terça-feira, 31 de janeiro de 2017

VIDA ALÉM DA TERRA

Conforme as missões da NASA exploram o Sistema Solar e procuram novos mundos, a agência espacial norte-americana chega mais perto de encontrar vida fora do nosso planeta. E tem certeza de encontrá-la em menos de uma década.

“As atividades da NASA permitiram uma onda de descobertas espantosas relacionadas à água nos últimos anos, as quais nos inspiram a continuar pesquisando as origens e as fascinantes possibilidades de outros mundos e a vida no Universo”, disse na quarta-feira Ellen Stofan, cientista-chefe da agência. “Em nosso horizonte de vida, podemos muito bem finalmente responder se estamos sozinhos no Sistema Solar e além.”

“Acredito que teremos fortes indícios de vida fora da Terra dentro de uma década, e creio que teremos provas definitivas dentro de 20 ou 30 anos. Sabemos onde procurar e sabemos como procurar”, afirmou Stofan durante entrevista na NASA.
(...)

El PAÍS, 16/04/2015, 18:34 hs

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

É difícil separar a ficção da invenção, a fantasia da memória. Não há uma linha separando o que você viu do que você sonhou. A imaginação ocupa o espaço da memória.

Lygia Fagundes  Telles

XADREZ-OSTENTAÇÃO !


FAMÍLIA DESUNIDA

O acordo de delação premiada da Odebrecht causou o rompimento das relações entre o ex-presidente e herdeiro do grupo empresarial, Marcelo Odebrecht, e seu pai, Emílio, presidente do Conselho de Administração do conglomerado. A informação foi confirmada ao UOL por cinco pessoas ligadas à Operação Lava Jato ou à Odebrecht, sob a condição de terem suas identidades preservadas.

"Marcelo sente-se injustiçado. Ele se vê como um bode expiatório. Acha que pagará o preço mais alto entre todos os envolvidos na Lava Jato também porque seu pai aceitou delatá-lo", afirmou ao UOL um funcionário de alto escalão da Odebrecht.

"Marcelo pagava mesmo propina e, de certa forma, desafiava as autoridades que poderiam o incriminar. Emílio, por sua vez, era mais conservador. Cometeu e sabia de ilegalidades, mas era mais contido", acrescentou.
(...)

Flavio Costa, Leandro Prazeres e Vinicius Konchinski, do UOL em Curitiba, 30/01/2017, 04:00 hs

domingo, 29 de janeiro de 2017

Mar de primavera -
O dia todo
Lentamente ondula.

Yosa Buson
Eu caminhava pela floresta pensando em Cristo. Se ele era carpinteiro, quanto será que cobrava pelas prateleiras?

Woody Allen

GRANDES ESCRITOS


O RELÓGIO DO FIM DO MUNDO
(...)
A história é permeada por eloquentes exemplos do que acontece no mundo quando alguns países decidem se fechar contra “inimigos externos” que ameaçam sua segurança e quando fóruns internacionais de cooperação são deslegitimados e esvaziados. O “relógio do fim do mundo” tem todas as condições de voltar a andar.
(...)
Teresa Perosa, Época, 29/01/2017, 16:12 hs
DIA TRANS

O dia da Visibilidade Trans, comemorado neste domingo (29), vai ser celebrado com um gostinho diferente por Maria Eduarda. Ela é uma das transexuais que conseguiu atendimento pelo SUS e, há oito meses, se trata no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE).

Maria Eduarda está entre os 85 novos pacientes que buscaram o processo transexualizador em 2016 no instituto. Um número que só cresce, de acordo com o SUS. Segundo o Ministério da Saúde, entre 2015 e 2016, foi registrado aumento de 32% nos atendimentos ambulatoriais do país, passando de 3.388 para 4.467. Atualmente, o Brasil conta com nove centros, dois no Rio de Janeiro: IEDE e Hospital Universitário Pedro Ernesto, que ofertam procedimentos como terapia hormonal e acompanhamentos dos usuários em consultas no pré e pós operatório.
(...)

Patrícia Teixeira, G1, Rio, 29/01/2017, 07:51 hs

VINTAGE CAFÉ - Back To Black


ACALANTO

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de urna dormida, nos satisfazemos

em constatar, com urna ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais urna noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.


Paulo Henriques Britto

sábado, 28 de janeiro de 2017

Antes de diagnosticar a si mesmo com depressão ou baixa auto-estima, primeiro tenha certeza de que você não está, de fato, cercado por idiotas.

S. Freud
SUA VEZ, CÁRMEN

A presidenta do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, fez hora-extra no seu gabinete na corte neste sábado para analisar as delações da Odebrecht que estavam para ser homologadas por Teori Zavascki, o ministro que morreu em um acidente de avião no dia 19 de janeiro. A expectativa é que até terça-feira Cármen homologue as 77 delações para que o novo relator da operação Lava Jato possa dar andamento ao caso. Esse é o passo que faltava para dar validade jurídica à “delação do fim do mundo”, alcunha dada aos acordos de colaboração feitos pelos executivos da empreiteira e que deve envolver mais de uma centena de políticos, incluindo nomes do Governo Michel Temer e do do Dilma Rousseff. Como o STF está em recesso até o próximo dia 31, a plantonista, no caso a presidenta, pode decidir homologar esses acordos instada pelo pedido de urgência no caso feito pelo procurador-geral, Rodrigo Janot.
(...)

Afonso Benites, El País,Brasília, 28/01/2017, 17:55 hs

AUGUSTE MACKE


A ERA TRUMP

RIO – O decreto assinado por Donald Trump proibindo a concessão de visto a turistas e imigrantes de sete países por, pelo menos, 90 dias vai ter efeitos até na cerimônia do Oscar. Asghar Farhadi, cineasta iraniano vencedor da estatueta de melhor filme estrangeiro por "A separação" (2011), não poderá participar da premiação, que acontece no dia 26 de fevereiro, em Los Angeles.

