quinta-feira, 30 de junho de 2016

A VIDA PROFISSIONAL

Os banqueiros da grande bancaria do mundo, que praticam o terrorismo do dinheiro, podem mais que os reis e os marechais e mais que o próprio Papa de Roma. Eles jamais sujam as mãos. Não matam ninguém: se limitam a aplaudir o espetáculo.
Seus funcionários, os tecnocratas internacionais, mandam em nossos países: eles não são presidentes, nem ministros, nem foram eleitos em nenhuma eleição, mas decidem o nível dos salários e do gasto público, os investimentos e desinvestimentos, os preços, os impostos, os lucros, os subsídios, a hora do nascer do sol e a freqüência das chuvas.
Não cuidam, em troca, dos cárceres, nem das câmaras de tormento, nem dos campos de concentração, nem dos centros de extermínio, embora nesses lugares ocorram as inevitáveis conseqüências de seus atos.
Os tecnocratas reivindicam o privilegio da irresponsabilidade:
— Somos neutros — dizem.

Eduardo Galeano

ELLEN OLÉRIA - Desenho de Giz


bem antes do  homem
chegar  à  terra
lovecraft  registrou
a  vida  ínfima
dos  seres  azuis


A.M.
ISSO NÃO PÁRA

RIO - O Ministério Público Federal (MPF) e a Polícia Federal (PF) deflagraram na manhã desta quinta-feira uma operação para cumprir cinco mandados de prisão em São Paulo, Rio e Goiás. Entre os alvos estão o ex-presidente da empreiteira Delta Construções Fernando Cavendish, o bicheiro Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira, e o empresário Adir Assad, que já foi condenado na Operação Lava-Jato.

A investigação constatou que os envolvidos, "associados em quadrilha", usaram empresas fantasmas para transferir cerca de R$ 370 milhões, obtidos pela Delta direta ou indiretamente, por meio de crimes praticados contra a administração pública, para o pagamento de propina a agentes públicos.

Também são alvo da operação Cláudio Dias Abreu, que já foi diretor regional da Delta no Centro-Oeste e Distrito Federal, e Marcelo José Abbud, que, segundo o MPF, é dono de empresas de fachada usadas no esquema de lavagem.

O MPF do Rio ofereceu esta semana denúncia contra Cavendish, Cachoeira, Adir Assad e mais 20 pessoas por envolvimento num esquema de lavagem de verbas públicas federais. O caso foi distribuído ao juiz Marcelo Bretas, titular da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro.
(...)

Chico Otávio e Luciano castro, O Globo, 30/06/2016,06:47 hs



quarta-feira, 29 de junho de 2016

Positivamente, não posso ser apresentado a Satanás: como André Gide, sofro a tentação de entender as razões do adversário.

Otto Lara Resende

NEDERLANDS DANCE THEATRE - Jiri Kylian


SÃO PAULO - O Ministério Público Federal de São Paulo (MPF-SP) disse, em nota divulgada nesta quarta-feira, que “vê com perplexidade” a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que libertou o ex-ministro Paulo Bernardo.

O Grupo de Trabalho formado pelo Ministério Público Federal em São Paulo para atuar na Operação Custo Brasil vê com perplexidade a decisão monocrática do ministro Dias Toffoli que concedeu habeas corpus de ofício para o ex-ministro do Planejamento e das Comunicações, Paulo Bernardo, preso preventivamente no último dia 23 de junho”, disse nota.

Segundo o grupo, com a decisão, o ministro suprimiu instâncias que ainda iriam tomar conhecimento do caso e sequer ouviu a Procuradoria Geral da República para tomar a decisão. A nota cita o fato de o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (SP), por exemplo, não ter conhecimento de qualquer pleito semelhante vindo da defesa do ex-ministro.

“O grupo envidará esforços para que a PGR busque reverter referida decisão. De qualquer forma, as investigações continuarão, em conjunto e de maneira coordenada pelas instituições interessadas, com a mesma isenção com que foram conduzidas até o presente momento”, afirmou o grupo.

A nota é assinada pelos procuradores Silvio Luis Martins de Oliveira, Andrey Borges de Mendonça, Rodrigo de Grandis e Vicente Solari Mandetta.

Por volta das 19h30min desta quarta-feira, Paulo Bernardo ainda estava preso na sede da Polícia Federal em São Paulo, aguardando a comunicação oficial de sua soltura. Ele soube da decisão de Toffoli pela TV da carceragem, no fim da manhã desta quarta-feira.

De O Globo, 29/06/2016, 20:09 hs
Nem esta obra, nem as que se lhe seguirão têm nada que ver com quem as escreve. Ele nem concorda com o que nelas vai escrito, nem discorda. Como se lhe fosse ditado, escreve; e, como se lhe fosse ditado por quem fosse amigo, e portanto com razão lhe pedisse para que escrevesse o que ditava, achava interessante - porventura só por amizade - o que, ditado, vai escrevendo.
(...)
Fernando Pessoa

