quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Quando já não havia outra tinta no mundo o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem voz nem nascente.
(...)

Mia Couto

terça-feira, 19 de setembro de 2017

HUBERT ROESTENBURG


NÃO SOU UM DE VOCÊS

A diferença não é o indivíduo. A diferença é a multiplicidade. O que isso quer dizer? Quer dizer que somos compostos por linhas de singularização. Não somos os mesmos, não somos iguais, não somos normais, exceto como serviçais da ordem estabelecida. Ao contrário, os devires nos tomam, nos afetam e nos movem em processos afetivos. Isso flui. Nada romântico. A diferença é ,então, “obrigada”, pelos poderes vigentes, a se expressar como maldita, cruel, pária, excluída, traste, marginal. É que os signatários da ordem burguesa adoram marcar suas referências de valor excluindo o que não é espelho. Amam odiar o que desconhecem. Amam o ódio. O ódio e o ressentimento chegam disfarçados de bondade. Veja a direita, tanto entre os petistas quanto entre os bolsonaristas.  Oh, quão semelhantes! Daí, reprimir passa a ser natural como o sol. Ser diferente não busca, nem é o individual. É outra coisa: viaja entre modos subjetivos opacos à razão estabelecida. Não é fácil.


A.M.
Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre
morto.Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto

Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.
Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Este Artaud, mas, por falta do que fazer…

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.


Antonin Artaud
MICHEL TEMER OU A AGONIA DO NADA

O Nada escalou a tribuna da Assembleia Geral da ONU na manhã desta terça-feira. Chama-se Michel Temer. Alguns dos presentes talvez tenham tentado enxergá-lo. Perceberam que era inútil. O olhar atravessava o Nada e ia bater no mármore ao fundo. Discursos como o que foi lido pelo presidente são redigidos no Itamaraty. O ghost writer escalado pela diplomacia esforçou-se para dar a Temer a aparência de um orador invisível, que não causasse problemas a si mesmo. Exagerou.

Cenho imponente, o Nada soou taxativo sobre temas em relação aos quais sua opinião não tem a mais remota relevância: “Os recentes testes nucleares e missilísticos na Península Coreana constituem grave ameaça…”. E silenciou sobre uma questão que, por intrigante, os brasileiros e os líderes mundiais gostariam de ver respondida: por que diabos o Brasil abdicou do progresso para se consolidar como uma cleptocracia clássica?

Desdobando-se para realçar a inutilidade da fala que o redator-fantasma do Itamaraty acomodou-lhe nos lábios, Temer discorreu sobre armas nucleares —“Reiteramos nosso chamado a que as potências assumam compromissos adicionais de desarmamento”—, falou sobre Oriente Médio —“Amigo de palestinos e israelenses, o Brasil segue favorecendo a solução de dois Estados convivendo em paz e segurança”—, realçou a encrenca da Síria —“A solução que se deve buscar é essencialmente política” —, sem esquecer todos os demais conflitos que inquietam o planeta —“No Afeganistão, na Líbia, no Iêmen, no Mali ou na República Centro-Africana, as guerras causam sofrimentos intoleráveis.”

O Nada sugeriu à plateia um passeio incômodo: “Percorramos os campos de refugiados e deslocados no Iraque, na Jordânia, no Líbano, no Quênia. Ouçamos as histórias dos que perderam pais, mães, filhos, filhas. São famílias que foram tragadas pela irracionalidade de disputas que não parecem conhecer limites. De disputas que, com frequência inaceitável, se materializam ao arrepio do direito humanitário.”

O “mal do terrorismo”, o “crime transnacional”, as “violações dos direitos humanos em todo o mundo”, o “racismo, a xenofobia e todas as formas de discriminação”, os “refugiados da Venezuela”… O redator do Itamaraty fez do Nada um personagem capaz de falar de tudo, exceto da moralidade e da ética que seu governo sonega aos brasileiros. Sobre o Brasil, a propósito, Temer realçou dois temas: ecologia e economia. Disse meias-verdades sobre ambos, privilegiando a metade que é mentirosa.

“O Brasil orgulha-se de ter a maior cobertura de florestas tropicais do planeta”, realçou o redator do Itamaraty, antes de anunciar “a boa notícia de que os primeiros dados disponíveis para o último ano já indicam diminuição de mais de 20% do desmatamento naquela região.” Nenhuma palavra sobre o decreto que Temer editou, reescreveu, revogou e planeja reeditar para assegurar a exploração mineral numa área de reserva na Amazônia, a Renca. O vaivém sobre a matéria provocou gritaria local e internacional. Só por isso o lero-lero ambiental frequentou as preocupações do redator do Itamaraty.

“O Brasil atravessa momento de transformações decisivas”, declarou, de repente, o Nada. “Com reformas estruturais, estamos superando uma crise econômica sem precedentes. Estamos resgatando o equilíbrio fiscal”, acrescentou, alheio à recentíssima conversão da meta fiscal brasileira de rombo em cratera. “O novo Brasil que está surgindo das reformas é um país mais aberto ao mundo”, prosseguiu o Nada, sem se dar conta de que, voltando a Brasília, terá de negligenciar novamente a reforma da Previdência para priorizar a recompra na Câmara dos votos que garantirão o enterro da nova denúncia da Procuradoria.

Tomado pela densidade, o discurso de Temer na ONU pode ser definido como a insustentável leveza do nada. Observada pela utilidade, a fala do presidente brasileiro foi dinheiro do contribuinte desperdiçado numa viagem dispensável. Considerando-se a importância que o mundo atribuiu às palavras do redator do Itamaraty, o Nada conseguiu, finalmente, unir os brasileiros. Ateou em todos o mais profundo sentimento de vergonha. O vexame só não é insuperável porque Temer deve retornar à ONU em 2018.


