depender dos rumos da política. Qualquer um pode ser qualquer um, todos são todos, desde que o poder funcione como maquinaria produtora de um gosto por viver e que se nutra de linhas institucionais endurecidas. Desconfia-se de tudo e de todos e vice-versa; instala-se o clima necessário a dizer e sentir “eu posso tudo”. “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, o filme de W.Herzog (1972), ilustra bem o liame poder-paranóia como delírio do infinito: a sequência final é emblemática. Assim, é possível, no caso da psiquiatria, detectar todo um sistema de paranóia embutido na CID-10 como lógica persecutória. Isso funciona no território movediço dos afetos de uma clínica verticalizada. A psiquiatria tem poder porque é fraca. Como diz Nietzsche, "é preciso defender os fortes dos fracos".O poder produz, alimenta-se de mil produções subjetivas, delira sem delirar, delira naturalmente. A sua contrapartida e à vivência persecutória seria, pois, a traição à ordem instituída da razão, à ordem instituída do transtorno mental, à ordem instituída do estado, à ordem instituída de todas as ordens. Trata-se de um modo e de um estilo de experimentar a passagem do tempo que não volta: a irreversibilidade em ato.

A.M.
Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem voz nem nascente.

Mia Couto

JOÃO BOSCO - Sábios Costumam Mentir


AH! Querem uma Luz Melhor

AH! QUEREM uma luz melhor que 
a  do Sol! 
Querem prados mais verdes do que estes! 
Querem flores mais belas do que estas 
que vejo! 
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me. 
Mas, se acaso me descontentam, 
O que quero é um sol mais sol 
que o Sol,  
O que quero é prados mais prados 
que estes prados, 
O que quero é flores mais estas flores 
que estas flores - 
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira! 


Fernando Pessoa

COMANDANTE


Muito bem. Agora sou um homem sem comida, com dois dedos a menos na mão e um a menos no pé do que tinha quando nasci; sou um pistoleiro com balas que não podem disparar; estou passando mal por causa da mordida de um monstro e não tenho medicamentos; tenho água para um dia com sorte; posso conseguir andar talvez uns vinte quilômetros se puser em ação minhas últimas forças. Sou, em suma, um homem à beira de qualquer coisa.
(...)

Stephen King

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

SEM ESCUTA

O psiquiatra - em geral - não escuta o paciente. Não por mal, mas é que ele faz o que a escola de medicina ensinou: buscar sintomas. Ao contrário, numa psiquiatria do desejo, o sintoma é o próprio paciente, sintoma de uma sociedade que odeia a diferença. A profunda divisão de classes (denúncia marxiana) insere-se numa "couraça muscular" de ressentimento (rechaço) à diferença, e por extensão, aos devires. Desse modo, a psiquiatria oficial e seus acólitos (não só psiquiatras) encastela-se numa versão moderna do positivismo científico: as neurociências. Em suas briosas pesquisas sinápticas acabam por caucionar as violências psiquiátricas às subjetividades estranhas, bizarras, esquisitas, inconformes, desviantes, revolucionárias, lunáticas, não-diagnosticáveis. A era do controle tecnológico quase total já preenche psicotidianos em suas zonas crônicas de conforto e cérebro normal.  Se o psiquiatra em geral não escuta (porque não suporta) a diferença, a moral vigente sim, sustenta a percepção de subjetividades dispostas em série. Tudo igual convive numa sopa subjetiva. 

A.M.

GRANDES ESCRITOS


terça-feira, 29 de agosto de 2017

ESPERE, BABY

espere baby não desespere
não me venha com propostas tão fora de propósito
não acene com planos mirabolantes mas tão distantes

espere baby não desespere
vamos tomar mais um e falar sobre o mistério da lua vaga
dylan na vitrola dedo nas teclas
canto invento enquanto o vento marasma

espere baby não desespere
temos um quarto uma eletrola uma cartola
vamos puxar um coelho um baralho e um castelo de cartas
vamos viver o tempo esquecido do mago merlin
vamos montar o espelho partido da vida como ela é

espere baby não desespere
a lagoa há de secar
e nós não ficaremos mais a ver navios
e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida
e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim

espere baby não desespere
porque nesse dia soprará o vento da ventura
porque nesse dia chegará a roda da fortuna
porque nesse dia se ouvirá o canto do amor
e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite
com estampidos perdidos.


Chacal
A  REPUBLIQUETA

A ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, sinalizou a pelo menos um de seus colegas a intenção de submeter ao plenário da Corte a apreciação do pedido de suspeição feito pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot contra Gilmar Mendes. Nesta segunda-feira, Cármen enviou a Gilmar ofício convidando-o a apresentar defesa escrita.

Em seu pedido, o procurador-geral pede que Gilmar seja impedido de atuar no processo que envolve o empresário de ônibus Jacob Barata Filho, suspeito de pagar propinas para obter contratos junto ao governo do Rio de Janeiro. Cármen Lúcia ficou numa toga justa. Gilmar é padrinho de casamento da filha do investigado. Chama-se Beatriz Barata. Casou-se com um sobrinho de Guiomar Mendes, mulher de Gilmar.

Alheio às circunstâncias, Gilmar mandou soltar Barata Filho duas vezes na semana passada. O personagem estava preso por ordem do juiz Marcelo Bretas, que cuida da Lava Jato no Rio. Há no Supremo um outro pedido de suspeição contra Gilmar. Nele, o procurador-geral sustenta que o ministro não pode atuar também no processo estrelado por Eike Batista. Solto por Gilmar, Eike é defendido na Lava Jato por um escritório de advocacia onde trabalha Guiomar, a mulher do ministro.


