sábado, 18 de novembro de 2017

Os críticos podem dizer que determinado poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
(...)

Fernando Pessoa
SEM FORMOL

Legiões de psiquiatrizados de toda parte ajoelham-se no altar dos psicofármacos e dos cérebros conservados em formol. Tudo conspira a favor do consumo de pacotes cientificamente autorizados para ações lucrativas.No entanto, mesmo desbotada e segregada nos grilhões macios da ciência positivista, a diferença resiste. A ética da potência de viver afirma-se nos versos de poetas itinerantes.O discurso e a prática da diferença  exploram o avesso da ordem do Estado capitalista e de suas instituições congêneres. Quem se interessa  em criar, fazer nascer? Pergunta  insana, na  medida em que os  poderes investem na repetição do Mesmo e  no  rigor  mortis do pensamento. Por isso, uma clínica da diferença considera as determinações sócio-políticas como a superfície da ação mais concreta. Em suas  pesquisas não encontra respostas exatas,mas problemáticas instigantes. Se a loucura é a experiência que atravessa a subjetividade, (mesmo que não estejamos loucos, entramos num devir-loucura), tudo muda na percepção fina da realidade do mundo. Um novo universo se  desvela.

A.M.

GEORGI PETROV


Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa


Sophia de Mello Breyner Andresen
Você pode viver até os cem anos se abandonar todas as coisas que fazem com que você queira viver até os cem anos.

Woody Allen

STEVIE WONDER & AISHA MORRIS - Rock in Rio/2011


O POETA DA MADEIRA

Sob o silêncio das mortes tranquilas, tombou na quarta-­feira o artista irremovível, que viveu para gritar, em poemas de madeira, contra a destruição da floresta brasileira. Frans Krajcberg não morreu em vida antes de extinguir-se aos 96 anos; não permitiu que seu espírito apodrecesse sob o pesticida dos cinismos confortáveis. Viveu até o fim uma vida plena de amor e arte, de comunhão criativa com a natureza de sua terra em Nova Viçosa, no sul da Bahia. Sua obra – pinturas, fotografias, esculturas – fincou raízes definitivas na arte contemporânea. Os brasileiros, e o mundo, não precisavam dela para conhecer a devastação da Amazônia e nossa agressão incessante ao planeta. Esses fatos são notórios há muito tempo. Por meio de sua arte, Krajcberg nos ofereceu algo mais raro, precioso: sua dor – a dor humana – diante dessa tragédia. Ofereceu-nos a sempre estranha possibilidade de empatia com outros organismos vivos. Pelo engenho e pela sensibilidade de Krajcberg, uma árvore calcinada deixava de ser somente mais um pedaço de madeira retorcido, abandonada à irrelevância dos grandes cinzeiros amazônicos. A árvore calcinada ganhava, em morte, a vida que tivera antes de ser assassinada pelo homem. Krajcberg era um artista tão soberano de sua técnica que extraía de restos de madeira, a um só tempo, afeto, beleza e sofrimento. Algo de sublime atravessa todos os troncos que esculpiu. Graças à arte de Krajcberg, o Brasil e o mundo puderam não apenas ver, mas sentir o lento e seguro assassinar de tudo que é verde no país. Ainda que o desmatamento das florestas e o desprezo dos homens pelo meio ambiente persistam, hoje ambos são seguramente menores do que eram antes de Krajcberg.
(...)

Diego Escosteguy, Época, 17/11/2017, 22:11 hs

SALVADOR, MEU AMOR


Mar de primavera -
O dia todo
Lentamente ondula.

Yosa Buson
A PAIXÃO TRAÍDA


O cronista Nelson Rodrigues, há mais de 50 anos, já constatou: “o pior cego é o que só vê a bola”. Numa corte de Nova Iorque, nesta semana, é um senhor frágil, de cabelo e tez branca que se depara diante da juíza federal Pamela Chen. O julgamento contra José Maria Marin, entretanto, não é apenas contra um dirigente que comandou a CBF. Trata-se, na realidade, de um processo sobre o próprio futebol nacional, sobre seus cúmplices e suas entranhas do poder. Um processo contra aqueles que promoveram uma cegueira quase generalizada.

Conforme a data do julgamento se aproximava, não foram poucos os dirigentes da Fifa e da CBF que me admitiam que estavam preocupados sobre o que poderia surgir do processo. Hoje, depois de pouco mais de dez dias de audiências, tudo o que essas entidades temiam se transformou em realidade. Acusados e testemunhas passaram a usar a corte como um palco privilegiado para revelar um lado obscuro do esporte. O futebol como ele é.

Para se defender das acusações de corrupção, os advogados de Marin usaram um fato que qualquer um envolvido na CBF sempre via: ele jamais a governou sozinho. Seu braço direito, vice-presidente e homem que o acompanhava a todas as reuniões era Marco Polo Del Nero, o atual comandante do futebol brasileiro desde 2015. Para a defesa de Marin, quem “tomava as decisões” era o seu vice.

Ainda que seja uma estratégia dos advogados para reduzir a responsabilidade de seu cliente, a realidade é que a tática surpreendeu a muitos dentro da CBF e Del Nero foi jogado para o centro do debate.

Nos dias que se seguiram, coube ao argentino Alejandro Burzaco, ex-executivo que comprava direitos de TV de torneios sul-americanos, admitir que a corrupção era a regra do jogo. Na qualidade de testemunha, seu relato confirmou os pagamentos a Marin. Mas também indicou que o próprio Del Nero o procurou em 2014 para negociar um aumento da propina. O entendimento com o futuro chefe do futebol brasileiro ainda vinha com um pedido: adiar o pagamento do suborno para 2015, quando Marin não seria mais presidente da CBF. Assim, Del Nero não teria mais de dividir a propina com seu “amigo”.

