sexta-feira, 31 de março de 2017

Ninguém é pai de um poema sem morrer.

Manoel de Barros

GUERRA AQUI MESMO

A terminologia do conflito armado é, definitivamente, parte da rotina do Rio de Janeiro. “Danos colaterais”, “front”, “soldados mortos”, “confronto”, “execução”, “bala perdida” ou “fogo cruzado” viraram palavras chaves para descrever o dia a dia de uma boa parte dos mais de 16 milhões de habitantes do Estado. Ninguém  mais nega – as autoridades também falam nesses termos – que o Rio mergulhou numa guerra e esta quinta-feira foi mais um dia de triste e intensa contenda, com as imagens de dois PMs executando dois suspeitos deitados no chão e uma menina morta por uma bala perdida.
(...)

Maria Martin, El País, 31/03/2017, 15:56 hs
Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


ESTÍMULO-RESPOSTA

'Pensai', escreve o sr. Clyde Miller, admirado, "pensai no que pode apresentar de lucros para a vossa firma se conseguirdes aliciar um milhão, ou dez milhões de crianças, que se tornarão adultos treinados para a aquisição dos vossos produtos, como os soldados são antecipadamente treinados para avançar quando ouvem as palavras-estímulo: Em frente, marche!"

Aldous Huxley in Admirável Mundo Novo, 1932

quinta-feira, 30 de março de 2017

um   pouco  de  ar
senão eu  sufoco
deleuze  respira
respira  deleuze
esta  canção  doce

e  infernal

A.M.

BLADE RUNNER

O filme.

A morte é, de tudo na vida, a única coisa absolutamente insubornável.


Otto Lara Resende
O LADO PODRE
Ao arrostar a primeira de uma série de condenações judiciais, Eduardo Cunha acentuou o seu drama. Com o poder estilhaçado, o ex-czar da Câmara já tinha perdido a vergonha na face, o recato, a infantaria parlamentar e a pose de vítima. Com uma sentença de 15 anos e 4 meses a pesar-lhe sobre os ombros, Cunha começa a perder também as esperanças de recuperar a sanidade mental. Ao chamar Sergio Moro de “justiceiro político” e apresentar-se como “troféu” do juiz da Lava Jato, Cunha aperta o nó da corda que traz no pescoço.
Cunha caiu do pedestal sozinho. Não precisou de ajuda de rivais. Eleito presidente da Câmara, prestou depoimento espontâneo numa CPI. Inquirido, atirou contra o próprio pé a mentira de que jamais teve contas no exterior. Pilhado com dinheiro escondido na Suíça, saiu-se com a piada do “truste”. Desmascarado, adotou a chantagem como tática política. Apressou o impeachment de Dilma sem se dar conta de que, depois dela, seria a bola da vez.
Antes de morrer, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, envernizou sua biografia ao empurrar Cunha para fora da poltrona de presidente da Câmara e do mandato parlamentar. Suspenso, o bicho-papão foi perdendo a capacidade de assustar. Virou um aliado tóxico. Após uma embromação de nove meses, os soldados de sua milícia parlamentar ajudaram a passar-lhe o mandato na lâmina.
Enviado a Curitiba, Cunha revelou-se capaz de tudo, menos de refletir. Diferentemente de personagens análogos, como o correligionário Renan Calheiros, Cunha age dez vezes antes de pensar. Mesmo trancafiado, anotou Sergio Moro na sentença, o réu tramou “alguma espécie de intervenção indevida” do ex-parceiro Michel Temer em seu socorro. Endereçou perguntas constrangedoras ao presidente, impregnadas de segundas intenções.
O comportamento de Cunha, escreveu o juiz, ''apenas revela que sequer a prisão preventiva foi suficiente para fazê-lo abandonar o modus operandi de extorsão, ameaça e chantagem''. Indefeso, Cunha costuma ficar fora de si. E mostra com mais nitidez o oco que tem por dentro: ''Esse juiz não tem condição de julgar qualquer ação contra mim, pela sua parcialidade e motivação política'', escreveu.
Com o vazio a subir-lhe à cabeça, Cunha anuncia: ''É óbvio que irei recorrer, e essa decisão não se manterá nos tribunais superiores, até porque contém nulidades insuperáveis.'' Alguém precisa avisar que será necessário levar à balança do TRF-4, sediado em Porto Alegre, algo mais consistente do que o lero-lero habitual.
Desnecessário lembrar que uma confirmação da sentença de Moro na segunda instância transformará a cadeia de Cunha de temporária em perene. Nos seus áureos tempos, Cunha gostava de se comparar com o carcará, aquele pássaro que pega, mata e come. Hoje, o personagem mais parece um pardal de si mesmo. Esforça-se para sujar a testa da estátua de bronze que imagina merecer.
Do Blog do Josias de Souza, 30/03/2017, 19:40 hs

ERIK SATIE


A literatura é uma saúde.

Gilles Deleuze

quarta-feira, 29 de março de 2017

Nenhuma lição nesta paisagem
que não o fartamente conhecido:
as coisas nos lugares, engrenagens

do estar-em-si, do tudo-é-relativo,
etc. A mesma grafitagem
inconseqüente de sempre: rabisco

logo existo. — O mundo segue opaco,
imune à consciência e seus lampejos
de lógica, sua falta de tato,
sua avidez, seus deuses e desejos.

(Aqui termina o sonho. Fim das névoas,
caramelos e almofadas formidáveis.
Daqui pra frente, as portas sem remédio
e todas as maçãs assassinadas.)


