segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

RENATA EGREJA


O JOGO DAS DIFERENÇAS

A ideia funesta de tentar cassar na Justiça o registro do Partido dos Trabalhadores, acalentada por fileiras incultas do PSDB, caiu por terra. Ainda bem. O projeto autoritário morreu logo, mas a verdade é que nunca deveria ter nascido. Tentar amputar diferenças ideológicas por meio de decretos judiciais é o tipo de ilusão que não apenas não resolve, como agrava as dificuldades da democracia brasileira, que já não são pequenas.

Chega a ser inacreditável que homens públicos com vivência no Parlamento, por mais conservadores que sejam, embarquem em fantasias tão obscurantistas. Partidos, os bons e os maus, refletem correntes de pensamento existentes na sociedade. Suprimir essa ou aquela sigla por medidas artificiais pode até mudar o espectro partidário, mas não muda a sociedade. Além de não solucionar, piora o deficit de representatividade. Piora tudo.

Somente o debate esclarecido e a disputa política, em um ambiente de liberdade plena, dão conta de superar os impasses que surgem no caminho. Qualquer outra saída que não passe pela livre expressão e pela livre associação (partidária, inclusive) é um flerte com regimes ditatoriais. Por isso, ainda bem que, graças a ponderações de tucanos mais sensatos, as falanges menos esclarecidas do PSDB sossegaram o facho.
(...)
Eugênio Bucci, Época, 29/02/2016, 08:03 hs
IR INDO

Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância, já que viver é ser livre. Porque alguém disse e eu concordo que o tempo cura, que a mágoa passa, que a decepção não mata. E que a vida sempre, sempre continua.
(...)
Simone de Beauvoir
A ESCRAVIDÃO OCULTA

A subjugação milenar da vida desejante criou solo para o temor psicológico das massas à autoridade e a submissão a esta, para a incrível humildade, de um lado,e a brutalidade sadística, de outro lado, e foi com base nisso que a economia de lucros capitalista dos últimos 200 anos pôde expandir-se e sobreviver.Que esta massa sofre de miséria inaudita, ela mesma a experimenta diariamente e a todo momento. O fato de querer dar a ela apenas pão, e não todos os prazeres da vida, fortalece a sua humildade. O cerne da felicidade da vida é a felicidade sexual. Nisso, pessoa alguma com algum peso político ousou tocar. (...) O amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la.
(...)
Wilhem Reich

FILOSOFIA


O eu não é senhor em sua própria casa.

Sigmund Freud

domingo, 28 de fevereiro de 2016

UNDER THE SKIN


O ANIVERSÁRIO


O PT, fulminado por uma avalanche de escândalos que não consegue explicar – e que, a rigor, dispensam explicações -, socorre-se num argumento único: é vítima de uma sórdida campanha da mídia para criminalizá-lo.

Ora, se há uma instância em que o partido, que celebra este fim de semana seus 36 anos, ainda encontra defensores é exatamente na mídia - impressa, falada, televisada e digitalizada (esta sustentada com dinheiro público).

A mídia não criminalizou o PT – e, sim, o PT criminalizou a política. Mais: indiferente às falcatruas fiscais do governo Dilma e às denúncias de que sua reeleição foi nutrida com dinheiro roubado da Petrobras, alega que a tentativa de depô-la, via impeachment ou via TSE – ou seja, dentro das normas do Estado democrático de direito -, tem como fundamento evitar a eleição de Lula em 2018.

O partido já foi mais inteligente em seus argumentos. Antes de mais nada, o Ibope acaba de constatar, em pesquisa, que confirma as anteriores, que 61% dos brasileiros asseguram que, em hipótese alguma, votariam em Lula. Ainda que todos os demais votassem – e não é o caso -, não teria como se eleger.

O panelaço de terça-feira, em que Lula falou em rede de TV, demonstra que o Ibope não errou – foi até moderado.

Nenhum partido e nenhum presidente da República foram mais festejados pela imprensa que PT e Lula, não obstante terem chegado ao poder não exatamente imaculados.

O prontuário começou bem antes da chegada ao Planalto, com o assassinato dos prefeitos Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT (Campinas), em setembro de 2001, e de Celso Daniel (Santo André), em janeiro de 2002, casos ainda hoje à espera de desfecho. Em ambos, são nítidas as digitais do PT.

Dois meses depois de Lula assumir a presidência da república, em março de 2003, estourou o escândalo Waldomiro Diniz. Era o subchefe da Casa Civil, homem de confiança de José Dirceu, que desempenhava a função de “articulador parlamentar”. Foi flagrado pedindo propina ao bicheiro Carlos Cachoeira.

