segunda-feira, 31 de julho de 2017

ESPIRITUAL COMO SAÍDA

Em tempos de capitalismo aparentemente vencedor, o apelo a um suposto mundo "espiritual" torna-se um efeito-subjetivo quase inevitável, invencível. Configura almas bem intencionadas. O já conhecido escapismo platônico-cristão retorna com tudo e instiga doutrinas etéreas e práticas sociais, algumas assistencialistas, outras meros objetos de uma retórica oca. Não importa. É preciso tornar a realidade suportável, e enquanto tal fabricar um sentido para a existência, ainda que esse sentido esteja para além da vida. Este é o mote e o mantra que balizam o caminho da verdade nos dias que correm. As esquerdas (sempre elas...) originalmente interessadas em mudar o mundo, são trespassadas por um niilismo sorrateiro e convincente através da simples observação do caos social. A forma-Religião entope o sujeito com o seu cortejo de culpa e ressentimento.Para completar, uma ideia de progresso (científico?) e salvação (cristã?) vem na esteira de tais processos de subjetivação. As igrejas se multiplicam. Secretam uma espécie de droga da sensibilidade. Freiam e mortificam o desejo. Assim, o domínio da chamada espiritualidade se amplia muitíssimo, ao ponto de se poder dizer e sentir que ela fica como a única saída - ainda que ilusória - contra a destrutividade que assola o planeta azul. 

A.M.
Rápido e rasteiro

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro, tiro o sapato
e danço o resto da vida


Chacal

CHARLES CHAPLIN - O Grande Ditador, 1940


O amor é uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite após noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes.
O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor é surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não há decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo. 
(...)

Eduardo Galeano
DELICADEZA

Delicadeza não se ensina, é diferente do respeito. Delicadeza é temperamento, não se obtém com a idade, não é uma promoção da sensibilidade, não vem com a educação ou com a imitação dos pais. Delicadeza é um defeito maravilhoso, uma entrega irreversível. É uma loucura do bem, uma paranóia sadia. Oferecer mais do que foi pedido, oferecer-se à toa. Sucumbo diante da delicadeza: a delicadeza é gentileza refinada.

Fabrício Carpinejar
CADEIA PARA AÉCIO

Brasília - O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, voltou a pedir a prisão do senador Aécio Neves, presidente licenciado do PSDB, no caso em que ele é acusado de pedir e receber R$ 2 milhões do empresário Joesley Batista. Janot também pediu para afastamento de Aécio do mandato de senador. Pedidos anteriores de afastamento e prisão foram rejeitados em decisão monocrática do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF). Caberá agora a Primeira Turma decidir sobre o assunto. A defesa de Aécio criticou a ação de Janot e disse que ele está tranquilo quanto à manutenção da decisão do ministro Marco Aurélio.
(...)

Jailton de Carvalho e André de Souza, O Globo, 31/07/2017, 18:54 hs


JOÃO BOSCO - Corsário


Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe


Daniel Faria
HUMANISMO: A ABSTRAÇÃO CONCRETIZADA

Falar de "humanismo" é usar como implícito o enunciado de Protágoras que faz  do homem a "medida de todas as coisas". Ora, esse pensamento move a expressão de discursos e instituições. Por exemplo, diz a Família que quer a felicidade dos seus membros. Diz a Medicina que quer a saúde do paciente. Diz a Escola que quer educar o aluno. Diz o Direito que quer a justiça social. Diz o Estado que quer a segurança do cidadão. Diz a Religião que quer salvar os seus fiéis, etc, etc.. Será isso mesmo? Será que é tudo verdade? 

A.M.

GUILHERME ARANTES - Coisas Do Brasil


Selecionei as neuroses mais comuns e que podem nos levar além da fronteira convencionada: necessidade neurótica de agradar os outros. Necessidade neurótica de poder. Necessidade neurótica de explorar os outros. Necessidade neurótica de realização pessoal. Necessidade neurótica de despertar piedade. Necessidade neurótica de perfeição e inatacabilidade. Necessidade neurótica de um parceiro que se encarregue da sua vida – ô! Deus – mas desta última necessidade só escapam mesmo os santos. E algumas feministas radicais.
(...)

Lygia Fagundes Telles

domingo, 30 de julho de 2017

FÁCIL SE MATAR

Talinda Bellington decidiu romper seu silêncio em torno da morte de seu marido, Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, com uma carta de amor publicada pela revista Rolling Stone. “Há uma semana, perdi minha alma gêmea, e meus filhos, seu herói, seu pai. Tivemos uma vida de conto de fadas e agora se transformou em uma doentia tragédia de Shakespeare. Como viro a página? Como me recupero desta alma feita em pedaços? A única resposta que sei é criar minhas crianças com cada pedaço de amor que ainda tenho”, diz a carta, que Talinda difundiu também em suas redes socais.
Chester Bennington, de 41 anos, foi encontrado sem vida na manhã da quinta-feira, 21 de julho, em sua casa de Palos Verdes, Califórnia. As autoridades confirmaram que se tratou de um suicídio. O músico sempre foi muito sincero ao falar de suas depressões e sua dependência das drogas e do álcool. Sua morte ocorreu no mesmo dia em que Chris Cornell, seu colega e grande amigo, iria completar 53 anos. Cornell, vocalista do Soundgarden, se suicidou há dois meses.
(...)