Paulo Henriques Britto
O DELÍRIO AJUDA A VIVER

Lembro de um paciente, há alguns anos, me falando que havia uma tesoura enfiada e oculta na sua cabeça. Junto à queixa-crença, ele trazia exames de imagem do cérebro, como RM, TC, US, todos normais. Perguntei-lhe porque ele insistia que a tesoura continuava alojada no cérebro, já que os exames estavam normais. Respondeu-me que os exames é que estavam errados, haviam, sim, falhado já que provavelmente a tesoura estava escondida num locus cerebral de difícil acesso. Apesar de eu saber das limitações clínicas dos neuroexames por imagem na pesquisa da mente, já que o cérebro não é a mente, neste caso o cérebro era o foco material da clínica e a discrepância entre a vivência-convicção do paciente com a imagem projetada sobre o écran era impressionante. Uma tesoura oculta dentro da cabeça não é qualquer coisa. Pois bem: percebi que os argumentos racionais, intelectuais, técnicos, até mesmo argumentos de autoridade ("acredite porque sou médico"), eram completamente inúteis. Eu estava diante de um caso grave de delírio, cuja etiologia (origem) nada tinha a ver com o funcionamento cerebral, já que esse estava absolutamente intacto. Ora, na doença psicossocial petista, em que pese todas as evidências do desmoronamento político-ideológico do petismo atual, a crença- delírio prossegue como mecanismo subjetivo de negação de uma realidade muito dura. E mais, duma realidade esvaziada de sentido conforme os rumos possíveis para uma chamada esquerda que queria e quer mudar o mundo. Desse modo, as pessoas que  acreditavam no sonho petista pós-ditadura de 1964 migraram para o delírio petista dos dias atuais. E sequer desconfiam que estão delirando pois milhões também ainda estão assim. E do mesmo modo que o paciente da tesoura encravada no cérebro, não adianta usar argumentos racionais para convencê-los. Trata-se de um investimento delirante de afetos tristes e mortificantes (depressão) só elimináveis à medida em que a prova de realidade ( o devir da História) o mostrar.  Como o Tempo histórico de uma nação é defasado em relação ao Tempo histórico de uma pessoa, muitos carregarão até a morte o seu "precioso" delírio como algo importante e indispensável (ainda que um fardo) para ajudá-los a viver.

A.M.


P.S. - O texto enfoca o drama dos doentes petistas e não o dos criminosos petistas. Quanto a estes, a Lava-Jato já está tratando...

EMIL NOLDE



terça-feira, 28 de março de 2017

AFETOS  INUMANOS

Os afetos dão consistência ao real subjetivo que se expressa como real objetivo. Eles são o próprio real, encontro de corpos com corpos. No mais, é uma sombra espessa (a consciência) nascida da luz, do movimento e das imagens, que compõe os códigos do mundo, inclusive eu e você. Mas, eles, os afetos, não são passíveis de codificações fixas, como tenta fazer a psiquiatria biológica ao cunhar o logro da ansiedade-doença. Sempre vazam, muitas vezes, inomináveis, quando, por exemplo, nem uma só palavra expressa o que alguém está sentindo. São abstratos se usarmos esse termo fora da acepção ordinária (algo fora daqui, sem consistência). É que se o abstrato é o "sem-forma", os afetos não têm forma. São concretos, são fluxos de vida querendo querer em conexões infinitas para além do Homem. 

A.M.
Me mostram um cidadão desmotivado e eu vejo alguém que não está causando problemas.

George Carlin

MICHAEL NYMAN - A Winhed Victory For The Sullen - String Quartet Nº 2 III


SAIR DA LÍNGUA

A língua é, segundo uma fórmula de Weinreich, "uma realidade essencialmente heterogênea". Não existe uma língua-mãe, mas tomada de poder por uma língua dominante dentro de uma multiplicidade política. A língua se estabiliza em torno de uma paróquia, de um bispado, de uma capital. Ela faz bulbo. Ela evolui por hastes e fluxos subterrâneos, ao longo de vales fluviais ou de linhas de estradas de ferro, espalha-se como manchas de óleo. Podem-se sempre efetuar, na língua, decomposições estruturais internas: isto não é fundamentalmente diferente de uma busca das raízes. Há sempre algo de genealógico numa árvore, não é um método popular. Ao contrário, um método de tipo rizoma é obrigado a analisar a linguagem efetuando um descentramento sobre outras dimensões e outros registros. Uma língua não se fecha sobre si mesma senão em uma função de impotência.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 1

segunda-feira, 27 de março de 2017

Defesa do lobo contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?
o que exigem do chacal?
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
porque olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido,
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre lobos:
andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês
convidam para o estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.


Hans Magnus Enzensberger

GRANDES ESCRITOS


domingo, 26 de março de 2017

CRESCIMENTO ESPIRITUAL

RIO - A expansão da fé no Brasil acontece em ritmo intenso: uma nova organização religiosa surge por hora no país. A facilidade para a abertura de novas igrejas — a burocracia é pequena, ao contrário do que acontece em outras atividades —, o fortalecimento do movimento neopentecostal e até mesmo os efeitos da situação econômica são apontados como motivos que podem explicar o fenômeno.

De janeiro de 2010 a fevereiro deste ano, 67.951 entidades se registraram na Receita Federal sob a rubrica de “organizações religiosas ou filosóficas”, uma média de 25 por dia. Ao levar em conta apenas os grupos novos, que não são filiais daqueles já existentes, o número é de 20 por dia. O processo é simples: primeiro, obtém-se o registro em cartório, com a ata de fundação, o estatuto social e a composição da diretoria; depois, os dados são apresentados à Receita, para que o órgão conceda o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), item obrigatório para o funcionamento legal das instituições.

Com o CNPJ em mãos, basta procurar a prefeitura e o governo estadual para solicitar, caso necessário, o alvará de funcionamento e garantir também a imunidade tributária — a Constituição proíbe a cobrança de impostos de “templos de qualquer culto”. Igrejas não pagam IPTU, Imposto de Renda (IR) sobre as doações recebidas, ISS, além de IPVA sobre os veículos adquiridos. Aplicações financeiras em nome das organizações também estão livres do IR. Em alguns estados, há ainda isenção sobre o recolhimento de tributos indiretos, como o ICMS.
(...)