Na sequência, vieram o Mensalão e o Petrolão, que, a rigor, compõem um só enredo: a rapina ao Estado, em parceria com um pool de empresários delinquentes. Corrupção sistêmica, algo inédito mesmo para os podres padrões da república brasileira.

Há ainda diversas caixas-pretas a serem abertas: Eletrobrás (que o STF tirou das mãos do juiz Sérgio Moro), BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica, fundos de pensão etc.

Em cada uma dessas instâncias, o governo se move para impedir qualquer hipótese de investigação, o que já é em si uma confissão antecipada de que oculta falcatruas.

O PT inaugurou o roubo do bem. Seria diferente dos convencionais, pois teria destinação social. Se sobrou um troco para um tríplex ou um sítio, é bobagem, mera gorjeta para quem, afinal, colocou “30 milhões de pobres na classe média”. Pouco importa se eles - se é que lá estiveram - já fizeram a viagem de volta.

A depressão econômica está acabando com a própria classe média, mas a culpa, claro, é da crise internacional (que antes era apenas “uma marolinha”), não do governo.

Não só o povo não viaja mais de avião, mas também o personagem criado pelo PT, o burguês que “não gosta de sentar ao lado do povo”. Nisso, a crise é democrática: liquida a ambos.

Coerência é palavra ausente do glossário petista. Depois de arrombarem a Petrobras, indignam-se com os que a querem salvar. É o caso do projeto do senador José Serra, aprovado esta semana pelo Senado, que estabelece que, a critério do governo, a empresa se desobriga de participar das prospecções do pré-sal.

O projeto salva a Petrobras, mas os seus algozes, a pretexto de defendê-la, alegam o contrário, fazendo o papel do verdugo que se abraça ao cadáver que acabou de produzir.

Graças ao PT, a Petrobras deve mais do que vale e suas ações estão cotadas ao preço de um guaraná. Lula, às voltas com o Código Penal, acha, no entanto, que o país, hoje, “inspira mais confiança”. Os especialistas preveem que a Petrobras levará mais ou menos uma década para retornar ao lugar que já ocupou – ela e o país. E isso, claro, se o ambiente político mudar radicalmente.

Vai mudar, não há dúvida. O quer não se sabe é a que preço. A resistência do governo em reconhecer os estragos e, mais que isso, a ausência de remédios para os males que perpetrou, torna o processo mais penoso e preocupante.

A melhor saída seria a sugerida pelo ministro Marco Aurélio, do STF: renúncia dos presidentes da república, da Câmara e do Senado e convocação imediata de eleições. Mas falta grandeza aos protagonistas – ou coragem para responder judicialmente a seus erros sem o guarda-chuva do poder. Aguardemos.

Ruy Fabiano, blog do Noblat, 27/02/2016,01:20 hs

SALVADOR, MEU AMOR


AS CIDADES DELGADAS

Se quiserem acreditar, ótimo. Agora contarei como é feita Otávia, cidade-teia-de-aranha.Existe um precipício no meio de duas montanhas escarpadas: a cidade fica no vazio, ligada aos dois cumes por fios e correntes e passarelas. Caminha-se em trilhos de madeira, atentando para não enfiar o pé nos intervalos, ou agarra-se aos fios de cânhamo.Abaixo não há nada por centenas e centenas de metros: passam algumas nuvens; mais abaixo entrevê-se o fundo do desfiladeiro.
Essa é a base da cidade: uma rede que serve de passagem e sustentáculo. Todo o resto, em vez de se elevar, está pendurado para baixo: escadas de corda, redes, casas em forma de saco, varais, terraços em forma de navetas, odres de água, bicos de gás, assadeiras, cestos pendurados com barbantes, monta-cargas, chuveiros, trapézios e anéis para jogos, teleféricos, lampadários, vasos com plantas de folhagem pendente.
Suspensa sobre o abismo, a vida dos habitantes de Otávia é menos incerta que a de outras cidades. Sabem que a rede não resistirá mais que isso.
(...)
I. Calvino - in As cidades invisíveis
Há uma hora certa, 
no meio da noite, uma hora morta, 
em que a água dorme. 

Todas as águas dormem: 
no rio, na lagoa, 
no açude, no brejão, nos olhos d'água, 
nos grotões fundos 
E quem ficar acordado, 
na barranca, a noite inteira, 
há de ouvir a cachoeira 
parar a queda e o choro, 
que a água foi dormir... 

Águas claras, barrentas, sonolentas, 
todas vão cochilar. 
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas, 
fios brancos, torrentes. 

O orvalho sonha 
nas placas da folhagem 
e adormece. 
Até a água fervida, 
nos copos de cabeceira dos agonizantes... 