As audiências ainda jogaram ao centro da arena Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF entre 1989 e 2012. Ele teria recebido, desde 2006, US$ 600 mil por ano em propinas para ceder contratos de transmissão da Copa Libertadores e da Copa Sulamericana.

Não escaparam nem mesmo grandes grupos de imprensa do Brasil e América Latina, citados pela única testemunha ouvida até agora como parte de um esquema de corrupção. No caso da TV Globo, ela foi mencionada como tendo destinado supostas propinas para ficar com o direito de transmissão das Copas de 2026 e 2030, algo que a empresa nega de forma veemente.

O processo também atinge em cheio as pretensões do Catar de sobreviver como sede da Copa até 2022. O ex-dirigente argentino, Julio Grondona, morto em 2014, foi apontado nesta semana como receptor de US$ 1 milhão em troca de seu voto aos árabes para que pudessem sediar o Mundial. Ele era o presidente do Comitê de Finanças da Fifa e, em outras palavras, era o dono da chave do cofre da entidade.

Ao relatar o caso, Burzaco revelou como Grondona o contou bastidores do dia da votação. Nas primeiras rodadas, o então presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, teria votado pelo Japão e Coreia do Sul. Num dos intervalos, Grondona e Teixeira chegaram até o paraguaio e o “chacoalharam”. “O que você está fazendo?”. Quando o processo eleitoral foi retomado, Leoz mudou de comportamento e votou pelo Catar.

O tsunami das declarações chegou ainda até a Argentina. Na noite de terça-feira, Jorge Alejandro Delhon, um dos executivos denunciados, teria se matado. As audiências ainda tiveram cenas de dramalhões latino-americanos, com Burzaco chorando diante do que poderia ser um ato de intimidação de um dos acusados, o ex-presidente da Federação Peruana de Futebol, Manuel Burga. O peruano o teria feito um sinal de cortar o pescoço, em plena audiência.

Horas depois, a testemunha não conseguiria segurar as lágrimas quando lembrou que fora avisada de que a polícia argentina o mataria se retornasse ao país.

Entre supostas ameaças, choros, mortes, relatos extraordinários e contas milionárias, não deixa de chamar a atenção o fato de que o processo está apenas em sua segunda semana. Por mais um mês, como num cenário de um jogo de Copa descrito pelo cronista, o mundo da cartolagem e seus cúmplices viverão “uma suspensão temporária da vida e da morte”.

Todos os citados, por enquanto, negam qualquer tipo de responsabilidade. Mas o que o processo começa a revelar é que, de fato, uma paixão nacional foi tomada por um grupo com um único objetivo: o enriquecimento próprio. De forma infesta, sequestraram uma das poucas coisas que é legítimo em um torcedor: sua emoção. A cada partida assistida em campo ou na televisão, em cada camisa comprada, em cada item adquirido, o torcedor aparentemente não financiou o futebol nacional. Mas seus donos, em contas secretas em Andorra, Suíça e paraísos fiscais.

Desde criança, foi vendida a história a todos nós de que aquele time de amarelo nos representa. Quando ganha, é o presidente da República quem os recebe, como heróis nacionais numa conquista “do país”. Quando é humilhado em campo, é uma nação que flerta com a depressão.

Em Nova Iorque, enquanto a cegueira começa a se dissipar, estamos vendo que esse futebol “nacional” tem dono. E não é o torcedor.

Jamil Chade, El País, 17/11/2017, 22:22 hs

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

NÃO SEREMOS SALVOS

(...)
Não importa tanto se um grande líder vai emergir dos escombros. Mesmo se aparecer, não será um anjo. Não elegeremos anjos em 2018. Nunca o faremos, creio eu.
A fronteira do pessimismo não nos deve desesperar. Há algumas instituições funcionando, há grupos trabalhando na busca da transparência, há a possibilidade real de que todos os que querem mudança encontrem pontos de contato, um denominador comum.
Como o poeta que fabrica um elefante de seus poucos recursos, a sociedade brasileira terá de construir seu sistema de defesa. Alguns móveis velhos, algodão, cola, a busca de amigos num mundo enfastiado que duvida de tudo – o elefante de Drummond é inspirador.
Quem sabe, como em Portugal, conseguiremos construir nossa própria geringonça? Prefiro essa visão modesta e realista a esperar dom Sebastião. Curado de sua megalomania, talvez o Brasil aceite, finalmente, tornar-se um grande Portugal.

Fernando Gabeira, 17/11/2017

ROBERTA SÁ & NEY MATOGROSSO - Peito Vazio


OH LULA 

O maior problema político de Lula não é o fato de ele ter ficado parecido com os políticos que atacava. Seu principal drama é a evidência de que Lula ficou muito diferente do que diz ser. Num instante em que Lula percorre o país como defensor dos pobres, a Procuradoria pede, em Brasília, o sequestro de seus bens e de seu filho Luís Cláudio no montante de R$ 24 milhões. A defesa de Lula contestou o pedido. Sustentou não haver provas contra ele na Operação Zelotes. Mas não disse nenhuma palavra sobre o valor requerido pelo Ministério Público Federal.

Lula atravessou ileso o escândalo do mensalão. Sobreviveu à ruína produzida por sua criatura Dilma Rousseff. Alvo de diversos inquéritos e ações penais, mantém a pose de perseguido. Condenado a 9 anos e meio de cadeia, conserva-se no topo das pesquisas. Mas deve tornar-se inelegível. E já perdeu aquela aura de político imbatível. Seu prestígio diminuiu na proporção direta do aumento do seu patrimônio.

