quarta-feira, 5 de julho de 2017

VELOCIDADE DOS NÔMADES

O meio nada tem a ver com uma média, não é um centrismo, nem uma moderação. Trata-se, ao contrário, de uma velocidade absoluta. O que cresce pelo meio é dotado de tal velocidade. Seria preciso distinguir não o movimento relativo do movimento absoluto, mas a velocidade relativa e a velocidade absoluta de um movimento qualquer. O relativo é a velocidade de um movimento considerado de um ponto a outro. Mas o absoluto é a velocidade do movimento entre os dois, no meio dos dois, e que traça uma linha de fuga. O movimento já não vai de um ponto a outro, ele se dá, antes, entre dois níveis como em uma diferença de potencial. É uma diferença de intensidade que produz um fenômeno, que o solta ou o expulsa, o envia para o espaço. A velocidade absoluta pode, também, medir um movimento rápido, mas não menos um movimento muito lento, ou até mesmo uma imobilidade, como um movimento sem sair do lugar. Problema de uma velocidade absoluta do pensamento: há sobre esse tema estranhas declarações de Epicuro. Ou então Nietzsche, não é o que ele consegue fazer com um aforismo? Que o pensamento seja lançado como uma pedra por uma máquina de guerra. A velocidade absoluta é a velocidade dos nômades, até mesmo quando eles se deslocam lentamente. Os nômades estão sempre no meio. A estepe cresce pelo meio, ela está entre as grandes florestas e os grandes impérios. A estepe, a grama e os nômades são a mesma coisa. Os nômades não têm nem passado nem futuro, têm apenas devires, devir-mulher, devir-animal, devir-cavalo: sua extraordinária arte animalista. Os nômades não têm história, têm apenas a geografia.
(...)
Gilles Deleuze e Claire Parnet  in Diálogos

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