Este ano, Farhadi concorre novamente ao prêmio de melhor filme estrangeiro por "O apartamento". Na semana passada, a atriz Taraneh Alidoosti, que estrela o longa, anunciou boicote à cerimônia em protesto contra as políticas do recém-empossado presidente dos Estados Unidos.

Além do Irã, pessoas provenientes de países como Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen não terão acesso a vistos de entrada nos EUA. "O apartamento" acompanha a saga de um professor (Shahab Hosseini) que busca vingança contra o homem que atacou sua mulher (Taraneh Alidoosti) em seu apartamento.
(...)

O Globo, 28/01/2017, 15:38 hs




A vida profissional

Têm o mesmo nome, o mesmo sobrenome. Ocupam a mesma casa e calçam os mesmos sapatos. Dormem no mesmo travesseiro, ao lado da mesma mulher. A cada manhã, o espelho lhes devolve a mesma cara. Mas ele e ele não são a mesma pessoa:
— E eu, o que tenho a ver com isso? — diz ele, falando dele, enquanto sacode os ombros.
— Eu cumpro ordens — diz, ou diz:
— Sou pago para isso.
Ou diz:
— Se eu não fizer, outro faz.
Que é como dizer:
— Eu sou o outro.
Frente ao ódio da vítima, o verdugo sente estupor, e até uma certa sensação de injustiça: afinal, ele é um funcionário,um simples funcionário que cumpre seu horário e suas tarefas. Terminada a jornada extenuante de trabalho, o torturador lava as mãos.
Ahmadou Gherab, que lutou pela independência da Argélia, me contou. Ahmadou foi torturado por um oficial francês durante vários meses. E a cada dia, às seis em ponto da tarde, o torturador secava o suor da fronte, desligava da tomada a máquina de dar choques e guardava os outros instrumentos de trabalho. Então se sentava ao lado do torturado e falava de sua mulher insuportável e do filho recém-nascido, que não o deixara grudar o olho a noite inteira; falava contra Orã, esta cidade de merda, e contra o filho da puta do coronel que...
Ahmadou, ensangüentado, tremendo de dor, ardendo em febre, não dizia nada.
(...)

Eduardo Galeano
ela  só  me chega
sem imagem
sem rosto
sem nada
e  ao mesmo tempo
tão  dentro de tudo
tão dentro  de mim


A.M.

DRÁCULA de Bram Stoker - "Love Remembered" de Wojciech Kilar


IRREVERSÍVEL LAVA JATO

A morte de Teori Zavascki aconteceu de uma forma que aciona dúvida do tipo que existe desde o Descobrimento: intencional ou por acaso? Como isso se resolve ao cabo de uma rigorosa investigação, o foco, a meu ver, é o destino da Operação Lava Jato. Ela deve prosseguir com o mínimo de atraso possível.

A delação da Odebrecht abalou a vida política de muitos países latinos. Em alguns deles já houve não só prisões, como também a decisão de expulsar a empresa.

Sou moderadamente otimista quanto ao futuro da Lava Jato. Homologar a delação não é complicado: apenas confirmar se os delatores falaram sem pressão e avaliar a redução das penas. Felizmente, a decisão de prosseguir os trabalhos com a equipe de Teori e a possibilidade de Cármen Lúcia, ela mesma, homologar resolvem o problema imediato.

Em outro plano está a escolha do novo relator. Tenho lido inúmeras possibilidades e a que mais temo é um sorteio como se todos estivessem no mesmo plano. Seria um pouco como levar a Lava Jato a uma decisão por pênaltis, em que tudo pode acontecer.

Francamente, grande parte das pessoas que foram às ruas acha que Lewandowski e Dias Toffoli, caso escolhidos, soltariam todo mundo e ainda mandariam prender quem acusou.
(...)

Fernando Gabeira,27/01/2017
Aqui está tudo que você precisa saber sobre homens e mulheres: mulheres são doidas, homens são estúpidos. E a principal razão para as mulheres serem doidas é que os homens são estúpidos.

George Carlin

O RIO DE JANEIRO AGRADECE


EIKE E OS ASTROS


As cifras movimentadas por Sérgio Cabral no exterior eram tamanhas (US$ 100 milhões) que a força-tarefa da Operação Eficiência, deflagrada na quarta (26), escolheu descrevê-las assim: "Indubitavelmente astronômicas!".

A culpa talvez fosse mesmo das estrelas, pois a história veio à tona após uma delação do astrólogo e economista Renato Chebar e de seu irmão, Marcelo.

Por mais de uma década, os dois ocultaram no exterior a suposta propina recebida pelo ex-governador, incluindo os US$ 16,5 milhões pagos por Eike Batista.

Escorpiano com ascendente em capricórnio (como contou à Folha em 2009), Eike é devoto assumido da astrologia, entre outros esoterismos.

Em entrevista ao "Wall Street Journal", em 2013, atribuiu sua derrocada nos negócios às péssimas condições astrais. E, nos últimos quatro anos, o céu do empresário anda fechado, propício à perda de patrimônio, afirma Marcia Mattos, ex-presidente do Sindicato dos Astrólogos do Rio.

O que Eike não podia prever é que seu pedido de prisão fosse consequência do testemunho de um astrólogo, Chebar, que foi vice-presidente do sindicato na gestão Mattos.

Em acordo voluntário de delação premiada, Renato Chebar desmentiu a versão de Eike, de que o R$ 1 milhão que o empresário depositou ao escritório de advocacia de Adriana Ancelmo, mulher de Cabral, eram relativos a um serviço de consultoria.

O astrólogo, pisciano, foi além: detalhou como teria ajudado a disfarçar a propina do empresário na falsa compra de uma mina de ouro.

Chebar relatou ao Ministério Público Federal jamais ter estado com Eike e disse que falava apenas com seu sócio Flávio Godinho, preso na quarta-feira.

