quinta-feira, 20 de julho de 2017

NO FUTURE

(...)
Não sei que impacto teria a morte de inocentes em outros lugares. Mas a morte de crianças e adolescentes no Rio é recebida com uma certa resignação.
O terrorismo não é o melhor parâmetro. Mas suas vítimas são cultuadas e as próprias autoridades aparecem para visitar as famílias. Absortos em suas manobras defensivas, os políticos não têm sensibilidade para isso. Nem espero que tenham nesta encarnação.
No entanto, não importa que governo fique de pé, é essencial conseguir dele alguma resposta à violência urbana. Na verdade, seria necessário que tivesse uma visão clara de como gerir os colapsos que explodem em vários pontos da máquina.
A sucessão de crimes nas cidades e sucessão de escândalos no poder produziram uma certa anestesia. Suspeito que muita gente vai se perguntar se ainda vale a pena gastar alguma energia em mudanças. Creio que uma resposta negativa tende a perpetuar essa etapa constrangedora da história moderna brasileira.
Não porque goste de eleições e tenha muita paciência com o festival de demagogia que gravita em torno delas. É que não vejo outra saída. Ainda assim uma saída estreita, precária. Esta é sociedade mais extensamente informada de nossa história moderna. Talvez consiga um Congresso renovado que, apesar de modesto, pelo menos não atrapalhe.
A política tornou-se um tema central porque a corrupção e suas consequências roubaram a cena. Sem esses fatores dispersivos, é possível concentrar mais energia em campos que, realmente, nos empurram para a frente: trabalho, inovação, conhecimento.
A política terá o seu papel, que certamente vai se desenhando pelo caminho. Mas não pode mais ser essa pesada mala nas costas do país. Mala cheia de malinhas: dinheiro, joias, obras de arte, cartões de crédito, contas no exterior.
Mas o grande peso mesmo não é monetário. É a perda de esperança num futuro comum, o eclipse de um sentimento de país.

Fernando Gabeira, 16/07/2017
dizem que a minha dor
ainda não é poesia

não tenho fingido
o bastante?

tem que doer de verdade
pra ser poesia?

precisa machucar tanto?
pra que ferir?

eu gosto mais
quando você é suave

eu gosto mais
quando você me abraça 


Nicolas Behr

PHILIP GLASS - In The Upper Room Dance II


Conheço apenas o medo, é verdade, tanto medo que me sufoca, que me deixa a boca aberta mas sem fôlego, como alguém a quem falta o ar; ou noutras alturas, deixo de ouvir e fico subitamente surda para o mundo. Bato os pés e não ouço nada. Grito e não percebo nem mesmo um pouco do meu grito. E também às vezes, quando estou deitada o medo volta a assaltar-me, o terror profundo do silêncio e do que poderá sair desse silêncio para me atingir e bata nas paredes das minhas têmporas, um grande, sufocante pavor. Eu então bato nas paredes, no chão, para acabar com o silêncio. Bato, canto, assobio com persistência até mandar o medo embora
(...)

Anaïs Nin
Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar.

Fabrício Carpinejar

ANA CAROLINA - Beatriz


CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 2

Todo delírio é composto por crenças, ou melhor, por um sistema de crenças.Isso é fácil de verificar na observação psicopatológica e até mesmo fora dela, mas com implicações na própria clínica. Uma crença diz respeito à verdade e por extensão à realidade. O senso comum da psiquiatria costuma dizer que o esquizofrênico está fora da realidade. Mas, de que realidade se trata? E o que é a Realidade? É o que vem de fora, o que chega do mundo, ou seja: o próprio mundo. Subjetivo e objetivo, mundo interno e mundo externo, são apenas categorias marcada pelo selo do pensamento idealista. O mundo atual-real é o mundo capitalístico planetário regido por axiomas em torno do valor-dinheiro. Tais axiomas (verdades "verdadeiras" por si mesmas) fabricam o tecido da subjetividade, os afetos. Desse modo, não podemos considerar a vivência delirante como um simples "sintoma" ao modo biomédico de pensar, mas como uma vivência constitutiva do modo de viver burguês. Assim, para ser possível encontrar o paciente, o delírio deve ser conectado às circunstâncias sócio-institucionais em que vive o delirante. No século XIX a forma-psiquiatria criou a entidade clínica esquizofrenia (chamada então de demência precoce), codificando a loucura com um rosto de identidade para outra identidade, a própria psiquiatria. Mas a incessante produção-consumo material e semiótica promovida cada vez mais pelo capital em escala internacional dissolveu os códigos e territórios existenciais, e fez do indivíduo moderno um "esquizofrênico normal". É que ele opera o seu eu conforme os mil fluxos de informações, comunicações, virtualidades, imagens, mídias, notícias, etc... Máquinas sociais gigantescas ou micromáquinas operam na intimidade psíquica a produção do sentido. Este passou a ser um universo delirante, não como doença orgânica, mas como entidade psicossocial encarnada na pessoa, paroxismo do humanismo cristão. Produção-consumo de felicidade.A realidade ela mesma tornou-se delirante para que possa continuar existindo, funcionando e modelizando as condutas. Basta considerar o espectro da ação subjetiva do capital financeiro e suas implicações abstratas na vida concreta das pessoas. Portanto, temos a equação 1) capitalismo=desejo submetido às mais loucas abstrações, colapso do eu e da consciência e 2) esquizofrenia=desejo submetido à forma-psiquiatria operando na clínica do eu dividido, cindido: "ele perdeu o juizo". Se levarmos, se acelerarmos tais proposições em direção aos fluxos do desejo enquanto processo não capitalístico, não esquizofrênico, mas como devir, muda a perspectiva da clínica em saúde mental e muda a perspectiva da ação política. O devir como delírio não medicalizado passa a afrontar a organização do tempo instituído da consciência. Entramos no terreno das intensidades da arte e da poesia. Daí, a inferência óbvia: tudo muda porque tudo flui, inclusive e principalmente a Realidade.