Este não foi o primeiro pedido de bloqueio de bens. Sérgio Moro mandara sequestrar R$ 10 milhões em julho. Quando o Banco Central achou R$ 600 mil numa conta corrente de Lula, o PT disse em nota que seu líder supremo morreria de fome. No dia seguinte, descobriram-se mais de R$ 9 milhões em planos de previdência privada. Lula dizia ser um palestreante de sucesso. Mas delatores da Odebrecht informaram que as palestras eram mero truque para bancar com dinheiro sujo os confortos de um benfeitor. A fortuna de Lula não combina com os valores morais que ele acha que representa.

Do Blog do Josias de Souza, 17/11/2017, 00:48 hs
Desde Sempre em Mim

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heroicas

Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento
Desde sempre, amor, redescoberto em mim.


Hilda Hilst

ROMEU FERREIRA


O FIM É O COMEÇO

Com o fim do diagnóstico psiquiátrico (enquanto instrumento terapêutico), restam os grandes conjuntos síndrômicos a balizarem a clínica. Eles surgem de um real atual atravessado pelo horror dos tempos. A morbidade psícossocial aniquila territórios subjetivos no cotidiano das velocidades caóticas. No caso brasileiro, uma opressão oficial sustentada pela democracia representativa traz à luz a sabotagem do desejo. Este sofre por ser interrompido, por não produzir produzindo e daí estancar em linhas patológicas a erosão crônica do Sentido. Em que acreditar? Nada mais resta exceto arcaísmos religiosos tanto quanto arcaísmos escolares, estatais, familiares, acadêmicos, jurídicos e tantos outros. Chamamos de arcaísmo a organização das transcendências (algo para além da vida, dores imaginárias, fantasmas, fetiches, idolatrias, etc) que, no caso da psiquiatria, substituem os verdadeiros problemas, espécie de mecanização tosca do pensamento. A entronização e a reificação do cérebro cumprem, pois, a função de imbecilizar modos de subjetivação (a figura do doutor, por ex.) através da fabricação de pseudo-diagnósticos neurológicos (alguém já viu um cérebro funcionando?) voltados à reparação de circuitos lesionados e à venda de códigos científicos como artigos de fé. Desse modo, o fim do diagnóstico é correlato ao começo de uma era onde tudo é tecnologia de controle ao gosto das populações consumidoras de ordens implícitas.


A.M.
O verdadeiro amor não conhece fronteiras,
Nem preconceitos raciais ou sociais,
Nem divergências religiosas ou interesses materiais,
O verdadeiro amor nasce porque tem de nascer,
Pois é como uma flor que desabrocha sob o calor do sol,
Para que simplesmente cumpra o seu destino.

Rabindranath Tagore

EGBERTO GISMONTI - A Fala da Paixão


DE BRASÍLIA

Um aluno de 8 anos desmaiou de fome, nesta semana, enquanto assistia à aula em uma escola do Cruzeiro, no Distrito Federal. A criança mora no Paranoá Parque, um empreendimento do Minha Casa, Minha Vida. Como não há colégio público no local, as 250 crianças do condomínio percorrem 30 quilômetros, todos os dias, para frequentar a escola.
"A gente chamou o Samu. Quando o Samu chegou e fez o atendimento, e viu que era fome, até o rapaz praticamente chorou", conta a professora Ana Carolina Costa, que dava aula para a criança que sofreu o desmaio.
(...)

Por G1 DF, 17/11/2017, 05:41 hs
Assombração

À luz de velas as sombras
Dançam na parede.
Muitos dos fantasmas morreram
Com a chegada da luz elétrica.


Juca Melchior

GRANDES ESCRITOS


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

CURA GAY NA CHINA

“A homossexualidade é como qualquer outra doença mental, como a depressão, a ansiedade ou o transtorno bipolar. Pode ser curada… Confie em mim, deixe-o aqui, ficará em boas mãos”. Com essas palavras, o psiquiatra convenceu a mãe de Wen Qi (nome fictício) a deixar seu filho na clínica. Para esse jovem gay chinês começava um longo calvário de tratamentos destinados a “curá-lo” e transformá-lo em heterossexual.
A homossexualidade não é crime na China nem é oficialmente considerada uma doença. Em 2001, o Colégio de Psiquiatras a retirou da lista de problemas mentais. Duas pessoas que levaram a julgamento clínicas que ofereciam “tratamentos” para a suposta cura ganharam nos tribunais. Mas, como denuncia um novo relatório da organização não governamental Human Rights Watch, continuam sendo oferecidas no país as chamadas “terapias de conversão”, que procuram mudar a orientação sexual dos pacientes. Não é o único país em que são feitos esses pseudotratamentos, proibidos expressamente só em três países do mundo – Brasil, Equador e Malta. Mas, na China, são oferecidos também em hospitais públicos, além de estabelecimentos privados.
(...)

Macarena Vidal Liy, El País,Pequim, 15/11/2017, 00:48 hs

ODILON REDON


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ÉTICA E CLÍNICA

Em psicopatologia, a clínica da diferença busca atuar em linhas existenciais desprezadas pela  razão. Lida com o incurável,  o imprestável, e com discursos submetidos às formações de poder. Requer um desejo não apoiado na realidade objetiva pois o desejo é a própria realidade objetiva. No universo sedutor-violento do capital, a  aposta num trabalho com  pacientes graves  capta o ritmo das canções sem dono. Tudo é impessoal e coletivo. O Caps torna-se, então,a procura de saídas não cadastradas pela psiquiatria canônica. A ótica da diferença é o novo. Uma ética precede a técnica.
(...)

A.M.

PHILIP GLASS- The Kiss


Arte de Amar 
  
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não. 


