terça-feira, 25 de julho de 2017

De que vivermos se não de paixões?

Carlos Drummond de Andrade
UM GRITO

O juiz substituto Renato Borelli, da 20ª Vara Federal de Brasília, determinou nesta terça-feira (25) a suspensão imediata do decreto publicado na semana passada pelo governo e que elevou a alíquota de PIS/Cofins que incide sobre a gasolina, o diesel e o etanol.
(...)

Mariana Oliveira, Tv Globo, Brasília,25/07/2017, 18:35 hs

JEAN-LUC PONTY - Mirage


Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Ás vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.


Eudoro Augusto
FUGIR É ENLOUQUECER

Uma fuga é uma espécie de delírio. Delirar é exatamente sair dos eixos (como "pirar" etc). Há algo de demoníaco, ou de demônico, em uma linha de fuga. Os demônios distinguem-se dos deuses, porque os deuses têm atributos, propriedades e funções fixas, territórios e códigos: eles têm a ver com os eixos, com os limites e com cadastros. É próprio do demônio saltar os intervalos, e de um intervalo a outro. "Que demônio deu o maior salto?", pergunta Édipo. Sempre há traição em uma linha de fuga. Não trapacear à maneira de um homem da ordem que prepara seu futuro, mas trair à maneira de um homem simples, que já não tem passado nem futuro. Trai-se as potências fixas que querem nos reter, as potências estabelecidas da terra. O movimento da traição foi definido pelo duplo desvio: o homem desvia seu rosto de Deus, que não deixa de desviar seu rosto do homem.
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet in Diálogos 
ONDE VIVE A DIFERENÇA?

A diferença não é um objeto sólido, visível, palpável, identificável em alguém ou em algo à nossa frente.Ela não se presta à relações estabelecidas pelo senso comum, ou mais, ou pior ainda, pelo bom senso das razões intelectuais, mesmo as mais elevadas. Nada mais baixo que ela ao nível da terra, nada mais sutil ela, quase imperceptível. Olhar de lince: a diferença. Ela se dá e se doa apenas a sensibilidades em estado selvagem, a animalidades circulando nos corpos da rua, na luz das veias inundadas por desejos sem órgãos, sem sistemas, sem métodos, sem deuses, sem respostas. A diferença é o bicho. Vive na espreita e da espreita. Surge quando menos se espera e não compactua com percepções grosseiras das formas do mundo adulto e acabado. Por isso e muito mais assusta os idólatras e os escravos das ordens mortuárias quando bem o dia está raiando num cheiro de acácias. A diferença, ela própria, não tem uma identidade, uma definição, nunca ninguém a fotografou. Não é uma imagem, ao contrário, ela é quem faz e tece imagens. Não tem rosto pois é ela quem o fabrica. Ele se torna, então, alegria aos montes vivendo no equilíbrio precário das linhas da arte. Inventa algo, alguma coisa pequena, ínfima, pura criação no e do tempo, ou o próprio tempo em "estado puro", a diferença, uma criança.

A.M. 
PEDOFILIA: O HORROR

O delegado da Polícia Federal (PF) Flávio Augusto Palma Setti disse que entre os presos da Operação Glasnost, deflagrada nesta terça (25) em 14 estados brasileiros, estão pais que abusavam das próprias filhas, um homem de 80 anos, e dois funcionários públicos que compartilhavam pornografia infantil através dos computadores do próprio órgão.

Pelo menos 15 vítimas já foram identificadas, ainda segundo a PF. "Um dos casos que nos chamou a atenção foi em Praia Grande, em São Paulo, de uma menina que sofreu abusos do pai entre os dois e oito anos de idade", contou o delegado.

Os abusos, conforme a PF, ocorriam na casa da avó da menina, sem o conhecimento de mais ninguém. "Os abusos só pararam porque ele ficou com medo que a filha contasse para as amigas".

Até as 11h50, 30 pessoas tinham sido presas, sendo 27 em flagrante e três preventivas. Professores, médicos, estudantes, um porteiro, entre outros, também estão entre os presos.
(...)

Adriana Justi, G1, PR, Curitiba,25/07/2017, 12:22 hs

GRANDES ESCRITOS


(19 DE JANEIRO)

Até esta chegar às suas mãos
eu já devo ter cruzado a fronteira.
Entregue por favor aos meus irmãos
os livros da segunda prateleira,

e àquela moça —a dos "quatorze dígitos"-
o embrulho que ficou com teu amigo.
Eu lavei com cuidado o disco rígido.
Os disquettes back-up estão comigo.

Até mais. Heroísmo não é a minha.
A barra pesou. Desculpe o mau jeito.
Levei tudo que coube na viatura,

mas deixei um revólver na cozinha,
com urna bala. Destrua este soneto
imediatamente após a leitura.


Paulo Henriques Britto
Mentalmente, moralmente, espiritualmente, estamos encalhados. O que realizamos ceifando cadeias de montanhas, domando a energia de rios poderosos ou deslocando populações inteiras como peças de xadrez, se nós mesmos continuamos as mesmas criaturas inquietas, infelizes e frustradas que éramos antes? Chamar tal atividade de progresso é extrema ilusão. Podemos obter sucesso em alterar a face da Terra até que ela pareça irreconhecível ao próprio Criador, mas se não formos afetados, qual é o sentido disso?
(...)