Mas nem todas dormem, nessa hora 
de torpor líquido e inocente. 
Muitos hão de estar vigiando, 
e chorando, a noite toda, 
porque a água dos olhos 
nunca tem sono...


Guimarães Rosa

STEVIE WONDER - Lately


LIVRE PENSAR

Sim, você tem mais o que fazer do que acompanhar esse mi-mi-mi contra a opinião da Fernanda Torres sobre machistas, feministas, fiu-fius, mulatas e babás. Um texto, digamos, pró-homem, sumo pecado, em que ela inveja a leveza e o companheirismo masculinos e em que exercita o “livre-pensar”. Livre? Intitulado “Mulher”, no blog #agoraéquesãoelas da Folha de S.Paulo, o texto despertou uma ira uterina desproporcional, febril e típica da chatice correta que nos assola. O pau comeu.

Era um texto transgênero, em que a atriz se mete à vontade numa calça comprida e coça o saco (“machista!”). Um texto transocial, em que ela demonstra ternura por sua babá-mãe e admiração por ser ela um avião de mulher (“elitista e fascista!”). Um texto transracial em que ela fala a palavra proibida: mulata (“branca racista!”). Um texto transerótico, em que ela admite adorar flertes e assobios (“apologista do estupro!”). Um texto transgressor. Não pode, Fernanda. O livre-pensar é só para homens como o que você se orgulha de ter conhecido, o Millôr, que escrevia que “é porque quase todos agimos com muita cautela que uns poucos podem ser audaciosos”.

Fernanda escreveu um texto audacioso sobre a diversidade e as amarras mentais das mulheres. Com provocações, ironias, licenças poéticas e reminiscências. A camarada Fernanda foi tão massacrada que se apressou a escrever outro texto, “Mea-culpa”, em que pede perdão, contrita e arrependida. Fez isso com elegância, antes que virasse o Salman Rushdie das redes sociais de saia e fosse condenada à morte sumariamente pelos tribunais feministas na véspera do Dia Internacional da Mulher.

O Ancelmo Gois pode fazer um concurso em sua coluna, no jornal O Globo, chamado A mulata do Gois, que se baseia sobretudo em atributos físicos – e não é crucificado por isso. Mas você, Fernanda, é mulher, branquela e celebridade. Não pode elogiar a lindeza de nossas mulatas, especialmente de sua babá Irene, porque você é a patroa opressora. Se você fosse loura, Fernanda, a patrulha seria ainda pior. Será que as mulatas que desfilam e sambam no Carnaval são alienadas socialmente como você, Fernanda, e não entendem que estão servindo à “supremacia branca, rica, escravocrata e machista” ao andar seminuas ou peladas? Elas incitam ao estupro? Vamos cobrir de burca as mulatas indecentes e as louras burras, porque despertam os instintos mais baixos dos machos.

Em seu “Mea-culpa”, Fernanda diz que as críticas a ela procedem e confessa ter escrito “do ponto de vista de uma mulher branca de classe média”. O que ela é. Estou curiosa para ler os próximos textos de Fernanda, em que fará piruetas mentais para escrever em primeira pessoa do ponto de vista de uma mulher negra da favela. Claro que se pode escrever levando em conta todos os lados, todos os universos, todos os dramas sociais do Brasil... Só não dá para, numa crônica pessoal, roubar lembranças de alguém que não somos nós.

A polêmica contribui para a reflexão. Argumentos que colidem, com elegância, são salutares. Mas extrair trechos para tirar do contexto, distorcer e ignorar todo o resto, amarrar o autor no poste e linchar é um retrocesso. Chatíssimo, chauvinista, burro e fanático. Há enunciados de Fernanda bem interessantes. Um deles reproduzo abaixo. Eu também detesto a vitimização da mulher por ser um “falso machismo”, mais difícil de combater, aquele em que todos os homens são demônios e todas as mulheres umas santas. Não é a vagina ou o pau que formam um caráter.

“Estou certa de que essa é a minha primeira encarnação como mulher. Apesar do talento para ser mãe, sou menos feminina do que gostaria de ser. Já beirando a idade em que nos tornamos invisíveis ao peão da obra da esquina, rejeito as campanhas Anti-Fiu-Fiu e considero o flerte um estado de graça a ser preservado. A vitimização do discurso feminista me irrita mais do que o machismo. Fora as questões práticas e sociais, muitas vezes a dependência, a aceitação e a sujeição da mulher partem dela mesma. Reclamar do homem é inútil. Só a mulher tem o poder de se livrar das próprias amarras, para se tornar mais mulher do que jamais pensou ser.”