Não leu o mapa astral do empresário, tampouco o faria caso fossem mais próximos, já que, contam amigos, reservava o conhecimento sobre os signos para tomar decisões pessoais.

Chebar não agendava consultas. Um endereço de e-mail atribuído a ele o identifica como "astrologiafinanceira@...". A reportagem escreveu, mas não obteve resposta.
(...)

Gabriela Sá Pedrosa, UOL de São Paulo, 28/01/2017, 02:00 hs


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

QUAL TEMPO?

O Brasil vive momentos difíceis, óbvio. Para nós, brasileiros, sujeitos empíricos, individuais, finitos, isso traz efeitos devastadores sobre a "vidinha" de cada um. No entanto, se pensarmos o tempo irreversível estendido numa linha abstrata sem princípio nem fim, os momentos difíceis serão fecundos, terão que ser, serão. Não para mim, talvez não para você, caro leitor, mas para um futuro coletivo que há de vir e depois outro futuro e depois outro, e depois, etc, ao infinito. Entrementes, é preciso cuidar da vida. De si. Há, pois, muito o que fazer. O paradoxo do tempo presente, dilacerado entre o passado e o futuro, insiste como potência do falso. A arte.

A.M.

A Chegada - direção de Denis Villeneuve, 2016

O rio de verão –
Que alegria atravessá-lo
De sandálias à mão


Yosa Buson
A ESCÓRIA

Preso desde novembro, Sérgio Cabral, ex-governador do Rio, tornou-se um frequês da Lava Jato. Ignorando seus desmentidos, os investigadores levaram à vitrine um esquema que lavou, engomou e enviou para fora do país pelo menos US$ 100 milhões desviados do erário fluminense. Um dos comparsas de Cabral, o ex-bilionário Eike Batista, é considerado foragido. Com o teto do seu bunker de fantasias a desabar-lhe sobre a cabeça, Cabral sinaliza a intenção de tornar-se um delator. Em troca, quer deixar o ambiente inóspito da hospedaria de Bangu's Inn.

A delação tem mais lógica quando o peixe miúdo entrega os tubarões. Adepto do estilo ‘propina-ostentação’, Cabral não é propriamente uma sardinha. Tratá-lo como um personagem menor, a essa altura, seria como tentar acomodar uma baleia dentro de uma banheira jacuzi. Conceder-lhe benefícios judiciais num instante em que o governo do Rio, quebrado, reivindica socorro da União seria uma zombaria com a sociedade fluminense, com a populacão brasileira e com a própria lógica. Melhor puni-lo exemplarmente.
(...)

Blog do Josias de Souza, 27/01/2017, 15:27 hs
TUDO DEMAIS

(...)
Aí a porta se abriu de repente. E entrou a tal mulher. Ora, tudo que posso dizer é que existem bilhões de mulheres no mundo, certo? Algumas bem vistosas. Muitas muito bonitas. Mas de vez em quando a natureza nos sai com um truque bestial, reúne todos os atributos numa mulher especial, uma mulher inacreditável. Quer dizer, a gente olha e não acredita. Tudo se move em perfeita ondulação, mercúrio, serpente, a gente vê umas cadeiras, um cotovelo, uns peitos, um joelho, e tudo se funde numa unidade gigantesca, um todo inesquecível, com aqueles olhos lindíssimos a sorrir, a boca meio descaída, os lábios imóveis como prontos para estourar numa gargalhada, pela sensação de impotência da gente. E elas sabem se vestir, e o cabelo longo incendeia o ar. Tudo demais, porra.
(...)
Charles Bukowski in Pulp 

EL MURO - THE WALL


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O MENINO

Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido.
Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.
É um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram pra nascer; ao contrário: nasceram pra pedir.
Calado demais pra sua idade, sofrido demais pra sua idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância.
Parece ser menor carente, mas, se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola.
Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes.
Do amor não correspondido pela professora, descobriu que viver dói. Viveu cada verso de "Romeu e Julieta", sem nunca ter lido a história.
Foi Dom Quixote sem precisar de Cervantes e sabe, por intuição, que o mundo pode ser um inferno ou uma badalação, dependendo se ele é visto pelo Nelson Rodrigues ou pelo Gilberto Braga.
De seu, tinha uma árvore, um estilingue zero quilômetro e um pássaro preto que cantava no dedo e dormia em seu quarto.
Tímido até a ousadia, seus silêncios grita nos cantos da casa e seus prantos eram goteiras no telhado de sua alma.
Trajava, na ocasião em que desapareceu, uns olhos pretos muito assustados e eu não digo isso pra ser original: é que a primeira coisa que chama a atenção no menino são os grandes olhos, desproporcionais ao tamanho do rosto.
Mas usava calças curtas de caroá, suspensórios de elástico, camisa branca e um estranho boné que, embora seguro pelas orelhas, teimava em tombar pro nariz.
Foi visto pela última vez com uma pipa na mão, mas é de todo improvável que a pipa o tenha empinado. Se bem que, sonhador de jeito que ele é, não duvido nada.
Sequestrado, não foi, porque é um menino que nasceu sem resgate.
Como vocês veem, é um menino comum, desses que desaparecem às dezenas todas os dias.
Mas se alguém souber de alguma notícia, me procure, por favor, porque... ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.

Chico Anysio

JONAS GERARD


DE VOLTA

Agentes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal realizam uma operação para cumprir nove mandados de prisão preventiva e quatro conduções coercitivas na Operação Eficiência, na 2ª fase da Lava Jato no Rio de Janeiro, na manhã desta quinta-feira (26).

Entre os principais alvos com mandados de prisão expedidos estão o empresário Eike Batista, dono do grupo EBX, o ex-governador Sérgio Cabral, que já está preso no complexo penitenciário de Gericinó, em Bangu, além de Wilson Carlos e Carlos Miranda, que também estão presos. Todos os mandados de prisão foram expedidos pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro.