Henry Miller in O mundo do sexo

segunda-feira, 24 de julho de 2017

JORGE BEN - Oba Lá Vem Ela


SINAPSES DA ALMA

Os transtornos mentais não explicam nada. Eles é que devem ser explicados. Isto significa que a psiquiatria biológica (bem entendido, a psiquiatria hoje hegemônica) funciona com entidades clínicas fixas, endurecidas, coisificadas, os chamados transtornos. Munida deste apriorismo metodológico, a pesquisa clínica não avança, não descobre, não cria, desconhecendo o que se passa de fato com o paciente (ele não é escutado) bem como com as origens (causas) do seu estado psíquico "alterado". É uma constatação prática, até certo ponto óbvia. Escute pacientes, leia artigos e livros de psiquiatria. Tudo atual. Um dado complicador é o seguinte: o enquadre teórico desta psiquiatria notoriamente conservadora (em termos não só políticos) conta com traços autísticos. Travam o diálogo. São as neurociências. Elas seguem, sem dúvida, um cortejo sináptico de importantes descobertas imagéticas. No entanto, tais imagens, feitas para serem vistas no écran, passam a ser vistas por toda a parte, constituindo o próprio universo institucional da psiquiatria, e por extensão, os transtornos mentais-recheados-de-imagens, descarnados, desossados e que nada explicam. Deveriam ser explicados.

A.M.
O POETA

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.


Mia Couto

ALL THAT JAZZ - Bob Fosse


O SEGUNDO CÍRCULO

(...)
O segundo círculo é o do amor. O encontro Charlus-Jupien leva o leitor a assistir à mais prodigiosa troca de signos. Apaixonar-se é individualizar alguém pelos signos que traz consigo ou emite. É torna-se sensível a esses signos, aprendê-los (como a lenta individualização de Albertina no grupo das jovens). É possível que a amizade se nutra de observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta de interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma "alma": exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade dos seres amados, mas também à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado. É por essa razão que é tão comum nos apaixonarmos por mulheres que não são do nosso "mundo", nem mesmo do nosso tipo. Por isso, também as mulheres amadas estão muitas vezes ligadas a paisagens que conhecemos tanto a ponto de desejarmos vê-las refletidas nos olhos de uma mulher, mas que se refletem, então, de um ponto de vista tão misterioso que constituem para nós como que países inacessíveis, desconhecidos: Albertina envolve, incorpora, amalgama "a praia e a impetuosidade das ondas". Como poderíamos ter acesso a uma paisagem que não é mais aquela que vemos, mas, ao contrário, aquela em que somos vistos? "Se me vira, que lhe poderia eu significar? Do seio de que universo me distinguia ela?"
Há, portanto, uma contradição no amor. Não podemos interpretar os signos de um ser amado sem desembocar em mundos que se formaram sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros. O amante deseja que o amado lhe dedique todas as suas preferências, seus gestos e suas carícias. Mas os gestos do amado, no mesmo instante em que se dirigem a nós e nos são dedicados, exprimem ainda o mundo desconhecido que nos exclui. O amado nos emite signos de preferência; mas, como esses signos são os mesmos que aqueles que exprimem mundos de que não fazemos parte, cada preferência que nós usufruímos delineia a imagem do mundo possível onde outros seriam ou são preferidos. "Mas logo o ciúme, como se fosse a sombra de seu amor, se completava com o double desse novo sorriso que ela lhe dirigira naquela mesma noite – e que, inverso agora, escarnecia de Swann e enchia-se de amor por outro... De sorte que ele chegou a lamentar cada prazer que gozava com ela, cada carícia inventada e cuja doçura tivera a imprudência de lhe assinalar, cada graça que nela descobria, porque sabia que dali a instantes iriam enriquecer de novos instrumentos o seu suplício." A contradição do amor consiste nisto: os meios de que dispomos para preservar-nos do ciúme são os mesmos que desenvolvem esse ciúme, dando-lhe uma espécie de autonomia, de independência, com relação ao nosso amor. 
(...)

Gilles Deleuze in Proust e os Signos

ESCREVER, ESCREVER

Pensava que escrevia por timidez, por não saber falar, pelas dificuldades de encarar a verdade enquanto ardia, arvorava, arfava. Há muitos que ainda acreditam que começaram a escrever pela covardia de abrir a boca. Nas cartas de amor, por exemplo, eu me declarava para quem gostava pelo papel, e não pela pele, ainda que o caderno seja pele de um figo. O figo, assim como a literatura, é descascado com as unhas, dispensando facas e canivetes. Não sei descascar laranjas e olhos com as unhas, e sim com os dentes. Com as mãos, sei descascar a boca do figo e o figo da boca, mais nada. Acreditei mesmo que escrever era uma fuga, pedra ignorada, silêncio espalhado, um subterfúgio, que não estava assumindo uma atitude e buscava me esconder, me retrair, me diminuir. Mas não. Escrever é queimar o papel de qualquer forma. Desde o princípio, foi a maior coragem, nunca uma desistência, nunca um recuo, e sim avanço e aceitação. Deixar de falar de si para falar como se fosse o outro. Deixar a solidão da voz para fazer letra acompanhada, emendada, uma dependendo da próxima garfada para alongar a respiração. Baixa-se o rosto para levantar o verbo. É necessário mais coragem para escrever do que falar, porque a escrita não depende só de ti. Nasce no momento em que será lida.