El País, Madrid, 29/07/2017, 18:27 hs
Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams
Que importa àquele a quem já nada importa que um perca e outro vença .. se a aurora raia sempre .. se cada ano com a Primavera as folhas aparecem .. e com o Outono cessam? E o resto, as outras coisas que os humanos acrescentam à vida, que me aumentam na alma? Sim, sei bem que nunca serei alguém. Sei, enfim, que nunca saberei de mim. Sim, mas agora, enquanto dura esta hora, este luar, estes ramos, esta paz em que estamos .. deixem-me crer o que nunca poderei ser. Ser um é cadeia, ser eu é não ser. Viverei fugindo mas vivo a valer. O mistério do mundo, o íntimo, horroroso, desolado, verdadeiro mistério da existência, consiste em haver esse mistério. Quanto mais fundamente penso, mais profundamente me descompreendo. Só a inocência e a ignorância são felizes, mas não o sabem. São ou não? Que é ser sem o saber? Ser, como a pedra, um lugar, nada mais. Quanto mais claro vejo em mim, mais escuro é o que vejo. Quanto mais compreendo menos me sinto compreendido.
(...)

Fernando Pessoa

DMITRI DANISH


as mulheres
são melhores


A.M.
QUAL ÉTICA?

Manifestantes fazem um protesto na Avenida Paulista contra a corrupção na política e em apoio à operação Lava Jato na manhã deste domingo (30). O ato é realizado pelo movimento “Quero um Brasil ético”.
O ato foi convocado pelas redes sociais e defende o que os participantes chamam de uma faxina no Congresso. O protesto tem também como objetivo fazer uma pressão para que os deputados aprovem a continuidade do inquérito contra o presidente Michel Temer – a votação é na quarta-feira (2). Além disso, o protesto apoia a Operação Lava Jato e é contra o financiamento público de campanhas eleitorais.
(...)

Por G1 SP, 30/07/2017, 12:08 hs

BASE ALIADA


Mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.


Woody Allen
O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

Aposentado desde 2012, o técnico em radiologia Gilson Alves, de 69 anos, tem saudade do tempo em que recebia do Estado do Rio seu salário em dia. Segundo ele, nunca lhe faltou nada. O aluguel era pago em dia, a feira enchia a despensa e o dinheiro dava para bancar todas as obrigações. A crise, porém, passou como um furacão em sua vida. Com dois salários atrasados — maio e junho —, Seu Gilson ficou sem condições de bancar o aluguel. Ele “morou” na rua, por poucos dias, antes de ser acolhido pelo abrigo Stella Maris, na Ilha do Governador, administrado pela Prefeitura do Rio.

— Quero que o governo pense um pouco na situação que estamos passando. Ninguém chega no armazém ou no mercado e diz que vai pagar em dois ou três meses. Estamos vivendo um dia pior que o outro — disse o aposentado, que recebeu a reportagem do EXTRA em uma visita ao abrigo.

O aposentado, que perdeu a perna esquerda em um acidente aos 5 anos, recebe toda a assistência necessária no abrigo.

— Tive uma vida boa, de forma humilde. Não tenho parentes. Com os problemas no nosso pagamento, acabei aqui dentro (no abrigo). Sou querido por todos aqui— festejou.

Segundo Tereza Bergher, secretária Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, o número de pessoas em situação de rua triplicou entre 2013 e 2016 — passou 5.580 para 14.279. Bergher lembrou que o atraso sobre os salários dos servidores contribuiu decisivamente para esse aumento.

— Acho que toda essa crise do Estado teve um reflexo no município. É uma situação humilhante para quem trabalhou a vida toda. Esse é apenas um entre os vários casos anônimos que existem pela cidade — lamentou a secretária.
(...)

Nelson Lima Neto, Extra, 30/07/2017, 08:11 hs

NOITES BRANCAS - direção de Lushino Visconti, 1957


RUMO A BARBÁRIE

Nunca o Exército concedeu tantas licenças para pessoas físicas terem acesso à arma de fogo. Dados levantados pelo órgão a pedido do GLOBO mostram um boom inédito a partir de 2016, quando foram emitidas 20.575 autorizações, 185% a mais que os 7.215 do ano anterior. Com demanda recorde, a tendência é de alta. Somente em 2017, 14.024 cidadãos já obtiveram o aval, média de 2.033 por mês ou 66 por dia.
(...)

Renata Mariz, O Globo, Brasília,30/07/2017, 04:30 hs


CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO 

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar. 

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.