A.M.
ENCONTROS

Quando se trabalha, a solidão é, inevitavelmente, absoluta. Não se pode fazer escola, nem fazer parte de uma escola. Só há trabalho clandestino. Só que é uma solidão extremamente povoada. Não povoada de sonhos, fantasias ou projetos, mas de encontros. Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir ou núpcias. É do fundo dessa solidão que se pode fazer qualquer encontro. Encontram-se pessoas (e às vezes sem as conhecer nem jamais tê-las visto), mas também movimentos, idéias, acontecimentos, entidades.
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet, in Diálogos

JONAS GERARD


Alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo colocado apenas uma nova máscara de papelão.
(...)

Charles Bukowski
MANHÃ DE SOL com AZULEJOS 
  
Tudo se veste da cor de teu vestido azul  
Tudo - menos a dona do vestido:  
meus olhos te passeiam nua  
pela grama do campo de golfe 

Uma curva e eis-nos diante de meu coração

Não amiga não temas  
meu coração; 
é apenas um chapéu surrado  
que humildemente estendo  
para colher um pouco de tua alegria  
de tua graça distraída  
de teu dia


Francisco Alvim

FAZENDO BICO


quarta-feira, 19 de julho de 2017

ANTI-PARANÓIDE

Para haver encontros que criem e não reproduzam universos estáveis,  é preciso intercessores. Eles podem ser qualquer coisa e são o que nos força a pensar. No caso da clínica, como vimos,o que força a pensar é o delírio não medicalizado que tem na esquizofrenia a sua expressão acabada. Para um bom encontro com o paciente, a loucura-em-nós é um exercício de sensibilidade: uma  ética. Busca aumentar a potência de viver. Por outro lado ela não existe fora das linhas  de força que  compreendem  relações de poder. Tais relações compõem a trama das instituições que conduzem e/ou esmagam a produção desejante.Toda ética é uma política, ou mais precisamente, uma micropolítica imanente à clínica. Isso não costuma  se mostrar ao olhar psiquiatrizado  ou  psicologizado. O olho psi é um olho homogeneizado e homogeneizador. Ele “persegue” o semelhante e o humano em toda a parte. É um olho paranóide.

A.M.

Quero te dizer que nós as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo, dobra-se sempre às nossas decisões. Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos farão plenos e verdadeiros.
(...)
Lygia Fagundes Telles

EDUARDO DUSEK - Cabelos Negros


Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams
ESPÍRITOS DO PRESENTE

A enorme estrutura de concreto da usina hidrelétrica Teles Pires, na fronteira do Mato Grosso com o Pará, na Amazônia brasileira, foi erguida onde, há centenas de anos, os ancestrais do povo munduruku foram enterrados. Os ossos, depositados em urnas de barro como prevê a tradição munduruku, foram retirados do local e, por muito tempo, os indígenas não sabiam onde haviam ido parar. É por isso, afirmam, que seus parentes estão tristes, que seu povo vem adoecendo.

A devolução das urnas, para que sejam enterradas em um local onde o "homem branco" não tenha acesso, é uma das reivindicações dos cerca de 200 munduruku que desde a madrugada do último domingo acampam no canteiro de obras de outra usina, a São Manoel. A hidrelétrica está sendo construída no entorno de suas aldeias e em meio a seus locais sagrados, assim como a Teles Pires já está em funcionamento. A São Manoel fica bem no Morro do Macaco e em áreas de cachoeiras em que, para os munduruku, vivem espíritos dos animais. 
(..)

Talita Bedinelli, El País,São Paulo, 18/07/2017, 22:20 hs

terça-feira, 18 de julho de 2017

TZVIATKO KINCHEV


A realidade é dura, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife...

Woody Allen
       peixes de luz

         
         pessoas
         fossem peixes de luz

         fosforecessem
         sob algas invisíveis

         no mel do outono

         nenhum anzol
         ousasse fisgá-las

         palavra alguma
         profanasse
         a voz do silêncio

         apenas arrepio de pele
         eriçar de pêlos
         crispas d´água

         lua mínima ardendo
         na fase pálida do papel



             Ademir Assunção

GRANDES ESCRITOS


O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: - Senhoras e senhores, eu sou um canalha.
(...)