Fabrício Carpinejar

PHILIP GLASS - Étude nº 2


Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando com seu olho gelado. “Vamos – diz ela – nada de convulsões, sei que você é da família dos possessos, mas não escreva como uma possessa, fale em voz baixa, sem exageros, calmamente.”
(...)

Lygia Fagundes Telles


domingo, 23 de julho de 2017

BALLET STAGIUM - Espetáculo Mané Gostoso


PSIQUIATRIA MATERIALISTA

Na medida em que o Caps “herda” o modelo hospitalocêntrico, mesmo que anuncie o inverso, o “fenótipo institucional”  tem uma aparência antimanicomial, ou busca isso, até para justificar a sua existência. A psiquiatria biológica ( a dos psicofármacos, da neuromania e da CID 10)  adentra ao serviço e costuma afrouxar as tensões em torno da suposta periculosidade e estranheza do louco e sua loucura. Não estamos nessa. Cabe dizer que uma psiquiatria materialista compreende “outra” psiquiatria, onde os fluxos de saberes e práticas impulsionam linhas do desejo numa operação de desmontagem da racionalidade científica. Isso em prol de uma semiótica do Encontro que é a própria experiência não médica da loucura.  Trata-se da produção de sentidos múltiplos para a existência, ou mais precisamente, de multiplicidades clínicas. Algo precede o transtorno mental. Não há, portanto, qualquer “superioridade” da psiquiatria biológica, quer epistemológica ou institucional. A sua função na clínica se reduz a um equipamento técnico, no caso, o psicofármaco, indicado em situações contingenciais. “Introduzir o desejo na produção e a produção no desejo” ,conforme dizem Deleuze-Guattari, é a operação de conectar a clínica psicopatológica aos fluxos coletivos que chegam de fora, mas que estão dentro do Caps como sua consistência prática: um corpo de intensidades a ser experimentado e inventado. Quem suporta?

A.M.
Instrução para Sísifo

Não tem perspectiva o que fazes. Bem:
tu o compreendeste, admite,
mas não te conformes,
homem da pedra. Ninguém
te agradece; linhas de giz,
que a chuva indolente lambe,
marcam a morte. Não te regozijes
antes da hora, o que não tem futuro
não é sucesso. Com
trágica própria tuteiam-se monstros,
espantalhos, áugures. Cala,
fala com o sol dois dedos de prosa
enquanto a pedra rola, mas
não te deleites com a tua impotência,
aumenta de um quintal
a ira no mundo, de um grão.
Faltam homens que realizem
em silêncio o que não tem futuro
e arranquem como grama a esperança,
seus risos, o futuro, a rolarem,
a rolarem sua ira sobre as montanhas.


Hans Magnus Enzensberger

CAETANO VELOSO - Coração Vagabundo


A LOUCURA DO MUNDO

Para novas práticas em saúde mental, é preciso saber (e dizer) que a subjetividade deslocou-se do eu e do cérebro para o desejo e o social. Do lado do desejo, são afetos de toda ordem que fazem a consistência do viver. Quanto ao social, máquinas técnicas aceleram o tempo, submetendo as antigas crenças do humanismo cristão a uma devassa dos ideais de verdade. É neste ponto de anti-mutação (pois tudo muda sem mudar - terrível paradoxo) que a subjetividade sofre o estilhaçamento das imagens (em maior ou menor grau), mas sempre imagens e seus efeitos corrosivos sobre a carne. Daí, não havendo mais carne ( a era do virtual) nem um eu que organize o caos subjetivo e suporte o turbilhão do mundo, resta a psicose como referência clínica em saúde mental. O aniquilamento do sentido da existência se traduz então nas práticas cada vez mais comuns de autoflagelação e suicídio, mesmo e principalmente entre os jovens. Confira as notícias midiáticas, os prontuários dos pacientes, ou apenas olhe em torno.