Mario Quintana

TULIPAS ETERNAS


VOZES ENGASGADAS

Ao levantar ofegante, já emocionada, tremendo pela coragem repentina que lhe fez erguer o dedo e pedir a fala na manhã desta sexta-feira durante uma mesa na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Diva Guimarães, 77, estava – como ela própria diz durante um almoço neste sábado – esconjurando, compartilhando e vingando-se de uma história que lhe perseguia há 72 anos. Em sua intervenção, acompanhada de aplausos e choro dos palestrantes Lázaro Ramos e Joana Gorjão Henriques, falou sobre o dia em que, aos seis anos, deixou de ser criança depois do sermão de uma freira do colégio interno em que estudava no interior do Paraná.

Deus, na fantasia da religiosa, havia criado um rio para que todos se abençoassem. Uns, laboriosos, teriam chegado primeiro e, ao se banharem, ficaram brancos. Outros, preguiçosos, demoraram-se e encontraram um rio já atolado em lama escura. Estes, puderam apenas lavar as palmas das mãos e as plantas dos pés, ficando com todo o resto do corpo preto. O que a freira dizia é que a cor da pele de Diva era um verdadeiro estigma, a denunciar lassidão, moleza, falta de moral. Tudo poderia ser resumido em uma palavra: racismo. Mas uma palavra não basta.

“O racismo é para além da pele. O racismo nos adoece, porque é muito difícil a gente se manter emocionalmente. Você ter chorado naquela hora [em que fazia a intervenção] é porque nossas vozes estão engasgadas desde sempre”, disse a escritora Conceição Evaristo em um encontro com Diva pouco antes da hora do almoço deste sábado. Lembrando da conversa com a autora e de tudo que está acontecendo na Flip, Diva ressalta que não havia se preparado para falar coisa alguma na sexta-feira. “Mas ao ver Lima Barreto homenageado, ao ouvir a fala do Edmilson Pereira [autor que abordou a questão racial no evento], ao conhecer a história da moça de Ruanda [a autora Scholastique Mukasonga] que perdeu toda sua família no genocídio, eu senti que precisava dizer algo também”.
(...)

André de Oliveira, El País, Paraty, 30/07/2017, 00:03 hs

sábado, 29 de julho de 2017

Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo.

Gabriel García Márquez

LEILA PINHEIRO & FLAVIO VENTURINI - Besame


ESQUIZOFRÊNICOS RESIDUAIS

A esquizofrenia existe como processo vital, experiência dilacerante, estilhaçamento do eu, grande dificuldade de expressão, experiência de sofrimento indizível se comparado aos ditos normais, mas ela não existe enquanto entidade clínico-psiquiátrica. Esta foi uma invenção da psiquiatria do século XIX com o objetivo político-institucional e epistemológica de assegurar poder e prestígio à ela própria no âmbito mais geral da medicina de então. A esquizofrenia passou a ser A doença psiquiátrica (loucura como acepção não-médica) garantidora da existência de uma especialidade médica nascente. Ora, em tempos atuais, o rótulo de esquizofrênico  passou a ser usado em quase todos os que deliram e/ou alucinam. Há uma generalização semiológica mapeando a detecção de sintomas comportamentais inadequados à ordem vigente, operação que adentra ao coração do desejo e o desfigura, despotencializando-o. Tal grosseria ética e científica encontra respaldo no funcionamento cada vez mais refinado da sociedade industrial de controle, onde a colonização da subjetividade alcança estratos profundos do inconsciente representativo, fazendo da consciência e do eu meros fantoches a serviço das formações de poder. Um largo espectro do horror político é implementado sem cessar, desde as megamáquinas (o Estado )até as pequenas, como o Eu (máquina de angústia), enfim, coordenadores e aliados na administração da servidão moderna. Assim, somos fabricados como esquizofrênicos residuais (ou em vias de sê-lo) encaixados na clínica da incurabilidade psicossocial.

A.M.

Eu queria tanto

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois.


Paulo Leminski

JONAS GERARD


SEM PIMENTA

Toda vez que alguém me fala em apimentar a relação, tenho vontade de rir e dizer: esqueça! Meu conselho é que a pessoa vá à feira, compre um bom pedaço de badejo, mande fatiar cuidadosamente e faça uma moqueca rica de dendê, leite de coco e pimenta. Esse é o melhor tempero que se pode pôr na relação de qualquer casal, já que tudo fica mais gostoso depois de uma moqueca.

Na vida real, não há artifício capaz de erotizar relações que se esvaziaram de desejo. Você pode ver um vídeo pornô junto com ele (é divertido) ou ele pode surpreendê-la usando pílulas de virilidade (que funcionam muito bem). Mas, se as pessoas não acharem dentro de si o tesão pelo parceiro ou pela parceira, nem a fantasia pornô e nem a química farmacêutica adiantarão. Em dois dias – ou em uma semana – tudo estará de volta ao ponto de partida.

A vontade que a gente tem de transar com o outro nasce e se alimenta dos sentimentos. Ela vem da nossa subjetividade. Não é ditada quimicamente pelos hormônios e nem induzida por estímulos externos. Algo na outra pessoa ativa alguma coisa em nós, que nos puxa em direção a ela. Um comprimido que aumenta a potência pode ampliar o efeito desse desejo e as fantasias eróticas podem intensificá-lo, mas é necessário que o desejo esteja lá, originalmente, ou as coisas não acontecerão.