Marco Grillo, O Globo,26/03/2017, 13:42 hs



a luta de classes
oh marx
oh  cash


A.M.
HITLER ATUAL

Durante sua longa carreira de agitador, Hitler estudou os efeitos do veneno gregário e aprendeu a explorá-los em benefício dos seus próprios fins. Descobriu que o orador pode apelar para aquelas 'forças ocultas' que provocam as ações dos homens, muito mais eficientemente que o escritor. Ler é uma ocupação privada e não coletiva. O escritor dirige-se apenas a indivíduos, sentados em suas casas, num estado de sobriedade normal. O orador fala para massas de indivíduos, já bastante contaminados pelo 'veneno gregário'.
(...)
Aldous Huxley in O Admirável Mundo Novo

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


FUTURO DA LAVA JATO

É perda de tempo rememorar as inúmeras tentativas levadas a cabo nos últimos três anos com o objetivo de melar a Lava Jato. Foram e continuam sendo tantas que boa parte dos cidadãos já reage a elas sob o efeito anestésico produzido por manchetes que se repetem indefinidamente, perdendo capacidade de chocar, por mais escandalosos que sejam os fatos expostos.

Também não deve surpreender a diversidade de conspiradores, uma galera que inclui, em diversos níveis de envolvimento e discurso, presidentes, ex-presidentes, ministros, governadores, magistrados, juristas, partidos e, claro, políticos. Sendo tão articulada e poderosa essa frente ampla, tudo que a “República de Curitiba” não precisa é cometer erros que os fortaleça.

Moro, Dallagnol & seus Blue Caps, como é notório, fizeram movimentos que pareceram inspirados por seus inimigos. Da condução coercitiva de Lula à divulgação de grampos de Dilma; da coletiva do “power point” à prisão hospitalar de Guido Mantega, os erros de ação ou comunicação mais deram trunfos aos adversários do que fizeram avançar as investigações.

O juiz e os procuradores federais sabem o quanto de minas estão enterradas onde pisam e saltitar no terreno – prendendo blogueiros por causa de furos jornalísticos, por exemplo – é o menos recomendável.

Só os mal intencionados (ou comprometidos) negam o saldo altamente positivo que a Lava Jato acumula até aqui, mas a herança que vai deixar ainda depende de muitos capítulos a serem encenados em palcos onde os mocinhos nem sempre venceml
(...)

Ricardo Boechat, Isto É, 24/03/2017,18:12 hs

sábado, 25 de março de 2017

 COMO ERA BOM

 o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
que tudo era clarinho limpinho e explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando nasci
hoje rodado sambado pirado

descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia


Chacal

ARSHILE GORKY


sexta-feira, 24 de março de 2017

Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

Eduardo Galeano

TITE PRESIDENTE DO BRASIL! QUEM APOIA?


DE QUATRO

As revelações feitas por Marcelo Odebrecht à força-tarefa da Lava Jato, repetidas em depoimento à Justiça Eleitoral, retiraram de Dilma Rousseff o último patrimônio político que ela imaginava ostentar: a presunção de superioridade moral. Ela já havia perdido a pureza ideológica ao encabeçar coligações eleitorais que incluíam do arcaico ao medieval. Perdera a aura de gerentona e a poltrona de presidente da República após reduzir a economia nacional a escombros. Agora, é submetida a um ritual de emporcalhamento que aniquila o que lhe restava de individualidade, integrando-a à baixeza geral. Foi para o beleléu a diferença heroica.

Em síntese, o príncipe das empreiteiras contou: 1) Dilma sabia que João Santana, seu marqueteiro, era remunerado pela Odebrecht no caixa dois. 2) Madame sabia também que Antonio ‘Italiano’ Palocci e Guido 'Pós-Italiano' Mantega faziam dupla jornada como ministros e coletores de fundos para suas campanhas presidenciais. 3) Reeleita, a soberana foi informada pelo próprio empreiteiro de que as contas abertas no estrangeiro para pagar o marketing do seu comitê estavam ao alcance dos investigadores da Lava Jato.
(...)

Do blog do Josias de Souza,24/03/2017, 05:47 hs
Todos os caminhos levam à morte. Perca-se.

Jorge Luis Borges

PACO DE LUCIA, AL DI MEOLA e JOHN MCLAUGHILIN - Mediterranian Sun Dance


UMA TAREFA

A psicopatologia clínica, segundo uma abordagem da diferença, é simples. Constitui-se como um território existencial livre onde se registram determinações múltiplas : saberes e práticas heterogêneos e utilizáveis no Encontro com o paciente. O objetivo é expandir e afirmar a vida, em todas as suas expressões, lá onde ela se encontra oculta, traída, amaldiçoada. Tarefa inglória. Não é fácil, pois, mas essa não-facilidade é exatamente o disparador técnico para o movimento, para o desejo, para o novo... 

A.M.
A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez.

George Orwell

quarta-feira, 22 de março de 2017

A psiquiatria biológica: uma bolha especulativa? 

(...)
Para Jacques Hochmann, a especificidade do psiquiatra reside no fato de que ele deve confrontar, no cotidiano, três paradoxos. Primeiro, ainda que formado em medicina somática – e esta formação é necessária –, a neurobiologia atual quase não o guia em sua empreitada. Em segundo lugar, ainda que para a medicina somática a fronteira entre o doente e o saudável seja nítida, no paciente psiquiátrico, mesmo o mais louco, há sempre uma parte sã, uma consciência ao menos parcial de sua loucura. Enfim, em terceiro lugar, nas suas decisões terapêuticas, o psiquiatra deve preservar não somente os interesses do paciente, mas também os do seu ambiente e da sociedade. Esta especificidade da psiquiatria justifica sua separação da neurologia e não deveria ser recolocada em questão enquanto o primeiro paradoxo não seja resolvido. Ora, nada anuncia maiores progressos em psiquiatria biológica para os próximos decênios.Defendo, portanto, uma pesquisa em neurociências cuja criatividade não esteja amarrada por objetivos terapêuticos a curto prazo; uma prática psiquiátrica nutrida pela pesquisa clínica e uma desmedicalização do sofrimento psíquico. Parece-me que, mais que os Estados Unidos, os países europeus souberam preservar as competências necessárias a esses dois últimos objetivos. É uma via como esta que deveríamos explorar.  (grifos nossos)

François Gonon, in Revue Espirit, 2011
CUIDADO!  INTERNET

Os criadores de notícias falsas que circulam no submundo da internet nutrem o abominável costume de usar mortes como motes para suas lorotas. Foi assim quando a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva morreu, por exemplo, e assim tem sido nos últimos dias, após a morte do advogado Adriano de Rezende Naves, de 42 anos.