A PF ainda tenta cumprir também outros cinco mandados de prisão e quatro de condução coercitiva. Segundo as investigações, as pessoas que devem ser conduzidas coercitivamente até a sede da Polícia Federal do Rio seriam beneficiárias do esquema de corrupção.

Esse é o terceiro mandado de prisão preventiva expedido contra Sérgio Cabral, Wilson Carlos e Carlos Miranda.

Os agentes também tentam cumprir mandados de condução coercitiva contra Maurício de Oliveira Cabral Santos, irmão do ex-governador, e Suzana Neves Cabral, ex-mulher de Sérgio Cabral.
(...)

Do G1 Rio, 26/01/2017, 05:10 hs 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

DELAÇÕES PERIGOSAS

O nariz é um pedaço perigoso do corpo. Coça, espirra e, de vez em quando, se mete onde não é chamado. Ao farejar o risco de a delação da Odebrecht ser homologada até a próxima terça-feira (31), Michel Temer e seus auxiliares sentiram comichão nas narinas. Embora a decisão não lhes diga respeito, manifestaram-se contra, informam os repórteres Valdo Cruz e Gustavo Uribe. A cúpula do governo prefere que a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, transfira a incumbência para o futuro relator da Lava Jato, a ser sorteado.

A eventual homologação poderia ser seguida do levantamento do sigilo dos depoimentos já prestados pelos 77 delatores da maior empreiteira do país. De resto, a força-tarefa da Lava Jato estaria liberdada para desbravar novas e fascinantes frentes de investigação. Num instante em que o Planalto se prepara para empinar a reforma da Previdência no Congresso, viriam à luz detalhes ainda desconhecidos de uma promiscuidade pluripartidária.

Nesse contexto, a contrariedade do governo não é senão uma razão adicional para que Cármen Lúcia, valendo-se das prerrogativas de chefe do plantão do Judiciário, homologue as delações em caráter de urgência. Como requisitou, a propósito, o procurador-geral Rodrigo Janot.

O time de auxiliares do ex-ministro Teori Zavascki ainda precisa ouvir os 77 delatores, para perguntar-lhes se é de livre e espontânea vontade que suam o dedo. Talvez não consigam interrogar todos eles nos seis dias que restam para o término do recesso. Neste caso, Cármen Lúcia deveria promover uma homologação parcial, liberando os acordos cujos processos estivessem prontos. Seria extraordinário se a ministra pudesse dar prioridade às delações que mencionam Temer, seus auxiliares e aliados.

Blog do Josias de Souza, 25/01/2017, 18:32 hs

90 ANOS DE JOBIM - Vivo Sonhando - Vinicius Cantuária


Razões adicionais para os poetas mentirem

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada,
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede.
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

Hans Magnus Enzensberger



Weil der Augenblick,
in dem das Wort glücklich
ausgesprochen wird,
niemals der glückliche Augenblick ist. 
Weil der Verdurstende seinen Durst 
nicht über die Lippen bringt.
Weil im Munde der Arbeiterklasse
das Wort Arbeiterklasse nicht vorkommt. 
Weil, wer verzweifelt,
nicht Lust hat, zu sagen:
»Ich bin ein Verzweifelnder. « 
Weil Orgasmus und Orgasmus 
nicht miteinander vereinbar sind.
Weil der Sterbende, statt zu behaupten:
»Ich sterbe jetzt« nur ein mattes Geräusch vernehmen läßt, 
das wir nicht verstehen.
Weil es die Lebenden sind,
die den Toten in den Ohren liegen 
mit ihren Schreckensnachrichten. 
Weil die Wärter zu spät kommen, 
oder zu früh.
Weil es also ein anderer ist,
immer ein anderer,
der da redet,
und weil der,
von dem da die Rede ist,
schweigt.

Tradução de Kurt Scharf e Armindo Trevisan

COMEÇANDO

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (25) uma ordem executiva para iniciar a construção de um muro na fronteira com o México, uma das principais e mais polêmicas promessas de campanha do republicano.
Trump também assinou uma ordem executiva para bloquear fundos federais para as chamadas "cidades-santuário", que protegem imigrantes sem documentos da deportação. Os fundos federais serão abolidos para cidades que se recusem a fornecer informações às autoridades federais sobre o status de imigração de pessoas detidas nessas localidades, entre as quais estão Chicago, Nova York e Los Angeles.
(...)
Do G1, 25/01/2017, 16:54 hs

GRANDES ESCRITOS


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A MESMA QUADRINHA

Um dirigente do PT tocou o telefone para parlamentares do partido, no final de semana, para sugerir o uso das revelações mais recentes da Lava Jato como munição na guerra política contra “o governo golpista” de Michel Temer. Classificou de “bombástica” a acusação de que Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, íntimos de Temer, trocavam empréstimos da Caixa Econômica por propina. Um dos destinatários da sugestão indagou: “A farra ocorreu na gestão da Dilma, esqueceu?”

Os petistas sentem um prazer quase orgástico cada vez que a Polícia Federal e a Procuradoria penduram um amigo de Temer nas manchetes de ponta-cabeça. Mas a maioria silencia para não passar a vergonha de ter de explicar por que os inimigos de hoje plantaram bananeira dentro dos cofres públicos durante os governos do PT. A Lava Jato tornou a corrupção um fenômeno tão abrangente que a ética virou um valor órfão na política.

Nunca um escândalo teve tantos cúmplices. Considerando-se tudo o que os investigadores já jogaram no ventilador, a desfaçatez foi generalizada. Tudo muito deplorável. Mas quase ninguém no universo da política pode dizer isso sem ruborizar a face. Não há mais inocentes em Brasília, só comparsas.

Blog do Josias de Souza, 16/01/2017, 04:57 hs

domingo, 15 de janeiro de 2017

V Internacional

antes que destruam vocês
atenção amigos ocultos
drácula
nosferatu
frankenstein
mr. Hyde
jack the ripper
m – o vampiro de dusseldorf
monstros do mundo inteiro:
uni-vos! 