Do Blog do Josias de Souza, 19/09/2017, 14:10 hs

ANA CAROLINA - Eu Sei Que Vou Te Amar


PEDOFILIA, UM PROBLEMA

Nesta terça-feira, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados promove uma audiência pública para debater abuso e exploração sexual de crianças no futebol brasileiro. São mais de uma centena de casos de jovens atletas abusados por treinadores, preparadores físicos, olheiros e dirigentes. Um tipo de violência perverso e velado, com a peculiaridade de ter como alvo vítimas do sexo masculino. Boa parte deles apresenta um roteiro em comum: abusadores que já tiveram passagem pela polícia ou foram condenados por algum tipo de violação sexual, mas que voltam a cometer o mesmo crime após deixarem a cadeia. A repercussão em torno da decisão da Justiça Federal do DF, que autoriza psicólogos a tratarem a homossexualidade como doença, é um momento oportuno para jogar luz sobre uma outra questão, que ainda gera confusão entre coisas totalmente distintas.
Homossexualidade não é doença, assim como a orientação sexual de uma pessoa é traço insuficiente para torná-la mais propensa a cometer crimes associados à pedofilia. Porém, é assim que muita gente, incluindo parlamentares, juízes, promotores e delegados, costuma pensar diante de casos de abuso em que a vítima é do mesmo sexo do abusador. Em 2013, por exemplo, durante uma das sessões da CPI do Tráfico de Pessoas, que investigava abusos sexuais de garotos no futebol, o deputado federal Severino Ninho questionou se um treinador, suspeito de estuprar e dopar adolescentes que alojava em seu apartamento, era homossexual, reproduzindo uma visão preconceituosa que perdura no meio futebolístico de que o abuso sexual de meninos tem a ver com homossexualidade, e não com uma prática criminosa.
(...)

Breiller Pires , El País, São Paulo, 19/09/2017, 10:45 hs

A CASA DOS AMERICANOS

O embaixador da Coreia do Norte Ja Song Nam deixa a Assembleia Geral da ONU antes da chegada do presidente dos EUA, Donald Trump...  (do UOL Notícias, 19/09/2017, 12:11 hs)
FINAL DE SÉCULO

A coisa anda meio difícil
pra quem não dispensa uma alegria.
Até uma boa e sincera tristeza
anda cada vez mais rara
com essa moda de alto astral a qualquer preço.
Se alguém acha que este mundo
anda meio cafajeste, ou ainda mais,
não sou eu que vou contradizer.
Mas na verdade, tudo mudou
muito pouco.
Um ou outro mito,
aqui e ali um grito,
mais ou menos aflito.
O que varia mesmo é o som do apito
de acordo com o bairro, conforme o gueto.
Em alguns a polícia acode e sacode;
em outros se salva quem pode.
A carne continua fraca.
Mormente a da mucosa,
mais frágil, mais perigosa.
A lua tem seus caprichos.
Os poderosos mentem,
as filas aumentam,
a cerveja anda nojenta
e o rapaz da TV diz que vai ser mais eficaz
o combate ao tráfico de drogas.
Por mim, espero apenas
a passagem vertiginosa dos riscos voadores.


Eudoro Augusto

JONAS GERARD


CORRUPÇÃO INSTITUÍDA

A cerimônia de posse de Raquel Dodge ajuda a entender por que o Brasil é o mais antigo país do futuro do mundo. Havia delatados, investigados e denunciados em toda parte, inclusive na mesa reservada aos presidentes dos Poderes. Pelo Executivo, Michel Temer, que já coleciona duas denúncias criminais. Pelo Legislativo, Eunício Oliveira e Rodrigo Maia, cada um com dois inquéritos.

A esse ponto chegamos: dois dos três poderes são comandados por políticos que têm contas a acertar com a Justiça. Bastava a Raquel Dodge olhar ao seu redor para perceber o tamanho do desafio que tem pela frente. Os procurados faziam festa para a procuradora-geral. A normalidade institucional brasileira é mesmo perturbadora.

Quem assistiu ficou com a impressão de que a banda podre da política está vencendo a guerra. A quantidade absurda de escândalos indica que o Brasil não é mais um país onde pipocam casos de corrupção. Virou um país, em si, corrupto.

A nova procuradora-geral pregou a harmonia entre as instituições. Ótimo. Mas não se deve confundir as instituições com os investigados que as dirigem. A restauração da harmonia depende da punição de todos os que estão em desarmonia com a moralidade.

Do Blog do Josias de Souza,19/09/2017, 00:49 hs

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Mas essa sensação é ilusória, pois esses vestígios não fazem mais parte de você: só podem ser ocupados provisoriamente, como uma roupa que se veste. Assim que se cansar desse jogo e se levantar da cadeira, você vai voltar a perdê-los: mais ainda, vai perder também uma pequena porção adicional de sua matéria, mais vestígios seus que vão ficar no ar, superpostos aos anteriores. Esses vestígios mais cedo ou mais tarde vão se dispersar, com o movimento constante de corpos no quarto, e se perder para sempre. Assim, você está constantemente largando camadas sucessivas de seu ser, desintegrando-se a cada instante de sua existência no espaço; e é por isso que você não é eterno, não pode ser eterno, pelo mesmo motivo que um lápis ou uma borracha não podem ser eternos.
Mas há uma maneira simples de alterar essa situação - quer dizer, não alterá-la objetivamente, o que seria impossível, e sim modificar o modo como você a vivencia (e como você só sabe das situações o que vivencia delas, para todos os fins práticos modificar sua percepção de uma situação é a mesma coisa que modificar a situação em si): basta sentar-se na cadeira, pegar um lápis e uma folha de papel, e começar a escrever.

Paulo Henriques Britto

GAL COSTA - De Volta Ao Começo


O NIILISMO POLÍTICO

No dia 17 de março de 2014, foi deflagrada a primeira fase da Operação Lava Jato. Desde então, ela já chegou até a 45ª fase, entre críticas e honras, com 165 condenações e a descoberta de desvios que podem chegar a 10 bilhões de reais. Nesses três anos e meio, os noticiários foram inundados de reportagem sobre a prisão de políticos, empresários e doleiros, o que trouxe um efeito colateral ao país. A população aumentou seu ódio pela política e alimenta uma sensação de impotência e fracasso, num círculo vicioso que deixou a sociedade dividida e paralisada.

Mas afinal de contas, o combate a corrupção faz bem ou mal ao Brasil? Para responder a estas perguntas recorrentes, aconteceu na manhã da segunda feira, 18, o evento Corrupção: Avanços e Afetos, uma realização da Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP) em parceria com o EL PAÍS. O segundo Ciclo de Debates contou com a participação de Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e o advogado Márcio Pestana, que é professor da FAAP, árbitro da Câmara de Conciliação, Mediação e Arbitragem Ciesp/Fiesp e autor do livro Lei Anticorrupção.

Uma das respostas que surgiu em meio a esse momento histórico foi um cenário de descrença dos brasileiros nas instituições que regem o país. Em 2016, o Brasil assistiu à maior taxa de abstenção em eleições, até então. Para o professor Janine Ribeiro, o desprezo pela política não é a melhor saída. "Existem pessoas que agem como se a política estivesse numa estante do supermercado e se nenhum dos artigos é bom pra ela, ela não compra", afirma. Mas para ele, “as pessoas honestas são mais numerosas que as desonestas”, completa.
(...)