Naves morreu na sexta-feira passada, depois de cair do 19º andar do prédio da Câmara no Congresso Nacional, em Brasília. O trágico caso – que, ao que tudo indica, foi suicídio, de acordo com a Polícia Civil – motivou a manchete “Advogado se suicida no Congresso Nacional em protesto contra Temer”, propagada por sites como o Saúde Vida e Família, notório pela falta de credibilidade, e o Blasting News.

Depois de ponderar cinicamente que “preferimos não mencionar o nome em respeito a um pedido da família”, o texto inventa sem pudores:

“A polícia não disse se o advogado teria mesmo pulado ou se foi assassinado. No entanto, segundo relatos de testemunhas, que fizeram vídeos nas redes sociais, o homem teria feito um protesto contra o atual presidente da república, Michel Temer, do PMDB, além da reforma da previdência”.
(...)

João Pedroso de Campos, Veja.com, 21/03/2017, 20:35 hs

terça-feira, 21 de março de 2017

AUGUST MACKE


ONDE VIVE A DIFERENÇA

A diferença não é um objeto sólido, visível, palpável, identificável em alguém ou em algo à nossa frente.Ela não se presta à relações estabelecidas pelo senso comum, ou mais, ou pior ainda, pelo bom senso das razões intelectuais, mesmo as mais elevadas. Nada mais baixo que ela ao nível da terra, nada mais sutil ela, quase imperceptível. Olhar de lince: a diferença. Ela se dá e se doa apenas a sensibilidades em estado selvagem, a animalidades circulando nos corpos da rua, na luz das veias inundadas por desejos sem órgãos, sem sistemas, sem métodos, sem deuses, sem respostas. A diferença é o bicho. Vive na espreita e da espreita. Surge quando menos se espera e não compactua com percepções grosseiras das formas do mundo adulto e acabado. Por isso e muito mais assusta os idólatras e os escravos das ordens mortuárias quando bem o dia está raiando num cheiro de acácias. A diferença, ela própria, não tem uma identidade, uma definição, nunca ninguém a fotografou. Não é uma imagem, ao contrário, ela é quem faz e tece imagens. Não tem rosto pois é ela quem o fabrica. Ele se torna, então, alegria aos montes vivendo no equilíbrio precário das linhas da arte. Inventa algo, alguma coisa pequena, ínfima, pura criação no e do tempo, ou o próprio tempo em "estado puro", a diferença, uma criança.

A.M. 
Outono

Ó amplos espaços, longe  das cidades febris!
Ó vastos mares brilhantes! Florestas de pinheiros! Montanhas selvagens!
Praias rochosas! Pântanos agrestes e encostas sem rebanhos!
Enormes nuvens pálidas! Espaços azuis imaculados!
Espaço" Dêm-me espaço! Dêm-me ar e solidão!
Liberdade e abundância nas vossas belas regiões.

Ó Deus das montanhas, estrelas e espaços infinitos!
Ó Deus da liberdade e das canções alegres!
Quando o teu rosto fôr contemplado por toda a gente,
Haverá espaço suficiente nos mercados apinhados.
Envolve-me, e o tumulto acabará.
O teu universo será o meu refúgio de porta fechada.

George MacDonald
O HORROR NOSSO DE CADA DIA

Cerca de 20 milhões de pessoas enfrentam uma "epidemia" de fome que atinge o Iêmen, o Sudão, a Nigéria e a Somália.
Essa situação foi classificada pela Organização das Nações Unidas (ONU) como a “pior crise humana desde 1945”.
A organização estima que seja necessário investir US$ 4,4 bilhões (R$ 13,9 bilhões) em ajuda humanitária e outros esforços até julho para evitar um desastre.
Muitas das vítimas dessa tragédia são crianças: mais de 1 milhão correm o risco de morrer.
(...)

BBC Brasil, 21/03/2017

ORQUÍDEAS ETERNAS


OS CASTOS

A busca de razões para a queda da natalidade no Japão tornou-se uma obsessão nacional. E os mais novos suspeitos da lista, segundo um estudo oficial, são os homens e mulheres que amadurecem sem nunca ter provado o sexo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas sobre População e Seguridade Social, organismo que examina tendências de vida para projetar políticas sociais, mais de 40% dos japoneses e japonesas entre 18 e 34 anos são virgens.
(...)

Gonzalo Robledo, El País, 20/03/2017
um grito apenas não basta

um grito apenas não basta
para abolir todo o silêncio que cultivamos


Eudoro Augusto

segunda-feira, 20 de março de 2017

A PÍLULA

(...)
P. Vivemos em uma sociedade na qual precisamos pensar que os remédios podem resolver tudo?

R. Foi o que nos incentivaram a acreditar. Nos anos cinquenta, foram produzidos avanços médicos incríveis, como os antibióticos. Nos anos sessenta, a sociedade norte-americana começou a achar que havia uma fórmula mágica para curar muitos problemas. Na década de oitenta, foi promovida a ideia de que se uma pessoa estava deprimida, não era pelo contexto de sua vida, mas sim porque ela tinha um distúrbio mental – era uma questão química e havia um remédio que a faria se sentir melhor. O que se promoveu nos Estados Unidos, na realidade, foi uma nova forma de viver, que foi exportada para o resto do mundo. A nova filosofia era: você precisa ser feliz o tempo todo e, se não for, temos uma pílula. Mas o que sabemos é que crescer é difícil, surge todo tipo de emoções e é preciso aprender a organizar o comportamento.