As pessoas que vendem soluções eróticas para casais cansados se esquecem desse detalhe. Fingem que uma viagem romântica, uma nova lingerie ou uma plástica custosa podem reacender por conta própria o desejo que desapareceu. Infelizmente não é assim – e, ao mesmo tempo, é bom que não seja. A falta de desejo nos obriga a olhar para o que há de importante num relacionamento (a conexão emocional e física entre os parceiros) e não para a prateleira do sex shop. Soluções de consumo apontam na direção errada.
(...)

Ivan Martins, Época,27/07/2017, 16:11 hs

ADRIANA CALCANHOTO - Inverrno


Canção daqueles a quem tudo diz respeito e que já sabem de tudo

Que algo precisa ser feito e decerto agora mesmo
isso já sabemos
mas que ainda é cedo demais para fazer alguma coisa
mas que já é tarde demais para fazer alguma coisa
isso já sabemos

e que tudo está bem
e que vamos levando
e que tudo é inútil
isso já sabemos

e que somos culpados
e que não somos responsáveis por sermos culpados
e que somos culpados por não sermos responsáveis
e que isso nos basta
isso já sabemos

e que talvez fosse melhor calar a boca
e que não vamos calar a boca
isso já sabemos
isso já sabemos

e que não podemos ajudar ninguém
e que ninguém pode nos ajudar
isso já sabemos

e que somos dotados
e que temos a escolha entre nada e mais nada
e que precisamos analisar esse problema a fundo
e que tomamos o chá com dois torrões de açúcar
isso já sabemos

e que somos contra a opressão
e que o cigarro vai subir de preço
isso já sabemos

e que toda vez sabemos no que vai dar
e que toda vez acabamos por ter razão
e que isso não dá em nada
isso já sabemos

e que tudo é verdade
isso já sabemos

e que foi tudo mentira
isso já sabemos

e que isso é tudo
isso já sabemos
e que sobreviver não é tudo senão absolutamente nada
isso já sabemos                                 
e que nós sobreviveremos
isso já sabemos
e que nada disso é novo
e que a vida é bela
isso já sabemos
isso já sabemos
isso já sabemos
e que já sabemos tudo isso
isso já sabemos


Hans Magnus Henzensberger

(tradução de Cide Piquet)

O dinheiro não traz felicidade, mas provoca uma sensação tão parecida que é necessário um especialista para verificar a diferença...

Woody Allen

HELEN MIRREN em "O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante" - de Peter Greenaway - 1989


ESTADO - O MAIS FRIO DOS MONSTROS

A Coreia do Norte ameaçou nesta quarta-feira lançar um ataque nuclear preventivo contra os Estados Unidos no caso de Washington decidir optar pela via militar para acabar com o programa de armamento nuclear do país asiático. Trata-se da enésima advertência do regime de Kin Jong-un contra o que considera “constantes agressões e atos de guerra”. A última foi os comentários do diretor da CIA, Mike Pompeu, sobre a possibilidade de tirar do poder o ditador como via para solucionar o problema norte-coreano e desnuclearizar a península.
“Se nossos inimigos interpretam mal nossa situação estratégica e insistem que suas opções passam por realizar um ataque preventivo nuclear contra nós, lançaremos um ataque nuclear preventivo no coração da América como um implacável castigo e sem advertências”, afirmou o ministro da Defesa norte-coreano, Park Yong-sik. Suas declarações, divulgadas pela agência estatal KCNA, se inserem nos atos de comemoração do 64º aniversário do fim da Guerra da Coreia, um conflito que terminou com um armistício que nunca desembocou em um Tratado de Paz.
(...)

Xavier Fontdeglória, El País, 16/07/2017, 22:55 hs
Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto, pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio trovão fazendo barulho me bagunça e chove em mim todos os dias.
(...)

Caio Fernando Abreu

MARC CARY - Waltz Betty Waltz


NEUROTUDO

A neuromania é um dispositivo institucional típico do capitalismo mundial integrado (cf F. Guattari). Antes de ser uma técnica, trata-se de um modo de subjetivação inconsciente que põe o cérebro como órgão responsável pelos destinos da humanidade. É uma armadilha e também uma neuropolítica, uma neuroestética, uma neuropolícia, uma neurofamília, uma neuromídia, etc. Assim vai o pensamento burguês rastreando tudo o que lhe foge ao controle. Não é um mal em si (até porque não existe o mal-em-si) mas apenas um dispositivo do capital pronto para o abate das almas, criaturas solitárias que de algum modo lhe resistem ao assédio mortífero sob as garras do consumo. Portanto, o assunto neuromania compõe o cardápio das ações políticas do capitalismo no meio científico como sendo a sua verdade inquestionável. A mídia, na condição de agente de imbecilização das massas e das mentes, opera (sem que se perceba percebendo)sua função indispensável de tamponar o buracao negro da subjetividade dos dias que correm. Alucinados e delirantes.