Nelson Rodrigues

segunda-feira, 17 de julho de 2017

ESCUTA

No funcionamento de um Caps, a equipe técnica somos todos. Para isso ser possível, trata-se de inventar a função do técnico em saúde mental. Sua inserção prática começa no ato do acolhimento. É aí onde se dá a escuta como forma dinâmica de estar com o paciente, desde que o técnico aceite ser afetado pelos fluxos da loucura. Sem juízo moral, sem preconceito, sem medo. Não como um dever a cumprir, não como um protocolo clínico, mas como aceitação do Outro e validação da fala, até a mais estranha e insondável. Pois tudo parte das questões: o que quer quem procura um Caps? O que quer quem trabalha num?

A.M.
Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue.
(...)
Fernando Pessoa

domingo, 16 de julho de 2017

Vintage Café - Lounge and Jazz Blends


FAVELAS  EM  RECRESCIMENTO

RIO - Após quatro anos de quedas sucessivas, as favelas voltaram a se expandir no Rio. Levantamento com fotos aéreas feito pelo Instituto Pereira Passos (IPP) revela que a área total das 1.018 comunidades cariocas aumentou 0,31% entre 2012 e 2016, totalizando 46,12 milhões de metros quadrados. Não parece muito, mas é como se, em quatro anos, surgisse na cidade uma área equivalente a dois morros Pavão-Pavaõzinho.

Os números mostram que a meta do ex-prefeito Eduardo Paes de reduzir em 5% a área total das favelas entre 2008 e 2016 não foi cumprida. Nesse período, o decréscimo foi de 1,81%. A promessa de urbanizar cem comunidades por meio do programa Morar Carioca também não foi alcançada. Foram iniciadas ou concluídas obras em apenas 27 favelas entre 2013 e 2016. Paes foi procurado por meio de sua assessoria de imprensa, mas não quis comentar o levantamento.

Já o prefeito Marcelo Crivella prometeu, em seu Plano Estratégico, lançado no início do mês, a regularização urbanística e fundiária de 100 mil domicílios, a urbanização de 21 favelas e a retirada de 14.204 moradias de áreas de risco no Maciço da Tijuca até 2020.
(...)

Guilherme Ramalho, O Globo, 16/07/2017, 10:03 hs
   sossegue coração 
ainda não é agora
       a confusão prossegue 
sonhos a fora

       calma calma 
logo mais a gente goza
       perto do osso 
a carne é mais gostosa


Paulo Leminski

TODAS AS LOUCURAS SÃO INOCENTES


GOSTO DE TUDO QUE ESCORRE

Tudo o que posso dizer é que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e não consegui. Estou constantemente a escrever-te... Na minha cabeça, e os dias passam, e eu imagino o que pensarás. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para terça-feira! E não só terça-feira... Imagino quando poderás ficar uma noite... Quando te poderei ter durante mais tempo... Atormenta-me ver-te só por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece... O tempo é tão precioso e as palavras supérfluas... Mas fazes-me tão feliz... porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas preparações para o vôo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda há demasiado sagrado agarrado a ti. 
(...)

Henry Miller in Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1932
LULA E TEMER : DIFERENTES IGUAIS

A recente condenação por corrupção contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi a última. Virão outras. O Brasil é um país asfixiado pela corrupção no qual pulsa um conflito com ares de guerra declarada entre o poder político, um estamento insolitamente corrupto, e o poder judicial, insolitamente incorruptível. Nos últimos anos, foram presos centenas de ministros, governadores, deputados e senadores, e até o presidente Michel Temer carrega uma denúncia por receber subornos. O campo de batalha são as investigações da Lava Jato, dirigidas por pelotões de juízes, procuradores e tribunais em diferentes instâncias. E depois de três anos desentranhando a rede de desonestidades de quase toda a classe dirigente, a frente chegou à medula do Governo. “É um momento inédito”, avalia Bruno Brandão, representante da Transparência Internacional no Brasil. “Desconstrói a narrativa de que as elites são impunes.” Agora já não vale aplaudir enquanto os procuradores acusam escalões inferiores. Já não há reconciliação possível. É um bando ou outro.

O copo transbordou nas últimas duas semanas, enquanto o país passava por tristes fatos históricos. Pela primeira vez, um presidente, Michel Temer, era denunciado por corrupção pela Procuradoria Geral. Na quarta-feira, dia 12 de julho, Luiz Inácio Lula da Silva se tornou o primeiro ex-presidente condenado a prisão por lavagem de dinheiro e corrupção: nove anos e meio de prisão, segundo uma sentença da qual poderá recorrer a uma segunda instância enquanto segue em liberdade.