Do Blog do Josias de Souza, 29/08/2017, 05:55 hs

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

MEDICALIZAÇÃO   DA  SOCIEDADE

O conceito de medicalização da sociedade é tributário do capitalismo industrial avançado. Possui um alcance planetário, na medida em que a tecnologia médica, sustentada pela ideia de progresso, avança como oferta de produtos a serem consumidos em meio ao estilo de vida contemporâneo. Tal estilo tem como base a produção subjetiva correlata à produção econômica. Ou seja, cada vez mais inexistem divisões entre os vários setores da vida social, fazendo desta uma mera extensão dos processos do capital (sempre mais lucro), no caso médico uma semiologia do organismo doente adaptada às necessidades do controle propedêutico pelos equipamentos de saúde. "Já fez a sua Tomografia?". Assim, as soluções dos problemas sociais se afiguram através o uso da terapêutica médica precedida pelo diagnóstico cada vez mais preciso e estabelecido por imagens (exemplo-modelo da USG). A medicalização não é, pois, um fenômeno médico, pelo menos na sua origem, mas um produto do funcionamento científico das relações capitalísticas, totalizadas na figura subjetiva do consumidor-padrão, o indivíduo- paciente. A medicina segue e “obedece” ao processo histórico-social porque ela mesma é uma forma social no sentido de uma instituição poderosa que emplaca um discurso humanitário às custas da produção-consumo de pacientes. Medicalizar é, pois, um ato político antes de ser técnico.

A.M.

WASSILY KANDINSKY


Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

Fernando Pessoa
Como acontece com qualquer outra droga forte, o primeiro amor verdadeiro só é realmente interessante para aqueles que se tornam seus prisioneiros. E como acontece com qualquer outra droga forte que cause dependência, o primeiro amor verdadeiro é perigoso. Os que estão sob o domínio de uma droga forte - heroína, erva-do-diabo, verdadeiro amor - frequentemente se veem tentando manter um precário equilíbrio entre discrição e êxtase, enquanto avançam na corda bamba de suas vidas. Manter o equilíbrio numa corda bamba é difícil até mesmo no estado mais sóbrio; fazer isso num estado de delírio é praticamente impossível. A longo prazo, é completamente impossível.
(...)

Stephen King

LEI DA SELVA


POR QUE?

A Coreia do Norte lançou um míssil nas primeiras horas desta terça-feira (no fim da tarde da segunda-feira no Brasil) em direção ao norte do Japão. O Governo japonês afirmou que o projétil sobrevoou seu território e advertiu seus cidadãos para que tomassem precauções. O primeiro-ministro, Shinzo Abe, declarou que o Japão tomará "as medidas necessárias" para garantir a segurança de seus cidadãos. O novo lançamento acontece dois dias após outros três mísseis balísticos serem lançados no mar do Japão.
“A Coreia do Norte disparou um míssil balístico que sobrevoou o Japão. Estamos recolhendo informação e analisando. Vamos proteger a vida das pessoas. Faremos todo o possível para isso”, disse Abe, segundo informou a rede de televisão pública japonesa, NHK. Um porta-voz do Governo acrescentou que o lançamento “significa uma ameaça grave e sem precedentes”, segundo a Reuters. 
(...)

El País, Seul/Tóquio, 28/08/2017, 20:24 hs

JOÃO BOSCO - Sinceridade


Abraço tem que ter pegada, jeito, curva. Aperto suave que pode virar colo. Alento tenso, que pode virar despedida. Abraço é confissão.
Abraço não pode ser rápido senão é empurrão. Requer cruzamento dos braços e uma demora do rosto no linho. Abraço é para atravessar o nosso corpo.
(...)

Fabrício Carpinejar
Acordei bemol
Tudo estava sustenido

Sol fazia
Só não fazia sentido


Paulo Leminski 

domingo, 27 de agosto de 2017

ORQUÍDEAS ETERNAS


CANALHAS? 
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou de "canalhas" os responsáveis pela Operação Lava Jato.
Ao discursar na noite deste sábado (26), Lula afirmou que nenhum "canalha" teve coragem de apontar "nada errado" em sua trajetória.
Em um discurso feito em praça pública, após receber o título de cidadão pessoense, o petista atacou o PSDB, insinuando que os tucanos deveriam ser os verdadeiros alvos da operação.
"Eles estão julgando não é o Lula, porque eles sabem quem pegou dinheiro. Os tucanos, que eram super corretos... Bastou um tiro de garrucha e caiu toda revoada de tucano."
Falando ao lado do governador da Paraíba, Ricardo Coutinho (PSB), Lula disse que não iria falar do Juiz Sergio Moro, deixando essa tarefa a cargo de seus advogados.
O ex-presidente disse que prestará depoimento a Moro no dia 13 e que "não vai parar nunca".
"Já tenho 20 horas gravadas de 'Jornal Nacional', dezenas de capas de revistas. Já tenho dezenas, dezenas, centenas de páginas de jornais, entrevistas de rádio. E até agora nenhum canalha teve coragem de dizer que teve uma coisa errada na minha vida."
(...)
Folhapress, Catia Seabra, João Pessoa, 27/08/2017, 10:05 hs
Os corações podem quebrar. Sim, os corações podem quebrar. Às vezes eu acho que seria melhor se nós morréssemos quando eles quebram, mas nós não morremos.