A.M.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas.

Manoel de Barros

DELEUZE - MARX - GUATTARI

a máquina de guerra

NA CONTRA-CORRENTE

O uso crônico de psicofármacos produz um sentimento de "incapacidade" existencial ao paciente, mesmo, e, principalmente se o remédio químico produzir uma melhora dos sintomas. Casos com bom prognóstico (os chamados transtornos "leves") vão sendo rostificados como patologias for ever. Remover tal crosta vivencial, ou melhor, auto-vivencial, implica em criar linhas de multiplicidade. Difícil. O paciente não mais será considerado "pessoa doente" ao modo biomédico, mas como conjunção de linhas do desejo, onde o próprio transtorno cidológico é uma delas. Todo um rizoma se desenha. Outra concepção de existência se impõe.

A.M.
A minha tiazinha falava muito na falta que lhe fazia esse ombro amigo, apoio e diversão, envelheceu procurando um. Não achou nem o ombro nem as partes, o que a fez chorar sentidamente na hora da morte, Mas o que você quer, queridinha?! a gente perguntava. Está com alguma dor? Não, não era dor. Quer um padre? Não, não queria mais nenhum padre, chega de padre. Antes do último sopro, apertou desesperadamente a primeira mão ao alcance: “É que estou morrendo e não me diverti nada!"

Lygia Fagundes Telles

ALEXEY SLUSAR


humor  carioca
fermento  pão de  açúcar


A.M.

A MÁQUINA DOS IMPOSTOS

(...)
Quem se lembra das manifestações de 2013 reconhece nelas uma aspiração a serviços decentes em troca dos impostos pagos. Os serviços pioraram de lá para cá. E os impostos aumentam. Isso não quer dizer que estejamos às vésperas de manifestações do tipo de 2013. Mas quem autoriza os estrategistas de Temer a supor que o decreto não trará sérias consequências?
Estrategistas podem até pensar em jogar todas as cartas no Congresso, subestimando a reação da sociedade. Mas têm de levar em conta que há um momento em que o próprio Congresso salta do barco se a pressão social o empurrar.
É um exercício retórico falar em estrategistas. A máquina tem uma lógica própria. Ele não pode mudar o rumo porque nela está ancorado um sistema político-partidário.
O desdobramento da máquina é cruel para os que pagam impostos e ao mesmo tempo é autodestrutivo. Temer apenas deu mais um passo na direção do abismo, não necessariamente pessoal, mas do próprio sistema político, em degradação. Mas é um passo que enfraquece as perspectivas de soluções políticas com mudanças em 2018. E favorece a entrada numa zona de turbulência perigosa para a própria retomada econômica.
Mas como definir outro caminho? A máquina tem seus desígnios, ela se desloca como um iceberg que se desprende do continente. Temer já era impopular. Pode-se tornar detestável. Como um iceberg que se respeita, a máquina de governo quer fazer do Brasil o seu próprio Titanic.
Ultimamente, porém, o degelo é mais rápido. Um aumento de impostos como o da gasolina terá poder pedagógico e vai aquecer muito as aspirações por um reforma política que reflita diretamente nos rumos da máquina de gastar.
Nunca se pagou tanto por espetáculo tão desolador. Os atores contam com a tolerância da plateia, clichês como a cordialidade do brasileiro. Creio que o futuro próximo vai desvendar a natureza da máquina. O que funciona hoje como marcha da esperteza pode revelar-se amanhã a marcha da estupidez: um sistema político em extinção.
A opção de aumentar impostos abriu uma nova conjuntura, sem os lances sensacionais de uma delação premiada, mas com potencial corrosivo tão ácido como ela. Piores dias levando a melhores dias: está chegando a hora de a sociedade ajustar as contas não só com a máquina de gastar, mas com o sistema político que a anima.
Não é apenas pelos 20 centavos, dizia-se nos protestos de 2013. O aumento da gasolina representa R$ 11 bilhões por ano. Ainda assim, não serão apenas 43 centavos por litro. É toda uma forma de governar que está em jogo.

Fernando Gabeira, 28/07/2017

JOÃO BOSCO - Passos De Amador


Não tenho preconceitos de raça, cor ou religião. Tolero qualquer sociedade. Basta-me saber que o homem é um ser humano: ele não pode ser pior.

Mark Twain
SEM IGUAL

(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não pára de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.
(...)

G. Deleuze e F. Guattari in O Anti-édipo
MÚSICA SURDA

Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.


Dante Milano

PROCURADORES


Devemos participar também de todo o sofrimento que nos cerque. O que cada um de nós possui não é um corpo, mas um processo de crescimento que nos leva a experimentar todo tipo de dor. Assim como uma criança evolui através de todos os estágios da vida, até à velhice e à morte (cada um desses estágios aparentemente inatingível a partir do outro, seja por medo ou frustrado desejo), também evoluímos nós (não menos profundamente ligados à humanidade do que a nós mesmos) através de todo o sofrimento deste mundo. Não há lugar para justiça ao longo desse processo, da mesma maneira que não há para o medo da dor ou a atribuição de qualquer mérito a ela.
(...)