Lula e Temer não podem estar mais afastados politicamente, mas os dois reagiram da mesma forma a seus problemas legais: “O que me deixa indignado é que você está sendo vítima de um grupo de pessoas”, protestou o primeiro, enquanto questionava a autoridade dos juízes: “Só o povo brasileiro pode decretar meu fim”. Também Temer, na primeira vez que falou em público depois de saber da denúncia contra ele por supostas trocas de favores e subornos, partiu para a ofensiva: “Isso é um atentado contra nosso país. Não vou permitir que se questionem nem minha honra nem minha dignidade. Não fugirei das batalhas”
(...)

Tom C. Avendaño, El País, São Paulo, 15:00 hs, 21:22 hs

sábado, 15 de julho de 2017

CARYBÉ


Por que os poetas mentem:
motivos adicionais

Porque o momento
em que a palavra feliz
é dita
nunca é o momento da felicidade.
Porque o sedento não traz
aos lábios sua sede.
Porque pela boca da classe operária
não passa a expressão classe operária.
Porque quem se desespera
não tem vontade de dizer:
“Estou desesperado.”
Porque orgasmo e orgasmo
estão a mundos de distância.
Porque o moribundo, em vez de declarar
“estou morrendo”, estertora apenas um
gemido baixo
e, para nós, incompreensível.
Porque são os vivos
que enchem o ouvido dos mortos
com suas notícias atrozes.
Porque as palavras sempre chegam
tarde demais ou cedo demais.
Porque é um outro,
sempre um outro,
quem fala
e porque
aquele de quem se fala
silencia.


Hans Magnus Enzensberger
Ria sempre, em alto e bom som! Ria até perder o fôlego.

George Carlin

EGBERTO GISMONTI - A Fala da Paixão


CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 1

A produção capitalística, em tempos atuais, se dá em escala planetária: a devastação da Terra. Por isso Félix Guattari criou o conceito de Capitalismo Mundial Integrado. O CMI significa a produção subjetiva e portanto material, ou o contrário, a produção material e portanto subjetiva. "Só existe o desejo e o social". Neste sentido, infere-se que o sistema capitalístico se afirmou e se afirma em tão amplas proporções por que domina e controla os indivíduos por dentro, produzindo subjetividades robotizadas (modos de pensar, sentir, perceber e agir) que giram em torno do valor-dinheiro como abstração concretizada em bens de consumo. A servidão imunda, consentida e querida: consome-se todo tipo de produto, incluindo sentimentos, valores, religiões, notícias, doenças, conhecimentos, assistencialismos, espiritualidades, etc. Ora, em tal universo, o sentido é produzido sem cessar como o mundo mais desenvolvido, mais avançado já alcançado pelo Homem, o que é atestado pela tecnologia científica. Sob tais condições, torna-se difícil pensar diferente, ou apenas pensar! Porque não há (aparentemente) um fora do capitalismo. O sistema abarcou tudo, tomou tudo, invadiu tudo até as estruturas do inconsciente. Estamos de fato num mundo delirante (Marx destaca o "fetichismo miraculante" da mercadoria no início de "O Capital"). A Crença é para todos, atravessa países, cidades, continentes: uma busca enlouquecida pela felicidade no exercício diário do consumo faz do homem moderno uma engrenagem plástica (só há uma cultura...) da máquina do capital. Como resistir a tal insânia normatizadora, a religião do capital, a verdade revelada?


A.M.
Hitler, escrevia Herman Rauschning em 1939, 'tem uma profunda reverência pela Igreja Católica e pela ordem dos Jesuítas, não devido à sua doutrina cristã, mas devido ao maquinismo que eles elaboraram e controlaram, o seu método hierárquico, as suas táticas bastante hábeis, o seu profundo conhecimento da natureza humana e o sagaz uso da fraqueza humana para dominarem os crentes'.
(...)
Aldous Huxley

POR QUE?


Flores

Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.


Mia Couto

ROSA PASSOS & IVETE SANGALO - Dunas


Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça.
Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem.
(...)

Lygia Fagundes Telles
ALI-BABÁ

Ficou para agosto a votação da denúncia contra Michel Temer no plenário da Câmara. O governo entrou numa temporada de vale-tudo. O presidente apertou o botão de dane-se. Para se livrar de uma ação penal por corrupção, Temer negocia a entrega de mais cofres públicos aos partidos que o socorrem. Privilegia legendas como o PP, campeão no ranking de encrencados do petrolão. Ou o PR, feudo cartorial do mensaleiro Valdemar Costa Neto.

Temer exige que sua tropa seja leal. Se a política brasileira fizesse sentido, lealdade deveria pertencer ao mesmo grupo de palavras que inclui honradez e ética, não ao grupo de submissão e cumplicidade. Político confiável seria leal à sua consciência e correto com os seus eleitores. Mas no dicionário do governo honra e ética são outros nomes para deslealdade.

A Lava Jato às vezes parece um marco redentor. Passa a impressão de que o Brasil, maduro para punir a corrupção, jamais será o mesmo. No entanto, Temer sinaliza aos aliados que, para se salvar de uma investigação, está disposto a honrar as alianças espúrias que dão ao Brasil essa aparência de país das negociatas e dos trambiques. Aos poucos, o pedaço de Brasília onde pulsa o coração administrativo do governo vai ganhando a aparência de uma Bagdá entregue a Ali-Babá.