terça-feira, 28 de junho de 2016

SEM CHANCE

Querem saber o efeito da perícia sobre as “pedaladas fiscais”, os créditos suplementares e a culpa ou não da presidente afastada Dilma Rousseff? Apesar da inegável competência dos autores, o calhamaço não muda absolutamente nada, porque dá uma no cravo, outra na ferradura: dá mais argumento para os dois lados e reforça o que está colocado, debatido e gritado desde o primeiro dia pelos senadores que são a favor e contra o impeachment.
Pelo relatório, tanto os decretos de créditos suplementares quanto as manobras contábeis, conhecidas como “pedaladas fiscais”, foram erros (ou crimes...), mas Dilma só pode ser responsabilizada (ou culpada) pelos créditos, não pelas pedaladas. Ok. Significa que os dilmistas dizem que “está comprovado” que não houve crime de responsabilidade nas pedaladas e os pró-impeachment rebatem dizendo que “está comprovado” que houve, sim, nos decretos.
Para os senadores dilmistas, desde o início do processo de impeachment, e para as testemunhas de defesa, que se revezam semana após semana, o argumento mais batido é o de que a presidente, enquanto presidente, não tinha obrigação nenhuma de saber das “pedaladas”, nem que eram “pedaladas”, nem que eram ilegais. Já para os senadores anti-dilmistas e os autores da ação de impeachment, ela, enquanto presidente, era obrigada a saber e é responsável pelos atos de governo.
Dando nomes e caras aos argumentos: o ex-ministro e ex-advogado-geral da União José Eduardo Cardozo, atual defensor de Dilma, admite que houve pedaladas, mas Dilma não tinha responsabilidade sobre elas. Já o senador Aloysio Nunes Ferreira, ex-líder do PSDB, ironiza: “Ele (Cardozo) inventou um crime sem réu, mas a Dilma era presidente da República do Brasil, não presidente da República de Marte. Logo, responsável pelo que acontecia”.
Como esse embate vem desde a petição, ainda na Câmara, e já passou pelo acatamento no Senado, a perícia divulgada ontem, com suas centenas de páginas, é apenas mais um maço de documentos para uns usarem de um jeito e outros do jeito oposto, ambos visando um único alvo: a opinião pública. Mas, de prático, de concreto, não altera a tendência pró-impeachment nem deve mudar um único voto na comissão e no plenário.
Mais do que um relatório ou perícia, dois fatores pesam para o voto final de cada senador, sobretudo dos que ainda se colocam publicamente como “indecisos”, mas todo mundo sabe, dentro e fora do Congresso, que não são tão indecisos assim. Um fator é o “conjunto da obra” de Dilma, principalmente o desastre na economia, amplificado pela quebra de encanto ético do PT, que acaba de piorar com o anúncio de uma roubalheira insana no crédito consignado de servidores públicos. O outro fator é a opinião pública.
Em recente visita ao Comando da Aeronáutica, seguida de almoço, o senador Acir Gurgacz (PDT-RO), listado como “indeciso”, não fez a menor questão de tergiversar ou de dourar a pílula, ao deixar claro que não tem muita saída. Ele será candidato em 2018, provavelmente a governador em Rondônia, Estado com forte predominância do agronegócio e com altíssimo índice de rejeição a Dilma. Não foi à toa que todos os oito deputados federais votaram a favor do impeachment na Câmara. “Como vou votar contra?”, antecipou Gurgacz aos militares.
Em sendo assim, a comissão do impeachment vai se alongando e se tornando mais e mais enfadonha, com os senadores dilmistas se esgoelando, as testemunhas de defesa repetindo os mesmos argumentos, o relatório da perícia engordando a pilha de documentos e... tudo continua sendo apenas uma questão de tempo. Se não houver uma hecatombe, o destino de Dilma está selado. Cá para nós, até o PT está se cansando dessa lengalenga sem fim, em que ninguém lucra. Muito menos um país que convive com dois presidentes. Surreal.

Eliane Cantañede, Estadão, 28/06/2016, 03:00hs

ALEXEY SLUSAR


segunda-feira, 27 de junho de 2016

Nunca soube por que tanta gente teme o futuro.
Nunca vi o futuro matar ninguém,
Nunca vi o futuro roubar ninguém,
Nunca vi nada que tivesse acontecido no futuro.
Terrível é o passado ou, pior, o presente!

Millôr Fernandes

POLICIAIS PARAM NO RIO


Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho.
A luz das horas me desproporciona.
Sou qualquer coisa judiada de ventos.
Meu fanal é um poente com andorinhas.
Desenvolvo meu ser até encostar na pedra.
Repousa uma garoa sobre a noite.
Aceito no meu fado o escurecer.
No fim da treva uma coruja entrava.

Manoel de Barros

HOWARD SHORE - Trilha sonora de "Depois de Horas" de Martin Scorsese, 1985


UM DEUS NÃO CRISTÃO

Numa visão  espinosiana,  crer no Deus cristão é reproduzir a relação dirigente-comandado,   governante-governado, rei-súdito, patrão-empregado, senhor-escravo, pai-filho etc;  assim,   o pensamento moderno se mantém prisioneiro de uma relação entre seres humanos, interumana, ou,  dito de um modo cristão, numa relação entre pessoas.  Deus seria uma pessoa, teria uma forma, a forma-homem. No entanto, basta considerar a existência do Infinito (tempo-espaço) para ser possível jogar por terra essa bobagem humanística, versão antropocêntrica da realidade. Não há dimensão orgânica, psíquica, existencial, espiritual, que compare em grandeza a finitude humana com o cosmos. Até porque não é uma questão de grandeza, mas de opacidade da experiência humana aos limites definidos da percepção da realidade, à cognição da realidade, esta uma produção do homem, versão utilitarista dos tempos do capital. Tudo é manipulável. Daí, nessa matéria as atitudes mais sensíveis seriam a do agnóstico, do materialista, do  ateu e  do trágico. O agnóstico admite a impossibilidade do acesso à realidade chamada divina. O materialista concebe o real como matéria (não a matéria grosseira, visível, mas a matéria como energéticas, fluxos, pulsações). O ateu se põe como o sem-Deus, admitindo o desemparo radical ante o cosmos. Por último, o trágico: este se encontra na posição dos afetos que infundem incessantemente (como na criança) linhas múltiplas do viver. A questão de Deus passa a ser "secundária". Portanto, a pergunta sobre a Sua existência ou não revela-se sem sentido, um pseudo-problema. Voltando à concepção cristã de Deus, trata-se, pois, de uma assertiva pouco inteligente mas que produz subjetividades atoladas no medo e na servidão voluntária aos poderes estabelecidos. Por que?

A.M.

GRANDES ESCRITOS


domingo, 26 de junho de 2016

Quem me garante que Jesus Cristo não estaria hoje na estatística da mortalidade infantil?
Escrevemos, escrevemos, escrevemos. Clamamos no deserto. O clube do poder tem as portas lacradas e calafetadas.

Otto Lara Resende
30.000 POR ANO

"Temos um padrão de tiroteios em massa neste país que não tem paralelo em qualquer outro lugar do mundo", disse Barack Obama após o ataque San Bernardino, em dezembro de 2015. Os 49 mortos do massacre de Orlando, acontecido no último dia 12, engrossam agora a estatística que infelizmente corrobora as palavras do presidente americano.
De acordo com o Arquivo de Violência Armada (Gun Violence Archive), uma entidade civil de Washington, “mass shooting” (“tiroteio em massa” ou “fuzilamento em massa”) é qualquer incidente em que quatro ou mais pessoas são feridas ou mortas por armas de fogo. Por essa definição, houve no território americano 136 incidentes nos primeiros 164 dias do ano (com 212 mortos e 558 feridos); entre 1º de janeiro e 12 de junho — data da tragédia em Orlando. Para o FBI (a polícia federal americana), a definição de “mass shooting” é um tiroteio que resultou em quatro ou mais mortes. Usando essa contagem, o número de incidentes cai para apenas três, com 73 mortes.
Independente da metodologia adotada, o fato é que os EUA têm anualmente mais de 30.000 mortes por armas de fogo; números que colocam o país na liderança do ranking de violência entre as nações desenvolvidas. As mortes anuais por arma de fogo, incluindo todas as origens (suicídio, assassinatos simples e “mass shooting”) nos EUA superam os óbitos por doenças cardiovasculares e perdem apenas para os falecimentos decorrentes de acidentes de trânsito. Parte dessa tragédia é atribuída por especialistas à facilidade em comprar armas no território americano; o país é líder mundial em número de armas per capita, com mais de 88 para cada 100 habitantes. Nos Estados Unidos, uma em cada três famílias possui uma ou mais armas de fogo em casa, e em 2015 chegou-se ao recorde de 23,1 milhões de armas vendidas, mais do que o dobro de 10 anos atrás.
(...)
Diego Braga Norte, Veja.com, 24/06/2016,16:57 hs