Stephen King

MICHAEL NYMAN - Fim De Caso, direção de Neil Jordan, 1999


Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento.

Woody Allen
VERDADE DOS SIGNOS

A filosofia, com todo o seu método e a sua boa vontade, nada significa diante das pressões secretas da obra de arte. A criação, como gênese do ato de pensar, sempre surgirá dos signos. A obra de arte não só nasce dos signos como os faz nascer; o criador é como o ciumento, divino intérprete que vigia os signos pelos quais a verdade se trai.
(...)

Gilles Deleuze in Proust e os signos

BORA BAHEEEA, MINHA PORRA !


o verde grama
a rede mansa
à espera do gol

oh futebol
me leve


A.M.

GRÁVIDA NO TRABALHO

Ana Carolina Gaspar, de 34 anos, tinha um cargo de gerência em uma multinacional do setor de varejo quando engravidou de Júlia. Estava havia tempo suficiente na empresa para perceber alguns sinais do machismo cotidiano, como ter que levar água e café para o chefe, a pedido dele, que acreditava que a única mulher da equipe era quem deveria desempenhar a função, conta ela. Mas, logo na primeira dificuldade da gestação, ela afirma ter percebido que a situação de desigualdade na empresa era mais grave do que imaginava. Assim como muitas mulheres que engravidam, passou a ser apartada das funções e a sentir-se assediada, diz.

"Estava com quase três meses de gestação quando tive um diagnóstico de descolamento da placenta e tive que ficar de repouso absoluto. Quando fui autorizada pelo médico a voltar, descobri que eles haviam retirado a minha equipe de mim. Não recebia e-mails, fui mandada para outro andar e fiquei sem função, a ponto de pedir trabalho escondido para os colegas. Ia todos os dias para a empresa chorando, pensando no erro que eu tinha cometido para ser tratada assim. Mas não cometi nenhum erro, eu só gerei uma vida", conta ela. A situação chegou ao limite, diz, quando o bônus da empresa foi distribuído. "Eles falaram que eu havia atingido as metas, que todos estavam felizes com a minha gerência, mas que eu tinha perdido a energia porque tinha engravidado. E, por isso, não merecia receber", relembra. Diante da situação, e da dificuldade em engordar devido ao estresse, Ana Carolina acabou, novamente, afastada pelo médico. No dia em que cumpriu os cinco meses de estabilidade que a lei determina para as gestantes foi demitida, sem sequer poder se despedir dos colegas, afirma.
(...)

Talita Benidelli, El País, São Paulo, 26/08/2017, 22:00 hs

WILSON DAS NEVES


ARTE-PROCESSO

(...)
A arte também atinge esse estado celestial que já nada guarda de pessoal nem de racional. À sua maneira, a arte diz o que dizem as crianças. Ela é feita de trajetos e devires, por isso faz mapas, extensivos e intensivos. Ha sempre uma trajetória na obra de arte, e Stevenson mostra a importância decisiva de um mapa colorido na concepção de A ilha do tesouro. Não quer isso dizer que um meio determine necessariamente a existência dos personagens, mas antes que estes se definem pelos trajetos que fazem na realidade ou em espirito, sem as quais não há devir. Em pintura, um mapa colorido pode estar presente, dado que o quadro é mais uma reunião sobre uma superfície que uma janela para o mundo, à italiana. Em Vermeer, por exemplo, os devires mais intimos, os mais imóveis (a moça seduzida por um soldado, a mulher que recebe uma carta, o pintor em via de pintar...) remetem, contudo, a vastos percursos que um mapa atesta. Estudei o mapa, dizia Fromentin, "não como geógrafo, mas como pintor". E como os trajetos não são reais, assim como os devires não são imaginários, na sua reunião existe algo de único que só pertence à arte. A arte se define então como um processo impessoal onde a obra se compõe um pouco como um cairn, esse montículo de pedras trazidas por diferentes viajantes e por pessoas em devir (mais do que de regresso), pedras que dependem ou não de um mesmo autor. 
(...)

Gilles Deleuze in Crítica e Clínica

ALVARO CASTAGNET


sábado, 26 de agosto de 2017

A verdadeira dialética

aí os caçadores chegaram
mataram o lobo e abriram a barriga
e encontraram a vovozinha
toda mastigadinha
quanto a chapeuzinho vermelho
eles comeram


Sebastião Uchoa Leite
LUCROS DIAGNÓSTICOS

A psicopatologia é uma ferramenta importante da psiquiatria clínica.Ou, pelo menos, deveria ser. No entanto, em neurotempos atuais ocorre o inverso. Não se fala e não se pesquisa psicopatologia. Só há transtornos mentais orgânicos, mesmo não sendo, e suas descrições são encaixotadas e encaixotantes. A psicopatologia tornou-se a neuromania dos crâneos. Olhe em torno: o vazio epistemológico deixado é preenchido pela vontade de controle da psiquiatria neurobiológica. Tal vontade opera no cadastramento dos desvios de conduta, do mau comportamento social, do irracionalismo do eu-individual e se traduz como diagnóstico-verdade. Diz-se amém. Em tal contexto, a loucura se alastra por toda a parte, não como experiência de abertura a novas semióticas, a novas terras aqui-mesmo, ao Novo, ao devir, mas como esvaziamento do sentido da existência, fim de mundo, apocalipse, noite eterna, abismo sem fundo. Confira a alta cotação das religiões no mercado espiritual do medo. A ideação suicida, o próprio suicídio, ou a auto-flagelação de jovens é apenas um dos sintomas da angústia inominável do tecido social atualmente em decomposição. Uma psiquiatria sem pesquisa psicopatológica não só cauciona o sofrimento psíquico como o produz e dele retira lucro, poder, prestígio e status social.