Do Blog do Josias de Souza, 14/07/2017, 23:35 hs

sexta-feira, 14 de julho de 2017

vai ver que o apocalipse
já aconteceu
e a gente nem percebeu

     
Nicolas Behr

FÉLIX GUATTARI

o pensador da transversalidade

Quando o primeiro espertalhão encontrou o primeiro imbecil, nasceu o primeiro deus.

Millôr Fernandes
REZE


O Relógio do Fim do Mundo marca três minutos para a meia-noite.

Três minutos para a destruição total do planeta. É o que aponta o Bulletin of the Atomic Scientists, que publica análises e dados atualizados sobre o arsenal atômico mundial e criou o relógio simbólico para estimar a iminência de uma catástrofe nuclear.

Desde 1984, a escala não chegava tão perto da meia-noite, da destruição total – no auge da Guerra Fria, em 1963, eram 12 minutos para o caos.

As tensões diplomáticas recentes entre EUA e Rússia culminaram num ato inesperado de Vladimir Putin: ele suspendeu um acordo de 16 anos entre os dois países, que previa o descarte de 34 toneladas de plutônio.

O minério radioativo serve como matéria-prima para ogivas nucleares – cápsulas que permitem condensar o conteúdo de uma bomba, a ponto de fazê-lo caber na cabeça de um míssil. Somados, russos e americanos têm mais de 8 mil dessas armas prontas para serem disparadas ao toque de um botão.

China, França e Reino Unido completam o grupo de nações capazes de detonar uma bomba em qualquer lugar do globo.

Os demais países com arsenal atômico, porém com menor alcance, são Índia, Paquistão e Israel.

O Irã tenta entrar no clube, mas, apesar de ter mísseis de longo alcance, ainda busca dominar o enriquecimento de urânio para produzir ogivas.

Para piorar o cenário, um novo e misterioso player chegou batendo no tabuleiro: a Coreia do Norte tem detonado testes e especula-se que esteja desenvolvendo mísseis com potencial para viajar 13 mil km – alcance suficiente para ameaçar todo o território dos EUA.

(...)

Armados e perigosos

A ameaça atômica está no ar – na terra e no mar também. Estima-se que nove países detêm quase 4 mil mísseis e 9.400 ogivas prontas para desencadear a 1ª (e última) Guerra Nuclear.
(...)

Pedro Henriques Tavares, da Spuerinteressante,13/07/2017, 06:00hs

JOÃO BOSCO - Quando O Amor Acontece


Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams
BERNA

Numa tarde de domingo no mercado Ver-O-Peso, em Belém do Pará, uma mulher montou uma mesa, forrou com uma toalha branca de rendas, despiu-se por completo, deitou-se e colocou carne crua em cima do corpo. Passou a tarde inteira ali, imóvel. Ao redor, urubus, atraídos pela carne, e olhares curiosos. Hoje, esta performance da artista Berna Reale, denominada Quando todos calam, é uma referência quando se fala dos seus trabalhos na arte. Fora dela, Berna é perita criminal da Polícia de Belém, onde vive.
(...)

Marina Rossi, El País, São Paulo, 14/07/2017, 12:56 hs

TZVIATKO KINCHEV


É absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas ou são encantadoras ou são aborrecidas.

Oscar Wilde
LIU XIAOBO CONTRA O ESTADO


"É preciso acreditar nas testemunhas dispostas a morrer”, dizia Pascal. Liu Xiaobo, prêmio Nobel da Paz, autor, crítico literário, pensador e dissidente chinês, foi uma delas. Na quinta-feira, a Prefeitura de Shenyang, cidade onde ele estava internado em um hospital, anunciou a morte aos 61 anos do dissidente que bradou mais alto e mais claro do que todos pela democracia para a China. O câncer de fígado diagnosticado tarde, muito tarde, no presídio onde cumpria 11 anos de prisão por “subversão” o venceu. A cadeira vazia que o representou na cerimônia de entrega do prêmio pacifista em Oslo, em 2010, manterá seu espaço para sempre.

Resta a dúvida se o tumor não foi descoberto a tempo pelas condições médicas ruins generalizadas nas prisões chinesas ou se tratou, como suspeitam alguns dissidentes e defensores dos direitos humanos, de uma negligência voluntária para se livrar do homem que em seu julgamento em 2009 declarou “não tenho inimigos e ódio”, mas que Pequim considerava como seu principal adversário político interno.

Seja resultado voluntário ou involuntário, com sua morte o Governo chinês se livra para sempre de uma voz que, de outra forma, em três anos teria ficado livre. Uma figura com a altura moral do Dalai Lama e a birmanesa Aung San Suu Kyi em seus anos de prisão domiciliar. Uma figura que, direta ou indiretamente, teria servido de referência para os que se opõem ao mandato do partido único, o Comunista.
(...)

Macarena Vital Liy, El País, Pequim, 13/07/2017, 14:58 hs

quinta-feira, 13 de julho de 2017

ORQUÍDEAS ETERNAS


Qualquer amor há de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio. Por isso, não deixe ninguém saber que você ama.