TIRANIA DA RAZÃO


Nada, Esta Espuma

Por afrontamento do desejo 
insisto na maldade de escrever 
mas não sei se a deusa sobe à superfície 
ou apenas me castiga com seus uivos. 
Da amurada deste barco  
quero tanto os seios da sereia.


Ana Cristina César
CORRUPTOCRACIA

Não se fala noutra coisa. A corrupção generalizou-se de tal forma no Brasil que ficou impossível mudar de assunto. Pode-se, no máximo, mudar de corrupto. Pela primeira vez desde a chegada das caravelas, a gatunagem é combatida em toda sua latitude. E a plateia, que morria de passividade, passou a viver uma epidemia de cólera, desnorteando as autoridades.

Uma característica curiosa da corrupção era observada nos partidos políticos. O corrupto estava sempre nas outras legendas. Agora, ele está em toda parte. Outro traço marcante era que, guiando-se por algum autocritério, todos os políticos eram probos. Hoje, são honestos apenas até a próxima delação. O suor do dedo respinga em todos —de vermelhos a bicudos. Não se salvam nem os mortos.

Não há mais alternância no poder. O que existe é uma mera mudança de cúmplices. Confirmou-se a velha suspeita de que o sistema político brasileiro não é constituído por três poderes, mas quatro: o Legislativo, o Executivo, o Judiciário e o Dinheiro, que paira sobre os outros.

Todo aquele idealismo, aquele ímpeto de servir à sociedade, aquela ânsia de entregar-se ao bem público, toda aquela conversa estava impulsionada pela grana. Para entender o Brasil, era indispensável um certo distanciamento. Que começava com a abertura de contas secretas (se preferir, pode me chamar de trusts) na Suíça.

Dois fenômenos empurram a política para os novos tempos: a disposição dos países estrangeiros de colaborar no combate à roubalheira e a percepção de que corrupção passou a dar cadeia no Brasil. Para reduzir as penas, os corruptos levam os lábios ao trombone, oferendo matéria-prima para o avanço das investigações. Hoje, quem ama o feio leva muito susto.

Ouve-se ao fundo um zunzunzum a favor da fixação de um prazo para as investigações. “Os principais agentes da Lava Jato terão a sensibilidade para saber o momento de aprofundar ao extremo e caminhar para uma definição final. Isso tem que ser sinalizado”, disse o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) dias atrás. Hã, hã… O país não pode ficar dez anos nessa situação”, ecoou Michel Temer. Hummm!

Já está entendido que desse mato não sai coelho. Sai apenas jacaré, Renan, cobra, Sarney, hiena, Jucá, gambá, Cunha, porco-espinho, Zé Dirceu, gorila, Vaccari e um etcétera pluripartidário. Pela primeira vez, a oligarquia é investigada, encarcerada e presa. Verificadas as circunstâncias, é possível ser otimista a, vá lá, médio prazo, e ver o lado bom das coisas, mesmo que seja preciso procurar um pouco.

Num instante em que a força-tarefa de Curitiba começa a abrir filiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, fica claro que a saída para o combate à roubalheira é a federalização do modelo Lava Jato de investigação, uma engrenagem que tritura o crime com quatro pontas: Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público e Judiciário.

Se as últimas investigações demonstram alguma coisa é que o sistema político brasileiro apodreceu. A corrupção tornou-se um atributo congênito do político, como as escamas do peixe. A cosa nostra só voltará a ser coisa nossa quando os larápios se convencerem de que a festa acabou.

Como disse Temer, “o país não pode ficar dez anos nessa situação”. Contra um assalto intermitente, exige-se uma vigilância permanente. A política brasileira talvez volte ao normal se for condenada à Lava Jato perpétua.

Do blog do Josias de Souza, 26/06/2016, 04:53 hs

RENATA EGREJA


BIODIVERSIDADE

Ha maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amena por favor.

Porém ha quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como ha quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é urna voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?


Paulo Henriques Britto

JOÃO DONATO & ZECA PAGODINHO - Sambou Sambou


AGORA VAI

Tive uma ideia.
Seguinte: como você já está cansado de saber, o Reino Unido esta semana optou por sair da União Européia.
Ocorre que, convenhamos, se eles estão insatisfeitos como membros da Europa, essa decisão não muda nada, porque continuarão lá mesmo onde estão, logo depois do Canal da Mancha.
Então vejam só que sacada:
Inglesada, vem para o Brasil!
Vamos fundar a Brasinglaterra. Ou UK do B. Ou Britzil.
Tenho certeza que essa imigração em massa só terá vantagens para todos os envolvidos.
De cara, ficarão perto das Falkland, como é de direito.
Ao mesmo tempo, os argentinos finalmente poderão dizer que são a França latina, já que estarão ao lado da Inglaterra.
E nós, ah…nós…quantas vantagens.
Aquele charme inglês misturado com o nosso ziriguidum, já pensou?
E cabe.
É só apertar um pouquinho.
A Escócia a gente põe no Rio Grande do Sul, assim eles podem continuar brincando de separatismo.
A Irlanda do Norte, óbvio, na Bahia. Vai ser festa todo dia.
Hmmm…vai continuar sendo festa todos os dias.
Enfim.
O que restou dos Hooligans a gente entucha nos morros do Rio de Janeiro e eles que se matem.
O palácio de Buckingham vai para Higienópolis, onde hoje é o Shopping.
Lugar de gente diferenciada como a Família Real.
Nossa moeda? O Libereal.
O Big Ben no lugar do Borba Gato, hein? hein?
O Hyde Park no Aterro do Flamengo.
Stonehenge vai para Varginha.
Hogwarts em Teresópolis, tudo a ver.
A Lady Kate recatada e do lar.
Wales a gente põe no Acre, afinal ninguém vai lá mesmo.
Mas o principal: o Parlamento Inglês.
Aquele símbolo de maturidade política, a gente enfia em Brasília.
E como gesto de boa fé, eles deixam o Primeiro Ministro ser o Waldir Maranhão.
E nós poderemos dizer que somos a terra do Axé, do Samba e dos Beatles!
Só para começar a brincadeira.
Estou gostando.
Acho que agora vai.