Franz Kafka

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O JOGO

A diferença não é redutível às categorias da representação. Assim objetivada, a sua crucificação é fatal. Comumente, acontece;  isso é o normal natural, naturalizado.  Ou seja, não há como acessá-la ( e principalmente vivê-la) conforme as ferramentas do senso comum, do bom senso, do eu, da identidade, da individualidade, e para dizer numa palavra, da consciência. A diferença não é a consciência, ela não tem consciência. Trabalhar com ela, buscá-la, amá-la, mormente numa experiência psicoterápica ou em qualquer área da vida, é (ou deveria ser)  a prática do devir. O que é isso? Ora, o devir é o processo do desejo, o conteúdo do desejo. Daí não ter uma forma, não ser visível, não se fazer notar, exceto se estivermos num registro de sensibilidade para os afetos que circulam loucos. No entanto, quem suporta tantas intensidades urdidas pelo jogo dos acasos? 


A.M.

TOMAS DITARANTO


a noite - enorme
tudo dorme
menos teu nome


Paulo Leminski
QUEM  QUER  LER?

Na biblioteca municipal de Itápolis, um modesto município no Estado de São Paulo, estavam desaparecendo livros. Tantos, e com tanta velocidade, que a direção resolveu instalar câmeras para encontrar os responsáveis pela sangria. Na sexta-feira, 17 de julho, a polícia municipal descobriu que na realidade era um só, um adolescente que vinha pegar dois livros emprestados enquanto levava outros quatro escondidos na mochila. Na delegacia, o jovem, Flávio Fernando de Oliveira, de 18 anos, confessou que tinha em sua casa os demais exemplares furtados. Mas quando os agentes foram confiscá-los na residência, uma moradia modesta nos arredores de Itápolis, encontraram muito mais. Havia montanhas de livros no quarto daquele garoto. Centenas de títulos, de dezenas de gêneros e temas, provenientes das cinco bibliotecas da cidade. No total, 384 exemplares furtados, organizados e cuidados com esmero, um acervo acumulado à base de incontáveis delitos, mas também um monumento à paixão pela leitura de um adolescente solitário que preferia as páginas à rua. Quando teve de responder o que fazia com semelhante coleção, que não tinha devolvido nem tampouco vendido, Flávio respondeu: “Eu lia todos, sobre tudo”.
(...)

Tom C. Avendaño, El País, São Paulo, 27/07/2017, 11:02 hs
(...) poesia pra mim é a loucura das palavras, é o delírio verbal, a ressonância das letras e o ilogismo.Sempre achei que atrás da voz dos poetas moram crianças, bêbados, psicóticos. Sem eles a linguagem seria mesmal. (...) Prefiro escrever o desanormal.

Manoel de Barros

CELSO FONSECA - Ela Só Pensa Em Beijar


TORCER A VIDA

O torcedor de futebol é, antes de tudo, aquele que torce a realidade. Está tomado. Assim, não lhe coloque razões, argumentos lógicos, cautelas na previsão dos fatos, análises intelectuais, discursos assépticos. Nada disso. O torcedor de futebol é, antes de tudo, um apaixonado, louco de amor, por amor e com o amor às cores do seu time. No entanto, o seu objeto não é o time, mas o torcer pelo time. Ele ama o amar. De nada adianta lhe impingir juizos morais ou políticos. Esquece. Simplesmente aceite-o. Ele também é você, claro, travestido em outros assuntos, outros objetos. É você, mesmo e principalmente se não o admite. O torcedor de futebol é um "personagem conceitual". Ele expressa o solo primário da condição humana: afetos para todos, por todos os lados, por todos os poros... experiências de perdição.

A.M.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

FLIP 2017

Começa nesta quarta-feira, 26 de julho, a Festa Internacional Literária de Paraty (Flip), principal evento internacional dedicado à literatura no Brasil. Sob a curadoria da historiadora e jornalista cultural Joselia Aguiar, a Flip 2017 vai até o próximo domingo, dia 30, e homenageia o escritor brasileiro Lima Barreto (Rio de Janeiro, 1881-1922), autor do romance O triste fim de Policarpo Quaresma, entre outros. A 15ª edição da Flip é marcada pela presença maior de mulheres e negros, após as críticas à falta de diversidade das edições anteriores. Além da programação oficial, o festival literário de Paraty conta com eventos paralelos e a Flipinha, destinada à literatura infantil.

El País, São Paulo, 26/07/2017, 15:03 hs
Não consigo dormir.
Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras.
Se pudesse, diria a ela que fosse embora;
mas tenho uma mulher atravessada na garganta.

Eduardo Galeano

CARLOS SANTANA & LAURYN HILL and CEE-LO and Horns - Do You Like The Way


INOCÊNCIA E CULPA

A prova de nossa inocência
flutua pelo ar.
Por aí
aqui ou ali
em algum lugar.
Em algum jardim sem grama
alguma cerca de arame
algum buraco
alguma circunstância.
Nossa culpa é apenas mais um corpo
jogado no barranco do acaso
sob uma lua cor de sangue.