Nelson Rodrigues
LIMITES 

Partimos de um exemplo clínico; o paciente delirante dito esquizofrênico: ele é tomado pelo delírio, torna-se o próprio delírio vivenciado com um matiz afetivo místico, ou grandiloqüente, ou cósmico, etc. Ele não sofre por isso, não quer ver psiquiatra na sua frente, não se acha doente, ao contrário, quer apenas pregar a sua verdade, transformá-la em ação,  Ou talvez não. Talvez prefira guardá-la, tão preciosa que é, para si mesmo, a qual é evocada nos momentos mais solitários e intensos. Ora, o modelo biomédico da psiquiatria (a busca das sinapses espertas, o cérebro reificado, a neuromania) encontra aí o seu limite terapêutico mais constrangedor.

A.M.

GRUPO CORPO - Triz


A poesia! A poesia está guardada nas palavras, é tudo que eu sei.
Meu fado é não entender quase tudo; sobre o nada eu tenho profundidades. Eu não cultivo conexões com o real. Para mim poderoso não é aquele que descobre o ouro; poderoso pra mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas. Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado e chorei. Sou fraco para elogios.

Manoel de Barros
UMA ANTIGA IDEIA

(...)
A Lava-Jato lançou a ideia de que a lei vale igualmente para todos. É uma ideia tão antiga que pronunciá-la parece apenas repetir um lugar comum. Vencemos a etapa em que o racismo teorizava um código penal para brancos e outro para negros.
Mas a realidade mostra como existe ainda um grande caminho a trilhar. A lei não é igual para todos. Ela afirma que os portadores de diploma universitário têm direito à prisão especial.
E cria uma dessas situações que talvez só possa se resolver numa peça de ficção. Nas cadeias do Rio, em condições tão distintas, os cariocas que Sérgio Cabral arruinou e o novo rico que a corrupção alimentou.
Na realidade concreta do cotidiano, é um conflito insolúvel. A lei vale para todos, contudo, entretanto,você sabe como é, estamos no Brasil, um país que, definitivamente, não tolera roubo de chicletes. Como dizem os defensores do estado de direito, vivemos o perigo de um estado policial. Hoje o chiclete, amanhã um quilo de açúcar, daqui a pouco os homens podem nos levar pelo simples desvio de um milhão de dólares.
No tempo da corrupção, éramos felizes e não sabíamos. Ninguém tinha feito delação premiada. Era possível comprar eleições em nove países do continente e, sobretudo, comprar uma Olimpíada. O complexo de vira-lata foi jogado no lixo; do pingue-pongue ao polo aquático, gritávamos: Brasil, com muito orgulho e muito amor.
Aí, chegou a polícia.

Fernando Gabeira, 09/07/2017

ELLEN OLÉRIA - Desenho de Giz


ESPELHO MEU

Lula e Temer tornaram-se dois personagens inéditos, do tipo “nunca antes na história desse país”. Um virou o primeiro ex-presidente a receber sentença de corrupto. Outro está pendurado nas manchetes como o primeiro presidente denunciado por corrupção no cargo. Os dois têm algo mais em comum: não conseguem enxergar vilões no espelho.
(...)

Do Blog do Josias de Souza, 13/07/2017, 02:54 hs

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Adolescência

minha namorada crê no sonho louco
que ela denomina
amar

eu, como não sei o que é isso,
limito-me a beijá-la
com fúria.


Luiz Olavo Fontes
IMPESSOAL

O juiz Sergio Moro negou qualquer “satisfação pessoal” ao condenar Lula. Ao contrário, ele disse ser “lamentável” que um ex-presidente seja condenado criminalmente.

“Prevalece, enfim, o ditado “não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você'”, disse na sentença.

Pedro Carvalho, Veja.com, 12/07/2017, 14:22 hs

EMIL NOLDE


POÉTICA 2

Para que dormir encolhido
nos estábulos da razão?
Para onde o desfile hipertenso
de cantos, sombras, douradas falas
e translúcidos remorsos?
Por que as raízes
as direções e as plumas
se as palavras pastam
em terrenos baldios
nas mesas sujas do acaso?


Eudoro Augusto

terça-feira, 11 de julho de 2017

Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país. Nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros. Mas que sabe ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas. Nesse território, eu não tenho apenas sonhos. Eu sou sonhável.
(...)
Mia Couto
Talvez os poetas estejam certos. Talvez o amor seja a única resposta.

Woody Allen

GRANDES ESCRITOS


A COMPLEXIDADE DO ÓBVIO

O voto do relator Sérgio Zveiter na Comissão de Constituição e Justiça foi constrangedor para Michel Temer e desafiador para a Câmara. Zveiter constrangeu o presidente porque, mesmo sendo do PMDB, votou a favor da aceitação da denúncia em que Temer é acusado de corrupção. O relator desafiou a Câmara porque mostrou aos deputados que não há outra alternativa senão autorizar o Supremo Tribunal Federal a se debruçar sobre a denúncia.