A.M.
A FRANQUIA BRASIL

É realmente impressionante a habilidade do presidente Temer de se esquivar dos ataques dirigidos contra ele.
Fosse o PT um partido sério, não essa bandinha de bate-bumbos para Lula dançar, estaria todo de bloquinho nas mãos, como residentes em um hospital, anotando as aulas do Dr. Temer sobre como se fazia política no século passado.
Neste século, infelizmente, não se criou nenhum método novo.
A tentativa do PT de inovar retirando dinheiro de estatais e transferindo diretamente aos congressistas se provou completamente ineficiente.
Muito fácil de ser descoberta, além de criar ciumeira e o escambau.
Amadores.
O Mensalão, o Petrolão, o Empreiterão, a JBSona provaram que a falta de método é o problema real do PT e por isso seu projeto de se perenizar no governo não deu certo como deu para o PMDB.
Zé Dirceu que o diga.
Ou Aécio, que esqueceu a habilidade do PSDB e destrambelhadamente saiu pedindo empréstimo.
Deselegante.
Muito mais chique é se encontrar com empresários, deputados e senadores na calada da noite.
Fazer conchavos secretos, que você e eu não seríamos capazes de entender nem se escutássemos numa gravação.
Politicamente correto é trocar apoio por cargos.
E não por dinheiro vivo.
Com Temer, voltamos confortavelmente à velha política.
A política em que as empresas públicas são uma espécie de franchising.
Funciona assim:
O governo do PT entuchou um monte de apadrinhados nas empresas públicas.
Aí, de acordo com a necessidade, foi abrindo as torneirinhas de dinheiro e distribuindo o dito cujo para conseguir o que queria.
Percebe que coisa cafona?
Coisa de novo rico.
Na velha política quatrocentona é diferente.
Você entrega as estatais para serem exploradas pelos partidos.
Como quem não quer nada.
Uma franquia mesmo.
Empresas públicas, que já provaram ser minas de ouro para quem quer surrupiar dinheiro público, precisam ser cuidadas com carinho.
Você dá essa lojinha para o sujeito e explica como fazer para ganhar dinheiro.
Pode indicar parente, pode disfarçar despesa como investimento, pode até mexer no balanço.
Mas com calma, sem muita sede ao pote, para não chamar a atenção.
Se for descoberto, o partido sabe que ninguém vai protegê-lo.
Feito o acordo, o agraciado rapidamente aprende que não se trata de um caixa eletrônico, como nos anos do PT.
Na velha política, tudo funciona mais como um investimento de médio prazo.
Os políticos da velha guarda não dão o peixe. Eles ensinam a pescar.
Quando a relação está madura, é só pedir em troca o que se deseja.
Quem sabe uma aprovação? Um acordo? Um adiamento?
Um quórum aqui, um veredito ali.
Percebe? Sem a grosseira troca de dinheiro.
E só há vantagens, pois é um esquema muito mais difícil de ser investigado.
Outra vantagem é que essa rede de franquias pode ser construída até quando não se tem os cargos principais do Executivo.
Basta estar próximo do poder.
Trocar um ou outro favor por uma estatal e pronto.
O PMDB, por exemplo, está nessa posição há mais de 30 anos, imagine.
A lição é essa. Calma e perseverança.
Diferente de um PT que foi com tanta sede ao pote que deu no que deu.
Perdeu a franquia.

Mentor Neto, Isto É, 21/07/2017, 18:00 hs
Dane-se a esperança.

George Carlin

DJAVAN - Oceano


A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes ouço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.


Fernando Pessoa

QUIM ALCANTARA


Aprendi que o artista não vê apenas. Ele tem visões. A visão vem acompanhada de loucuras, de coisinhas à toa, de fantasias, de peraltagens. Eu vejo pouco. Uso mais ter visões. Nas visões vêm as imagens, todas as transfigurações. O poeta humaniza as coisas, o tempo, o vento. As coisas, como estão no mundo, de tanto vê-las nos dão tédio. Temos que arrumar novos comportamentos para as coisas. E a visão nos socorre desse mesmal.

Manoel de Barros
A VIOLÊNCIA NATURALIZADA

O carroceiro Ricardo Silva Nascimento, assassinado pela polícia no dia 11 em plena hora do rush em São Paulo, não está sozinho. Além da onda de solidariedade e revolta que se seguiu ao crime, o morador de rua de 39 anos é acompanhado por uma longa lista, que já acumula apenas nos últimos dez anos mais de 5.000 nomes. Este é o total de pessoas mortas pela Polícia Militar de São Paulo no período. A maioria, ao contrário de Nascimento, que foi baleado em um bairro de classe média alta da capital, não ganhou as manchetes. São em sua maioria homens, jovens, negros, moradores da periferia e com baixa escolaridade. Policiais e especialistas ouvidos pelo EL PAÍS apontam que o PM puxa o gatilho, mas as engrenagens que fomentam a impunidade e a espiral de violência vão além da farda.

Os números da polícia em São Paulo impressionam. Entre janeiro e março deste ano, uma em cada três mortes violentas na cidade teve um policial como autor. A quantidade de vítimas da tropa no Estado aumentou 18% no primeiro trimestre deste ano comparado com o mesmo período de 2016: de 201 para 238. No ano passado as forças de segurança foram responsáveis pela morte de 856 pessoas. Para efeito de comparação, em 2016 apenas cinco pessoas foram mortas pela polícia em todo o Reino Unido. Em Buenos Aires foram 36 vítimas fatais. A região metropolitana da capital argentina, a Grande Buenos Aires, tem 13 milhões de habitantes ante os 45 milhões do Estado de São Paulo. Fazendo um exercício de aproximação, mantida a proporção argentina a tropa paulista teria matado 144 pessoas, e não 856.
(...)

Gil Alessi, El País, São Paulo, 22/07/2017, 20:47 hs

sábado, 22 de julho de 2017

ELIS REGINA - Cais


Há noites que eu não posso dormir de remorso por tudo o que eu deixei de cometer.