A.M.

Nunca deixei que a escola interferisse na minha educação.

Mark Twain

O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.

Manoel de Barros
VIDA PÚBLICA COMO CONTINUAÇÃO DA PRIVADA

Alguma coisa subiu à cabeça de Michel Temer durante uma entrevista que concedeu ao SBT. Questionado sobre seu hábito de promover encontros noturnos no Palácio do Jaburu, o presidente declarou: ''Eu converso com quem eu quiser, na hora que eu achar mais oportuna e onde eu quiser.''

De duas, uma: ou Temer recebeu o espírito do ditador de alguma republiqueta africana ou decidiu transformar o palácio residencial numa gafieira, onde se dança até altas horas, em ambiente de penumbra. Seja qual for a hipótese, o tom adotado por Temer não é o que se espera de um presidente da República.

Temer é um funcionário público. Afora o salário, desfruta de todas as comodidades que o contribuinte pode pagar: cama, comida, roupa lavada, segurança, carro com motorista e avião no hangar. A lei obriga que seus encontros sejam registrados na agenda. E os bons costumes recomendam evitar conversas vadias como a que manteve com o delator Joesley Batista. Se quiser fazer da vida pública uma continuação da privada —com trocadilho— Temer dispõe de uma ótima saída. Pode renunciar. Fará muita gente feliz. E poderá falar com quem quiser, na hora que julgar conveniente, na gafieira de sua preferência.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 25/08/2017, 20:20 hs

MARISA MONTE & ERASMO CARLOS - Mais Um na Multidão


O COMBATE DO DIAGNÓSTICO

A questão do diagnóstico de "esquizofrenia" não é só clínica. É também, e, principalmente, político-institucional. Isso se deve ao fato da "forma-psiquiatria" haver construído tal diagnóstico como uma prática social de poder e controle sobre os pacientes, bem como linha de ascenção da psiquiatria a uma credibilidade científica e daí acadêmica. Da segunda metade do século XIX com o diagnóstico de "demência precoce" (Kraeplin) até o início do século XX, substituindo-o pelo de esquizofrenia (Bleuler), a psiquiatria se instala como "ciência". A partir daí ela passa a dispor do seu principal objeto ( a esquizofrenia) de pesquisa e intervenção prática (a internação hospital), galgando o status de especialidade médica.  Em fins do século XX (a chamada década do cérebro - anos 90) as pesquisas neurocerebrais sacramentam não só a esquizofrenia, como todas as patologias mentais como sendo doenças do cérebro. As consequências desses fatos foram e são devastadoras para a pesquisa em psicopatologia clínica e teórica, bem como quanto à intervenção sobre o paciente no campo da saúde mental. A psicopatologia clínica, a que busca dar voz ao sujeito, entrou em franco declínio, beirando hoje o aniquilamento total. Quem fala é o cérebro. Desse modo, o debate sobre o diagnóstico clínico em psiquiatria tornou-se essencial para uma crítica ativa e  um trabalho prático com o paciente. Trata-se de uma estratégia de combate, muitas vezes invisível, muitas vezes ao modo de um agente de saúde mental infiltrado na teia psiquiátrica... É que as formas de violência subjetiva legitimadas e institucionalizadas cientificamente já não apenas vivem nos quartos sombrios dos manicômios, nos postos de enfermagem, mas se expandem e se mostram à luz do dia, inclusive em ambulatórios, caps, consultórios, postos de saúde, etc.

A.M.
Como era bom

o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia

Chacal

CARLOS ALMARAZ


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

FASCÍNIO DO PODER

Pela quarta vez em menos de três meses, o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) exibiu sua pose de presidenciável num evento evangélico. Compareceu nesta quinta-feira à Convenção da Assembleia de Deus, na cidade mineira de Juiz de Fora. Discursou sobre economia, ouviu palavras de estímulo à sua hipotética candidatura e concedeu uma entrevista. Nela, falou sobre a importância do diálogo com a comunidade evangélica —“são 30 milhões de pesssoas no país”. E respondeu gostosamente a uma indagação sobre 2018.

Evocando uma entrevista que Meirelles deu à Folha, um repórter atiçou o ministro: “O senhor disse recentemente que o discurso reformista vai vencer as eleições de 2018. Escutou aqui a confiança de uma candidatura do senhor no ano que vem. Qual pode ser o nível de confiança de uma candidatura de Henrique Meirelles?”

Ao responder, o ministro calibrou as palavras de modo a não ficar tão próximo de uma candidatura que amanhã tenha que ficar distante, nem tão distante que amanhã não possa se aproximar.

“No momento, eu estou totalmente concentrado e focado no meu trabalho, visando fazer com que o Brasil volte a crescer”, disse Meirelles. “Não trabalho pensando em hipótese de futuro. (…) O Brasil está voltando a crescer e nós precisamos continuar criando as condições para isso. (…) A partir daí, o país voltando a crescer, nós estamos atingindo o nosso objetivo.”