Sebastião Uchoa leite

sábado, 14 de janeiro de 2017

INVASÃO DE PRIVACIDADE


UMA FRENTE CONTRA A BARBÁRIE

A constrangedora mediocridade com que o governo respondeu aos massacres no Norte não me surpreendeu. Num artigo que escrevi aqui jogava minhas esperanças no debate entre as pessoas que reconhecem a urgência do tema. Já existem muitas ideias sobre o que fazer com o sistema carcerário em crise. Outras devem surgir. Mas o interesse social pode, pelo menos, levar o governo a uma ação mais solidária em todos os níveis. Estancar o jogo de empurra, essa irresistível tendência de lavar as mãos e jogar a culpa nos outros.
Por que Temer se interessaria pelo tema? Todos os outros presidentes se esquivaram. O fracasso do sistema carcerário atravessa a História da República. O livro de Myrian Sepúlveda dos Santos Os Porões da República conta, por exemplo, a primeira tentativa brasileira de criar uma casa correcional no Vale dos Dois Rios, na Ilha Grande. Ela trata apenas do período entre 1894 a 1945. Mas é uma história dramática. Experiências em Fernando de Noronha e em Clevelândia também são um roteiro do fracasso.
De um ponto de vista político, o sistema carcerário é um abacaxi. Parece ser insolúvel e transita num espaço muito polarizado por defensores e críticos dos direitos humanos.
O mais confortável para Temer era empurrar com a barriga, como fizeram todos. E não percebeu que tudo isso poderia estourar na mão dele. Enfim, contou com a passagem do tempo, como se a História fosse mesmo escrita com empurrões de barriga.
Esta é a diferença que deveria mobilizar Temer: estourou nas suas mãos.
O massacre em Manaus foi o episódio mais bárbaro de que ouvi falar na história dos presídios brasileiros. A descrição do que aconteceu com os mortos, feita por pessoas da própria família, é cheia de detalhes tão macabros que diante deles a decapitação até parece um ato moderado.
O massacre me fez rever algumas ideias. Tinha tendência a superestimar o trabalho de inteligência. Percebi ali que a minha visão era parcial.
Tanto as autoridades do Amazonas como Temer sabiam da crise. Em Manaus já se conhecia o plano de atacar o PCC e ele foi revelado por vários relatórios da Polícia Federal, que realizou a Operação La Muralla e golpeou profundamente a Família do Norte.
Mesmo sem saber o que se passava em cada presídio, Temer foi informado sobre a guerra das organizações criminosas dentro e fora das cadeias. Seu homem de inteligência, o general Sérgio Etchegoyen, reuniu-se com parlamentares da Comissão de Segurança e relatou a possibilidade da guerra.
Dificilmente Etchegoyen deixaria de discutir o tema, em primeiro lugar, com o próprio Temer. Talvez não soubesse apenas, como sabiam as autoridades de lá, que a primeira batalha estava por acontecer em Manaus. É outro problema típico da burocracia. Ela anuncia grandes sistemas de inteligência integrados, chega a inaugurá-los, e nada acontece.
Em tempos de WhatsApp, era possível uma troca nacional convergindo para um pequeno grupo de análise que mapearia possíveis conflitos, orientaria transferências e outras medidas preventivas.
Temer está perdendo uma grande oportunidade de trilhar um caminho que outros recusaram. No auge da crise viajou para Portugal, onde foi ao enterro de Mário Soares. No fundo, está querendo dizer: não me envolvam muito com crise carcerária, estou aflito para passar esta fase de emergência, voltar a empurrar com a barriga, tratar dos temas que realmente me interessam.
Ele poderia ter-se reunido com parlamentares, mas não quis. Os deputados da chamada bancada da bala estavam interessados. Nessas circunstâncias, mesmo sem aceitar todas as suas premissas, os deputados desse grupo são interlocutores válidos. A segurança é sua bandeira e alguns são policiais experimentados.
Se fosse congressista, estaria discutindo com eles, pois o massacre de Manaus e a crise que ele explicita requerem um esforço nacional. Assim como é preciso superar a tendência de culpar uns aos outros, é preciso deixar para trás os tempos do nós contra eles.
Alguns temas, como esse dos presídios, são de tal gravidade que nos obrigam a reaprender a ideia de frente, do convívio entre posições distintas na busca de um denominador comum. Isso não significa abrir mão das próprias convicções. Apenas reconhecer que, num momento em que as organizações criminosas entram em guerra entre si, a sociedade unida tem uma excelente oportunidade para enfraquecê-las, dentro e fora das cadeias.
Pelo menos em tese, presidentes são pessoas que não deveriam recuar diante de um grande problema nacional. Eles têm uma chance maior de unificar a sociedade e apontar o caminho comum.
Mas, mesmo diante de uma grande ausência, como a de um líder nacional, a sociedade, depois do massacre de Manaus, despertou para a importância da reforma do sistema carcerário. Todos nós que trabalhamos nas ruas conhecemos a miríade de posições sobre o tema. A diversidade não impede soluções negociadas. O problema de segurança pública já é considerado pela maioria um dos mais graves do País.
Mesmo antes de Manaus já havia também uma compreensão crescente de que ruas e cadeias são relacionadas. A crise nos presídios transformou as eleições maranhenses numa grande ameaça de caos.
Nos conflitos no Amazonas, os presos concentraram sua energia em degolar e eviscerar seus inimigos. Ainda assim, fugiram 184. Com ferramentas para derrubar paredes, armas longas, oito túneis construídos, eles poderiam ter fugido em massa.
Com o surgimento do Estado Islâmico, também especialista em decapitar, ficou claro, pela série de atentados, que para eles somos todos iguais, não importa o que pensemos. Se somos iguais ante a barbárie, por que não nos igualamos na tarefa de nos defendermos dela?