P. Buscamos o conforto e o mundo vai se parecendo com aquele descrito por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo...

R. Desde agora. Perdemos a noção de que o sofrimento faz parte da vida, de que às vezes é muito difícil controlar a própria mente. As emoções que sentimos hoje podem ser muito diferentes daquelas da semana ou do ano seguintes. E nos fizeram ficar alertas o tempo todo em relação a nossas emoções.
(...)

Joseba Elola, El País, entrevista com o jornalista Robert Whitaker, 06/01/2016

DEAD CAN DANCE - The Carnival Is Over


Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior, e não no mais provável, que é pior ainda.

George Carlin
DESEJAR, VERBO INTRANSITIVO

A origem da palavra desejo é muito bonita. O verbo desidero vem da palavra sidero, que significa “relativo aos astros”, ou também “conjunto de estrelas” (ex: espaço sideral). Sendo assim, de-sidero significa “ignorar as estrelas”, ou também, “deixar de ver as estrelas”, em seu sentido astrológico. Se as estrelas na antiguidade eram o elo de ligação entre os homens e os deuses então desejar significa ficar à deriva, à mercê, nas rodas da fortuna, deixar de guiar-se pelas mensagens divinas.

Apesar da bela origem, suas repercussões em nosso mundo são as mais nocivas. Desejo como falta, doença, incômodo, defeito, carência, vazio que busca preenchimento. Esta concepção atravessou os séculos: Platão, estoicos, cristãos, Hegel, Schopenhauer, Freud, Sartre. O mal-entendido do desejo, ou pelo menos, a má definição do conceito de desejo, pode ser considerada uma das mais cruéis heranças que o platonismo e o cristianismo nos legaram!

Por isso a importância de redefinir este conceito. O desejo como falta é uma mistificação nociva. Espinosa afirma que para nos tornarmos humanos temos que afirmar nossa natureza desejante. Mas como? Isso com certeza não significa ser inconsequente, os ignorantes tem uma visão errada do que significa desejar e dar vazão ao desejo, eles pensam que significa apenas não ter medidas. Mas este desejo vira busca interminável e desesperadora: o homem da imaginação, do primeiro gênero do conhecimento, investe no exterior: o desejo vira objeto. Ele perde o que há de mais íntimo em si para errar por entre ideais e utopias.

Este homem da imaginação se vê incompleto porque cria seus próprios senhores através de generalizações, a quem depois serve em busca de glórias e riquezas. Esta forma de desejar não é nada mais que a expressão da impotência do homem. Este desejo de ideais vira desejo de futuro, um futuro que nunca chega. E assim, abre-se um buraco no meio do homem chamado incompletude.
(...)

Rafael Trindade, do blog Razão Inadequada, 01/12/2013

GRANDES ESCRITOS


DO QUE SE TRATA

A questão do farmacologismo em psiquiatria não se resume a passar remédios químicos em excesso. Isso é demasiado evidente.Psiquiatras biológicos e remedeiros se multiplicam...Queremos dizer outras coisas, não necessariamente nesta ordem de importância: em primeiro lugar,o psicofarmacologismo se impõe graças ao efeito da insuficiência atual das pesquisas em psicopatologia clínica. Em segundo, ao mecanicismo científico instituído como verdade epistemológica (relação linear causa-efeito, o cérebro reificado). Em terceiro, pelo efeito (rápido) de controle químico sobre as condutas ditas anormais. Em quarto, aos interesses poderosos das multinacionais farmacêuticas. Em quinto, pela ausência de uma teoria psiquiátrica da subjetividade. Em sexto, pelos grandes buracos semiológicos pregados na grade nosológica psiquiátrica. Em sétimo, pela medicalização generalizada dos problemas sociais, manobra "esperta" dos poderes vigentes. Em oitavo, pelo desejo contemporâneo de buscar tamponar quimicamente a tragédia humana (nada de angústia...) e, por extensão, sua alegria oculta. Estes 8 ítens não esgotam a análise do problema, mas são eixos para se pensar.

A.M.

JONAS GERARD


Poema à boca fechada 

Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é de outra raça. 

Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vaza de fundo em que há raízes tortas. 

Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem. 

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais bóiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos. 

Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quando me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago

VAI ENCARAR?


domingo, 19 de março de 2017

Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu.

Nelson Rodrigues

YAMANDU COSTA & JOÃO BOSCO - Benzetacil


NA CORTE DO REI ARTUR
(...)
Os danos à imagem do Brasil, infelizmente, não se esgotam nessa trama que Janot, aparentemente, quer manter em sigilo. O jornal “Le Monde”, numa reportagem de grande repercussão, afirmou que o Brasil teria comprado a escolha do Rio para a Olimpíada. Um empresário brasileiro depositou cerca de US$ 1,5 milhão na conta de um dirigente do COI. Nesta semana, um dos envolvidos no episódio, Frank Fredericks, pediu demissão. Ele monitorava o sorteio e levou US$ 300 mil. O mais interessante da história é o personagem que surgiu como o corruptor ativo, o empresário brasileiro Arthur César de Menezes Soares Filho, velho conhecido da política fluminense: o Rei Artur. Ele era dono da Facility e tinha amplos negócios com o governo Cabral. Eram amigos. Lá fora, isso não importa. O que as pessoas guardam é a ideia de que o Brasil comprou a Olimpíada.
Se chamo a atenção para as manchas na imagem do país é porque realmente me sinto um pouco confuso sobre o país em que estou vivendo. Em 1949, os norte-americanos fizeram um filme chamado “Na corte do Rei Artur”. É a história de um mecânico que leva um golpe na cabeça e acorda na corte do Rei Artur, no século XVI, e se apaixona por Alessandra. São os artifícios da máquina do tempo. Agora, levamos uma pancada na cabeça e acordamos na corte do Rei Artur, uma versão pós-moderna na qual o melhor amigo do rei é, na verdade, o Tio Patinhas, Sérgio Cabral, que estocava dinheiro, joia, ouro, diamante, quem sabe um dia para despejá-los em sua piscina de Mangaratiba.
Sempre se falou no Rei Artur e em seus negócios escusos. Mas comprar uma Olimpíada é algo que surpreende pela audácia, assim como surpreende pela audácia a fortuna de seu amigo, que considerávamos apenas um corrupto de médio porte. Nesse livre devaneio, a corte do Rei Artur se estende por todo o país. Levamos uma pancada na cabeça e constatamos que o sistema partidário brasileiro está em vias de desaparecimento.
Marcelo Odebrecht, bobo da corte? É um luxo mesmo para um lugar com tanta esperteza. Literalmente, essas empresas devem ter roubado do Brasil o valor do déficit orçamentário deste ano, R$ 139 bilhões. Associadas a um governo corrupto, roubaram tudo o que podiam aqui e, com uma parte do dinheiro, foram comprar autoridades lá fora. E como se não bastasse, o tronco fluminense teria comprado uma Olimpíada, uma festa internacional teoricamente voltada a estimular valores éticos e fraternidade entre os povos.
(...)