Eudoro Augusto
(…) 
Não concordo com o hábito de ser pessimista para não sofrer depois. O pessimista sofre duas vezes, antecipando e cumprindo. O otimista, no máximo, sofre uma única vez. E nem sempre se aprende com o sofrimento. Já vi gente que sofre barbaridade e não muda nada. Sofre e termina mais egoísta, mais cético, mais isolado, mais frio. Pode-se aprender com alegria, não? A alegria ensina, ainda mais depois das dificuldades.

Fabrício Carpinejar

CARYBÉ


terça-feira, 25 de julho de 2017

De que vivermos se não de paixões?

Carlos Drummond de Andrade
UM GRITO

O juiz substituto Renato Borelli, da 20ª Vara Federal de Brasília, determinou nesta terça-feira (25) a suspensão imediata do decreto publicado na semana passada pelo governo e que elevou a alíquota de PIS/Cofins que incide sobre a gasolina, o diesel e o etanol.
(...)

Mariana Oliveira, Tv Globo, Brasília,25/07/2017, 18:35 hs

JEAN-LUC PONTY - Mirage


Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Ás vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.


Eudoro Augusto
FUGIR É ENLOUQUECER

Uma fuga é uma espécie de delírio. Delirar é exatamente sair dos eixos (como "pirar" etc). Há algo de demoníaco, ou de demônico, em uma linha de fuga. Os demônios distinguem-se dos deuses, porque os deuses têm atributos, propriedades e funções fixas, territórios e códigos: eles têm a ver com os eixos, com os limites e com cadastros. É próprio do demônio saltar os intervalos, e de um intervalo a outro. "Que demônio deu o maior salto?", pergunta Édipo. Sempre há traição em uma linha de fuga. Não trapacear à maneira de um homem da ordem que prepara seu futuro, mas trair à maneira de um homem simples, que já não tem passado nem futuro. Trai-se as potências fixas que querem nos reter, as potências estabelecidas da terra. O movimento da traição foi definido pelo duplo desvio: o homem desvia seu rosto de Deus, que não deixa de desviar seu rosto do homem.
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet in Diálogos 
ONDE VIVE A DIFERENÇA?

A diferença não é um objeto sólido, visível, palpável, identificável em alguém ou em algo à nossa frente.Ela não se presta à relações estabelecidas pelo senso comum, ou mais, ou pior ainda, pelo bom senso das razões intelectuais, mesmo as mais elevadas. Nada mais baixo que ela ao nível da terra, nada mais sutil ela, quase imperceptível. Olhar de lince: a diferença. Ela se dá e se doa apenas a sensibilidades em estado selvagem, a animalidades circulando nos corpos da rua, na luz das veias inundadas por desejos sem órgãos, sem sistemas, sem métodos, sem deuses, sem respostas. A diferença é o bicho. Vive na espreita e da espreita. Surge quando menos se espera e não compactua com percepções grosseiras das formas do mundo adulto e acabado. Por isso e muito mais assusta os idólatras e os escravos das ordens mortuárias quando bem o dia está raiando num cheiro de acácias. A diferença, ela própria, não tem uma identidade, uma definição, nunca ninguém a fotografou. Não é uma imagem, ao contrário, ela é quem faz e tece imagens. Não tem rosto pois é ela quem o fabrica. Ele se torna, então, alegria aos montes vivendo no equilíbrio precário das linhas da arte. Inventa algo, alguma coisa pequena, ínfima, pura criação no e do tempo, ou o próprio tempo em "estado puro", a diferença, uma criança.

A.M. 
PEDOFILIA: O HORROR

O delegado da Polícia Federal (PF) Flávio Augusto Palma Setti disse que entre os presos da Operação Glasnost, deflagrada nesta terça (25) em 14 estados brasileiros, estão pais que abusavam das próprias filhas, um homem de 80 anos, e dois funcionários públicos que compartilhavam pornografia infantil através dos computadores do próprio órgão.

Pelo menos 15 vítimas já foram identificadas, ainda segundo a PF. "Um dos casos que nos chamou a atenção foi em Praia Grande, em São Paulo, de uma menina que sofreu abusos do pai entre os dois e oito anos de idade", contou o delegado.

Os abusos, conforme a PF, ocorriam na casa da avó da menina, sem o conhecimento de mais ninguém. "Os abusos só pararam porque ele ficou com medo que a filha contasse para as amigas".

Até as 11h50, 30 pessoas tinham sido presas, sendo 27 em flagrante e três preventivas. Professores, médicos, estudantes, um porteiro, entre outros, também estão entre os presos.
(...)

Adriana Justi, G1, PR, Curitiba,25/07/2017, 12:22 hs

GRANDES ESCRITOS


(19 DE JANEIRO)

Até esta chegar às suas mãos
eu já devo ter cruzado a fronteira.
Entregue por favor aos meus irmãos
os livros da segunda prateleira,

e àquela moça —a dos "quatorze dígitos"-
o embrulho que ficou com teu amigo.
Eu lavei com cuidado o disco rígido.
Os disquettes back-up estão comigo.