Fernando Gabeira, 13/01/2017
MIL ESQUERDAS

Há uma sensibilidade de "esquerda" completamente estranha à esquerda marxista. Neste caso, o pensamento marxista passa a ser utilizado em pedaços (enunciados) nunca totalizáveis. Isso é necessário para a busca de um certo entendimento da realidade do capital, já que foi Marx o autor que talvez mais tenha escrito sobre ela, a Máquina. Assim, não é possível falar de uma esquerda, mas de muitas, mil, cem mil esquerdas. O que elas têm em comum é a afirmação das diferenças: singularizações múltiplas. Isso não é abstrato; insere-se em práticas sociais concretas, mesmo que não sejam visíveis ao olhar imediato do senso comum. A luta das minorias (não quantitativas, mas desejantes) serve como referência a tais esquerdas. É possível citar, a guisa de exemplos, algumas minorias com a marca da opressão sob variados matizes e gravidade. Os pobres, as mulheres, as crianças, os negros, os índios, os velhos, os loucos, os homossexuais (incluindo-se os "n" sexos),os imigrantes, entre muitas outras minorias, atravessam a História.Uma sensibilidade de esquerda é afetada pelas linhas coletivas que compõem tais minorias. Não para buscar uma identidade, mas para libertar a vida, ali onde ela é esmagada.

A.M.
Me leia enquanto estou quente.

Lygia Fagundes Telles

GRANDES ESCRITOS


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL

Num instante em que Michel Temer celebrava a queda da inflação e a perspectiva de eleger dois aliados para as presidências da Câmara e do Senado, a Lava Jato acomodou na porta do Palácio do Planalto mais um de seus filhotes tóxicos —uma investigação sobre um esquema que ajeitava empréstimos da Caixa Econômica para empresas em troca de propinas. No centro do novo escândalo estão personagens ligadíssimos a Michel Temer. Entre eles Geddel Vieira Lima, ministro até outro dia, e o ex-todo-poderoso Eduardo Cunha.

Cada vez que um pedaço da Lava Jato desaba nas proximidades de Temer, o brasileiro tem uma incômoda sensação de continuísmo. Governar é como desenhar sem borracha. E o PMDB de Temer é coautor do borrão que Lula, Dilma e o PT produziram. Por mais que se esforce, o brasileiro não consegue enxergar em Temer um bom exemplo. Vê, no máximo, um bom aviso.

A nova operação policial chega num instante em que o governo se prepara para enfrentar no Congresso a dura batalha da reforma da Previdência. E ainda está por vir a homologação das delações da Odebrecht, que alcançam o próprio Temer. Limpo, o governo teria dificuldades para emplacar o necessário aperto previdenciário. Sujo, nem se fala. Temer tenta se comportar como um São Jorge que veio salvar a República. Mas a Lava Jato insiste em avisar que São Jorge está casado com o dragão.

Do blog do Josias de Souza, 13/01/2017, 20:01 hs
MACHISMO NOSSO DE CADA DIA

A Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres) se manifestou em repúdio à chacina que matou 12 pessoas da mesma família - entre elas nove mulheres - durante uma festa de réveillon em Campinas (SP). De acordo com a nota oficial, o crime não é um caso isolado ou vingança pessoal, mas sim uma violência de gênero fruto do "machismo e da misoginia".  O órgão também reiterou compromisso em defesa da Lei Maria da Penha.

A ONU Mulheres ainda pediu para que as autoridades incorporem a perspectiva de gênero no processo de investigação policial, de acordo com as diretrizes nacionais sobre feminicídio. O texto, assinado pela representante da entidade no Brasil, Nadine Gasman, faz um apelo de investimentos em políticas públicas para mulheres.

"É inadmissível que os crimes de ódios às mulheres sejam disseminados. (...) Não é possível considerar as violências de gênero, como a sofrida pelas mulheres em Campinas, como casos isolados ou frutos de uma vingança pessoal. Ao contrário, tratam-se de casos de machismo e misoginia, que expressam a cultura de violência a qual todas as mulheres estão submetidas diariamente no Brasil", diz o texto da nota, publicada na terça-feira (10).
(...)

Do G1/Campinas e Região, 13/01/2017, 16:05 hs

ODILON REDON


Tríptico para hotel e sirene

II
Esta é a hora inaugural da noite.
Toda a energia esbaldada do dia
agora se recolhe compungida
por trás das persianas. Seis e oito.

Escurece. Os prédios olham de esguelha
pro trânsito feroz, domesticado
a custo. Uma sirene desgrenhada
se esvai, desafinando. Seis e meia.

Alguém no quarto ao lado liga um rádio.
No corredor, uma risada breve
responde a um inaudível comentário.

Mais risos soltos: a noite promete.
Lá fora está escuro – estamos em maio,
o inverno se aproxima. Quase sete.


Paulo Henriques Britto

STAND UP SHOW DO TRABALHADOR BRASILEIRO!


SEXTA-FEIRA, 13

A operação deflagrada pela Polícia Federal nesta sexta-feira (13), denominada "Cui Bono", que investiga irregularidades na concessão de empréstimos feitos pela Caixa, tem como um de seus alvos o ex-vice-presidente do banco e ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima. A operação só não foi deflagrada antes porque, como ministro, Geddel tinha foro privilegiado. 
(...)
Bárbara Lobato, Época, 13/01/2017, 14:43 hs

CELSO FONSECA - Mais Um Na Multidão


Está bem que você acredite em Deus. Mas vai armado.