Fernando Gabeira, 12/03/2017

sábado, 18 de março de 2017

Não deixarão você experimentar no seu canto.


G. Deleuze e F. Guattari 

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


IV

Só não dói mais porque não é preciso.
Se fosse o caso, a dor era pior.
Não há nada nisso de extraordinário:

A natureza odeia o desperdício,
tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr.
É exatamente a conta necessária,

até que alguma solução se encontre.
O que aliás não acontece nunca.
E isso também é natural. No entanto
há sempre um tralalá, um deus, um bálsamo

pra não perder a esperança e o bonde:
A caixa de bombons. A "Marcha húngara"
de Liszt. Ou Brahms. Um dos dois. Ou não. Tanto
faz. A dor continua. Hoje é sábado.


Paulo Henriques Britto

FRIVACA


"SINTO QUE..."

Há um axioma da semiologia psiquiátrica que coloca "delírios e alucinações" como sintomas psicóticos por excelência. Trata-se da busca histórica de um conceito e de um diagnóstico "preciso"de psicose, algo que costuma escapar ao exame. Num outro sentido, acreditamos que há um "eu sinto" mais profundo, afeto inominável que precede delírios e alucinações. Sem tal concepção, é impossível o trabalho de ir ao paciente, ficando a clínica meramente adaptativa e manipulativa. Ou violenta.

A.M.

DIFÍCIL FOTOGRAFAR O SILÊNCIO - de Manoel de Barros, declamado por Antonio Abujamra


O CAPITALISMO SE ALIMENTA DA CRISE

¿Qué pasa sobre el cuerpo de una sociedad? Flujos, siempre flujos, y una persona siempre es un corte de flujo. Una persona, es un punto de partida para una producción de flujos, un punto de llegada para una recepción de flujos, de flujos de todo tipo; o bien una intersección de muchos flujos.

Si una persona tiene cabellos, esos cabellos pueden atravesar muchas etapas: el peinado de la joven no es el mismo que el de la mujer casada, no es el mismo que el de la viuda: hay todo un código del peinado. La persona ¿En tanto que qué lleva esos cabellos? Se presenta típicamente como interceptora con relación a los flujos de cabellos que van más allá, y más allá su caso y sus flujos de cabellos están ellos mismos codificados según códigos muy diferentes: código de la viuda, código de la joven, código de la mujer casada, etc. Finalmente ese es siempre el problema esencial de la codificación y de la territorialización, codificar los flujos con, y como medio fundamental: marcar a las personas, (porque las personas están en la intersección y el corte de los flujos, las personas existen en los puntos de corte de los flujos)
(...)
Hay una paradoja fundamental del capitalismo como formación social: si los flujos descodificados han sido el terror de todas las otras formaciones sociales, el capitalismo se ha constituido históricamente sobre algo increíble, a saber, lo que era el terror de las otras sociedades, la existencia y la realidad de flujos descodificados y que de hecho son asunto suyo.

Si fuera verdad, esto explicaría que el capitalismo es lo universal de toda sociedad en un sentido muy preciso: en un sentido negativo, sería lo que todas las sociedades han temido por encima de todo; y tenemos la impresión de que, históricamente, el capitalismo... es lo que, de cierta manera, toda formación social intenta conjurar, intenta constantemente evitar, ¿por qué? 

Porque es la ruina de todas las otras formaciones sociales. Y la paradoja del capitalismo, es que es una formación social que está constituida sobre la base de lo que era lo negativo de todas las otras. Eso quiere decir que el capitalismo solo ha podido constituirse por una conjunción, un encuentro entre flujos descodifícados de cualquier naturaleza. Lo más temible de todas las formaciones sociales, será la base de una formación social que deberá engullir a todas las otras. Lo que era lo negativo de todas las formaciones ha devenido la positividad misma de nuestra formación, eso es estremecedor.
(...)

Gilles Deleuze, Cours Vincennes, 16/11/1971, tradução para o espanhol de Ernesto Hernández, disponível em Webdeleuze
TEMPO E POLÍTICA

A transpolítica é o início do desaparecimento do político na rarefação da última provisão: a duração. Democracia, consulta, bases do político, requerem tempo. A duração é própria do homem; ele está inscrito nela. Para mim, o transpolítico é o começo do fim (...) é totalmente negativo. Não estou dizendo que deveríamos reverter à democracia antiga, parar o relógio, e coisas do gênero. O que estou dizendo é que existe trabalho a ser feito, o trabalho epistemo-técnico, (...) para restabelecer o político num tempo em que a tecnologia divide o tempo – e eu diria: o esgotamento do tempo. 
(...)
Paul Virilio, 1984 

sexta-feira, 17 de março de 2017

O brasileiro é um feriado.


Nelson Rodrigues

ÉTICA EM DELEUZE - Luis Orlandi


Quando a criança era criança 
andava balançando os braços. 
Desejava que o riacho fosse rio, 
que o rio fosse torrente... 
E essa poça, o mar.