O relator reconstituiu em seu voto os termos da acusação: o encontro do presidente com o delator Joesley Batista na noite do Jaburu, a conversa desqualificada, a indicação de um preposto, a filmagem desse preposto recebendo propina de R$ 500 mil… E a defesa de Temer reiterou que tudo não passa de ficção. O principal mérito do voto do relator foi o escancaramento do óbvio.

Sim, Sergio Zveiter disse obviedades. Mostrou que há uma denúncia contra o presidente. Os indícios de corrupção são fortes. A sociedade tem o direito de saber se a acusação procede. Para que isso ocorra, a Câmara precisa autorizar o Supremo a julgar a consistência jurídica da denúncia. A defesa de Temer, por sua vez, pede que a Câmara esbarre no óbvio, tropece no óbvio e feche os olhos, mandando o óbvio, junto com o interesse público, às favas.

Do Blog do Josias de Souza, 10/07/2017, 10:11 hs

segunda-feira, 10 de julho de 2017

NÃO EXISTE A ESQUIZOFRENIA

Vamos repetir : a esquizofrenia (como entidade clínica) é uma ficção  da psiquiatria. Não existe. O que existe é a experiência psicótica encarnada em variadíssimas formas de expressão subjetiva (singularidades), as quais muitas vezes não chegam a ser mais que sintomas. Sintomas dos tempos atuais. Aniquiladas como desejo, elas se tornam uma espécie de zumbis modernos. Na sinapse das almas aflitas, a psiquiatria opera a varredura do cérebro, extraindo delírios dopaminados. O paciente, cientificamente lançado na cloaca dos insanos, nem mais precisa dos velhos manicômios. A ação hoje é extramuros, à luz do sol, à flor da pele. Medicalizar tudo e todos. O círcuito da razão suficiente realimenta (infinitamente) seu comando de voz: "seja neuroticamente saudável"!

A.M.

Noite Morta

Noite morta. 
Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)


Manoel Bandeira

ANN MARIE BONNE


Eu sou uma pessoa excitável que só entende a vida liricamente,
musicalmente, em quem sentimentos são muito mais fortes que a razão.
Eu estou tão sedenta para o maravilhoso que só o maravilhoso tem poder sobre mim.
Qualquer coisa que eu não possa transformar em algo maravilhoso, eu deixo ir.
Realidade não me impressiona. Eu só acredito em intoxicação, em êxtase,
e quando a vida ordinária me algemar, eu escapo, de uma maneira ou de outra.
Nenhum muro mais.

Anais Nin

Stacey Kent - Insensatez


DA JAMAICA

Muito aguardado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o escritor jamaicano Marlon James surpreende com sua narrativa em Breve História de Sete Assassinatos (Ed. Intrínseca, 736 págs., R$ 74,90). Diversas vozes se misturam ao narrar um período instável da Jamaica, em Kingston, às vésperas das eleições, quando um atentado feriu o cantor Bob Marley.

Na obra, vencedora do Man Booker Prize, até os mortos falam – e dão sua soturna visão do mundo dos vivos, que ficaram. Confira o primeiro capítulo do livro, que chega às livrarias neste mês.
(...)

Luísa Costa, Veja.com, 09/07/2017, 19:32 hs

domingo, 9 de julho de 2017

Nunca subestime o poder de pessoas estúpidas em um grande grupo.

George Carlin

SALÁRIO: CONTAGEM REGRESSIVA


RESISTIR

O conceito de desejo, no pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, é imediatamente prático e, daí, político. É que ele se confronta com as linhas do poder, visíveis ou não. Esta é a grande e insuperável diferença teórica em relação ao pensamento de Freud, Jung, Lacan, e outros menos ilustres. Daí, não há como desejar sem respirar o "ar do social". Desejar é produzir. Mesmo em tempos subjetivos considerados intimistas, "interiores", há sempre o social  como multiplicidade coletiva entranhada, imiscuida, inserida nos corpos. Isso é real, este é o real. Seu efeito mais direto é (ou deveria ser) uma inserção ético-estética na experiência do mundo, resistência (indomável) ao Poder.


A.M.
Os Desaparecidos


a terra não os engoliu, foi o ar?

como a areia eles são numerosos, mas não em areia

se tornaram, sim em nada, em bandos

estão esquecidos. aos montes e de mãos dadas,

como os minutos, mais do que nós,

mas sem lembrança. não inventariados,

impossíveis de ler no pó, sim desaparecidos

estão os seus nomes, colheres e solas.



não nos dão pena. ninguém se pode

lembrar deles: nasceram,

fugiram, morreram? ninguém os achou

menos. sem falha

é o mundo, mas unido

por aquilo que ele não abriga,

pelos desaparecidos. estão por toda a parte.



sem os ausentes nada existiria.

sem os fugitivos nada era firme.

sem os imensuráveis nada mensurável.

sem os esquecidos nada seguro.



os desaparecidos são justos.

assim nos desvanecemos também.