Millôr Fernandes
SEM IGUAL

(...) O humor negro de Marx, a fonte do Capital, é sua fascinação por uma tal máquina: como isso pôde montar-se, sobre que fundo de descodificação e de desterritorialização, como isso funciona, cada vez mais descodificada, cada vez mais desterritorializada, como isso funciona tão solidamente através da axiomática, através da conjugação de fluxos, como isso produz a terrível classe única dos homens cinzentos que mantêm a máquina, como isso não corre o risco de morrer sozinho, mas, antes, o que faz e nos leva a morrer, suscitando até o fim investimentos de desejo que nem sequer passam por uma ideologia enganadora e subjetiva e que nos fazem gritar até o fim Viva o capital na sua realidade, na sua dissimulação objetiva! Nunca houve, a não ser na ideologia, capitalismo humano, liberal, paternal etc. O capital define-se por uma crueldade sem igual quando comparada com o sistema primitivo da crueldade, define-se por um terror sem igual quando comparado com regime despótico do terror. Os aumentos de salário, a melhoria do nível de vida são realidades, mas realidades que decorrem de tal ou qual axioma suplementar que o capitalismo é sempre capaz de acrescentar à sua axiomática em função de uma ampliação dos seus limites (façamos o New Deal, defendamos e reconheçamos sindicatos mais fortes, promovamos a participação, a classe única, venhamos a dar um passo em direção à Rússia que faz o mesmo em nossa direção etc.). Mas, na realidade ampliada que condiciona essas ilhotas, a exploração não para de endurecer, a falta é arranjada da maneira mais hábil, as soluções finais do tipo “problema judeu” são preparadas muito minuciosamente, o Terceiro Mundo é organizado como parte integrante do capitalismo.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA

controlar é tratar

TERCEIRO PÓS-DOUTORADO EM APUROS

RIO — O sinal vermelho é palco de malabaristas e vendedores de doce. E esta quinta-feira, em Botafogo, também de uma pesquisadora da Fiocruz. Ao contrário dos comerciantes e artistas que circulam entre os carros, Amanda Brum não queria dinheiro — pedia um emprego. Há quase três meses sem receber sua bolsa de estudos da Faperj, que é de R$ 4.100 para alunos de sua qualificação, ela está com dificuldades para terminar seu terceiro pós-doutorado e pagar as contas. A Faperj confirma que os pagamentos de novembro e dezembro de Amanda não foram depositados.

Vestindo uma camisa preta com os dizeres “Bióloga Mestre Doutora Procurando emprego”, Amanda distribuiu 100 currículos em um sinal de trânsito na Rua Visconde de Ouro Preto, em Botafogo, bairro escolhido pela localização estratégica entre o Centro e boa parte da Zona Sul. O sucesso foi muito além do esperado — o post no Facebook em que contou a iniciativa ganhou 2,8 mil curtidas e foi compartilhado 3 mil vezes em apenas quatro horas. Diversas pessoas solicitaram seu currículo na rede social.
(...)

Renato Grandelle, O Globo,13/01/2017, 08:27 hs


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UMA ÉTICA DA IMANÊNCIA
(..)
Toda filosofia que seja uma filosofia para a vida não pode tolerar a morte de outros para alcançar o que quer que seja. Recusar a morte implica, concomitantemente, recusar tudo que faça morrer. “Assassinato e suicídio são a mesma coisa, ou se aceitam ambos ou se rejeitam ambos” (Albert Camus, Homem Revoltado). Quando matamos alguém, mato a ideia que fazia dele, mas também o ser humano real que havia por trás. Se a filosofia rejeita o suicídio e a morte, então o filósofo não deve colocar-se nem como vítima nem como carrasco. Não há inimigos, seu lugar é ao lado dos homens.

Portanto, não poderia haver perigo maior para a revolta que o fanatismo. Por fanatismo podemos entender desde o nazismo até o marxismo, passando por interpretações religiosas extremas. Não há filosofia que justifique a morte e a opressão sem cair no mais profundo niilismo. É necessário manter-se fiel à Terra para afastar de si todo niilismo. Isto evita que a filosofia torne-se arma dos fanáticos que matam justificando uma transcendência injustificável. Não podemos jamais confundir este conceito tão caro a Camus com alguma forma de religião ou busca por transcendência. Revoltar-se significa ir contra aquilo que nega o mundo, isto é uma das mais potentes formas de afirmação: negar aquele que nega o homem, é a mais pura forma de afirmação da vida.

A revolta é uma força aqui e agora, um movimento de apropriação do real, ela acontece no devir, não é um iludir-se com um mundo melhor no futuro, trata-se de um apropriar-se das rédeas da situação, levando a tensão ao máximo: é uma condição existencial levada ao seu limite. A revolta está sempre no plano do possível, o revoltado quer na verdade manter algo que já tem. Ele diz “Basta!”, para impor um limite, que é o limite de sua constituição no mundo. Este movimento não está relacionado com o pobreza, muito pelo contrário, é o que há de mais íntimo e valioso que ele quer resguardar e manter. Também não há uma busca pela inversão de valores, não se trata do oprimido querendo tornar-se opressor (em termos nietzschianos: não há ressentimento). A revolta é a busca por um outro sentido, trata-se de uma transvaloração dos valores.

O filósofo camuseano é um revoltado porque sua filosofia amplia as possibilidades do real. Esta ética supõe um limite: uma linha existencial deve ser respeitada. O revoltado afirma um ponto extremo, uma linha que existe no encontro, uma fronteira que deve ser preservada. Daí nasce uma ética da revolta, uma maneira de ser fundamentalmente marcada pela revolta contra limites que são absolutamente invioláveis. Esta é a fórmula encontrada por Camus: afirmar e negar ao mesmo tempo, negar a condição de miséria humana afirmando algo em si que não pode ser submetido.
(...)