Beatriz Sanz, El País, 18/09/2017, 19:21 hs

INDIFERENÇA!!


domingo, 17 de setembro de 2017

OBJEÇÕES NÃO LEVAM A NADA

É difícil "se explicar" – uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte do tempo, quando me colocam uma questão, mesmo que ela me interesse, percebo que não tenho estritamente nada a dizer. As questões são fabricadas, como outra coisa qualquer. Se não deixam que você fabrique suas questões, com elementos vindos de toda parte, de qualquer lugar, se as colocam a você, não tem muito o que dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição de problema, antes de se encontrar a solução. Nada disso acontece em uma entrevista, em uma conversa, em uma discussão. Nem mesmo a reflexão de uma, duas ou mais pessoas basta. E muito menos a reflexão. Com as objeções é ainda pior. Cada vez que me fazem uma objeção, tenho vontade de dizer: "Está certo, está certo, passemos a outra coisa." As objeções nunca levaram a nada. O mesmo acontece quando me colocam uma questão geral. O objetivo não é responder a questões, é sair delas. Muitas pessoas pensam que somente repisando a questão é que se pode sair delas. "O que há com a filosofia? Ela está morta? Vai ser superada?" É muito desagradável.
(...)

G. Deleuze e C. Parnet  in  Diálogos

SOB A PELE - direção de Jonathan Glazer, 2014


Brisa

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixaras aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.


Manuel Bandeira
O PÊNALTI : TRISTEZA E JÚBILO

Este é um lance mortífero. Todos o desejam a favor do seu time, claro. Ou o temem. A qualquer hora do jogo, o pênalti acontece como uma dádiva ou um castigo. Dá até para se ouvir o grito escandido da torcida: “ É PÊÊÊÊ-NAL-TI ! ”, mesmo quando não foi e ao mesmo tempo foi. Pois bem, o pênalti, afinal, foi pênalti (pelo menos segundo a lei do juiz) e marcado em cima do lance. Por alguns minutos, o alarido da multidão constitui o preâmbulo sonoro do que está por vir, espécie de anti-clímax. Quem vai bater? Não o presidente do clube, como sugere Nelson Rodrigues, mas um “simples” jogador, o eu-responsável sobre o qual irão pesar todas as energias, positivas ou negativas (“vai fazer, vai perder”). Alguns preparativos rápidos: ninguém deve ficar na grande área, senão o batedor. Sob os três paus, o goleiro, quase sempre assustado. Na verdade, os dois protagonistas estão assustados. Creio que o goleiro carrega uma certa leveza de consciência. Se está em nítida desvantagem (a chance é muito maior de haver gol), em compensação o goleiro pode encarnar um "franco atirador", no sentido de que que está desobrigado de defender o chute. Se defender, será um herói. Se não conseguir, ora, seria muito difícil, tá desculpado. Desse modo, a torcida aceita melhor uma não-defesa do que um não-gol após efetuada a cobrança. Na cena do pênalti, há mil personagens. Entre elas: 1- o batedor; 2-o goleiro;  3-a torcida do time beneficiado; 4- a torcida do time penalizado; 5- o juiz e 6-outros : o amante do futebol pelo futebol, o gandula, o repórter ou o câmera atrás do gol, o torcedor ouvindo pelo rádio fora do estádio, vendo pela TV, etc. Não há como explorar tantos afetos. Fiquemos nos cinco primeiros. O batedor, claro, está como que atado às circunstâncias do jogo. Observemos que uma decisão por pênalties (critério de desempate) é completamente diferente de um pênalti no meio do jogo. Que seja esse último. O batedor encarna o suspense coletivo. Nos seus pés e mente, a ação inicial que tornará possível a resposta definitiva à pergunta: “foi gol?” Ele tem sete metros à frente e um obstáculo sombrio. Há muitas manhas nesse momento. A história do futebol é pródiga em descrevê-las. O que nos parece essencial (e óbvio) no batedor é a vontade de colocar a bola lá dentro.  Talvez enfiá-la junto com o goleiro, se o chute for tão forte que o empurre. Mas, o que acontece em geral é a bola ir no canto ou no cantinho. Na "gaveta" é mais difícil porque arriscado. Certos batedores dirão que mais vale o tiro forte. Há outras manhas sutis (como, por exemplo, observar o movimento prévio do goleiro: pra que lado vai cair? ou a clássica "paradinha" que exige boa dose de técnica). De qualquer modo, o batedor é um homem angustiado que quer resolver logo isso. Carrega mais pressa que o goleiro devido ao peso da responsabilidade. Tudo tem que ser rápido. Bater logo, fazer logo, comemorar logo! Quanto ao goleiro, está “abandonado” sob o seu arco, vulnerável e pronto a aceitar o que vem de lá, a bola e o chute. Pegar um pênalti é uma sensação indescritível, demonstração de força, potência. Há goleiros que ficam em transe, saem de si, batem forte no peito, sentem-se guerreiros, viajam pelas estrelas, agradecem aos deuses, a Deus, aos céus, a tudo que os transcende. Berram e correm como loucos. Compreensível: ele, que é um personagem maldito (não pode falhar em nenhum momento)  assume agora o poder do milagre. Este é um instante que jamais deverá ser esquecido, o da DEFESA, ainda que, por vezes, a bola possa apenas ter roçado em sua perna e ido pra fora. Que importa, se não entrou?Continuando, temos a personagem Torcida 1: ela deseja o pênalti convertido em gol, e entra num suspense atroz, só quebrado pelo apito do juiz e o desfecho do lance. A Torcida 1 explode num grito de gol ou num lamento gutural, expressando a enorme frustração do GOL QUE NÃO VEIO. A outra, a Torcida 2, a que não quer o pênalti convertido, explode de alegria pela perda do gol fácil, ou murcha de pronto devido ao gol do adversário. São imagens duplas em espelho, refletindo um binarismo torcedor. É uma organização “essencial” do espetáculo que estanca no momento do chute fatal. Por fim, temos o juiz, a  “última” personagem da Cena trágica. Ora, para ele, o pênalti só é complicado quando a marcação foi duvidosa (pareceu falta, mas não foi, dentro da área ou não, simulação, etc). O ato em si de ordenar a cobrança da falta máxima é simples e fácil para o árbitro. Quanto às outras personagens, encarnam afetos conhecidos, desconhecidos, bizarros e inomináveis, já que acolhem os efeitos do gol ou do quase-gol numa euforia ou num lamento insondáveis. É o futebol, É O FUTEBOL, meu caro, por tudo isso e muito mais, o mais belo esporte jamais inventado.

A.M.