Ex-tucano, ex-peemedebista, hoje filiado ao PSD, Meirelles incluiu os evangélicos no seu radar político em junho. Antes do evento desta quinta, participara de uma convenção de todas as assembleias de Deus do Brasil, prestigiara a festa dos 106 anos desta denominação religiosa, e dera as caras no aniversário de Manuel Ferreira, bispo primaz da igreja.

Mantido esse ritmo, Meirelles só esquentará a cadeira de ministro por mais sete meses, pois as autoridades que desejarem disputar mandatos eletivos em 2018 terão de deixar seus cargos no início de abril. Até lá, Meirelles terá de entregar crescimento econômico e empregos. De resto, não poderá descuidar de uma máxima cunhada pelo ex-presidente Janio Quadros: “Política é como fotografia. Se a pessoa mexe muito, não sai.”
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 25/08/2017, 16:07 hs

SALVADOR, MEU AMOR


BIPOLARES

Época -Como você vê a polarização que divide o Brasil entre “coxinhas” e “petralhas”? Você enxerga alguma possibilidade de reconciliação nacional?

Rita – Acho essa bipolaridade política uma chatice, sendo que não confio em nenhum dos lados. O maior vilão e grande fator de atraso dessa história toda é o voto obrigatório.
(...)

Rita Lee, Entrevista à Época, 24/08/2017, 17:51 hs
O homem amadurece quando reencontra a seriedade que demonstrava em suas brincadeiras de criança.

F. Nietzsche.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

PAULINHO DA VIOLA - Onde a dor não tem razão


Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável,
o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas
e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
gramática.

Manoel de Barros
AO TÉCNICO EM SAÚDE MENTAL

Considere o paciente (ou usuário de um serviço) antes de toda moral julgadora. Lembre-se que a existência é puro devir, e por isso vertigem, risco e potência. Essa é uma maneira de enxergar o mundo que busca apreender a passagem do tempo como sendo a própria subjetividade. Há só devires. E mais: considere que o que distingue os seres (humanos e inumanos) não é o gênero, a função, a forma, o status, a raça, o credo, etc, mas os graus de potência.  A instituição medicina não sabe disso, não quer saber pois funciona essencialmente com formas visíveis. Isso não é um mal, mas uma postura clínico-teórica insuficiente para encontrar a diferença em psicopatologia. Saia, portanto, da ótica médica marcada pela ciência positivista, pelo mecanicismo newtoniano e pela adesão ao mercado de consumo desenfreado. Adote uma posição ético-estética. Despsiquiatrize-se. Os fluxos vitais que animam o corpo do paciente são os do desejo-produção, não os do desejo coagulado, cronificado, desejo-produto, desejo-em-falta, carência infinita. Experimente o encontro ao escutar antes que a escuta, ao amar antes que o amor. Faça o acontecimento. Não há fórmulas, receitas ou protocolos. Arrisque...jogue os dados do acaso. Ou então, tome a benção ao doutor... e peça autorização para existir...

A.M.

CANDOMBLÉ: A Resistência


Talvez os poetas estejam certos. Talvez o amor seja a única resposta.

Woody Allen
Era o que ele estudava. "A estrutura, quer dizer, a estrutura" - ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. "A estrutura da bolha desabão, compreende?" Não o compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal da minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros, que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas.Uma de cada vez. Amor calculado, porque na afobação o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolhas de sabão. Mas e a estrutura? "A estrutura" - ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado,cuidadinho, ô! a paciência. A paixão. 

No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas,a mão distendida imitando libélula na superfície da água mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô! amor de ritual sem sangue. Sem grito. Amor de transparências e membranas, condenado à ruptura. 

Ainda fechei a janela para retê-la, mas com sua superfície que refletia tudo ela avançou cega contra o vidro. Milhares de olhos e não enxergava. Deixou um círculo de espuma.


Lygia Fagundes Telles

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

ROSA PASSOS - Juras


Coração 
PRA CIMA
Escrito embaixo 
FRÁGIL


Paulo Leminski
ONDE SE ESTUPRA

A cada duas horas e meia, em 2016, uma mulher sofreu estupro coletivo em algum lugar do Brasil. Os dados são do Ministério da Saúde. No último ano, 3.526 casos foram registrados pelas unidades de saúde de todo o país – alta de 12,5% em relação aos 3.132 de 2015. Na comparação com 2011, o número subiu 124%.
Os dados obtidos pelo G1 também mostram a distribuição desses casos pelo país. Somados, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais – os três estados mais populosos – registraram 1.360 casos de "estupro com dois ou mais agressores", na nomenclatura do ministério.
(...)

Mateus Rodrigues, G1, DF, 23/08/2017, 05:10 hs

ERNESTO TRECCANI


terça-feira, 22 de agosto de 2017

Porque ver é permitido, mas sentir já é perigoso. Sentir aos poucos vai exigindo uma série de coisas outras, até o momento em que não se pode mais prescindir do que foi simples constatação.
(...)
Caio Fernando Abreu, Os cavalos brancos de Napoleão, in: Inventário do ir-remediável
SUPREMO  MAL

Denunciado por corrupção em 20 de agosto de 2015, o senador Fernando Collor foi convertido em réu nesta terça-feira pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal. Entre a formalização da denúncia e sua aceitação passaram-se dois anos e dois dias. Na ponta do lapis: a Suprema Corte levou 732 dias para atestar a consistência das acusações contra o senador. A sentença final não virá antes da abertura das urnas de 2018.