Rafael Trndade, do blog Razão inadequada, 14/12/2013

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017


CONVERSA EM CURSO

por que não paro de falar contigo
és duro na queda
ficas aí no meu ouvido
e mal te ouço

culpa há sem dolo
não queria que te fosses
a ausência como nódoa
como desfeita de quem falha

só que
não tinhas que partir tão cedo
falo não sei se ouves
assim ao afastar-te devagar


Vera Pedrosa

VALE DO CAPÃO, CHAPADA


A FILA ANDA

Um dia qualquer, pode ser quarta-feira na hora do almoço, seu ex-marido telefona para contar que está namorando. Talvez ele mande uma mensagem de celular ou um e-mail. Não faz diferença. Você recebe a notícia e, instantaneamente, as imagens ao seu redor saem de foco. Você respira fundo, tenta se recompor, mas a voz da pessoa com quem está almoçando vai ficando cada vez mais longe. Por alguns segundos, você ouve apenas o seu próprio batimento cardíaco, sangue pulsando com som estereofônico nos ouvidos. Acha que vai desmaiar. É uma sensação assustadora, que, ainda bem, desaparece como veio. Então você se ajeita na cadeira, retoma a conversa, e, penosamente, começa a viver sua nova realidade.

Quanto tempo faz desde a separação – um ano, oito meses? Você já deveria estar preparada. Ele é um cara legal, bonito, afetuoso, uma hora aconteceria. Claro, vocês andaram trocando mensagens no final do ano, ele ficou com o seu cachorro durante as férias, talvez você achasse que as coisas estavam de alguma forma se ajeitando. Mas não.

Em todo esse tempo, repare, ele nunca tentou tocar em você, nunca a convidou para fazer nada romântico. Ele a procurava de vez em quando, é verdade, mas sempre para falar dos problemas que o afligiam no trabalho, na família, nas relações com os amigos. Você confundiu a intimidade que persistia entre vocês com alguma forma de romance, mas não era o caso. O romance estava guardado para outro alguém, que pelo jeito apareceu.

Não há o que censurar, você bem sabe. Durante esse tempo você também esteve tentando, procurando, se divertindo. Gostou daquele cara tatuado – lembra? -, mas ele não quis mais sair. Houve aquele outro, do beijo no meio do jantar. Você jurava que iria rolar, mas não. Antes de sentir-se vítima das circunstâncias ou das pessoas, lembre dos homens que você esnobou. Eles ligavam, procuravam, persistiam, mas com eles você não queria nada. Faltava química, vontade de rever, saudades. Senão você estaria namorando.

A verdade é que você não se apaixonou desde a separação. Ele se apaixonou. Não há injustiça.
(...)

Ivan Martins, Época, 11/01/2017,14:54 hs

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

SEM TERRITÓRIO
(...)
Ele (gênero da velocidade da luz) suprime, primeiro, a importância do intervalo espaço, esta extensão que fez as fronteiras, os cadastros, que dispôs as populações no mundo como no man´s land e com uma organização geográfica. Mas ele suprime também o intervalo tempo que fez a história! Os calendários, as efemérides e os relógios estiveram na base da história dos homens. Esta organização dos relógios, que permite organizar a vida dos homens em períodos diferentes e em nações diferentes, é liquidada instantaneamente pelo terceiro intervalo do gênero luz, que elimina, então, simultaneamente, os intervalos de espaço e de tempo. É um acontecimento sem referência. 
(...)
Paul Virilio, 2000

SECOS & MOLHADOS - Sangue Latino


A verdadeira dialética

aí os caçadores chegaram
mataram o lobo e abriram a barriga
e encontraram a vovozinha
toda mastigadinha
quanto a chapeuzinho vermelho
eles comeram


Sebastião Uchoa Leite
ESPELHOS DO CRIME

Com o juiz Sergio Moro em férias e o Supremo Tribunal Federal operando em ritmo de recesso, imaginou-se que o noticiário policial poderia dar um refresco entre o Natal e o Carnaval. Mas houve apenas uma troca de personagens. Saíram momentaneamente das manchetes as facções criminosas do poder, que enfraquecem o Estado. Entraram em cena as facções barra-pesada, que aproveitam a impotência do poder público para se organizar e crescer.

As gangues de colarinho branco barbarizam a partir de gabinetes limpinhos e refrigerados. As facções de colarinho puído convertem presídios fétidos em centros decisórios da barbárie. Um grupo limpa os cofres públicos. O outro suja a paisagem de sangue. Num ou noutro caso, o Brasil mantém intacta no estrangeiro sua imagem de país exportador de descalabros.

Há algo em comum entre as facções de colarinho branco e os criminosos de colarinho puído. Os dois agrupamentos promovem a morte. A diferença é que os corruptos não portam armas. Suas vítimas morrem, por exemplo, nos corredores de hospitais sem verba. A bandidagem barra-pesada precisa ser mais explícita para virar notícia. Oferece a matança de rivais com decapitações.

Foi-se o tempo em que o brasileiro sonhava com uma solução para a criminalidade. Hoje, é preciso planejar o futuro levando em conta o insolúvel.

Blog do Josias de Souza, 10/01/2017, 19:40 hs

JOAN MIRÓ


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O CORPO É O ESPÍRITO

Em tempos de capitalismo aparentemente vencedor, o apelo a um suposto mundo "espiritual" torna-se um efeito-subjetivo quase inevitável, invencível. Configura almas bem intencionadas. O já conhecido escapismo platônico-cristão retorna com tudo e instiga doutrinas etéreas e práticas sociais, algumas assistencialistas, outras meros objetos de uma retórica oca. Não importa. É preciso tornar a realidade suportável, e enquanto tal fabricar um sentido para a existência, ainda que esse sentido esteja para além da vida. Este é o mote e o mantra que baliza o caminho da verdade nos dias que correm. As esquerdas (sempre elas...) originalmente interessadas em mudar o mundo, são trespassadas por um niilismo sorrateiro e convincente através da simples observação do caos social. A forma-Religião entope o sujeito com o seu cortejo de culpa e ressentimento. Para completar, uma ideia de progresso (científico?) e salvação (cristã?) vem na esteira de tais processos de subjetivação. As igrejas se multiplicam. Secretam uma espécie de droga da sensibilidade. Freiam e mortificam o desejo. Assim, o domínio da chamada espiritualidade se amplia muitíssimo, ao ponto de se poder dizer e sentir que ela fica como a única saída - ainda que ilusória - contra a destrutividade que assola o planeta azul. 

A.M.