Mario Quintana
dizer  a verdade
fazer  uma verdade
delirar
quem consegue?


A.M.

CRONICAMENTE INVIÁVEL, de Sergio Bianchi, 2000


Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.

Nelson Rodrigues

SEMPRE NO MEIO

O que conta em um caminho, o que conta em uma linha é sempre o meio e não o início nem o fim. Sempre se está no meio do caminho, no meio de alguma coisa. O enfadonho nas questões e nas respostas, nas entrevistas, nas conversas, é que se trata, na maioria das vezes, de fazer um balanço: o passado e o presente, o presente e o futuro. Por isso mesmo, é sempre possível dizer a um autor que sua primeira obra já continha tudo, ou, ao contrário, que ele está sempre se renovando ou transformando. De qualquer modo, é o tema do embrião que evolui, seja a partir de uma pré- formação no germe, seja em função de estruturações sucessivas. Mas o embrião, a evolução, não são boas coisas. O devir não passa por aí. No devir não há passado, nem futuro, e sequer presente; não há história. Trata-se, antes, no devir, de involuir: não é nem regredir, nem progredir. Devir é tornar-se cada vez mais sóbrio, cada vez mais simples, tornar-se cada vez mais deserto e, assim, mais povoado. É isso que é difícil de explicar: a que ponto involuir é, evidentemente, o contrário de evoluir, mas, também, o contrário de regredir, retornar à infância ou a um mundo primitivo.
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet in Diálogos 

ORQUÍDEAS ETERNAS


QUEIMA DE ARQUIVO


Houve um tempo em que eu amava
em cada corpo o reflexo
do que eu queria ter sido.
No fundo do sexo eu buscava
o meu desejo perdido.

Acabei achando o outro
que em mim mesmo destruí.
Foi fácil reconhecê-lo:
de tudo que vi em seu rosto
somente o ódio era belo.

Esse morto adolescente
implacável e virginal
não me perdoa a desfeita.
Não faz mal. Eu sigo em frente.
Nem tudo que fui se aproveita. 


Paulo Henriques Britto
Não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa ... E que interessa o castigo ou o prêmio? ... Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte.
(...)

Lygia Fagundes Telles

MARISA MONTE - O Que Se Quer


BLOCOS DA MEMÓRIA HOJE  
                                                                           
O psiquiatra viaja em mundos distantes. Arrisca saltos no abismo em patologias vistas de perto. Quem é você? Que se passa? Mete-se no tempo das noites loucas do Sanatório Santa Mônica. Tão longe estão quanto intactas e livres. Houve um tempo que não passou e passou. Nutre-se de paradoxos. Faz rir.  O psiquiatra lembra que não há mais tempo. A hora esgotou-se como seringa descartável. O tempo deixou de ser um espaço, mesmo que de dança.Não mais que ontem, o tempo-passagem embriaga e dissolve espaços. As palavras soam bobas. Situações densas se quebram. O psiquiatra  se desloca pelos campos verdes do pensamento, aspira blocos de manhãs. Elas ardem na pele dos seres que ficavam. Café da manhã com luz queimando os olhos. O dia se avizinha. Prontuários entre canções de ninar. Manhãs insistem. Plantões voltam sempre, deitam no plantonista que sonha com psicoses. É hora de dormir com a manhã. Antes,  a insônia compunha os  insanos.  O círculo da velha juventude  e a gargalhada  dos pacientes seguiu os passos de um tempo a se fazer. Agora. Nenhuma crença move o passado. Não há falta. Um corpo muda e permanece na pele do sol que queima o filme de remédios na veia. Dois dois: amplictil com fenergan. O psiquiatra trabalha sem saber de si. Os olhos da loucura arregalam a manhã para além dos muros. Ele sabe  que não sabe o instante seguinte, ou onde estará o companheiro Marx. Marx! Marx! Suas pesquisas incluem a dor de existir tão profunda quanto a aparência dos que vivem das batidas incertas do mundo. Alguma coisa empurra o humor não psiquiátrico para uma alegria suspensa no ar. Sem garantias. Companheiros de textos  constroem em sua carne espiritual infinitos à mão. Entre si olham retinas ainda não cansadas pelos ardis da miséria. Uma máquina de fazer o cosmos  no mais rente ao chão, se esboça. O psiquiatra fala do passado para construir pedaços dispersos da memória vã rumo ao presente. Sem retorno.

A.M.

GRANDES ESCRITOS


Néctar

A verdade aproxima-se.
Olha-me com os olhos
abismados da beleza.

Não sou a mulher
que corta os pulsos e se joga da janela
nem aquela que abre o gás
nem mesmo a loba que entra no rio
com os bolsos cheios de pedra.

Sou todas elas.

Escrever me fez suportar todo incêndio

– toda quimera.


Marize Castro
Está bem que você acredite em Deus. Mas vai armado.