Denunciado no mesmo dia, Eduardo Cunha não teve a mesma sorte de Collor. Ex-presidente da Câmara, teve o mandato de deputado cassado em 12 setembro de 2016. No mês seguinte, foi recolhido a uma cela de Curitiba por ordem de Sergio Moro. Em 30 de março de 2016, Cunha já amargava sua primeira condenação. O juiz da Lava Jato sentenciou-o a 15 anos e 4 meses de cadeia.

Hoje, o presidiário Eduardo Cunha está na fila da delação premiada. E Fernando Collor continua usufruindo de todas as facilidades que o contribuinte é capaz de pagar a um senador da República. Não fosse pelo escuro do foro privilegiado do Supremo, Collor talvez já estivesse dividindo uma cela com Cunha, em Curitiba. Em vez disso, o senador sonha com um futuro igual ao do seu conterrâneo Renan Calheiros (PMDB-AL).

Acusado de pagar com propinas de uma empreiteira a pensão de uma filha nascida de relação extraconjugal, Renan virou réu em dezembro do ano passado. Passaram-se nove anos entre o início da investigação e a apreciação da denúncia. Houve prescrição de parte dos crimes. Sabe Deus quando Renan será julgado.

Na Lava Jato, a contabilidade da primeira instância registra 157 condenações. Juntas, somam 1.563 anos, 7 meses e 5 dias. No Supremo Tribunal Federal, não há vestígio de sentença. Repetindo: ninguém foi condenado. Não é sem motivo que os políticos entregam a alma para permanecer no paraíso da Suprema Corte.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 22/08/2017, 19:13 hs

DEBUSSY - Rêverie - F. J. Thiolier (piano)


PARA ENCONTRAR AS CRIANÇAS

(...)
Melanie Klein, partindo de obras freudianas, toma como principal ponto de enfoque das fantasias sua dimensão imaginária. Para a autora, a atividade fantasmática está presente na vida desde o nascimento — embora as fantasias primitivas sejam processos altamente desconexos, instáveis e contraditórios. Qualquer estímulo sentido pela criança é um potencial eliciador de fantasias, tanto os agressivos – os quais acarretam fantasias agressivas — quanto os prazerosos – os quais, por sua vez, são causadores de fantasias calcadas no prazer.

O primeiro alvo das fantasias da criança é o corpo da mãe, já que ela é o principal objeto com o qual a criança se relaciona em seus primeiros dias de vida. As fantasias acerca da exploração do corpo materno são de extrema importância para a descoberta do mundo externo pela criança. A pulsão de exploração, fundamental para os trabalhos artísticos e científicos, tem sua base nestas fantasias (Klein, 1996).

De acordo com a teorização kleniana, as principais atividades que podemos concluir como sendo as funções da fantasia são: a realização de desejos; a negação de fatos dolorosos; a segurança em relação aos fatos aterrorizadores do mundo externo; o controle onipotente – já que a criança, em fantasia, não apenas deseja um acontecimento como realmente acredita fazer com que ele aconteça –; a reparação, dentre outras.

O funcionamento inicial da criança é através da vida de fantasia, a qual, progressivamente, através das relações objetais, cederá lugar às emoções mais complexas e aos processos cognitivos. Pode–se dizer que a criança de tenra idade suplementa a lógica pela vida fantasmática, na qual estão sempre presentes tanto fatores biológicos quanto ambientais, o que determina que as fantasias, embora obedeçam a certos padrões, sejam infinitamente variáveis. A vida de fantasia é, portanto: "o terreno donde jorram a mente e a personalidade individuais" 

A liberação da vida fantasmática ocorre, principalmente, através da atividade lúdica, uma vez que esta é a principal atividade da criança pequena. Ela ainda não expressa seus sentimentos e desejos subjetivos por meio de palavras. Desta forma, é preciso estimular a brincadeira das crianças, já que dando rédea solta à atividade lúdica ela está, consequentemente, liberando suas fantasias inconscientes. Estas brincadeiras podem ser de qualquer tipo: brinquedos, desenhos, jogos, bolas, bonecas, etc.
(...)

Marcella Pereira de Oliveira in Melanie Klein e as fantasias inconscientes,Universidade Paulista, 2007
Pomo (de Mínima lírica)

Da vida só têm substância 
a casca e o caroço. 
No meio só tem amido, 
embromações do carbono. 
Porém todo o gosto reside 
nessa carne intermediária, 
sem valor alimentício, 
sem realidade, sem nada. 


É nela que os dentes encontram 
o que os mantém afiados; 
com ela é que a língua elabora 
a doce palavra.


Paulo Henriques Britto

BLADE RUNNER FOR EVER


SOBRE PAUL VIRILIO

Paul Virilio nasceu em Paris em 1932, de pai italiano refugiado político e mãe bretã. Arquiteto, urbanista, filósofo, ex-diretor da Escola de Arquitetura de Paris, especialista em questões estratégicas, tem se destacado como um dos principais ensaístas sobre os meios de comunicação, a "guerra da informação" e o mundo cibernético. Nos últimos anos, Paul Virilio vem se notabilizando como uma voz cética, quase uma nova dissidência, frente a uma sociedade desenfreadamente informatizada e onde o cidadão é vítima de um constante bombardeio (des)informacional.