ANDRE KOHN


O HORROR DO EQUILÍBRIO

O líder norte-coreano Kim Jong Un afirmou neste sábado (16) que o objetivo do país de desenvolver sua força nuclear "está quase concluído", segundo a agência de notícias estatal KCNA, citada pela Reuters.
A Coreia do Norte pretende alcançar um "equilíbrio" de força militar com os Estados Unidos, que indicaram que sua paciência para diplomacia está acabando após Pyongyang disparar um míssil cruzando o Japão pela 2ª vez em menos de um mês.
"Nosso objetivo é estabelecer o equilíbrio da força real com os EUA e fazer com que os governantes norte-americanos não se atrevam a falar sobre uma opção militar", disse Kim Jong Un.
(...)

Globo.com, 16/09/2017, 16:23 hs
Quando te vi amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo


Fernando Pessoa

ORQUÍDEAS ETERNAS


CONTRA O  FASCISMO

Sou filho de uma guerra civil, a da Espanha, com mais de 1 milhão de mortos – a maioria fuzilados -, e de uma ditadura militar de 40 anos, marcada por mortes e intolerância com as diferenças. Talvez por isso, ao escutar de novo, em um vídeo, a palavra “fuzilar” na boca de Jair Bolsonaro, candidato a presidir o Brasil, senti arrepios. De acordo com suas palavras, “é preciso fuzilar” os responsáveis pela exposição de arte Queermuseu do Santander Cultural, em Porto Alegre. No vídeo, Bolsonaro repete três vezes com ênfase: “É preciso fuzilar”. E Freud nos ensina como a linguagem nos trai.

Quando a Guerra Civil Espanhola eclodiu, eu era menino. Vivíamos em um povoado da Galícia onde as janelas de casa davam para a rua. Ali se podia ver, à beira da estrada, os fuzilamentos dos dois lados e sentir o estopim dos fuzis. Minha mãe fechava as janelas para que eu não visse aquelas mortes violentas. Naqueles anos, nossa preocupação era que meu pai, o professor da cidade, pudesse ser a qualquer momento arrastado para a estrada e fuzilado. Muitas noites camponeses pobres o escondiam em suas casas.

Hoje, o deputado Bolsonaro tira da gaveta o maldito verbo “fuzilar” contra os responsáveis por uma exposição de arte, não contra inimigos em uma guerra. Talvez porque meus sonhos ainda sejam às vezes perturbados pelo estouro dos fuzilamentos da minha infância, confesso que escutar de um responsável pela vida pública que aqueles que trabalham com arte e cultura devem ser fuzilados me perturba duplamente neste Brasil, país que escolhi para acabar meus dias e onde nem os mais idosos se lembram da última vez que houve uma guerra.

Esse chamamento a fuzilar os responsáveis por uma exposição de arte, por mais polêmico que seja, me traz outra lembrança, desta vez já como adulto. Acabada a ditadura e morto o caudilho Franco, a imprensa livre divulgou como o ditador decidia os fuzilamentos do dia seguinte. Era algo que ele fazia enquanto tomava seu cafezinho depois de almoçar. Levavam a ele a lista dos condenados à morte pelo regime e ele decidia de que maneira e a que hora deveriam morrer. E cada decisão era decorada com um toque artístico. O general desenhava uma flor ao lado de cada nome condenado à morte.

Tantos anos depois escuto que deveriam ser fuziladas as pessoas relacionadas com a arte e a cultura, e vejo que a pessoa que manifesta esse impulso de violência, candidato à Presidência do Brasil, já contaria com milhões de votos. Pergunto-me, dolorido e espantado, triste e perplexo: “O que está acontecendo com o meu Brasil? Até onde quer chegar a loucura que se incrustou em suas veias?”.

Não deveria ser esta a hora em que os artistas, os poetas, os intelectuais, os trabalhadores – todos aqueles que não acreditam na força das armas mas sim na do diálogo, do encontro, da soma dos esforços pela paz – deveriam se unir para mudar o verbo fuzilar de Bolsonaro para amar e aceitar o outro? Sim, a todos, inclusive aqueles que não pensam como nós.

Como escreveu no Facebook a minha mulher, a poeta Roseana Murray: “Quando a arte e o pensamento se transformam em bode expiatório é urgente se desarmar. E amar”.

Se algo deve ser “fuzilado”, neste momento, é a intolerância. E se algo deve ser salvo e com urgência, é a liberdade de viver, de pensar, de criar e de amar como cada um quiser. Todo o resto tem cheiro de morte.


Juan Arias, El País, 16/09/2017, 21:18 hs

sábado, 16 de setembro de 2017

O QUE SERÁ

Há qualquer coisa no ar. Impossível saber do que se trata. Nem mesmo cogitar se é uma coisa palpável, para pelo menos organizar as percepções. O fato é que são estranhas sensações. Percorrem o corpo em brasa. Há qualquer coisa, sentimos, não identificável, fugidia, talvez mesmo invisível. Atravessa espaços e chega às colinas verdes de um pensamento sem imagem. Fala de anjos, forças cósmicas, deuses, musas, seres errantes, estados dionisíacos. Talvez uma música ao longe se aproxime e estabeleça um ritmo de dança para entender o que se passa. É preciso, no entanto, escutar vozes para se conseguir dizer: há qualquer coisa no ar dos pulmões tecendo um brilho nos olhos. E se os dias seguem irreversíveis, a cada segundo intuímos na carne dos sonhos: sim, existe alguma coisa sem nome embriagando a existência. Ela fabrica o sol e envia todos os signos da alegria.

A.M. 

LUIZ CALDAS - É d´Oxum


A pior filosofia é a do choramigas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.
(...)

Machado de Assis
O INFERNO AQUI

Rafael Braga Vieira, 28, conseguiu um respiro no inferno. Condenado em primeira instância a 11 anos e três meses de prisão por porte de drogas, o jovem, preso desde janeiro de 2016, poderá tratar da tuberculose aguda em casa. O ministro do Superior Tribunal de Justiça Rogério Schietti Cruz, responsável pela decisão, entendeu que não existem condições para um atendimento de saúde adequado na penitenciária Alfredo Trajan, no complexo do Bangu, Rio de Janeiro. O local é famoso por suas condições medievais, que incluem ambientes insalubres e superlotação de mais de 350% – em fevereiro abrigava 3.087 detentos onde caberiam 881. Soma-se a isso a presença de apenas um médico, que visita o presídio uma vez por semana, de acordo com um relatório de fiscalização realizado pela Defensoria Pública do Rio.
(...)