Millôr Fernandes
CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 3

Sob as condições do capitalismo, a potência dos afetos é reduzida a estágios vizinhos do zero. Basta citar, entre muitos exemplos, os grandes desníveis sócio-econômicos mundiais, a servidão voluntária e a violência naturalizada. Sob as condições da esquizofrenia, a potência dos afetos é reduzida também a estágios vizinhos do zero. Basta verificar os clássicos "estados residuais esquizofrênicos", a apatia profunda.  O que o delírio tem a ver com essas "duas" realidades? Vejamos: os afetos (desejos) são o que movem o delírio, e por extensão, a realidade (do capital e da clínica). Se esses afetos estão despotencializados, a realidade, apesar de parecer forte, natural e imutável, também está. É preciso defender os fortes dos fracos, como diria Nietzsche. Expresso concretamente em consumidores apassivados (cidadãos e/ou pacientes), e à serviço das estruturas conservadoras (instituições de toda ordem, o Estado incluído), o delírio e sua produtividade desejante rodopia em torno de si mesmo. O desejo sofre por ser interrompido. Seja na luta política ou na pratica clínica, as rupturas para o Novo só acontecem quando o desejo funciona como processo e não como forma estável (o diagnóstico psiquiátrico?). Desejar é, então, delirar. Tal concepção foge aos dualismos normal/anormal, racional/irracional, subjetivo/objetivo, homem/mulher, etc, em prol de um funcionamento construtivista do desejo. Pois este não é algo natural e sim construído, maquinado, agenciado conforme as circunstâncias das forças em relação. Revoluções (de qualquer tipo) são produções desejantes, mesmo que traídas.No campo da psicopatologia clínica, o delírio do paciente (se houver) será avaliado ao início segundo coordenadas ético-políticas, antes que técnicas. Estas são importantes, claro, mas deverão estar à serviço do desejo-produção e não o contrário. Estão aí alguns conceitos básicos para o trabalho de uma psiquiatria materialista, ou seja, a que põe o desejo na produção e a produção no desejo, ao dizer de Deleuze-Guattari nas páginas luminosas do Anti-édipo.

A.M.

STACEY KENT & MARCOS VALLE - Passa Por Mim


Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção — isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.

Fernando Pessoa
GUERRA E POLÍTICA

Sou contra a inteligência militar, não sou contra os homens de guerra. Por quê? Porque eu os conheci, eles são a mesma coisa. Numa briga, não existe diferença entre um membro de um sindicato, um pobre sargento, ou um oficial de baixo escalão (deixemos de lado os oficiais de alto escalão; afinal há uma questão de responsabilidades). Quer saibam, ou não, eles são dominados pela máquina-de-guerra. Assim, minha oposição à guerra é uma oposição à essência da guerra na tecnologia, na sociedade, na filosofia da tecnologia, etc (...) Minha oposição não é uma oposição aos homens (...) não tenho reflexo racista. (...) Não sou contra os militares como as pessoas são contra os padres; sou contra a inteligência da guerra que escapa do político. 
(...)

Paul Virilio, 1986
VIDA DE GADO

Os satélites são cronistas mecânicos do processo de desmatamento da floresta Amazônica. Ao vasculhar e documentar através dos anos a degradação e os vazios criados pelo corte raso da mata, firmam um veredito: dois terços da área desmatada virou pasto. No chão, a contagem do gado mostra que a Amazônia é território mais de boi do que de gente. Em 2016, a quantidade de gado na região chegou a 85 milhões de cabeças, em comparação a uma população humana de 25 milhões de habitantes -- mais de três bois por pessoa. No município de São Félix do Xingu, que contém o maior rebanho do país, essa proporção chega a 18 para 1.

Os números amazônicos costumam ser imensos. A Amazônia Legal abrange 61% do território do Brasil e contém 40% do rebanho nacional. O gado é mantido em cerca de 400.000 fazendas espalhadas pela região, com tamanhos que variam de alguns poucos até dezenas de milhares de hectares. Então, quando a ONG Imazon terminou um novo e detalhado levantamento sobre os frigoríficos da região, a grande surpresa foi encontrar um número pequeno: apenas 128 instalações de frigoríficos ativos, pertencentes a 99 empresas, são responsáveis por 93% do abate anual, algo como 12 milhões de cabeças de gado.
(...)

Eduardo Pegurier, El País, 21/07/2017, 20:41 hs

sexta-feira, 21 de julho de 2017

RECEITA

Ingredientes:
2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituido
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos

sirva o poema simples ou com ilusões


Nicolas Behr

GRANDES ESCRITOS


TRANSTORNO DO HUMOR


A alegria subverte a  clínica. E não é maníaca, tampouco faz o par alternante com a depressão. A alegria é o combustível da produção desejante de territórios  existenciais. Ela se espraia para além de duas pessoas ( por exemplo, o técnico e o paciente) que  se olham (por que?) sob uma linha de verticalidade hierárquica. Há algo mais. Nada a ver com o efeito fluoxetínico da psiquiatria biológica. Já sofremos demais. A alegria não se reduz à adequação do paciente ao meio social. Se há ou haverá uma revolução, ela é a Alegria, a força maior. Desse modo, a equação “bom comportamento=saúde mental” pode e deve ser substituída pela da “potência= alegria=produção de mundos”. Este é o poema.
(...)

A.M. in Trair a Psiquiatria
Amar é sofrer. Para evitar sofrer, não se pode amar. Mas, então, sofre-se por não se amar.