Mentor Neto, Isto É, 25/06/2016, 23:28 hs

sábado, 25 de junho de 2016

OLHOS NEGROS, direção de Nikita Mikhaikov, 1987


SEM DESEJO

A psiquiatria biológica, versão século XXI, padece de uma condição de impossibilidade epistemológica e institucional para chegar ao paciente, ou, dito de outro modo, às multiplicidades que o constituem como Vivência. O fato de que ele, com seus problemas, suas doenças, seus transtornos, seus sintomas, por vezes melhorar, não invalida tal assertiva, ao contrário. Isto porque, "melhorar", na acepção biomédica, significa sobretudo adaptar-se às condições socio-institucionais estabelecidas. Normalizar modos singulares de subjetivação é tarefa dos aparelhos psiquiátricos exercida por meio de equipamentos de poder: o diagnóstico cidológico, o psicofármaco, o laudo neurocientífico, a semiologia comportamental, e, não menos importante, a aliança da psiquiatria com instituições presentes e atuantes na cena do exame: o direito, a polícia, a religião, a escola, a família, etc. Quase todo psiquiatra é um pouco juiz, policial, sacerdote, professor ou pai... Assim, ao não levar em conta os mil afetos (materialidade da vivência) e sim os sintomas que o paciente traz, a psiquiatria, sob a caução do positivismo neurocientífico, produz o aniquilamento consentido do desejo. Restam sinapses aflitas...

A.M.
Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!


Mario Quintana 

MEUS DIREITOS...


A FORMA-ESTADO

(...) Já não se trata das poderosas organizações extrínsecas, nem dos bandos estranhos: o Estado torna-se o único princípio que faz a partilha entre sujeitos rebeldes, remetidos ao estado de natureza, e sujeitos dóceis, remetendo por si mesmos à forma do Estado. Se para o pensamento é interessante apóiar-se no Estado, não é menos interessante para o Estado dilatar-se no pensamento, e dele receber a sanção de forma única, universal. A particularidade dos Estados é só um fato; do mesmo modo, sua perversidade eventual, ou sua imperfeição, pois, de direito, o Estado moderno vai definir-se como "a organização racional e razoável de uma comunidade": a única particularidade da comunidade é interior ou moral (espírito de um povo), ao mesmo tempo em que sua organização a faz contribuir para a harmonia de um universal (espírito absoluto). O Estado proporciona ao pensamento uma forma de interioridade, mas o pensamento proporciona a essa interioridade uma forma de universalidade: "a finalidade da organização mundial é a satisfação dos indivíduos racionais no interior de Estados particulares livres". É uma curiosa troca que se produz entre o Estado e a razão, mas essa troca é igualmente uma proposição analítica, visto que a razão realizada se confunde com o Estado de direito, assim como o Estado de fato é o devir da razão. Na filosofia dita moderna e no Estado dito moderno ou racional, tudo gira em torno do legislador e do sujeito. É preciso que o Estado realize a distinção entre o legislador e o sujeito em condições formais tais que o pensamento, de seu lado, possa pensar sua identidade. Obedece sempre, pois quanto mais obedeceres, mais serás senhor, visto que só obedecerás à razão pura, isto é, a ti mesmo... Desde que a filosofia se atribuiu ao papel de fundamento, não parou de bendizer os poderes estabelecidos, e decalcar sua doutrina das faculdades dos órgãos de poder do Estado. O senso comum, a unidade de todas as faculdades como centro do Cogito, é o consenso de Estado levado ao absoluto.
(...)
Gilles Deleuze e Félix Guattari in Mil platôs, vol.5
BREXIT: IMIGRAÇÃO E XENOFOBIA
(...)
A questão da imigração, levantada principalmente pelo líder do partido UKIP, Nigel Farage, mostrou-se definitiva no referendo. A campanha argumentou que, enquanto estivesse na UE, o Reino Unido seria incapaz de controlar o fluxo de imigrantes e refugiados que entram no país;
(...)
Mariana Queiroz Barbosa, Isto É, 24/06/2016, 19:05 hs

JONAS GERARD


Vem, 
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável, 
Gira apaixonado
Em torno do sol.


Rumi
PROPINA CONSIGNADA

Brasília e São Paulo -Há 16 anos, a servidora pública Ana Gori vê um empréstimo consignado abocanhar boa parte de seu salário. Uma dívida levou a outra e, pelas contas dela, só termina em 2022. Na quinta-feira, a angústia de Ana aumentou quando viu o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo ser preso na Operação Custo Brasil, da PF, por fraude no consignado contratado por meio da empresa Consist. Ana chorou quando soube que, além dos juros, ela contribuía também com a taxa mensal de R$ 0,70 de propina. Pelas investigações, Bernardo embolsou R$ 7 milhões em propina.

— Eu chorei por mim e pelos meus amigos. Eu estou indignada. Tem várias maneiras de ser assaltada. Para mim, esse cara (Bernardo) é tão bandido quanto o cara que me aponta a arma e leva minha bolsa — desabafou Ana, que trabalha na Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), em São Paulo.

Bernardo recebeu mais de R$ 7 milhões em propina, dizem investigadores

O servidor Rogério Expedito, do Ministério Público de Minas Gerais, também paga a taxa de propina embutida nas parcelas do empréstimo consignado, ao qual recorre desde 2000.

— A revolta é muito grande, porque a gente só pega empréstimo quando está com dificuldade. Além da taxa do banco, tem a taxa de roubo, fraude e esquema ilícito. A gente foi enganado. Na verdade, era um esquema para passar dinheiro para o ministro e para o PT — disse ele.

Segundo Expedito, a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef) já decidiu entrar com ações contra o governo federal por danos morais. Eles querem ter de volta o dinheiro desviado das parcelas do consignado.

— Individualmente, não é muito dinheiro. Mas existem hoje 1,38 milhão de servidores. Provavelmente, todos pegaram empréstimo — disse ele.

Em um grupo de Whatsapp integrado por servidores que têm empréstimo descontado em folha, a revolta é geral. “Esperamos que as entidades entrem com ação para a devolução desse dinheiro, nem que seja para doar depois. Foram usurpados pelo governo do PT”, disse um participante do grupo.