Quando a criança era criança, 
Não sabia que era criança. 
Tudo era cheio de vida, 
e a vida era uma só.

Quando a criança era criança 
Não tinha opinião... 
Não tinha hábitos, 
sentava-se de pernas cruzadas, 
Saía correndo... 
Tinha um redemoinho no cabelo 
E não fazia pose para fotos (...)


Peter Handke, in Canção da Infância, 1987

quarta-feira, 15 de março de 2017

NEUROANGÚSTIAS

A psiquiatria atual, notadamente a vertente dita "biológica", tem como traço marcante o aniquilamento da psicopatologia. Na prática e no fim das contas importa empreender apenas o controle do comportamento "anormal" do paciente, visando, óbvio, adestrá-lo... Uma clínica do cérebro, embasada em neuropesquisas, se institui como verdade. A morte do "pensamento" se avizinha como ciência. Um conservadorismo sócio-político (maquiado) cresce  e floresce entre sinapses cansadas. Tudo é insípido.

A.M.

VOCÊ, DA POLTRONA, QUE PAGA IMPOSTOS

No seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, Emílio Odebrecht soltou uma palavra que reflete a ansiedade da oligarquia nacional diante da Lava-Jato. Discutia-se a identidade do “Italiano” das planilhas de capilés do empreiteiro, e ele esclareceu que o apelido é muito comum, mas era possível que se referisse também ao “nosso Palocci”.

O uso do “nosso” não indica propriedade, mas apenas familiaridade. É enorme a admiração de Odebrecht pelo doutor Antonio, ex-ministro da Fazenda de Lula e da Casa Civil de Dilma Rousseff. Em poucos minutos doou-lhe nove adjetivos: entre eles, “inteligente”, “bem informado”, “homem de visão de estadista”.

A lista da Procuradoria-Geral da República contém os beneficiários de capilés da “nossa” Odebrecht. Empresários de todos os calibres, políticos de todos os grandes partidos, os três ex-presidentes vivos e pelo menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal formaram um coro destinado a embaralhar a discussão dos capilés.

Caixa 2 seria uma coisa, propina seria outra, dinheiro embolsado seria uma coisa, dinheiro gasto na campanha, bem outra. Jurisconsulto de renome, o doutor Gilmar Mendes fica devendo uma tabelinha capaz de diferenciar urubu de carcará.

A principal estridência desse coro ocorre quando se vê que se planeja uma anistia para delinquentes que se recusam a confessar. Todos operam no caixa dois, diz o coro, mas eu nunca operei, responde cada um dos cantores.

A Lava-Jato foi na jugular da oligarquia política e de boa parte da oligarquia empresarial do país. (Está na memória nacional o pato amarelo que ficava diante da Fiesp, do “nosso” Paulo Skaf, mencionado em colaborações da Odebrecht como receptáculo de R$ 6 milhões.) Ferida, essa oligarquia joga com o tempo, com as peças de Brasília e com o cansaço da choldra. Afinal, um dia a Lava-Jato haverá de ser um assunto chato, se já não é.

A grande pizza começa a ser assada fabricando-se um tipo de anistia parlamentar e/ou judiciária para o caixa 2. Em seguida, as propinas virarão caixa 2, e estamos conversados. Mas isso não pode ser tudo. Se o caixa 2 é uma anomalia da contabilidade das campanhas eleitorais, deve-se criar um novo modelo. Qual? O do financiamento público.

Como dizia Renato Aragão, você da poltrona que já paga impostos para receber (se receber) obras superfaturadas, pagará as campanhas eleitorais dos candidatos que mordem as empresas para botar ou tirar jabutis de medidas provisórias.

Parece maluquice, mas já desengavetaram um corolário do financiamento público: o voto de lista. Assim, o sujeito paga pela obra superfaturada, financia a campanha dos candidatos e ainda perde o direito de votar em quem quer. (Pelo sistema atual, o sujeito votava em Delfim Netto e elegia Michel Temer, mas indiscutivelmente votara em Delfim, não em Temer.) Junte-se a isso que nenhum dos listados pela Procuradoria-Geral irá a julgamento em menos de quatro anos.

Só a rua pode evitar que assem a pizza. Não é coisa fácil, pois uma parte da turma do “Fora Temer” tem o pé esquerdo na “nossa” Odebrecht e parte do coro do “Fica Temer” tem o pé direito. Sem a rua, a oligarquia unida jamais será vencida. Ela fez esse milagre no século XIX, e o Brasil foi o último país independente das Américas a acabar com a escravidão.


Elio Gaspari, O Globo

FRANCISCO DE GOYA


terça-feira, 14 de março de 2017

Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando com seu olho gelado. “Vamos – diz ela – nada de convulsões, sei que você é da família dos possessos, mas não escreva como uma possessa, fale em voz baixa, sem exageros, calmamente.”


Lygia Fagundes Telles

segunda-feira, 13 de março de 2017

TUDO A TEMER

Os telefones das assessorias de imprensa da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal (STF) dispararam na última quinta-feira. Circulava por Brasília um boato de que arquivos com as delações de 78 ex-funcionários da construtora Odebrecht haviam sido transferidos do primeiro órgão para o segundo. Era o primeiro passo necessário para que seus conteúdos se tornassem públicos, caso o ministro Edson Fachin decida, como se espera, derrubar o sigilo a pedido do procurador-geral, Rodrigo Janot. Até um cidadão, impaciente com a lentidão da confirmação pelos jornais, decidiu arriscar a sorte no canal de atendimento aos jornalistas. A confusão se originou porque, mais cedo, neste mesmo dia, o STF começou a recolher HDs (discos rígidos) de veículos de imprensa, a pedido dos próprios jornalistas, para que, se liberados, os documentos consigam chegar às Redações e ao público com mais facilidade. Brasília, já tensa, segurou a respiração.
O conteúdo das delações promete espalhar a crise gerada pelas investigações da Lava Jato para um amplo número de políticos importantes de Brasília e de diversos Estados. Há indícios de que caciques do PMDB, PT e PSDB foram implicados. E se espera que o Planalto de Michel Temer seja atingido com força. Diante de sua magnitude, o pacote de acordos ganhou o apelido de delação do fim do mundo.
(...)