Gil Alessi, El País, São Paulo, 15/09/2017, 18:05 hs

SALVADOR, MEU AMOR

Ponta do Humaitá, 2012

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros

JOAN MIRÓ


sexta-feira, 15 de setembro de 2017

NADA DE NOVO

Começa a ser escrita em Brasília a segunda edição da crônica de um enterro anunciado. Os aliados do governo na Câmara ainda não leram a segundo denúncia de Rodrigo Janot contra Michel Temer. Mas já detestaram a peça. A exemplo do que aconteceu com a primeira, a nova denúncia será sepultada viva no plenário da Câmara. Ficará no freezer até que Temer vire ex-presidente da Rerpública.

A conta a ser feita é muito simples: há na Câmara 513 deputados. Para que o Supremo Tribunal Federal fosse autorizado a dar andamento às investigações, seriam necessários 342 votos. Assim, fica fácil para Temer livrar-se de Janot. Atraindo para sua infantaria 172 deputados, ele impede que seus rivais alcancem os 342 votos.

O discurso do governo e dos seus aliados está pronto. Alega-se que a economia se recupera lentamente e não é hora para se preocupar com detalhes insignificantes como uma denúncia por formação de organização criminosa e obstrução de Justiça. No Brasil o limite entre o que deve e o que não deve ser investigado é a capacidade que o presidente tem de descobrir o valor dos seus apoiadores na Câmara. No momento, os deputados estão em liquidação. E a compra será financiada pelo déficit público.

Do Blog do Josias de Souza, 04/09/2017, 23:15 hs

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Convenientemente aplicada a qualquer situação, o amor vence sempre. É um fato que se verifica empiricamente. O amor é a melhor política. A melhor não só para os que são amados, mas também para quem ama. Pois o amor é um potencial de energia.
(...)

Aldous Huxley
À PROCURA  DA  DIFERENÇA

Em “saúde mental”, conceito que remete ao Fora, ou seja, ao funcionamento produtivo e múltiplo das sociedades e ao pensamento sem imagem (não representativo), a diferença se faz e se tece por linhas invisíveis. Por isso segue um percurso tortuoso e arriscado onde a poesia se torna a expressão mais intensa do seu corpo supliciado e sempre alegre. Não é possível, pois, identificá-la ("veja, a diferença!") nem assimilá-la a formas sociais estáveis, a consciências bem intencionadas ou à percepções grosseiras da realidade em torno. Ora, ela não tem identidade, organização visível, rosto único, mas conteúdos formigando por toda parte, multiplicidades. Isso contraria e assusta os guardas perfilados da razão universal e os moralistas de plantão locupletados em escaninhos institucionais: escola, universidade, família, religião, estado, tantas linhas sedentárias... Falamos de outras coisas, outros universos, sensibilidades desconhecidas, inomináveis, a serem exploradas. Assim, para além da saúde mental e da educação que lhe são correlatas enquanto experiências coletivas, a diferença só pode ser encontrada no mundo do abstrato, mundo sem forma e real, movido por devires incontroláveis. Aqui mesmo na Terra.

A.M.

MARISA MONTE - Velha Infância


LULA É TEMER E VICE-VERSA


Atire um esquerdista e um direitista dentro de um processo por corrupção e os dois deslocarão suas massas em meio às denúncias pegajosas de forma semelhante, esperneando da mesma maneira. Do ponto de vista penal, não há nenhuma diferença estatisticamente relevante entre Lula e Michel Temer. Os dois reagem aos estímulos acusatórios de forma idêntica: negam o roubo e alegam ser perseguidos.

Até bem pouco, Lula e Temer eram aliados. Deve-se a Lula a escolha de Temer para ser o vice de Dilma. Passaram a se atacar mutuamente depois que Dilma foi deposta. Mas, apesar das acusações recíprocas, está provado que Lula e Temer se lambuzam quando comem manga ou quando precisam se defender em processos criminais.

Em Curitiba, Lula prestou novo depoimento a Sergio Moro, um juiz que considera suspeito. Já recorreu até à ONU para afastá-lo. E nada. Em Brasília, Temer arguiu a suspeição do procurador-geral Rodrigo Janot no STF. Queria afastá-lo para, depois, anular o processo. Não deu.

Dedurado até pelo companheiro Antonio Palocci, Lula manteve a pose de perseguido diante de Moro. No Supremo, o advogado de Temer disse que ele não pode responder pela mala com a propina de R$ 500 mil que seu amigo Rodrigo Rocha Loures recebeu.

Em termos criminais, é impossível distinguir PT e PMDB. Um teste de DNA talvez revele que, diante de um cofre público, os dois partidos têm a mesma mão grande.


Do Blog do Josias de Souza, 13/09/2017, 20:14 hs

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Nem tudo que tentei perdi. Restou 
a intenção de ser alguém ou algo
que não se pode ser, mas só ter sido;
restou a tentação do nada, nunca
tão forte que vencesse esse meu medo
que é a coisa mais honesta que há em mim.
Sobrou também o hábito vadio
de me virar do avesso e esmiuçar
as emoções como quem espreme espinhas.
Mas nada disso dói; a dor é um ácido
que ao mesmo tempo que corrói consola,
é uma coceira que vem lá de dentro
e me destrói sem dignidade alguma.

Paulo Henriques Britto

ROSA PASSOS - Você Vai Ver


CRONOS

A cronificação é, hoje, talvez, o principal signo da clínica psiquiátrica. Ou haja sido sempre. Há crônicos ditos psicóticos, crônicos transtornados da personalidade, crônicos do humor, crônicos do pânico, crônicos da angústia, crônicos neuróticos, etc... Tal cronicidade, vista como "estado essencial"ou como"natureza profunda" da visão biomédica, fez da psiquiatria, ela própria, uma Doença Crônica, crono-tempo espacializado em gigantescos asilos invisíveis.Eles se reproduzem por toda a parte, erguem-se, científicos, majestosos. Em plena luz do dia capturam seres sem-razão.


A.M.

ALEXI ZAITSEV


terça-feira, 12 de setembro de 2017

(...)
Você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeito, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente.

Caio Fernando Abreu
antes que você sinta
a repetição enfadonha
do mesmo
lembre-se que lovecraft
movia um corpo
em loucas dimensões
no seu quarto de dormir


A.M.

ROSA PASSOS - Juras


NÓIS  VAI

Os delatores da JBS desceram do céu, onde desfrutavam de imunidade penal, para o inferno, onde estão cercados por pelo menos quatro investigações criminais de nomes esquisitos: Operação Sépsis, Operação Greenfield, Operação Cui Bono, e Operação Bullish. Investigam-se desde fraudes na Caixa Econômica até empréstimos companheiros no BNDES. Sem imunidade, a turma da JBS talvez tenha que se contentar com reduções de penas.