Até mais. Heroísmo não é a minha.
A barra pesou. Desculpe o mau jeito.
Levei tudo que coube na viatura,

mas deixei um revólver na cozinha,
com urna bala. Destrua este soneto
imediatamente após a leitura.


Paulo Henriques Britto
Mentalmente, moralmente, espiritualmente, estamos encalhados. O que realizamos ceifando cadeias de montanhas, domando a energia de rios poderosos ou deslocando populações inteiras como peças de xadrez, se nós mesmos continuamos as mesmas criaturas inquietas, infelizes e frustradas que éramos antes? Chamar tal atividade de progresso é extrema ilusão. Podemos obter sucesso em alterar a face da Terra até que ela pareça irreconhecível ao próprio Criador, mas se não formos afetados, qual é o sentido disso?
(...)

Henry Miller in O mundo do sexo

segunda-feira, 24 de julho de 2017

JORGE BEN - Oba Lá Vem Ela


SINAPSES DA ALMA

Os transtornos mentais não explicam nada. Eles é que devem ser explicados. Isto significa que a psiquiatria biológica (bem entendido, a psiquiatria hoje hegemônica) funciona com entidades clínicas fixas, endurecidas, coisificadas, os chamados transtornos. Munida deste apriorismo metodológico, a pesquisa clínica não avança, não descobre, não cria, desconhecendo o que se passa de fato com o paciente (ele não é escutado) bem como com as origens (causas) do seu estado psíquico "alterado". É uma constatação prática, até certo ponto óbvia. Escute pacientes, leia artigos e livros de psiquiatria. Tudo atual. Um dado complicador é o seguinte: o enquadre teórico desta psiquiatria notoriamente conservadora (em termos não só políticos) conta com traços autísticos. Travam o diálogo. São as neurociências. Elas seguem, sem dúvida, um cortejo sináptico de importantes descobertas imagéticas. No entanto, tais imagens, feitas para serem vistas no écran, passam a ser vistas por toda a parte, constituindo o próprio universo institucional da psiquiatria, e por extensão, os transtornos mentais-recheados-de-imagens, descarnados, desossados e que nada explicam. Deveriam ser explicados.

A.M.
O POETA

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.


Mia Couto

ALL THAT JAZZ - Bob Fosse


O SEGUNDO CÍRCULO

(...)
O segundo círculo é o do amor. O encontro Charlus-Jupien leva o leitor a assistir à mais prodigiosa troca de signos. Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É torna-se sensível a esses signos, aprendê-los (como a lenta individualização de Albertina no grupo das jovens). É possível que a amizade se nutra de observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma "alma": exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade dos seres amados, mas também à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado. É por essa razão que é tão comum nos apaixonarmos por mulheres que não são do nosso "mundo", nem mesmo do nosso tipo. Por isso, também as mulheres amadas estão muitas vezes ligadas a paisagens que conhecemos tanto a ponto de desejarmos vê-las refletidas nos olhos de uma mulher, mas que se refletem, então, de um ponto de vista tão misterioso que constituem para nós como que países inacessíveis, desconhecidos: Albertina envolve, incorpora, amalgama "a praia e a impetuosidade das ondas". Como poderíamos ter acesso a uma paisagem que não é mais aquela que vemos, mas, ao contrário, aquela em que somos vistos? "Se me vira, que lhe poderia eu significar? Do seio de que universo me distinguia ela?"
Há, portanto, uma contradição no amor. Não podemos interpretar os signos de um ser amado sem desembocar em mundos que se formaram sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros. O amante deseja que o amado lhe dedique todas as suas preferências, seus gestos e suas carícias. Mas os gestos do amado, no mesmo instante em que se dirigem a nós e nos são dedicados, exprimem ainda o mundo desconhecido que nos exclui. O amado nos emite signos de preferência; mas, como esses signos são os mesmos que aqueles que exprimem mundos de que não fazemos parte, cada preferência que nós usufruímos delineia a imagem do mundo possível onde outros seriam ou são preferidos. "Mas logo o ciúme, como se fosse a sombra de seu amor, se completava com o double desse novo sorriso que ela lhe dirigira naquela mesma noite – e que, inverso agora, escarnecia de Swann e enchia-se de amor por outro... De sorte que ele chegou a lamentar cada prazer que gozava com ela, cada carícia inventada e cuja doçura tivera a imprudência de lhe assinalar, cada graça que nela descobria, porque sabia que dali a instantes iriam enriquecer de novos instrumentos o seu suplício." A contradição do amor consiste nisto: os meios de que dispomos para preservar-nos do ciúme são os mesmos que desenvolvem esse ciúme, dando-lhe uma espécie de autonomia, de independência, com relação ao nosso amor. 
(...)

Gilles Deleuze in Proust e os Signos

ESCREVER, ESCREVER

Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada. Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração. Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida.

Fabrício Carpinejar