Talita Bedinelli, Brasília, El País, 13/03/2017, 13:48 hs

A EVOLUÇÃO HUMANA


EU E A REALIDADE

O que eles chamam realidade
não passa de uma fantasia careta.
Quanto a mim
sou apenas mais um rio
que corre para o bar.


Eudoro Augusto

domingo, 12 de março de 2017

O ENIGMA

BERLIM — Na contramão da sua tradição histórica, conhecida por receber judeus que fugiam da perseguição nazista e como um país progressista e liberal, a Holanda acompanha com suspense a expansão da extrema-direita e do racismo, o que pode ganhar contornos ainda mais fortes com a possível eleição de Geert Wilders, candidato do Partido da Liberdade (PVV), na próxima quarta-feira. Ao contrário de outros países onde a extrema-direita cresce, a Holanda não sofreu um atentado terrorista, não tem uma alta taxa de desemprego nem enfrenta uma crise econômica, daí a surpresa com o descontentamento da população com os partidos tradicionais e o impulso que o movimento vem tomando desde o início do século.
Embora todos os partidos, inclusive o conservador do primeiro-ministro Mark Rutte (DVV), já tenham recusado de antemão qualquer tipo de aliança com Wilders, uma vitória do PVV é vista por analistas políticos como ameaça para a União Europeia. Não só pelo fato de o candidato defender a saída do país do bloco como porque poderia causar reflexos nas eleições francesas, em abril.
— O sucesso da extrema-direita na Holanda é um enigma que desperta, de novo, muitas indagações sobre a identidade nacional do povo holandês — lembra o escritor Geert Mak.
(..)

Graça Magalhães Ruether, O Globo, 12/03/2017, 13:20 hs


UMA LOUCURINHA

Vou contrariar os sensatos conselhos dos economistas de plantão. Essa laminha da conta inativa do FGTS, fruto do seu bíblico e sagrado suor, deve ser gasta com uma viagem de amor. No mínimo com um piquenique no domingo do parque, um combo cinema+jantar romântico, algo que você não faz com a dita pessoa amada/amante há muito tempo.

Sei que pagar dívidas, como recomendam as frias marionetes da racionalidade, seria o correto. Que tal esquecer o banco e os credores apenas por um momento na vida e fazer uma loucura? Uma loucurinha, afinal, a considerar a média, a maioria dos trabalhadores receberá pouca grana.

Será inesquecível. Depois você corre atrás, qual um Usain Bolt da sobrevivência, e cobre ou rola a dívida. Haja irresponsabilidade do cronista —mestre em desastres financeiros e portador de um delirante capital amoroso, como sopraria neste momento o poeta e psicanalista Hélio Pellegrino. Uma loucurinha, eis a pedida.
(...)

Xico Sá, El País, 10/03/2017,18:14 hs

GRANDES ESCRITOS


PARA ALÉM DE KAFKA

Em conversa com um amigo, o ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral, chamou de “kafkiano” o processo que mantém sub judice a Presidência de Michel Temer. A definição é inexata. Na verdade, o processo é pós-kafkiano. O barulhinho que se ouve ao fundo é o ruído de Franz Kafka se contorcendo no túmulo ao perceber que o absurdo perturbador de sua ficção foi superado por uma história fantástica passada num país imaginário. Uma história bem brasileira.

A realidade dos autos relatados pelo ministro Benjamin está cada vez mais inacreditável. O interesse pelo julgamento do processo diminui na proporção direta do aumento das evidências de que a vitória de 2014 foi bancada com dinheiro roubado da Petrobras. Autor da ação que pede a cassação da chapa Dilma Rousseff—Michel Temer, o PSDB anda tão ocupado em salvar o país que já não tem tempo para cobrar a punição dos crimes que apontou.

O tucanato tornou-se o esteio do governo Temer. O derrotado Aécio Neves virou um levantador de ministros. O vice-derrotado Aloysio Nunes Ferreira acaba de ser nomeado chanceler. Na oposição, o PSDB era incapaz de reconhecer a honestidade dos governantes. No governo, esqueceu que o PMDB é incapaz de demonstrá-la. Todo o dinheiro sujo que a Odebrecht investiu em 2014 não daria para vestir 1% das desculpas esfarrapadas dos tucanos para conspirar contra a lógica no TSE.

Devolvida a Porto Alegre e à sua insignificância, Dilma Rousseff entregou-se a duas atividades. Quando não está cuidando dos netos, dedica-se a denunciar o ''golpe''. No TSE, os defensores de madame se juntam aos advogados de Michel Temer numa tabelinha a favor da protelação. Difícil saber se golpeados e golpistas fogem de um julgamento rápido por que são capazes de tudo ou por que são incapazes de todo.

Há mais: Temer, o processado, indicará entre abril e maio, dois dos ministros que o julgarão no TSE. Há pior: o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Gilmar Mendes, frequenta o noticiário na condição de conselheiro do acusado. Quando Dilma ainda estava sentada na poltrona de presidente, Gilmar pegou em lanças pela abertura do processo, evitando que a podridão das contas eleitorais descesse para o arquivo. Agora, o mesmo Gilmar afirma: o mais importante é a exposição do lixão, não o resultado do julgamento.

Em meio a este cenário pós-kafkiano, um período excepcional da história do país, a qualquer momento se verá a maioria dos ministros do TSE declarar a respeito dos milhões em verbas sujas que passaram pelas arcas de 2014: “Calma! É só caixa dois, gente!”. E o brasileiro perceberá que não é que o crime não compensa. É que, quando ele compensa, muda de nome.

Blog do Josias de Souza, 12/03/2017, 05:47 hs