No autogrampo que provocou a reviravolta na colaboração judicial da JBS, o clepto-empresário Joesley Batista contou vantagem para seu empregado Ricardo Saud. Expressando-se num idioma muito parecido com o português, ele disse: “Nóis num vai ser preso”. Joesley e Saud foram passados na tranca no domingo. Não havia outra coisa a fazer.

Aproveitando-se da erosão do acordo com a JBS, denunciados e investigados criticam o instituto da delação. Michel Temer e seus aliados puxam o coro. Convém rebater o coro. Uma delação mal negociada não torna a ferramenta algo maldito. Ao contrário. É preciso punir os delatores de fancaria para preservar um mecanismo que vem se revelando vital no combate à corrupção. Temer se apavora porque acaba de ser preso na Papuda Geddel ’51 Milhões’ Vieira Lima. Trata-se de uma nova delação esperando para acontecer.

Do Blog do Josias de Souza, 11/09/2017, 21:03 hs

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

GLOSSÁRIO – letra P

Psiquiatra biológico- s. m. -  (outrora chamado "orgânico") profissional que busca (pesquisa?) alterações/lesões/disfunções em algum setor do organismo físico-químico, em especial o cérebro, para explicar/justificar o transtorno mental apresentado. Usa pouco a escuta, a sua fala é breve, objetiva, a entrevista com o paciente em geral é curta (cerca de 15 minutos), gosta de seguir  o roteiro de tabelas insípidas sobre o humor, memória,  percepção, inteligência, etc,; a  atitude técnica é a de um cientista preocupado com a ciência, truismo que se impõe como dado natural na propedêutica clínica.  Desenvolve e cultua uma visão de mundo positivista, onde, óbvio, reina o projeto científico como "salvação" da humanidade. Odeia a política e despreza a filosofia. O psiquiatra biológico costuma se transmutar em "cidológico" na medida em que erige e cultiva a CID-10 como padrão referencial do que ele chama de "transtorno mental". Sobre essa variação semântica e taxonômica, ver também postagem neste blog em Glossário - letra P. -psiquiatria cido-biológica. 

A.M.

domingo, 10 de setembro de 2017

Morena Flor

Ela tem uma graça de pantera
No andar bem-comportado de menina.
No molejo em que vem sempre se espera
Que de repente ela lhe salte em cima

A mim me enerva o ardor com que ela vibra

E que a motiva desde de manhã.
- Como é que pode, digo-me com espanto...


Castro Alves

JOESLEY !

Será que a quentinha na Papuda é Friboi?

MIL ESQUERDAS

Há uma sensibilidade de "esquerda" completamente estranha à da esquerda marxista. Nesse caso, o pensamento marxista passa a ser utilizado em fragmentos (enunciados) nunca totalizáveis. É que o valor do texto marxiano nos parece inquestionável. Ele é necessário para a busca de um certo entendimento da realidade do capital, já que foi Marx o autor que talvez mais tenha escrito sobre a Coisa. Trata-se do "econômico", conceito bem mais amplo e preciso que "financeiro". "Desejo" é, pois, um conceito econômico, pelo menos no sentido deleuziano. Assim, não é possível falar de uma esquerda, mas de muitas, mil, cem mil esquerdas. O que têm em comum é a afirmação das diferenças: singularizações múltiplas. Isso não é nem um pouco abstrato. Insere-se em práticas sociais concretas, mesmo que que não sejam visíveis ao olhar imediato do senso comum da consciência vigilante. A luta das minorias (não quantitativas, mas desejantes) serve como referência a tais esquerdas. É possível citar, a guisa de exemplos, algumas minorias com a marca da opressão sob variados matizes e gravidade. Os pobres, as mulheres, as crianças, os negros, os índios, os velhos, os loucos, os homossexuais (incluindo-se os "n" sexos),os imigrantes, entre muitas outras minorias, atravessam a História.Uma sensibilidade de esquerda é afetada pelas linhas coletivas que compõem tais minorias. Não para buscar uma identidade, mas para libertar a vida, ali onde ela está sendo esmagada.

A.M.


P.S. - texto repostado e modificado.
O SEXO DA IGREJA

O teólogo e filósofo Krzysztof Charamsa, polonês de nascimento e hoje residente em Barcelona com seu namorado catalão, ficou famoso sem querer quando há dois anos tornou público que é homossexual e que tinha um companheiro. Naquele momento, vivia em Roma e trabalhava diariamente no Vaticano, onde era nada menos que secretário da Comissão Teológica Internacional, dentro da Congregação para a Doutrina da Fé. Ou seja, Charamsa era um alto funcionário do Estado da Santa Sé. Expulso imediatamente do trabalho, o Vaticano tentou abafar um escândalo que colocava sobre a mesa novamente a homossexualidade na hierarquia da Igreja católica. “Metade dos padres do Vaticano são gays”, declarou na época. Mais tarde, publicou o livro A primeira pedra, no qual relata como foi o processo interno que o levou a tomar a decisão radical que mudou sua vida. Também denuncia a homofobia no seio da Igreja Católica. No sábado, dia 9 de setembro, pronunciou a quarta conferência do congresso da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII, que nesta edição aborda o tema Mulheres e religião: da discriminação à igualdade de gênero.
(...)

Juan G. Bedoya, El País, Madri, 09/09/2017, 21:11 hs
BARCAROLA

eu e (você) andando
, de mãos emprestadas, quase pelas ruas,
sem olhar para cima nem pros lados nem pra frente,
porém em direção ao Futuro. Ou ao Eterno. Ou ainda ao Sublime.
Ou coisa que o valha, ou qualquer coisa
que não valha nada.

eu (e você)
, nós dois, na noite quase escura,
pulando pelos paralelepípedos da rua asfaltada
brincando de amarelinha sem linhas nem pedra,
saltando por cima das regras, sem ligar a mínima,

eu e “você”, sem fôlego, sem direção,
furando sinais, cruzando fora das faixas,
comprando coisas em lojas fechadas
na parte mais feia da cidade
temporariamente morta,

eu e “(você)”, sem tempo, sem horário, sem
pressa nem propósito,
cortando a vitrine com o diamante do anel que
estamos tentando roubar da vitrine
que estamos cortando
com o diamante do anel que ainda vamos roubar

, eu e quase você, bêbados, desbundados, tontos de sono,
prostrados na praia artificial
polindo na areia plástica
a pedra do anel que a gente ia roubar
contando as estrelas que o dia já apagou
vendo o sol nascer às avessas
esperando o barco.
- Ó, lá vem o barco!
O barco.