Do site da Livraria da Travessa

O problema era que você precisava ficar constantemente escolhendo entre uma opção horrível e outra pavorosa, e, independente da sua escolha, eles cortavam mais um pedaço da sua carne, até que não restasse mais nada para descarnar.
(...)

Charles Bukowski

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

meus mestres  
e o sangue que circula
para fora do corpo

nada falam
nada sabem
nada são

senão o que
move as estrelas 
em noites límpidas



A.M.

CÉU - Arrastar-te-ei


SEM  RECATO

Num intervalo de 72 horas, Gilmar Mendes colocou em liberdade meia dúzia de encrencados no esquema de corrupção no setor de transportes do Rio de Janeiro. Com isso, o ministro do Supremo Tribunal Federal inaugurou uma nova fase da implantação da política de celas vazias da Lava Jato. É muito parecida com as fases anteriores. A diferença é que já não há a necessidade de maneirar. Aboliu-se o recato.

Convicto de sua própria invulnerabilidade, Gilmar virou em primeiro lugar a chave da cela de Jacob Barata Filho. Conforme ilustra a foto acima, o ministro é padrinho de casamento de Maria Beatriz Barata, filha do investigado. Ela trocou alianças com o sobrinho da mulher de Gilmar, Guiomar Feitosa Mendes. Chama-se Francisco Feitosa Filho. Seu pai, Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, irmão de Guiomar e cunhado de Gilmar, é sócio de Barata, o empresário que ganhou a liberdade.

Os procuradores da força-tarefa do Rio de Janeiro pediram que Gilmar seja impedido de atuar no processo que envolve Barata. Cabe ao chefe do Ministério Público, Rodrigo Janot, decidir se encaminhar ou não o requerimento ao Supremo. “Vocês acham que ser padrinho de casamento impede alguém de julgar um caso?”, perguntou Gilmar aos repórteres na sexta-feira. “Vocês acham que isso é relação íntima, como a lei diz? Não precisa responder!”
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 20/08/2017, 06:06 hs

JONAS GERARD


Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava 
em orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo 
(possui o que vê).
Mas é pelo tato 
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o tato.
O tato é mais que o ver 
E mais que o ouvir
E mais que o cheirar.       
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca 
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente 
Como um pêssego de Deus.


Manoel de Barros
LINHAS SINGULARES

Linhas singulares da existência são a materialidade subjetiva do individuo, a qual compreende elementos visíveis e invisíveis; ela sempre acontece no plural. São muitas linhas singulares funcionando num movimento incessante. O organismo visível fornece o lastro concreto para uma subjetividade.Contudo, ele é composto por partes infinitamente divisíveis as quais chamamos corpo. O organismo não é o corpo. Este ultrapassa  os  limites do organismo de onde a medicina extrai a sua mais-valia de prestígio. As  linhas singulares inscrevem-se  num corpo não imediatamente visível nem tampouco separado do meio por uma linha de fronteira bem demarcada. Elas são antes de tudo micro-potências que impulsionam o funcionamento motor, cognitivo, intelectual, existencial, enfim, tudo que signifique produção incessante de vida. O paciente é composto por elas e são elas que se expressam como devires (*). Um sintoma é uma linha singular, já que, apesar de ser signo de uma doença cadastrada  na CID-10, ao mesmo tempo é expresso como território existencial.”Eu sou meu  delírio”, “Eu sou  minha tontura”, etc. 

A.M.

(*) Devires são o conteúdo do desejo, o processo do desejo. Não têm forma.
Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século, no velho relógio da sala, cuja pêndula, tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade.
(...)

Machado de Assis
Não fomos feitos para caber numa receita puritana encomendada para domesticar e padronizar o mundo. O discurso do politicamente correto é um crime contra as nossas nações, contra a originalidade e a diversidade dos nossos povos.
(...)

Mia Couto

domingo, 20 de agosto de 2017

KITARO - Aqua


Os ataques terroristas em Barcelona e Cambrils deixam várias interrogações sobre o caso.

Uma ‘casa-bomba’ em Alcanar. Uma grande explosão ocorreu às 23h:16 de quarta-feira em uma casa em Alcanar (Tarragona). Ao chegar ao local, a polícia se deparou com uma cena dantesca, cheia de escombros, com um morto e um ferido em estado grave. Um segundo corpo estava sem vida sob os destroços, mas só foi encontrado na sexta-feira. Na residência havia mais de duas dezenas de cilindros de gás butano. E seus ocupantes eram jovens nascidos no Marrocos. Viviam em Ripoll, uma localidade de apenas 10.000 habitantes situada na outra ponta da Catalunha, e estavam há semanas enchendo os cilindros. Apesar desses indícios, nada levantou suspeitas para os investigadores da polícia catalã. “A inteligência falhou”, afirma uma fonte judicial especialista em terrorismo. “Não fomos capazes de detectá-los”, lamentam fontes da polícia da Catalunha. Fontes do Ministério do Interior vão além e consideram que a polícia catalã cometeu “uma falha grave na análise da informação”
(...)

Oriol Guell, El País, Barcelona, 19/0/2017, 14:55 hs
...nenhum som me importa 
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno, 
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora 
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.


Vladimir Maiakóvski

BORA BAHEEEA, MINHA PORRA!