Manuel Bandeira
MATAR A DIFERENÇA

"Nós somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Vocês entendem o que é matar uma pessoa só porque ela é diferente de você?". A afirmação é de Renata Peron, que sabe bem do que está falando: em um dia de 2007, por volta das 23h30, havia ido beber uma cerveja com um amigo nos arredores da praça da República, no centro de São Paulo, quando foi abordada por um grupo de jovens — formado por homens e mulheres. Após um deles gritar "vamos pegar o traveco!", Renata recebeu um chute na altura da cintura. No dia seguinte, teve de fazer uma cirurgia porque "o chute foi tão violento que estourou o rim". Perdeu três litros de sangue por causa de uma hemorragia interna.
(...)

Felipe Betim, El País, São Paulo, 15/11/2017, 12:14 hs

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA

O cérebro MENTE

DEVIR-MULHER

O que chamamos de entidade molar aqui, por exemplo, é a mulher enquanto tomada numa máquina dual que a opõe ao homem, enquanto determinada por sua forma, provida de órgãos e de funções, e marcada como sujeito. Ora, devir-mulher não é imitar essa entidade, nem mesmo transformar-se nela. Não se trata de negligenciar, no entanto, a importância da imitação, ou de momentos de imitação, em alguns homossexuais masculinos; menos ainda a prodigiosa tentativa de transformação real em alguns travestis. Queremos apenas dizer que esses aspectos inseparáveis do devir-mulher devem primeiro ser compreendidos em função de outra coisa: nem imitar, nem tomar a forma feminina, mas emitir partículas que entrem na relação de movimento e repouso, ou na zona de vizinhança de uma microfeminilidade, isto é, produzir em nós mesmos uma mulher molecular, criar a mulher molecular. Não queremos dizer que tal criação seja o apanágio do homem, mas, ao contrário, que a mulher como entidade molar tem que devir-mulher, para que o homem também se torne mulher ou possa tornar-se.
(...)

G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol. 4

RES PUBLICA


terça-feira, 14 de novembro de 2017

SEM CORPO

Que a psiquiatria não tem um corpo, isso foi dito com rigor metodológico por Foucault em “O poder psiquiátrico, 1973, 1974". Significa estabelecer o dado de que ela, de fato, não é uma medicina, não é Medicina. Esta, óbvio, tem um corpo, o organismo físico-químico composto por órgãos e sistemas interligados. Ao final do século XIX, a psiquiatria tenta suprir esse buraco prático-conceitual com a instituição do corpo neurológico a partir da alta morbidade da sífilis cerebral na Europa. Já no século XX, dá-se uma cisão psicopatológica interna ao sistema nosológico psiquiátrico, qual seja: patologia mental orgânica = sífilis cerebral; patologia mental não orgânica = histeria. As pesquisas clínicas tornaram-se mais complexas quando Bleuler, em inícios do século XX, sob a influência da psicanálise, inventa o conceito clínico de esquizofrenia (cisão do eu), substituindo, assim, a antiga demência precoce de Kraeplin. Ora, é importante verificar que ainda hoje, a psiquiatria permanece sem um corpo, pois, tanto na histeria quanto na esquizofrenia não há constatação de lesões e/ou disfunções cerebrais correlatas à sintomatologia. O corpo neurológico não atende aos critérios para uma etiologia definida e definitiva do transtorno mental. Na última década do século XX, também chamada década do cérebro, com o avanço dos exames por imagem, o cérebro passou a ser estudado com mais detalhes no seu funcionamento. Tal progresso científico serviu e serve à linha do biopoder (cf. Foucault), aos interesses da indústria farmacêutica internacional, ao mercado do consumo desenfreado de remédios químicos atrelado às prescrições médicas, e produz o fato de que o corpo da psiquiatria passa a ser o cérebro, já então reificado (coisificado) como agente causal das patologias mentais.


A.M.


P.S. - Texto republicado.
Geração Paissandu

Vim, como todo mundo
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam –
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno de vida.


Paulo Henriques Britto

EMIL NOLDE


O ESCRACHO

O Brasil vive uma espantosa época. Nela, o absurdo adquiriu uma doce e admirável naturalidade. É como se a anormalidade fosse o normal. Dois episódios ocorridos no final de semana desafiam a paciência do brasileiro. Num, o multicondenado José Dirceu foi filmado numa festa sacudindo o corpo e a tornozeleira eletrônica. Noutro, o magistrado Gilmar Mendes encontrou-se com o denunciado Michel Temer.

No mês passado, Gilmar foi acusado pelo colega Luís Roberto Barroso, em plena sessão do Supremo Tribunal Federal, de ser parceiro da “leniência em relação à criminalidade do colarinho branco”. Não parece preocupado. Dirceu coleciona duas condenações na Lava Jato. Deveria estar preso. Mas também não exibe sinais de preopação.

Juntas, as penas de Dirceu no petrolão somam 41 anos de cana. Ele estava atrás das grades. Mas a Segunda Turma do Supremo, com o voto favorável de Gilmar, autorizou-o a aguardar o julgamento de recursos em liberdade. Por isso ele dança.

Além de Temer, participou da reunião com Gilmar o minsitro Eliseu Padilha. Denunciados por corrupção, Temer e Padilha deveriam ser investigados. Mas a Câmara congelou os processos. E Gilmar acha natural encontrá-los. Algo de absolutamente anormal precisa acontecer em Brasília. Do contrário, o escracho será o outro nome de normal.

Do Blog do Josias de Souza, 14/11/2017, 00:45 hs

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

NELSON FARIA & WANDA SÁ - Vivo Sonhando


Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro,
envergá-las pro chão, corrompê-las, -
até que padeçam de mim e me sujem de branco.