O Globo. 25/06/2016. 00:41 hs



GRANDES ESCRITOS


ABALO SÍSMICO

A cúpula da Operação Lava Jato está receosa quanto à delação premiada negociada pela Odebrecht e por seu dono, Marcelo Odebrecht – não por seu conteúdo e evidências apresentados até agora, mas por dúvidas maiores que surgem. Pela primeira vez, os investigadores se perguntam se as instituições serão capazes de absorver o gigantesco impacto que causará o que já foi entregue pela empreiteira e o que ainda está sendo negociado. Há preocupação crescente de que, quanto mais robusta e ampla se torna a delação, mais inviável ela pode vir a ser na hora da homologação pelo Supremo Tribunal Federal. A delação não poupa nenhum Poder da República ou partido político.

Murilo Ramos, Época,24/06/2016,22:35 hs

sexta-feira, 24 de junho de 2016

CARLA BLEY - Leipziger Jazztage - Vashkar


vazio agudo 
ando meio 
cheio de tudo

Paulo Leminski
INCERTEZAS

como deleuze pensa o mundo a partir da lógica da mudança, do devir? 

em deleuze é difícil encontrar uma visão do mundo. o mundo é um cruzamento, é um ovo. ora, no mundo você tem as estruturas duras, você tem sistemas fortes, um capital financeiro dominante… mas há pulsações, há uma variabilidade permanente. é essa complexidade que impede que você impinja a ela uma visão de mundo que seja ou catastrófica ou conservadora, seja lá o que for. deleuze tem o mundo como uma indagação permanente a ser levada a cabo a cada encontro. é preciso, apesar de tudo, ter fé para que isso seja possível. essa crença deleuziana é um dos tópicos mais difíceis de se desvendar, pois não é uma crença simplesmente caudatária das crenças religiosas, é uma crença que leva você a perguntar pelas próprias razões e ainda ser possível acreditar no mundo, tendo sempre a mesma consciência que ele tinha quando desenvolveu as análises a respeito da obra de akira kurosawa – o mundo é uma problemática que vale a pena ser cuidada.
(...)
luis orlandi, entrevista a fernanda bellei em 19/01/2009 (extraido do site instituto cpfl/cultura)

EMIL NOLDE


SÉRIO! DESCONTARAM NO MEU CONTRACHEQUE

Desde que explodiu a Lava Jato, há dois anos e três meses, o país procura um significado maior de qualquer coisa que resuma essa época. Os brasileiros do futuro talvez selecionem como um destes episódios maiores o assalto do Partido dos Trabalhadores aos aposentados e servidores públicos endividados. Dirão que foi um fato histórico porque só então, com a invenção da propina descontada no contracheque, o PT atingiu o ápice do despudor e da desfaçatez.

O consignado, como se sabe, é um tipo raro de empréstimo. É bom para quem toma dinheiro emprestado porque as taxas de juros são baixas. É ótimo para o banco que empresta porque a prestação é descontada mensalmente do salário do servidor ou da pensão do aposentado. No aperto, milhares de brasileiros aproveitaram. E tornaram-se, sem saber, uma oportunidade que o PT aproveitou.

Entre 2010 e 2015, os milhares de brasileiros que se penduraram no consignado pagaram uma taxa de administração inusual. Estava embutida em cada parcela mensal a cifra de R$ 1,25. Dinheiro destinado a um intermediário chamado Consist Software, contratado pelo Ministério do Planejamento a pretexto de administrar o serviço.

Descobriu-se que a Consist retinha em sua caixa registradora apenas R$ 0,40. Os outros R$ 0,85 viravam propina. De centavo em centavo, foram assaltados R$ 100 milhões. Perto dos bilhões pilhados na Petrobras e no setor elétrico, parece dinheiro de troco. No entanto, entre todos os roubos praticados na era petista, foi esse que acabou com o que restava do melhor legado daquele ex-PT da fase sindical: a sensibilidade social e o respeito ao trabalho.

Andrey Borges de Mendonça, um dos 30 procuradores da República que se ocupam da investigação, resumiu o descalabro: “R$ 100 milhões foram desviados de funcionários públicos e pensionistas endividados, que se privaram de medicamentos, e de suas necessidades básicas para abastecer os cofres de corruptos. Isso tem que nos causar indignação, isso não pode ser algo natural da nossa sociedade.”

O que mais assusta na marcha da política rumo à delinquência não é a crueza, mas a hipocrisia. No gogó, o petismo é avesso à privatização. Para incrementar as propinas, admite qualquer negócio. Dispunha de uma empresa pública, o Serpro, para organizar o consignado. Preferiu privatizar o serviço, direcionando-o à Consist. Nada mais natural.

Se a pregação de líderes pseudo-esquerdistas como Lula havia ensinado alguma coisa era a não esperar nenhum tipo de hesitação altruista do capital. Ele opera segundo as regras fixadas na Lei da Selva.

No futuro, quando puderem analisar a conjuntura atual sem ter de tapar o nariz, os brasileiros concluirão: o que assustou as almas mais ingênuas foi a facilidade com que se operou a autodissolução do PT como partido político e a rapidez com que a legenda estruturou a coalizão que dava suporte aos seus governos como uma lucrativa organização criminosa.

A sujeira prosperou tanto que acabou desenvolvendo no Brasil a indústria da limpeza ética, cujo principal empreendimento é a Lava Jato.

Do Blog do Josias de Souza, 24/06/2016,05:55 hs

quinta-feira, 23 de junho de 2016

PETISMO E CRIME

O petismo, como doença psicossocial (subjetivação do ressentimento e da paranóia ), só acomete trabalhadores, exatamente aqueles dos quais e para os quais foi criado o PT. Funciona ao modo "contágio virótico" de um esquerdismo anacrônico e tosco. Por outro lado, tal patologia não acomete jamais os que controlam os altos segmentos de poder do partido. Estes não sofrem de petismo, não são doentes e sim criminosos de alto nível organizacional. Isto se expressa na corrupção instituida, naturalizada e/ou denegada pelos próprios autores-atores políticos. Dito de outro modo, não há petismo (longe disso!) nos que mandam, nos que roubam e nos roubam. Ao contrário, estes apenas utilizam a ladainha petista com o intuito de iludir e controlar os trabalhadores. Faz-se necessária tal distinção conceitual (petismo=doença versus petismo=crime) na medida em que o poder só será mantido às custas dos milhões de doentes que dão apoio e legitimidade aos donos da legenda.

A.M.

CARLOS SANTANA - Maria Maria


O sol de inverno:
a cavalo congela
a minha sombra.