HISTERIA, HOJE

A histeria, patologia que "deu origem" à psicanálise no final do século XIX, se expressa hoje, mais que nunca, numa espécie de cipoal da clínica psicopatológica. Suas formas de expressão mudaram. Não se pode, pois, dizer que ainda exista uma entidade clínica chamada histeria ao modo de Freud. O que, então, existe? Uma profusão de linhas-sintomas disseminadas pelo corpo, constituindo-o: são as clássicas "somatizações conversivas" e/ou as "dissociações da consciência". Na prática, os quadros psiquiátricos ditos graves (psicoses de variados matizes, transtornos do humor - mania ou depressão - transtornos da personalidade, etc) costumam substituir a hipótese diagnóstica de uma histeria, e preencher o vazio nosológico,  suscitando o emprego de mais e mais remédios químicos, mais e mais controle social, mais e mais preconceito moral, até que os pacientes deixem de incomodar a ordem da razão e as instituições que lhe são correlatas, bem como sejam “aliviados” dos sintomas incapacitantes para a vida autônoma. Fora da especialidade psiquiátrica, a histeria se expressa em fibromialgias, enxaquecas, algias múltiplas, parestesias, vastas extensões de pele, músculos e ossos em organismos codificados por univesos virtuais. A autoflagelação pode ser vista como a busca de certezas “de que estou vivo”. Na esteira de tais sintomas, não é de admirar que a ideação suicida “evolua” ao ato suicida. A experiência de sete anos de Caps nos mostra isso. Em suma, enquanto forma de ações-no-mundo ( organismo) e fluxo de imagens (consciência), a histeria pode “simular” rigorosamente qualquer transtorno mental, desconcertando a avaliação psiquiátrica, ainda mais em tempos de declínio da pesquisa psicopatológica. Assim, a psiquiatria acadêmica, neurobiológica e canônica costuma substituir sua monumental ignorância sobre os processos subjetivos de singularização existencial por condutas de imbecilização dos pacientes.


A.M.

LE NEDERLANDS DANS THEATER au cimema - Shoot The Moon


sábado, 19 de agosto de 2017

O espírito do homem é como um rio que procura o mar. Represem-no e aumentarão a sua força. Não responsabilizem o homem pelas suas explosões devastadoras! Condenem antes a força da vida! O espírito que nos anima pode assumir as mais diversas formas: tornar-nos semelhantes a anjos, a demônios ou a bestas. A cada um a sua escolha. Nada barra o caminho ao homem para além das fantasmagorias dos seus medos. O mundo é a nossa casa, mas teremos ainda que a ocupar; a mulher que amamos está à nossa espera, mas não sabemos onde encontrá-la; o atalho que buscamos está sob os nossos pés, mas não o reconhecemos. Quer sejamos deste mundo por muito ou pouco tempo, os poderes por explorar são ilimitados.
(...)

Henry Miller
Primeiro eu quero falar de amor

meu amor se esparrama na grama 
Meu amor se esparrama na cama 
meu amor se espreguiça 
meu amor deita e rola no planeta.


Chacal

AUGUST MACKE


SEM PROPRIETÁRIOS

A psiquiatria não é proprietária da Saúde Mental, a psicanálise não é proprietária do Inconsciente. Tais enunciados só são possíveis graças  à análise institucional, ou seja, adotando-se uma concepção teórico-prática que prioriza linhas institucionais inseridas em práticas sociais: um chute no cientificismo e no especialismo.  Ou melhor, as linhas institucionais são as próprias práticas, já que estão “presas” em nós de relações subjetivas. “Subjetivo” aqui não designa mais a pessoa, o eu, o individuo, a consciência, categorias marcadas com o selo de um humanismo crônico. Ao contrário, “subjetivo” passa a ser a forma de expressão social contextualizada na história da cultura, onde a psiquiatria e a psicanálise, entre outras instituições, se instalam e se produzem. Psiquiatria e psicanálise são subjetivas porque são formas sociais.
Assim, para a  psicopatologia, o Encontro com o paciente é um fio tênue onde ações terapêuticas se fazem, mesmo não se fazendo. É que é preciso experimentar e correr risco. Um paradoxo atravessa a clínica, já que esta também é uma instituição, ou seja, uma forma social. O trabalho da clínica da diferença está, pois, imerso numa auto-análise incessante de quem o faz, correndo o risco, sabe-se, de destruir, amordaçar, sabotar o desejo, quando pareceria promovê-lo. Isso não é fácil de lidar, mesmo que possa ser dito. Linhas fascistas nos constituem em estratos psíquicos nem sempre evidentes, mas poderosos em seus efeitos de sentido.
Num trabalho como o do Caps, onde situações clínicas gravíssimas são a própria tessitura do cotidiano, o apelo e o apego a modelos teóricos prontos (como é o caso da psicanálise) ou a aparelhos de neurocontrole de mentes (como é o caso da psiquiatria), fazem por funcionar uma maquinaria social a serviço da repressão do desejo. Para tentar evitar isso, a prática clínica torna-se inseparável da crítica e da micropolítica, esta última como um ato de resistência aos poderes instituídos naturalmente. Parece-nos que só desse modo o reducionismo psicanalítico (édipo respira sem aparelhos!) e o fascismo da psiquiatria (psiquiatras são, em geral, generais!) podem ser confrontados em seu próprio campo: o território do encontro-com-paciente. Quanto às demais instituições em jogo, psi ou não-psi, fica a discussão para outro texto.

A.M.


P.S. - texto revisado e ampliado.