Manoel de Barros

domingo, 12 de novembro de 2017

CAPITALISMO E ESQUIZOFRENIA - 1

A produção capitalística, em tempos atuais, se dá em escala planetária: a devastação da Terra. Por isso Félix Guattari criou o conceito de Capitalismo Mundial Integrado. O CMI significa a produção subjetiva e portanto material, ou o contrário, a produção material e portanto subjetiva. "Só existe o desejo e o social". Neste sentido, infere-se que o sistema capitalístico se afirmou e se afirma em tão amplas proporções por que domina e controla os indivíduos por dentro, produzindo subjetividades robotizadas (modos de pensar, sentir, perceber e agir) que giram em torno do valor-dinheiro como abstração concretizada em bens de consumo. A servidão imunda, consentida e querida: consome-se todo tipo de produto, incluindo sentimentos, valores, religiões, notícias, doenças, conhecimentos, assistencialismos, espiritualidades, etc. Ora, em tal universo, o sentido é produzido sem cessar como o mundo mais desenvolvido, mais avançado já alcançado pelo Homem, o que é atestado pela tecnologia científica. Sob tais condições, torna-se difícil pensar diferente, ou apenas pensar! Porque não há (aparentemente) um fora do capitalismo. O sistema abarcou tudo, tomou tudo, invadiu tudo até as estruturas do inconsciente. Estamos de fato num mundo delirante (Marx destaca o "fetichismo miraculante" da mercadoria no início de "O Capital"). A Crença é para todos, atravessa países, cidades, continentes: uma busca enlouquecida pela felicidade no exercício diário do consumo faz do homem moderno uma engrenagem plástica (só há uma cultura...) da máquina do capital. Como resistir a tal insânia normatizadora, a religião do capital, a verdade revelada?


A.M.


Obs.: texto republicado

FÉLIX GUATTARI

O pensador das máquinas desejantes

Faço análise há trinta anos e a única frase inteligente que já ouvi do meu analista é a de que preciso de tratamento.

Woody Allen
Agora pergunto-lhe: o que podemos esperar do homem enquanto criatura dotada de tão estranhas qualidades? Faça chover sobre ele todos os tipos de bênçãos terrenas; submerja-o em felicidade até acima da cabeça, de modo que só pequenas bolhas apareçam na superfície dessa felicidade, como se em água; dê a ele uma prosperidade econômica tamanha que nada mais lhe reste para ser feito, exceto dormir, comer pão-de-ló e preocupar-se com a continuação da história mundial — mesmo assim, por pura ingratidão, por exclusiva perversidade, ele vai cometer algum ato repulsivo. Ele até mesmo arriscará perder o seu pão-de-ló e desejará intencionalmente o mais depravado lodo, o mais antieconômico absurdo, simplesmente a fim de injetar o seu fantástico e pernicioso elemento no âmago de toda essa racionalidade positiva.
(....)

Fiódor Dostoiévski

SALVADOR

O escritor não é apenas aquele que escreve. É aquele que produz pensamento, aquele que é capaz de engravidar os outros de sentimento e de encantamento.


Mia Couto
onde anda a política
que muda?
onde  anda a muda
que floresce?


A.M.

SAUDADE DO FUTURO

(...)
Não sei se por nostalgia dos tempos de manifestações, passeatas, assembleias, às vezes sinto um vazio que a internet não preenche. Era como se estivesse numa sala e perguntasse: onde estão todos nesse momento? Sei que posso encontrá-los num simples clique. Mas não é a mesma coisa. A respiração ofegante, olhares, o suor escorrendo, gritos — tudo isso faz parte do mundo que convencionamos chamar de presencial.
Creio que 2018 será diferente. Eu mesmo já me desloco para ouvir amigos, conversar com eles sobre o buraco em que nos metemos. Não tenho grandes certezas, nem um discurso acabado. Ambos não ajudam numa boa conversa. De que adianta falar com quem acha que sabe tudo?
Suspeito, no entanto, que um período se fechou com os 13 anos do governo de esquerda. Suas políticas, no campo econômico, mostraram-se insustentáveis no sentido mais elementar do termo: o Brasil praticamente quebrou. Na dimensão ética, a passagem da esquerda pelo governo foi uma catástrofe maior que os desastres do passado. Um período fora do governo fará bem a ela. Os conservadores ingleses tendem a considerar bem-vindos os momentos de oposição. Podem descansar do poder e refletir sobre o período em que estiveram lá. A esquerda continuará lutando para voltar ao governo, como ponto central de sua agenda. Não é dada a longos períodos de reflexão e tem uma dependência física do poder, seus cargos e benesses. No quadro brasileiro, suponho que haverá uma alternância e deve se seguir uma etapa em que forças liberais e conservadoras ocupem o espaço na direção do país. Ignoro ainda como vão combinar essas duas tendências, que tipo de arranjo surgirá daí. Constato apenas que existe uma contradição bastante nítida entre preservar os valores da família e comunitários e apoiar a revolução do mercado global.
(...)

Fernando Gabeira, 12/11/2017
O futebol brasileiro 
evocado na Europa

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;

e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:

é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.




João Cabral de Melo Neto

sábado, 11 de novembro de 2017

JOÃO BOSCO - Jazidas


BUTLER INCOMODA

Depois de uma semana agitada em São Paulo, a filósofa americana Judith Butler, de 61 anos, provavelmente só queria ter uma despedida da cidade em paz. Mas ela não teve sossego. Segundo relatos de testemunhas, a escritora estava na área de check-in do Aeroporto de Congonhas, à espera de embarcar para o Rio de Janeiro, quando foi perseguida por uma mulher que segurava um cartaz com uma foto sua desfigurada e gritava repetidos xingamentos. Além de sofrer a agressão verbal, Judith também foi empurrada com o cartaz, feito de madeira e cartolina.
(...)

Nina Finco, Época, 10/11/2017, 20:21 hs

AUGUSTE MACKE


Reclame

Se o mundo não vai bem

a seus olhos, use lentes

… ou transforme o mundo.