Paulo Henriques Britto

RAFAEL BARRADAS


sábado, 9 de setembro de 2017

Eu sou completamente a favor da separação da Igreja e do Estado. Penso que essas duas instituições já nos ferraram o suficiente por conta própria, então as duas juntas é morte certa.

George Carlin
A  INVOLUNTARIEDADE  EM  PSICOPATOLOGIA

A clínica psicopatológica abrange situações concretas, por vezes, muito difíceis. Uma delas configura o que chamamos de involuntariedade do paciente em relação ao cuidado que lhe é oferecido. Dito de outro modo, ele não sente a necessidade de ser atendido. A sua vivência se expressa como rechaço (em maior ou menor grau) à aproximação do técnico, configurando o que a psiquiatria ortodoxa chama de "negativismo". Os quadros diagnósticos mais encontradiços nesse tipo de atitude são as chamadas psicoses. Mas não só. Há situações em que o paciente não colabora, não aceita conversar, etc, mas não está psicótico. São, por exemplo, casos de dependência de drogas, transtornos do humor, transtornos da personalidade, e, como não citar, as intrigantes dissociações histéricas. O que essas formas patológicas (sempre singulares, vale ressaltar) apresentam em comum é o elemento de involuntariedade aludido acima. Então estará em curso uma problemática clínica complexa que implica no manejo da situação com evidente implicação ética. O que fazer? No trabalho do Caps esse tipo de demanda leva à necessidade de que toda a equipe se disponha a discutir os modos de intervenção. Ora, essa tarefa não conta com um protocolo ou manual prático como quer o ideário biomédico da psiquiatria. Pensar a clínica é, pois, analisar cada caso a partir da relação do técnico com o paciente e da relação do paciente com o que está em torno, comumente e o mais próximo, a família. Trata-se do Contexto atual que desemboca no "algo tem que ser feito". É essencial tal postura pois identifica as condições e vetores reais (sociais, orgânicos, familiares, culturais, econômicos, etc) que estão a produzir e a manter o patológico. A psicopatologia sai, então, do terreno áspero do diagnóstico engessado e engessante, ou mesmo do não-diagnóstico, e vai até às multiplicidades do mundo que atuam singularmente no Encontro com o paciente. Tarefa difícil, inglória, delicada, mas não impossível.

A.M.

JOÃO BOSCO - Papel Maché


Ama-me

Aos amantes é lícito a voz desvanecida. 
Quando acordares, um só murmúrio sobre o teu ouvido: 
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora, 
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês 
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo 
Ronda escurecida? 

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento 
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor 
Quando tudo anoitece? Antes lamenta 
Essa teia de seda que a garganta tece. 

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito 
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome 
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido 
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo.


Hilda Hilst
IRMA  SEM  CONTROLE

A Flórida iniciou a contagem regressiva para o choque do furacão Irma, o maior já registrado no oceano Atlântico, que, conforme tudo indica, deverá provocar uma catástrofe de dimensão inédita. “Vai devastar os Estados Unidos”, afirmou nesta sexta-feira o diretor nacional de emergências, Brock Long. O presidente Donald Trump advertiu de que será um furacão de “proporções épicas” e pediu à população – cerca de seis milhões de pessoas em perigo extremo na costa leste da Flórida, com Miami como potencial zona zero, e um risco crescente para o conjunto dos 21 milhões de habitantes do Estado – que “se afastem do caminho” do Irma.
(...)

Pablo de Llano e Nicolas Alonso, El País, Miami, 09/09/2017, 13:08 hs

CAYMMI & JOBIM - Saudades da Bahia


INVENTAR  O  CAPS

Enfocando o grupo técnico em saúde mental, teríamos: 1-Trata-se de fato de um grupo? 2- A que interesses atende? 3-Que concepções sobre a loucura norteiam o trabalho clínico? 4-Como se dá a comunicação entre os segmentos técnico-profissionais em relação ao paciente? 5-Qual o lugar da ética e da política nas ações práticas? 6-Quais os índices da medicalização consentida que ainda assola a equipe? Tentemos processar, em linhas gerais, cada um dos itens, usando como hipótese de base: apesar da reforma psiquiátrica, a psiquiatria é um modo de subjetivação que ainda domina e controla os que lidam com o paciente. Existe, pois, o grupo técnico trabalhando sob uma espécie de transcendência psiquiátrica. "Tomou a benção aos médicos?" Esse dado tem origens complexas (que fogem ao objetivo desse artigo) e se expressa no lugar de poder da medicina. Contudo, desde que a psiquiatria oferece um arsenal de medicamentos contra os ditos transtornos mentais, o despotismo psiquiátrico é tolerado e por vezes louvado. Remédio não é um mal em si. O bom ou mau uso é quem decidirá. A questão é que esse "uso" surge como primeiro na avaliação psicopatológica, se é que ainda existe psicopatologia nas hostes mentais. Questão de poder: a Verdade da psiquiatria passa a ser a Verdade do paciente. A Inversão da propedêutica médica. Medicar e depois diagnosticar, se possível. Assim, o transtorno mental surge na e da psiquiatria como seu objeto aparentemente legítimo. Cabe aos demais técnicos acompanhar o carro-chefe. Ou nada. Esse fato compromete o trabalho de grupo como um trabalho coletivo. Mas, afinal, de que objeto se trata? Transtorno mental já não seria alguma coisa fabricada pela própria psiquiatria?Transtorno mental é um conceito nominal. Não esclarece nada, não explica nada. Ele é que tem que ser explicado. Ora, se esse é o objeto da psiquiatria, não pode ser objeto da psicologia, da farmácia, da enfermagem ou de outros saberes. Então, partir da psiquiatria como proprietária do paciente é admitir que tudo, em termos de equipe e tratamento, gira em torno do significante hegemônico “psiquiatria” como centro de significação clínico-institucional. E por extensão, o seu objeto, o paciente. Parece que estamos girando num círculo de redundâncias. Como então constituir um grupo se um sujeito (a psiquiatria) instituiu há muito o seu objeto (o paciente) ? Ora, a grupalidade só pode ser obtida se houver uma des-hierarquização das relações intra-grupais. Um mesmo plano de trabalho e de afetos. Fora disso, atolamos na burocracia técnico-administrativa. Então, esta é a primeira condição para um grupo de trabalho em saúde mental. Todos são iguais em suas diferenças. Em segundo lugar, a que interesses atende o grupo? Pode ser o interesse do Estado-patrão, sempre de olho em possíveis desvios da normalidade jurídica e policial.  Ou o interesse da sociedade como um todo e o seu famigerado bom senso para saber como andam, como se comportam ("estão quietinhos?") seus loucos. Ao contrário, acreditamos que o grupo deve atender aos interesses da loucura. Entendemos esta como uma linha existencial libertária e avessa aos domínios e interesses do Estado, do Mercado, da Escola, do Direito, da Família e instituições conexas. A loucura, na verdade, não tem e não vive de interesses. Ela vive do desejo agenciado em praticas de mundo, é o puro desejo espraiando-se em produções subjetivas ao acaso dos encontros. Tal definição vive e se nutre no campo do impessoal. Portanto, não falamos do louco, mas da loucura que poderá se encarnar, aí sim, num suposto louco. Em terceiro lugar, o desejo está em toda a parte onde se trabalha com o louco. Ressoa a questão: que linhas o desejo percorre e escorre, ou, ao contrário, estagna, trava, quando o louco se diz (ou dizem) que ele é louco? Por fim, em quarto lugar, a análise de um grupo técnico incide sobre práticas que o desejo impulsiona. É que a equipe técnica compõe-se de linhas do desejo e práticas coextensivas. Ela demanda uma autoanálise político-institucional das suas operações cotidianas. Para isso ser possível, usamos um método que traça a cartografia das produções desejantes num meio (ou conjugação) de determinações coletivas múltiplas. O meio é o método.Trata-se da subjetividade como modo de produção contextualizada. Devires, o conteúdo do desejo, processos de criação. Deste modo, evitar que o Caps reproduza o modelo biomédico, matriz da violência cientificamente autorizada e dos horrores registrados na história da psiquiatria, será possível?

