domingo, 9 de julho de 2017

Os Desaparecidos


a terra não os engoliu, foi o ar?

como a areia eles são numerosos, mas não em areia

se tornaram, sim em nada, em bandos

estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,

como os minutos, mais do que nós,

mas sem lembrança. não inventariados,

impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos

estão os seus nomes, colheres e solas.



não nos dão pena. ninguém se pode

lembrar deles: nasceram,

fugiram, morreram? ninguém os achou

menos. sem falha

é o mundo, mas unido

por aquilo que ele não abriga,

pelos desaparecidos. estão por toda a parte.



sem os ausentes nada existiria.

sem os fugitivos nada era firme.

sem os imensuráveis nada mensurável.

sem os esquecidos nada seguro.



os desaparecidos são justos.

assim nos desvanecemos também.




Hans Magnus Enzensberger

(tradução de Paulo Quintella)

Nenhum comentário:

Postar um comentário