ótica olho vivo

agradece a preferência



Chacal

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

O DEFUNTO POLÍTICO E SEU PARTIDO

Nenhum outro partido ilustra de forma tão paradigmática a crise que se abateu sobre a política brasileira do que o PSDB. Nascido de uma costela do PMDB, o partido fazia pose de representante da ética e da modernidade. Até bem pouco, apresentava-se como um contraponto à devassidão do PT. Hoje, frequenta o centro do palco como uma aberração circense: é o primeiro partido da história a ser comandado por um defunto político. Chama-se Aécio Neves. Voltou à vida para matar a presidência interina de Tasso Jereissati.

No momento, o PSDB dedica-se a testar até onde pode ir no seu desprezo pela pela opinião pública. Ao desafiar a própria sorte de maneira tão desassombrada, o tucanato revela que não se deu conta de que a roleta russa também é uma modalidade de suicídio.

Desde que Aécio Neves virou um colecionador de inquéritos criminais, o PSDB teve várias chances de se livrar dele. Na última oportunidade, os senadores tucanos, entre eles Tasso Jereissati, ajudaram a anular as sanções que o Supremo havia imposto a Aécio. Devolveram-lhe o mandato.

Os tucanos comportaram-se como o sapo da fábula, que concorda em ajudar um escorpião a atravessar o rio. No meio da travessia, o escorpião resolve picar quem o socorria. Por quê?, perguntou o sapo. Não resisti, é da minha natureza, respondeu o escorpião. O PSDB, autoconvertido em sapo, afunda num rio de lama abraçado a Aécio, seu escorpião de estimação.

Do Blog do Josias de Souza, 10/11/2017, 01:12 hs

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

BIBI FERREIRA - Monólogo do Veneno (da peça Gota D´água)


QUAL DEPRESSÃO?

A depressão não é uma doença. Para dizer isso, é preciso sair do modelo biomédico. Não significa dizer que está ausente o sofrimento depressivo, antes, pelo contrário. São afetos destrutivos, matizados por vivências devastadoras para a sobrevivência subjetiva, mesmo que o organismo por vezes esteja hígido, intacto, funcionando. Ora, se a depressão não é primariamente uma doença fora do sentido médico, é sim um estado psíquico desprazeroso, variável em sua gravidade, segundo os fatores que lhe são determinantes. Há uma variação infinita. Queremos pontuar o aspecto de que a depressão, codificada pela mídia inculta como "o mal do século", tem a sua gênese estritamente ligada à condição humana encravada no "social", no que ela implica de perdas sucessivas, mortes simbólicas ou reais, e acima de tudo, o estilhaçamento aparentemente sem volta dos valores da sociedade industrial burguesa. Tais valores não são externos à subjetividade. Eles são linhas desejantes que balizam as certezas de quem somos, ou seja, crenças. Tempos niilistas: em que ou em quem acreditar? Talvez estas crenças não mais nos sirvam, pelo menos para uma vida alegre e potente. Resta um grande buraco existencial, a depressão in vivo, sofrendo na pele, no corpo, no olhar, no rosto, nos corpos doloridos e mortificados, a brutalidade e a erosão de sentido dos dias que correm. Os poetas sabem.

A.M.


Obs.: texto republicado e revisado.

Tudo aquilo em que se acredita existe, é só isso.

Hugo Hofmannsthal

REFORMA DA PREVIDÊNCIA - Idade Mínima: três reencarnações!


TEMPO E CLÍNICA

Em psicopatologia clínica, considerar a relação tempo-subjetividade é essencial. Ela deriva de concepções do tempo implícitas. O tempo é uma categoria teórica que pode ser vista de múltiplas formas. Escolhemos duas por serem referências de destaque:1-como elemento vivencial da chama temporalidade, ao modo da fenomenologia; 2- como conteúdo do processo desejante (devir) segundo a visão de H. Bergson. O que distingue as duas concepções? A fenomenologia, considerando a linha passado-presente-futuro, aloca a subjetividade na consciência-do-tempo, ou seja, no espaço da representação. Isso torna a riqueza da vivência submetida ao "peso" de uma identidade a ser buscada na ordem do eu. O tempo=do-eu é um tempo endurecido no presente que não passa. Isso ocorre, por exemplo, na vivência melancólica. O paciente é espremido no hoje.  O passado o acusa, enquanto o futuro o ameça. Quanto ao tempo do devir, trata-se de outra coisa. Há só o Instante fugidio que é cortado sem cessar em passado/futuro num processo irreversível. Uma vertigem. A consciência, enquanto intencionalidade, é posta como efeito dos devires que lhe atravessam e a constituem. Ela não é lugar de uma verdade a ser descoberta, ou de uma luz, nem de uma origem dos afetos.  Estes é que circulam livres em arranjos que se compõem numa seta para o futuro, o tempo como criação, invenção de mundos. Pode-se assim dizer que o trabalho do tempo, numa inspiração bergsoniana, vai na trilha de uma subjetividade-em-processo. Não há uma forma subjetiva estabelecida de antemão, mas a se produzir no Encontro.

A.M.

JOAN MIRÓ


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não!
Este eu mesmo carrego!