Woody Allen

JOAN MIRÓ


quinta-feira, 20 de julho de 2017

NO FUTURE

(...)
Não sei que impacto teria a morte de inocentes em outros lugares. Mas a morte de crianças e adolescentes no Rio é recebida com uma certa resignação.
O terrorismo não é o melhor parâmetro. Mas suas vítimas são cultuadas e as próprias autoridades aparecem para visitar as famílias. Absortos em suas manobras defensivas, os políticos não têm sensibilidade para isso. Nem espero que tenham nesta encarnação.
No entanto, não importa que governo fique de pé, é essencial conseguir dele alguma resposta à violência urbana. Na verdade, seria necessário que tivesse uma visão clara de como gerir os colapsos que explodem em vários pontos da máquina.
A sucessão de crimes nas cidades e sucessão de escândalos no poder produziram uma certa anestesia. Suspeito que muita gente vai se perguntar se ainda vale a pena gastar alguma energia em mudanças. Creio que uma resposta negativa tende a perpetuar essa etapa constrangedora da história moderna brasileira.
Não porque goste de eleições e tenha muita paciência com o festival de demagogia que gravita em torno delas. É que não vejo outra saída. Ainda assim uma saída estreita, precária. Esta é sociedade mais extensamente informada de nossa história moderna. Talvez consiga um Congresso renovado que, apesar de modesto, pelo menos não atrapalhe.
A política tornou-se um tema central porque a corrupção e suas consequências roubaram a cena. Sem esses fatores dispersivos, é possível concentrar mais energia em campos que, realmente, nos empurram para a frente: trabalho, inovação, conhecimento.
A política terá o seu papel, que certamente vai se desenhando pelo caminho. Mas não pode mais ser essa pesada mala nas costas do país. Mala cheia de malinhas: dinheiro, joias, obras de arte, cartões de crédito, contas no exterior.
Mas o grande peso mesmo não é monetário. É a perda de esperança num futuro comum, o eclipse de um sentimento de país.

Fernando Gabeira, 16/07/2017
dizem que a minha dor
ainda não é poesia

não tenho fingido
o bastante?

tem que doer de verdade
pra ser poesia?

precisa machucar tanto?
pra que ferir?

eu gosto mais
quando você é suave

eu gosto mais
quando você me abraça 


Nicolas Behr

PHILIP GLASS - In The Upper Room Dance II


Conheço apenas o medo, é verdade, tanto medo que me sufoca, que me deixa a boca aberta mas sem fôlego, como alguém a quem falta o ar; ou noutras alturas, deixo de ouvir e fico subitamente surda para o mundo. Bato os pés e não ouço nada. Grito e não percebo nem mesmo um pouco do meu grito. E também às vezes, quando estou deitada o medo volta a assaltar-me, o terror profundo do silêncio e do que poderá sair desse silêncio para me atingir e bata nas paredes das minhas têmporas, um grande, sufocante pavor. Eu então bato nas paredes, no chão, para acabar com o silêncio. Bato, canto, assobio com persistência até mandar o medo embora
(...)

Anaïs Nin
Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar.

Fabrício Carpinejar

ANA CAROLINA - Beatriz


CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 2

Todo delírio é composto por crenças, ou melhor, por um sistema de crenças.Isso é fácil de verificar na observação psicopatológica e até mesmo fora dela, mas com implicações na própria clínica. Uma crença diz respeito à verdade e por extensão à realidade. O senso comum da psiquiatria costuma dizer que o esquizofrênico está fora da realidade. Mas, de que realidade se trata? E o que é a Realidade? É o que vem de fora, o que chega do mundo, ou seja: o próprio mundo. Subjetivo e objetivo, mundo interno e mundo externo, são apenas categorias marcada pelo selo do pensamento idealista. O mundo atual-real é o mundo capitalístico planetário regido por axiomas em torno do valor-dinheiro. Tais axiomas (verdades "verdadeiras" por si mesmas) fabricam o tecido da subjetividade, os afetos. Desse modo, não podemos considerar a vivência delirante como um simples "sintoma" ao modo biomédico de pensar, mas como uma vivência constitutiva do modo de viver burguês. Assim, para ser possível encontrar o paciente, o delírio deve ser conectado às circunstâncias sócio-institucionais em que vive o delirante. No século XIX a forma-psiquiatria criou a entidade clínica esquizofrenia (chamada então de demência precoce), codificando a loucura com um rosto de identidade para outra identidade, a própria psiquiatria. Mas a incessante produção-consumo material e semiótica promovida cada vez mais pelo capital em escala internacional dissolveu os códigos e territórios existenciais, e fez do indivíduo moderno um "esquizofrênico normal". É que o eu funciona conforme os mil fluxos de informações, comunicações, virtualidades, imagens, mídias, notícias, narrativas, etc... Máquinas sociais gigantescas ou micromáquinas via on-line operam na intimidade psíquica a produção do sentido. Este passou a ser um universo delirante, não como doença orgânica, mas como entidade psicossocial encarnada na pessoa, paroxismo do humanismo cristão. Produção-consumo de felicidade.A realidade ela mesma tornou-se delirante para que possa continuar existindo, funcionando e modelizando as condutas. Basta considerar o espectro da ação subjetiva do capital financeiro e suas implicações abstratas na vida concreta das pessoas. Portanto, temos a equação 1) capitalismo=desejo submetido às mais loucas abstrações, colapso do eu e da consciência e 2) esquizofrenia=desejo submetido à forma-psiquiatria operando na clínica do eu dividido, cindido: "ele perdeu o juizo". Se levarmos, se acelerarmos tais proposições em direção aos fluxos do desejo enquanto processo não capitalístico, não esquizofrênico, mas como devir, muda a perspectiva da clínica em saúde mental e muda a perspectiva da ação política. O devir como delírio não medicalizado passa a afrontar a organização do tempo instituído da consciência. Entramos no terreno das intensidades da arte e da poesia. Daí, a inferência óbvia: tudo muda porque tudo flui, inclusive e principalmente a Realidade.