Hans Magnus Enzensberger

(tradução de Paulo Quintella)
À DIREITA DA DIREITA

(...)
Há quem diga que Bolsonaro nunca ganhará as eleições porque as mulheres, que são maioria no eleitorado brasileiro, nunca votariam nele devido às suas ideias não apenas conservadoras como até mesmo perigosas e desrespeitosas em relação ao mundo feminino. O mesmo foi dito sobre Trump e ainda assim votaram nele.

É conhecido o machismo e o quase desprezo de Bolsonaro pela mulher, que diz que “deve ganhar menos do que o homem porque fica grávida”. E comentando sobre sua família, disse: “Tenho cinco filhos. Quatro são do sexo masculino. Depois dei uma relaxada e veio uma mulher”. Suas ideias perigosas sobre o estupro e os gays e lésbicas são mais do que conhecidas e reprováveis.

Nisso ele chega a superar Trump, apesar da vulgaridade com que o novo presidente norte-americano sempre tratou as mulheres, vistas mais como objeto sexual do que como pessoas. Talvez Trump seja até mais grosseiro com o mundo feminino, mas Bolsonaro é ideologicamente mais perigoso em matéria de sexo.

Dizem que Trump é amante da guerra e violento. Bolsonaro, se chegar à presidência, não seria uma ameaça militar, pois o Brasil não precisará declarar guerra a ninguém. No entanto, poderia representar um perigo ainda maior dadas as suas ideias sobre a violência. O ex-paraquedista defende a tortura e a pena de morte. “Eu sei matar”, disse dias atrás ao lembrar que, como ex-militar, sabe usar todas as armas. Chegou a elogiar, em seu voto a favor do impeachment de Dilma, o militar que a havia torturado na prisão.

Enquanto Trump e Bolsonaro se declaram “crentes”, o candidato brasileiro que acaba, dizem, de se tornar evangélico, é muito mais radical do que Trump na defesa de um estado confessional. Bolsonaro é contra a laicidade do Estado e a favor da imposição de um poder religioso no Brasil. “Deus está acima de tudo. Não existe, no Brasil, isso de Estado laico. O Estado é cristão e a minoria que é contra que se retire. A minoria deve se curvar à maioria”, disse no Congresso.

O Brasil está vivendo um momento crucial e perigoso, com uma sociedade dividida e em conflito. Se o país precisa de alguém para presidi-lo, é de um “pacificador”, não de um guerreiro com pretensões de violência e ideias medievais em matéria e costumes e direitos humanos.

O Brasil precisa de um estadista moderno, progressista ou conservador, mas capaz de reunificar o país e harmonizar as diferenças, capaz de unir as melhores forças da nação para um novo renascimento político e moral depois do cemitério de escombros que a corrupção político-empresarial está deixando.

Para conduzi-lo, o Brasil precisa, no jogo de xadrez mundial, de alguém que possa se colocar como fator de civilização e de contrapeso à propagação de ideias perigosamente atrasadas e violentas que hoje ameaçam a harmonia mundial.

Juan Arias, 07/07/2017, 07:11 hs

NELSON FARIA & TONINHO HORTA - Corcovado


sábado, 8 de julho de 2017

BOTAFOGO PRESIDENTE

A delação do ex-deputado Eduardo Cunha deve potencializar a debilidade política de Michel Temer, admitem aliados do próprio presidente. A novidade, em tese, leva água ao moinho da articulação para guindar o deputado Rodrigo Maia da presidência da Câmara para o Planalto. O diabo é que Cunha incluiu na sua proposta de colaboração com a Justiça um capítulo dedicado a Maia, informa a revista Veja em seu site. O novo delator acusa o substituto constitucional de Temer de intermediar negócios privados no Estado em troca de verbas de má origem.

De dentro da cadeia paranaense onde está hospedado, Cunha mandou um recado para Maia na última quarta-feira. “Avisa que ele também será lembrado”, disse a um interlocutor que foi visitá-lo. A mensagem foi repassada a um dos advogados que trabalham na preparação da delação do ex-todo-poderoso comandante da Câmara. A pedido de Cunha, o doutor fará as vezes de pombo-correio. Maia já responde a inquérito no Supremo Tribunal Federal no âmbito da Lava Jato. Nas planilhas da Odebrecht, ele é o “Botafogo”.

Do Blog do Josias de Souza, 07/07/2017, 21:44 hs

sexta-feira, 7 de julho de 2017

RAZÕES DO DELÍRIO

O presidente Michel Temer afirmou nesta sexta-feira que não existe crise econômica no país, destacando dados recentes da indústria, do agronegócio e de empregos, ao desembarcar em Hamburgo, Alemanha, para a reunião do G20. “Crise econômica no Brasil não existe. Vocês têm visto os últimos dados”, disse. “Pode levantar os dados e você verá que nós estamos crescendo em empregos, estamos crescendo na indústria, estamos crescendo no agronegócio. Lá (no Brasil) não existe crise econômica”, acrescentou.
(...)

Da redação, Veja.com, 07/07/2017, 08:22 hs
A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.

Caio Fernando Abreu