Paulo Leminski
     
ÓDIO À DIFERENÇA

"Eu gostaria, em primeiro lugar, de agradecer enormemente ao Sesc Pompeia por não ter cancelado a conferência em que participo", disse a filósofa Judith Butler. A frase, ovacionada pela plateia do auditório em São Paulo nesta terça-feira, dava a dimensão da disputa política em que se transformou a palestra da professora norte-americana no Brasil, alvo de uma intensa campanha on-line de grupos ultraconservadores que exigiam o cancelamento do evento.
Do lado de fora, parte da retórica inflamada das redes nas semanas anteriores havia tomado corpo. A entrada de um dos prédios mais emblemáticos da cidade amanheceu dividida entre aqueles que defendiam Butler e os contrários à presença dela no país. Comparado ao barulho digital (cerca de 320.000 pessoas assinaram a petição rejeitando a filósofa), era um grupo bastante modesto: ambos os protestos somavam aproximadamente uma centena de pessoas. De um lado do portão estavam, em menor número, mas com falas mais agudas, conservadores contrários a ideia de gênero que pediam o cancelamento da palestra e proferiam discursos de ódio contra a intelectual; do outro, um difuso grupo de ativistas progressistas que diziam estar ali contra a censura e a favor da democracia e da liberdade. Eram poucos, mas performavam os polos de uma guerra cultural no Brasil que reverbera tanto nas redes sociais quanto no Congresso Nacional, nas administrações públicas locais e nas novelas da TV Globo. Fizeram barulho: enquanto um lado gritava “Fascistas!”, o outro respondia aos berros que “Fascista é o cu da sua mãe!”.
(...)

Felipe Betim, El País, São Paulo, 07/11/2017, 23:06 hs

GRANDES ESCRITOS


terça-feira, 7 de novembro de 2017

O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.
(...)

Mia Couto
O Sobrevivente

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta
muito para atingirmos um nível razoável de
cultura. Mas até lá, felizmente, estarei morto.

Os homens não melhoram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heróicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)


Carlos Drummond de Andrade 

ADRIANA CALCANHOTTO - Mentiras


MAIS PLÁSTICOS MENOS PEIXES

(...)
Se as tendências atuais persistirem, em 2050 haverá mais quilos de plástico que de peixes no mar. Nesse ano, milhões de pessoas em todo o mundo não poderão ter acesso aos peixes como fonte básica de proteínas; pode ser que em 2048 já não contemos com outros alimentos de origem marinha selvagem, segundo um estudo publicado na Science. No entanto, será preciso aumentar em 70% a disponibilidade de alimentos para satisfazer as demandas dos mais de 9 bilhões de humanos povoando o planeta. A África terá que triplicar sua produção agrícola para poder atender às necessidades de uma população que terá duplicado, enquanto os rendimentos agrícolas cairão 20% em razão dos efeitos do aquecimento. “Nos próximos 50 anos será necessário produzir mais alimentos no planeta que os produzidos nos últimos 400 anos, com a restrição adicional de garantir que os limites planetários cruciais para o meio ambiente não sejam sobrepujados no processo”, resumia The Lancet.
(...)

Javier Salas, El País, 06/11/2017, 19:38 hs

GEORGE GROSZ


Livre

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.


Cruz e Sousa 
O APOCALIPSE JÁ ERA

O capital, operador semiótico (cf. F. Guattari), faz da realidade cotidiana (terráquea) um universo de sentido. Mais: ele é o próprio universo, a realidade cotidiana infiltrada nos ossos, olhos, carnes, músculos e sinapses. Trata-se de fincar na alma (como se mata vampiros? um prego no músculo cardíaco...) a certeza subjetiva de que esta é a nossa única e melhor realidade possível, o  melhor dos mundos possíveis, mesmo que tudo vá mal. E vai. O assombroso avanço tecnológico dos tempos que correm só atesta que os problemas sociais (só um, a citar: quase 1 bilhão de famintos na Terra, cf FAO/ONU) não são técnicos, mas ético-políticos. Simples assim, desesperador também, mas é o dado frio e cru de uma mega-tragédia compartilhada e assistida via internet.

A.M.

HUCK PRESIDENTE! VICE LOURO JOSÉ !


O espírito do homem é como um rio que procura o mar. Represem-no e aumentarão a sua força. Não responsabilizem o homem pelas suas explosões devastadoras! Condenem antes a força da vida! O espírito que nos anima pode assumir as mais diversas formas: tornar-nos semelhantes a anjos, a demônios ou a bestas. A cada um a sua escolha. Nada barra o caminho ao homem para além das fantasmagorias dos seus medos. O mundo é a nossa casa, mas teremos ainda que a ocupar; a mulher que amamos está à nossa espera, mas não sabemos onde encontrá-la; o atalho que buscamos está sob os nossos pés, mas não o reconhecemos. Quer sejamos deste mundo por muito ou pouco tempo, os poderes por explorar são ilimitados.
(...)

Henry Miller
ISSO NÃO PARA

Dezessete dias depois de um adolescente atirar contra colegas de classe, mais uma escola de Goiás foi palco de um assassinato com arma de fogo. Dessa vez a vítima é uma garota de 16 anos chamada Raphaella Noviski, aluna do 9º ano do Colégio Estadual 13 de Maio, em Alexânia, no interior do Estado. Ela já se encontrava em sala de aula com outros colegas quando, por volta das 8h da manhã desta segunda-feira, recebeu vários disparos na face, segundo explicou ao EL PAÍS Rafaela Azzi, delegada da Polícia Civil responsável pelo caso. Apenas a menina foi atingida. Misael Pereira Olair, de 19 anos, foi preso em flagrante pela Polícia Militar ao tentar fugir. Ele confessou que havia juntado dinheiro durante um ano para comprar a arma e cometer o crime.
“Em um depoimento inicial, ele disse que tinha ódio de Raphaella. Mas à medida que foi interrogado, ficou claro que havia uma motivação passional, uma não correspondência amorosa”, conta Azzi. Ela explica que ambos estudaram na mesma turma e que ele sempre tentava uma aproximação, inclusive por redes sociais. “Mas ela recusava, não dava brecha. Esta recusa minou o sentimento dele. Então ele conta ter juntado dinheiro durante um ano para comprar uma arma”, acrescenta
(...)