A.M.
ENCONTROS

Quando se trabalha, a solidão é, inevitavelmente, absoluta. Não se pode fazer escola, nem fazer parte de uma escola. Só há trabalho clandestino. Só que é uma solidão extremamente povoada. Não povoada de sonhos, fantasias ou projetos, mas de encontros. Um encontro é talvez a mesma coisa que um devir ou núpcias. É do fundo dessa solidão que se pode fazer qualquer encontro. Encontram-se pessoas (e às vezes sem as conhecer nem jamais tê-las visto), mas também movimentos, idéias, acontecimentos, entidades.
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet, in Diálogos

JONAS GERARD


Alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo colocado apenas uma nova máscara de papelão.
(...)

Charles Bukowski
MANHÃ DE SOL com AZULEJOS 
  
Tudo se veste da cor de teu vestido azul  
Tudo - menos a dona do vestido:  
meus olhos te passeiam nua  
pela grama do campo de golfe 

Uma curva e eis-nos diante de meu coração

Não amiga não temas  
meu coração; 
é apenas um chapéu surrado  
que humildemente estendo  
para colher um pouco de tua alegria  
de tua graça distraída  
de teu dia


Francisco Alvim

FAZENDO BICO


quarta-feira, 19 de julho de 2017

ANTI-PARANÓIDE

Para haver encontros que criem e não reproduzam universos estáveis,  é preciso intercessores. Eles podem ser qualquer coisa e são o que nos força a pensar. No caso da clínica, como vimos,o que força a pensar é o delírio não medicalizado que tem na esquizofrenia a sua expressão acabada. Para um bom encontro com o paciente, a loucura-em-nós é um exercício de sensibilidade: uma  ética. Busca aumentar a potência de viver. Por outro lado ela não existe fora das linhas  de força que  compreendem  relações de poder. Tais relações compõem a trama das instituições que conduzem e/ou esmagam a produção desejante.Toda ética é uma política, ou mais precisamente, uma micropolítica imanente à clínica. Isso não costuma  se mostrar ao olhar psiquiatrizado  ou  psicologizado. O olho psi é um olho homogeneizado e homogeneizador. Ele “persegue” o semelhante e o humano em toda a parte. É um olho paranóide.

A.M.

Quero te dizer que nós as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo, dobra-se sempre às nossas decisões. Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos farão plenos e verdadeiros.
(...)
Lygia Fagundes Telles

EDUARDO DUSEK - Cabelos Negros


Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams
ESPÍRITOS DO PRESENTE

A enorme estrutura de concreto da usina hidrelétrica Teles Pires, na fronteira do Mato Grosso com o Pará, na Amazônia brasileira, foi erguida onde, há centenas de anos, os ancestrais do povo munduruku foram enterrados. Os ossos, depositados em urnas de barro como prevê a tradição munduruku, foram retirados do local e, por muito tempo, os indígenas não sabiam onde haviam ido parar. É por isso, afirmam, que seus parentes estão tristes, que seu povo vem adoecendo.

A devolução das urnas, para que sejam enterradas em um local onde o "homem branco" não tenha acesso, é uma das reivindicações dos cerca de 200 munduruku que desde a madrugada do último domingo acampam no canteiro de obras de outra usina, a São Manoel. A hidrelétrica está sendo construída no entorno de suas aldeias e em meio a seus locais sagrados, assim como a Teles Pires já está em funcionamento. A São Manoel fica bem no Morro do Macaco e em áreas de cachoeiras em que, para os munduruku, vivem espíritos dos animais. 
(..)

Talita Bedinelli, El País,São Paulo, 18/07/2017, 22:20 hs

terça-feira, 18 de julho de 2017

TZVIATKO KINCHEV


A realidade é dura, mas ainda é o único lugar onde se pode comer um bom bife...

Woody Allen
       peixes de luz

         
         pessoas
         fossem peixes de luz

         fosforecessem
         sob algas invisíveis

         no mel do outono

         nenhum anzol
         ousasse fisgá-las

         palavra alguma
         profanasse
         a voz do silêncio

         apenas arrepio de pele
         eriçar de pêlos
         crispas d´água

         lua mínima ardendo
         na fase pálida do papel



             Ademir Assunção