A.M.

MANUEL BANDEIRA - O Bicho


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

POR  QUE  ESCREVER?

(...)
O fim, a finalidade de escrever? Para além ainda de um devir-mulher, de um devir-negro, animal etc., para além de um devir-minoritário, há o empreendimento final de devir-imperceptível.Não,um escritor não pode desejar ser "conhecido", reconhecido.O imperceptível, caráter comum da maior velocidade e da maior lentidão. Perder o rosto, ultrapassar ou furar o muro, limá-lo pacientemente, escrever não tem outro fim. O que Fitzgerald chamava de verdadeira ruptura: a linha de fuga, não a viagem nos mares do Sul, mas a aquisição de uma clandestinidade (mesmo se se deve tornar-se animal, tornar-se negro ou mulher). Ser, enfim, desconhecido, como poucas pessoas são, é isso trair. É muito difícil não ser mais conhecido de ninguém, sequer do porteiro, ou no bairro, o cantor sem nome, o ritornelo. No final de Tenra é a noite, o herói se dissipa literalmente, geograficamente. O texto tão bonito de Fitzgerald, The crack up, diz: "Eu me sentia parecido com os homens que via nos trens do subúrbio de Great Neck, quinze anos antes..." Há todo um sistema social que poderia ser chamado de sistema muro branco – buraco negro. Estamos sempre dependurados sobre o muro das significações dominantes, estamos sempre mergulhados no buraco de nossa subjetividade, o buraco negro de nosso Eu que nos é mais caro do que tudo. Muro onde se inscrevem todas as determinações objetivas que nos fixam, nos enquadram, nos identificam e nos fazem reconhecer; buraco onde nos alojamos, com nossa consciência, nossos sentimentos, nossas paixões, nossos segredinhos por demais conhecidos, nossa vontade de torná-los conhecidos. Mesmo se o rosto é um produto desse sistema, é uma produção social: grande rosto com bochechas brancas, com o buraco negro dos olhos. Nossas sociedades têm necessidade de produzir rosto. O Cristo inventou o rosto.
(...)

Gilles Deleuze e Claire Parnet in Diálogos
CONVERSA DE BÊBADO

O Joesley falou para não levar em conta sua conversa com o caro amigo Ricardinho. Conversa de bêbado, disse o açougueiro viciado em comprar arrobas de autoridades no pasto seco de Brasília. Como não levar a sério uma prosa bêbada, colega, seria o mesmo que jogar fora toda a sabedoria de Freud sobre o inconsciente e seus labirintos. Um bêbado com direito às benesses da delação premiada, então, nem se fala. Tem mais crédito ainda no mercado. Mesmo bebendo seu uísque com um axé ao fundo.

Nada contra o axé da Ivete, Joesley, é que prefiro os bêbados mais tristes, são mais confiáveis, os bêbados que afogam as mágoas com um brega do José Ribeiro ou uma moda sofrida de Tião Carreiro e Pardinho. Também soaria supimpa e irônica, no quase monólogo do rapaz da Friboi, uma trilha de ópera buffa ou um rock-sacanagem do grupo Velhas Virgens.

Porque só conversa de embriagado merece crédito neste momento do país. Na frente do juiz, sai tudo muito ensaiadinho, nem sempre beira a verdade, o cara só pensa em se livrar do frio xilindró de Curitiba. Com ajuda do álcool, a narrativa faz mais sentido -- e repare que nem apelei, até agora, para as frases do Hemingway sobre o tema, seria covardia estética.

O certo é que a realidade não passa de uma ilusão provocada pela falta de bebida. Daí a importância de embebedar todos os nossos destemidos delatores. In vino veritas; no uiscão, entonce, vixe. Só discordo na idade, caro Joesley, sei que você não bebe abaixo dos 25 anos de envelhecimento. Confesso que foi o Drury´s, sóbrio leitor, que me fez libertar a prosa mais guardada e existencialista. O sincericídio, em matéria de embriaguez, não carece de mais de oito anos no barril das verdades encobertas.

Atesto e dou fé a toda e qualquer conversa de bêbado. Meu fígado que o diga; minha consciência depois que me repreenda. É do jogo freudiano. Dos sumérios, amantes da cerveja, até hoje, como me ensina o poeta Alexei Bueno no seu livrinho-livrão Alcoofilia - 5.000 anos de declarações à bebida (editora Lacre, Rio, 2015).

Não dá para confiar, meritíssimo, é na ressaca moral. Seja a ressaca de uma grande roubalheira, como parece o caso do mocó do Geddel, seja uma rebordosa de Veuve Clicquot ou de Jurubeba Leão do Norte - na ressaca, e somente na ressaca extrema, não há luta de classes. Tampouco existe a mínima verdade. Um(a) ressacado(a) é antes de tudo um temente a Deus e às autoridades terrenas, se faz de bonzinho e arrependido, quem nunca?

Na propina política e nos negócios em geral, públicos ou privados, a conversa bêbada tem sempre a sua importância histórica. Vale por uma denúncia de procurador-geral da República. No amor, porém, embora descambe em desabafos épicos na madruga, damos um certo desconto, pode ser apenas um ajuste mental para mais e melhores transas futuras.


Xico Sá, El País, 08/09/2017, 16:13 hs