Felipe Betim , São Paulo, 06/11/2017 22:14 hs 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

GONZAGUINHA - Espere por mim, morena


Retrato de menina
Os cabelos, não.
Tampouco olhos.
Nada além do sorriso: pedras
que as palavras atravessam rápidas
como lagartos, muro
onde encostar meu cansaço.


Eucanaã Ferraz
Acreditamos que a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.
Se a nossa opção é progressiva, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho se não viver a nossa opção.
Encarná-la, diminuindo, assim, a distância entre o que dizemos e o que fazemos.
(...)

Paulo Freire

domingo, 5 de novembro de 2017

REDAÇÃO DO ENEM - Trabalho Escravo


Ao tomar uma decisão de menor importância, eu descobri que é sempre vantajoso considerar todos os prós e contras. Em assuntos vitais, no entanto, tais como a escolha de um companheiro ou profissão, a decisão deve vir do inconsciente, de algum lugar dentro de nós. Nas decisões importantes da vida pessoal, devemos ser governados, penso eu, pelas profundas necessidades íntimas da nossa natureza.
(...)

S. Freud
5 DE NOVEMBRO DE 2015

Já se passaram dois anos daquele fim de tarde de novembro em que Keila Vardeli viu um "mundo de lama" engolir bruscamente sua casa, pertences, a rotina no campo e as conquistas de uma vida inteira. Quando foi informada por um vizinho que a barragem de Fundão, em Mariana, - cerca de três quilômetros dali - tinha se rompido, não titubeou: saiu em disparada em direção a escola dos dois filhos no vilarejo rural de Bento Rodrigues. "Só pensei em correr, mas na minha cabeça não era para salvar eles. No meu pensamento, eu ia correr para morrer com eles", conta.

Mas salvou. Conseguiu em minutos buscar os filhos, levar outras crianças e vizinhos na caçamba de uma caminhonete e resgatar a mãe de 85 anos que já estava ilhada em casa. Subiram todos para o ponto mais alto do distrito e, quando finalmente conseguiram olhar para trás, o tsunami de rejeitos de minério de ferro já tinha acabado com o povoado. O desastre matou um total de 19 pessoas e deixou um rastro de destruição ao longo de mais de 600 quilômetros da Bacia do Rio Doce, até o litoral do Espírito Santo. Hoje é considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil.
(...)

Heloísa Mendonça, El País, Mariana, MG,04/11/2017, 21:38 hs

PABLO NERUDA - O Teu Riso ( Luma Carvalho)


SAIR DO BINARISMO

O machismo não é apenas um comportamento individualizado no chamado macho, mas uma instituição milenar cujos primórdios se perdem nas brumas do tempo. Não se sabe a sua exata origem, e talvez nem seja preciso sabê-lo. A disseminação machista por outras instituições (estado, família, escola, religião, direito etc) torna-o camuflado, enquanto o combate político  migra para o terreno pré-demarcado dos gêneros, homem versus mulher. Alguns grupos feministas "atiram para matar" o macho. Em outros lugares, contudo, o machismo realiza o trabalho aí sim de abater a diferença, lá onde ela nem se atreve a dizer o próprio nome. Falamos dos "n" sexos que pululam em todas as partes e nem por isso conseguem expressar formas de existir. A máquina binária homem/mulher (anti-pênis), animada pelo combustível ressentimento, se encarrega de produzir o Mesmo como se fosse o Novo. Que nada, apenas o olho bipolar em ação.

A.M.

MARIA BETHÂNIA - Explode Coração


Somos castigados por nossas renúncias. Cada impulso que tentamos aniquilar germina em nossa mente e nos envenena. Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é um meio de purificação. Nada resta então a não ser a lembrança de um prazer ou a volúpia de um remorso. O único meio de livrar-se de uma tentação é ceder a ela. Se lhe resistirmos, as nossas almas ficarão doentes, desejando coisas que se proibiram a si mesmas, e, além disso, sentirão desejo por aquilo que umas leis monstruosas fizeram monstruoso e ilegal.
(...)

Oscar Wilde

sábado, 4 de novembro de 2017

Delírio puro

quanto mais louco
lúcido estou.

no fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo

me confundo quando boio 
me conformo quando nado
me convenço quando afundo.

no fim do fundo
eu te amo.


Chacal

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

DESENHOS & ESCRITOS


LUISLINDA E OS DIREITOS HUMANOS

Responsável pela pasta dos Direitos Humanos, a ministra Luislinda Valois não se revelou uma campeã das causas dos fracos e oprimidos. Mas assimilou rapidamente os maus hábitos dos poderosos. O Estadão conta que Luislinda escreveu 207 páginas para defender o seu direito de receber dois contracheques: o de ministra e o de desembargadora aposentada. Coisa de R$ 61 mil. Pela lei, nenhum servidor pode receber além do teto de R$ 33.700. Mas Luislinda quer furar o teto.

Filiada ao PSDB, Luislinda anotou no seu documento que “se assemelha ao trabalho escravo” o teto que limita seu salário a R$ 33.700 —noves fora o cartão coporativo, a moradia funcional, o carro oficial, o jato da FAB e outras mordomias. Ganha uma biografia de Zumbi dos Palmares quem for capaz de citar uma frase de Luislinda contra a portaria editada pelo governo para dificultar o combate ao trabalho escravo.

Alguém poderia cantarolar para Luislinda um trecho da música Maria Moita, de Carlos Lyra. Diz a letra: “Vou pedir ao meu Babalorixá / Pra fazer uma oração pra Xangô / Pra pôr pra trabalhar / Gente que nunca trabalhou.” Contaminada pelo refrão, Luislinda talvez não volte nunca mais a tentar escravizar o contribuinte brasileiro, que não merece ser acorrentado aos seus privilégios.


Do Blog do Josias de Souza, 03/11/2017, 06:12 hs