M. Bashô
Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.
(...)
José Saramago

NO TEMPLO DO PETISMO

Busca da PF na sede do PT em São Paulo, hoje

TITITI

Procurado pela Polícia Federal e com mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça, o empresário Paulo César de Barros Morato, de 47 anos, foi encontrado morto no Motel Tititi, em Olinda (PE), na noite desta quarta-feira, conforme investigadores do caso.
Ele é apontado na Operação Turbulência como um dos testas de ferro do esquema de lavagem de dinheiro que abasteceu campanhas políticas e foi usado na compra do jatinho Cessna PR-AFA, cuja queda, em 2014, matou o então candidato a presidente Eduardo Campos (PSB), ex-governador de Pernambuco.
(...)
Felipe Frazão, de Recife, Veja.com, 22/06/2016, 23:06 hs

quarta-feira, 22 de junho de 2016

MICHAEL NYMAN - Love Doesn´t End


A FOGUEIRA PAGÃ

(...)
As origens das festas juninas remontam a um tempo longínquo, muito anterior ao cristianismo, quando se celebrava o solstício de verão na Europa e no Oriente Médio. Nesta ocasião, os povos de origem celta e germânica comemoravam a fertilidade da terra e dos animais e as boas colheitas. Por sua origem agrária, era (e ainda é) uma festa rural. Daí as festas juninas remeterem a elementos próprios do campo: as bandeirinhas são colocadas no “arraial”, os participantes usam trajes ditos “caipiras” e o local é decorado com bambus, palha, sabugos de milho, folhas de coqueiro e de bananeira. A Igreja apropriou-se das festas pagãs do solstício de verão dedicando-as a São João Batista. Convencionou o dia 24 de junho como sendo o nascimento de João Batista, seis meses antes de Jesus. Com isso reforçava a ideia do profeta e apóstolo como precursor do Messias. Cristianizou-se, assim, as duas comemorações mais populares dos povos pagãos do hemisfério norte: o solstício de verão e o de inverno consagrando-os, respectivamente, para o nascimento de São João e o Natal de Jesus.
(...)
Do site "Ensinar História" por Joelza Ester Domingues

EXPERIÊNCIA POÉTICA

Quem sonda o verso escapa ao ser como certeza, reencontra os deuses ausentes, vive na intimidade dessa ausência, torna-se responsável por  ela, assume-lhe o risco e sustenta-lhe o favor. Quem sonda o verso deve renunciar a todo e qualquer ídolo, tem que romper com tudo, não ter a verdade por horizonte nem o futuro por morada, porquanto não tem direito algum `a esperança, deve, pelo contrário, desesperar. Quem sonda o verso morre, reencontra a sua morte como abismo.
(...)
Maurice Blanchot   in O espaço literário.
Tão logo essa palavra ''amor'' lhe ocorreu, ela a rejeitou.

Virginia Woolf

ALVARO CASTAGNET


CRIMES LEGAIS

O procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, compareceu à Câmara dos Deputados nesta quarta-feira para participar de debates sobre uma série de medidas de combate à corrupção proposta pelo Ministério Público Federal. Da tribuna do plenário, Dallagnol classificou o atual modelo de punição à corrupção como uma "piada" e comparou o crime a uma "assassina sorrateira, invisível e de massa".
"A corrupção mata. A corrupção é uma assassina sorrateira, invisível e de massa. É um serial killer que se disfarça de buraco de estradas, de falta de medicamentos, de crimes de rua e de pobreza", afirmou o procurador. Para sustentar a fala, ele também citou um caso de fraude em licitação de remédios na Bahia em que o custo total chegou a representar dez vezes o preço de uma farmácia.
(...)
Marcela Mattos, de Brasília, Veja.com,22/06/2016, 12:04 hs
ENGODO

A poesia não pode tratar de mim,
nem eu da poesia.
Estou só, o poema está só,
o resto é dos vermes.
Estava à beira das ruas onde moram as palavras,
livros, cartas, notícias,
e esperava.
Sempre esperei.

As palavras, em formas claras ou escuras,
transformaram-se em alguém escuro ou mais claro.
Poemas passam por mim
e reconheciam-se como coisa.
Via-o e via-me.

Esta escravidão não tem fim.
Esquadrões de poemas procuram os seus poetas.
Vão errando sem comando pelo grande distrito das palavras
e esperam o engodo da sua forma
feita, perfeita, fechada,
concentrada e

intangível.


Cees Nooteboom
(tradução de Fernando Venâncio)

CARLOS SANTANA & ROB THOMAS - Smooth


OI, TUDO BEM?

A Oi, uma das maiores operadoras de telecomunicações do país, entrou na segunda-feira (20) com um pedido de recuperação judicial, que inclui dívidas de R$ 65,4 bilhões. O pedido, maior da história do Brasil, ocorreu após fracasso de negociação entre os acionistas e os credores da empresa. Um juiz agora vai analisar a solicitação da Oi.

É uma consequência desastrosa para um dos símbolos da política de "campeões nacionais" patrocinada pelos governos Lula e Dilma. A crença de que o governo, entrando como um sócio, dando dinheiro barato e outros privilégios permitiria a formação de grandes empresas para liderar o capitalismo brasileiro. A Oi é só mais um exemplo do fracasso da política petista que, entre outras consequências, culminou num enorme prejuízo para o bolso dos contribuintes brasileiros.   

A Oi é fruto da privatização da antiga Telebras, ocorrida em 1998, com um modelo concebido pelo então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. A estatal foi desmembrada em 12 empresas. Uma delas, a Tele Norte Leste, virou a Telemar (atual Oi). A operadora era formada pela Telerj e por outras 15 companhias das regiões Sudeste e Nordeste, com atuação em 64% do território nacional. Em apenas um dia, o governo federal arrecadou R$ 22 bilhões com os leilões.

A partir da privatização, a Oi contou com uma trajetória bastante instável, sobretudo do ponto de vista de sua gestão financeira. Apostou em aquisições e fusões bastante questionáveis e trocou mais de dez vezes de presidente. Confira algumas passagens que mostram como a empresa passou de "Supertele" para ruína do setor de telecomunicações:
(...)
Paula Soprana e Bruno Ferrari, Época, 21/06/2016,22:01 hs

GRANDES ESCRITOS


terça-feira, 21 de junho de 2016

A DIFERENÇA NÃO TEM IDENTIDADE

O olhar da diferença é um olhar cego. Ele não vê, apenas enxerga. Percebe impressões vagas e exatas. Trabalha nos detalhes ínfimos das coisas. Funciona como quando se diz que "o amor é cego". Não que a diferença seja o amor, até porque este não existe como coisa, substância, objeto sólido, mas como amar, acontecimento. Mais ainda, amar o acontecimento como o que não retornará jamais, e que sempre virá com a manhã na noite mais profunda e leve.No exercício dos seus paradoxos, nas cambalhotas (cf.Castañeda) do pensamento da alegria, o olhar da diferença é mais que um olhar, muito mais que a própria perspicácia desse olhar. É que o"amar" enxerga nas trevas, orienta-se por sensações. Questão ética: a potência, enfim. É uma prática de vida, um estremecimento, um grito silencioso, instante lunático encravado nas horas que Virgínia Woolf captou com todas as suas forças, com todo o esplendor da poesia que viveu. 

A.M.

ORQUÍDEAS ETERNAS


ATÉ, TU?

A quadrilha alvo da Operação Turbulência, deflagrada nesta terça-feira, pode ter atuado no financiamento das campanhas de Eduardo Campos (PSB) à reeleição ao governo de Pernambuco em 2010 e à Presidência da República em 2014, segundo a Polícia Federal. Esta última foi interrompida por causa do acidente aéreo que matou Campos, em agosto de 2014, no litoral paulista. Após o acidente, a ex-senadora Marina Silva (Rede) assumiu a titularidade da chapa e retomou a campanha presidencial.
As investigações da PF em Pernambuco levantaram indícios do funcionamento de um esquema que envolvia dezenas de contas bancárias e empresas, a maioria de fachada, para lavar dinheiro de atividades ilegais. Parte dos recursos teria vindo de esquemas de corrupção na Petrobras e nas obras de transposição do Rio São Francisco. De acordo com a PF, o grupo movimentou cerca de 600 milhões de reais em seis anos.
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Veja.com, 21/06/2016,16:34 hs
OUTRA SENSIBILIDADE

Estado, chamo eu, o lugar onde todos, bons ou malvados, são bebedores de veneno; Estado, o lugar onde todos, bons ou malvados, se perdem a si mesmos; Estado, o lugar onde o lento suicídio de todos chama-se – “vida”!
Olhai esses supérfluos! Roubam para si as obras dos inventores e os tesouros dos sábios; “culturas” chamam a seus furtos – e tudo se torna, neles, em doença e adversidade!
Olhai esses supérfluos! Estão sempre enfermos, vomitam fel e lhe chamam “jornal”. Devoram-se uns aos outros e não podem, sequer digerir-se.
Olhai esses supérfluos! Adquirem riquezas e, com elas, tornam-se mais pobres. Querem o poder e, para começar, a alavanca do poder, muito dinheiro – esses indigentes!
Olhai como sobem trepando, esses ágeis macacos! Sobem trepando uns por cima dos outros e atirando-se mutuamente, assim no lodo e no abismo.
Ao trono, querem todos, subir: é essa a sua loucura. Como se no trono estivesse sentada a felicidade! Muitas vezes, é o lodo que está no trono e, muitas vezes, também o trono no lodo.
Dementes, são todos eles, para mim, e macacos sobre excitados. Mau cheiro exala o seu ídolo, o monstro frio; mau cheiro exalam todos eles, esses servidores de ídolos!
Porventura, meus irmãos, quereis sufocar nas exalações de seus focinhos e de suas cobiças? Quebrai, de preferência, os vidros das janelas e pulai para o ar livre!
Fugi do mau cheiro! Fugi da idolatria dos supérfluos!
Fugi do mau cheiro! Fugi da fumaça desses sacrifícios humanos!
Também agora, ainda a terra está livre para as grandes almas. Vazios estão ainda para a solidão a um ou a dois, muitos sítios, em torno dos quais bafeja o cheiro de mares calmos.
Ainda está livre, para as grandes almas, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui, tanto menos pode tornar-se possuído. Louvado seja a pequena pobreza!
Onde cessa o Estado, somente ali começa o homem que não é supérfluo – ali começa o canto do necessário, essa melodia única e insubstituível.
Onde o Estado cessa – olhai para ali, meus irmãos! Não vedes o arco-íris e as pontes do super-homem?
(...)
Friedrich Nietzsche

A QUADRILHA DO PLANALTO


AÉCIO, O EX TUDO

As coisas poderiam estar tranquilas e favoráveis para Aécio Neves, pois Dilma foi afastada, Lula virou assunto para o doutor Sérgio Moro e Temer aparece nas sondagens eleitorais com um percentual nanico de 2%. Entretanto, os planos presidenciais de Aécio também se dissolvem no caldeirão flamejante da Lava Jato.

Em privado, até os companheiros de partido de Aécio avaliam que são remotas as chances de ele conseguir restaurar a biografia até 2018. O nome de Aécio frequenta os lábios de delatores com uma frequência embaraçosa. Foi citado pelo doleiro Alberto Yousseff, pelo senador cassado Delcídio Amaral, pelo ex-deputado mensaleiro Pedro Corrêa e pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Por ora, Aécio já foi brindado pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot com um par de pedidos de inquérito no STF. O mais espinhoso destina-se a investigar denúncia reiterada por Delcídio sobre a alegada participação do grão-tucano num esquema de coleta de propinas na estatal elétrica Furnas.

Sérgio Machado, um ex-tucano convertido ao PMDB, acusou Aécio de receber dinheiro de empreiteiras por baixo da mesa. Ele cita episódio que diz ter ocorrido em 1998, quando Aécio se equipava para disputar o comando da Câmara. Com a ajuda de Machado e do ex-governador alagoano Teotônio Vilela Filho, Aécio teria amealhado R$ 7 milhões para aplicar nas campanhas eleitorais de 50 deputados do PSDB. Desse total, disse Machado, Aécio teria retido R$ 1 milhão em dinheiro vivo.
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Blog do Josias de Souza, 21/06/2016, 05:19 hs

segunda-feira, 20 de junho de 2016

O MAIS ALTO DA HISTÓRIA

A agência para refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU) informa nesta segunda-feira que o número de pessoas deslocadas por conflitos é o mais alto da história, superando até mesmo os dados da II Guerra Mundial, quando dezenas de países dos cinco continentes se envolveram no mais devastador embate bélico da humanidade.
O total de refugiados no final de 2015 atingiu 65,3 milhões, ou uma em cada 113 pessoas do planeta Terra, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). O número representa um aumento de 5,8 milhões em relação ao ano anterior.
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Veja.com, 20/06/2016, 08:11 hs
CALMA E SILÊNCIO

Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o vôo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.


Georg Trakl
(tradução: Cláudia Cavalcante)

ZDZISLAW BEKSINSKI


JÁ É SÃO JOÃO - HÁ QUADRILHA

A delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado esquentou a temporada de festas juninas políticas de Brasília. Na fria noite deste sábado, o deputado Heráclito Fortes (PSB-PI), um dos acusados de pedir propina por Machado, recebeu cerca de quatrocentas pessoas na casa da filha no Lago Sul, em uma festa de proporções maiúsculas. O presidente da República interino, Michel Temer (PMDB), esperado no arraial, desmarcou de última hora e ficou em São Paulo com o filho Michelzinho. O centro das atenções, então, virou o ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTC-AL), alvo da Operação Lava Jato.
Vestido com uma camisa xadrez, ora escondida por um pulover azul claro, jeans Levis e tênis preto, Collor papeou, trocou sorrisos e cumprimentos com os convidados e ficou na festa até a madrugada com a atual mulher, a arquiteta Caroline Medeiros, e as filhas gêmeas. Passou horas de pé enfileirando charutos cubanos Montecristo e contou que, logo depois de sofrer o impeachment, viajou para duas semanas na ilha caribenha do comunista Fidel Castro, a convite do ditador.
Ao se despedir de Heráclito, Collor voltou a ofender o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, com o mesmo palavrão que já havia disparado da tribuna do Senado e afirmou que gostaria sair em defesa do parlamentar. "Deixe-me fazer sua defesa, você tem minha absoluta solidariedade, toda solidariedade, contra esse filho da p#%@ do Janot", disse abraçado ao anfitrião para surpresa de jornalistas, deputados e convidados. "Filho da p#%@ porque a mãe dele é uma p#%@. Falo isso aqui porque já falei no Senado", justificou.
Deputados debatiam o cenário da política - os temas mais recorrentes da noite eram as ameaças da Operação Lava Jato ao governo interino e o desempenho de Temer e os sinais da economia e os próximos passos de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente afastado da Câmara, que podem precipitar uma eleição. Estavam na festa os ministros das Cidades, Bruno Araújo (PSDB), e o da Defesa, Raul Jungmann (PPS), além dos deputados Antonio Imbassahy (BA), líder do PSDB, Rogério Rosso (DF), líder do PSD, Benito Gama (PTB-BA), Danilo Forte (PSB-CE), Nilson Leitão (PSDB-MT) e Hugo Leal (PSB-RJ), entre outros. Do Palácio do Planalto, foram apenas assessores diretos dos ministros peemedebitas da Casa Civil, Eliseu Padilha, e da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima. "Fiquei catorze anos sem pisar lá, mas fui essa semana conversar com Michel depois da delação", disse Heráclito. Ele defendeu o presidente interino, também acusado por Machado de pedir 1,5 milhão de reais propina como doação eleitoral a um aliado, em 2012. "Essa conversa não faz o estilo dele."
Heráclito estava vestido de camisa social e um colete verde xadrez, para entrar no clima da festa, mas logo colocou um casaco bege por cima, para aplacar o frio. As rodas de conversa eram regadas a goles do vinho português Confidencial, regional de Lisboa, chope artesanal Colorado servido em um food truck, quentão e whisky Red Label. Três grupos se revezaram num palco ao som de ritmos nordestinos, como forró e axé, e do sertanejo, uma das preferências nas baladas da capital federal. Para comer, não faltou opção: espetinhos de carne, frango, queijos coalho ou provolone e salsichão, arroz de capote ou carreteiro, paçoca nordestina, cachorro quente, pastel e batata frita, doces de milho, como pamonha e cural, churros de doce de leite ou chocolate, canjica, diversos bolos de chocolate, bolo de rolo e docinhos feitos com paçoca - parte deles encomendados do Piauí e de Pernambuco.

Felipe Frazão, de Brasília,  Veja.com,20/06/2016, 07:56 hs
LIÇÕES DO MASSACRE

Omar Mateen, o autor do maior atentado terrorista em solo americano desde o 11 de setembro de 2001, era um sujeito cheio de conflitos. Nascido nos Estados Unidos, em uma família de afegãos tradicionais, mas não muito religiosos, ele abraçou o radicalismo islâmico e perpetrou um ataque contra o país que acolheu sua família. Estudou em bons colégios, era charmoso e atraente, tinha uma carreira profissional, mas desenvolveu um comportamento irascível e violento. Manteve um perfil em um site de relacionamento gay e frequentou várias vezes a boate LGBT Pulse, em Orlando – local escolhido por ele para promover o maior massacre a tiros na história recente dos Estados Unidos, ao matar 49 pessoas e ferir outras 53.

A história de Mateen, com suas dualidades e nuances, que mistura ódio a homossexuais, radicalismo religioso e ações ostensivas de publicidade do Estado Islâmico (EI), o grupo terrorista que ocupa extensas fatias de território no Iraque e na Síria, é reveladora e alarmante. O ataque de Mateen expõe a impotência das lideranças mundiais diante da ascensão de um novo tipo de terrorismo, que usa extremistas isolados ou  um grupo pequeno para cometer atrocidades contra pequenos alvos com grande concentração de pessoas – os “lobos solitários”
(...)

Rodrigo Turrer com Flávia Yuri Oshima e Teresa Perosa, Época, 17/06/2016, 20:51 hs

domingo, 19 de junho de 2016

O MUNDO DEPRIMIDO

A depressão não é uma doença, pelo menos não no modelo biomédico. Isso não significa dizer que não haja o sofrimento depressivo, antes, pelo contrário. São afetos destrutivos, matizados por vivências devastadoras para a sobrevivência subjetiva, mesmo que o organismo por vezes esteja hígido, intacto. Ora, se a depressão não é primariamente uma doença no sentido médico, ela é sim um estado psíquico desprazeroso, variável em sua gravidade, segundo os fatores que lhe são determinantes. Há uma variação infinda. Queremos pontuar apenas o aspecto de que a depressão, codificada pela mídia inculta como "o mal do século", tem a sua gênese estritamente ligada à condição humana, no que ela implica de perdas sucessivas, mortes simbólicas ou reais, e acima de tudo, o estilhaçamento aparentemente sem volta dos valores da sociedade industrial burguesa. Tais valores não são externos à subjetividade, ao contrário. Eles são linhas que balisam as certezas de quem somos, ou seja, são crenças. Em que ou quem acreditar em tempos de niilismo? Talvez estas crenças não mais nos sirvam, pelo menos para uma vida alegre e potente. Ficou ou fica um grande buraco existencial, a depressão in vivo, sofrendo na pele, no corpo, no olhar, no rosto, nos corpos doloridos e mortificados, a brutalidade insana dos tempos modernos.

A.M.
BRISA

Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.


Manuel Bandeira