Fernanda não ofendeu ninguém. O que me ofende é o sorriso deslocado e tresloucado da Mônica Moura, mulher do marqueteiro de Lula e Dilma, ao ser presa, retrato do Brasil que bate abaixo da cintura. O que nos ofende é mulher de qualquer cor – preta, branca, marrom e amarela – ganhar menos pelo mesmo trabalho, não ter direito legal ao aborto com ou sem microcefalia, não ter creche para deixar o filho, ser espancada e assassinada por motivos passionais ou fúteis, ter tripla jornada de trabalho, ser estuprada e traficada. O resto é fru-fru, ferro e fogo, por favor, não me perdoem.

Ruth de Aquino, Época, 26/02/2016,19:55 hs

MIGUEL BAKUN


CAPITÃES DA AREIA

(...) Logo que um novato entrava para os Capitães da Areia formava logo uma idéia ruim de Sem-Pernas. Porque ele logo botava um apelido, ria de um gesto, de uma frase do novato. Ridicularizava tudo era dos que mais brigavam. Tinha mesmo uma fama de malvado. Muitos do grupo não gostavam dele, mas aqueles que passavam por cima de tudo e se faziam seus amigos diziam que ele era um "sujeito bom". No mais fundo de seu coração ele tinha pena da desgraça de todos. E rindo, e ridicularizando, era que fugia da sua desgraça. Era como um remédio. No rosto do que rezava ia uma exaltação, qualquer coisa que ao primeiro momento o Sem-Pernas pensou que fosse alegria ou felicidade. Mas fitou o rosto do outro e achou que era uma expressão que não sabia definir. E pensou, contraindo seu rosto pequeno, que talvez por isso ele nunca tenha pensado em rezar, em se voltar para o céu. O que ele queria era fugir da sua angústia, que estrangulava. Mas o Sem-Pernas não compreendia que aquilo pudesse bastar. Ele queria uma coisa imediata, uma coisa que pusesse seu rosto sorridente e alegre, que o livrasse da necessidade de rir de todos e rir de tudo. Que o livrasse também daquela angústia, daquela vontade de chorar que o tomava nas noites de inverno. No bando, não tardou a se destacar porque sabia como ninguém como afetar a dor.
(...)
Jorge Amado

O menino ia no mato
e a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino
e ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: mas a onça comeu você, como é que o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando o meu corpo e eu desviei depressa. 
Olha mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.

Manoel de Barros

GRANDES ESCRITOS


VENENO INDIVIDUAL

Nas mais altas religiões de todo o mundo, a salvação e a iluminação são paras os indivíduos. O reino dos céus está no íntimo de uma pessoa, não dentro da demência coletiva de uma multidão. Cristo prometeu estar presente onde dois ou três se encontrassem reunidos. Nada disse sobre a sua presença onde milhares de pessoas se envenenam umas às outras com o tóxico gregário.
(...)
Aldous Huxley
ISSO EXISTE?

Aos 92 anos, médico Nobolo Mori, de Mogi das Cruzes, continua atendendo. 

Aos 92 anos, o médico Nobolo Mori, de Mogi das Cruzes (SP), trabalha todos os dias, de manhã e à tarde, em um hospital particular da cidade. Enquanto a maioria das pessoas sonha com a aposentadoria, ele e alguns colegas não pensam em pendurar o estetoscópio.
Para Mori, já são 62 anos dedicados à medicina. Mesmo com o aumento do número de médicos na cidade, ele diz que pacientes não faltam. Especialmente, os mais antigos. “Tem famílias que estão na quarta geração e eu continuo fazendo o atendimento de todos.” Para o médico é preciso ser útil enquanto está vivo. “A medicina é uma maneira de ser útil. O médico dá a sua vida para salvar vidas.”
(...)
Gladys Peixoto, do G1 Mogi das Cruzes e Suzano, 28/02/2016, 08:00 hs
POESIA

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo. 
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


Carlos Drummond de Andrade
A INOCÊNCIA DA ODEBRECHT

Benedicto Barbosa da Silva Junior, de 55 anos, passou trinta deles na Odebrecht. Entrou como trainee, recém-saído da Escola de Engenharia Civil de Lins, no interior de São Paulo, e tornou-se presidente da Construtora Norberto Odebrecht (CNO) - terceiro nome na hierarquia do grupo, considerado o patrimônio da divisão que comanda. Nesse período, construiu não apenas uma carreira de sucesso, mas também uma relação de proximidade com o herdeiro da gigante, Marcelo Odebrecht. Alvo da Acarajé, 23ª fase da Operação Lava Jato, Barbosa juntou-se ao chefe novamente nesta semana, ao ser preso pela Polícia Federal. Ele foi solto na tarde desta sexta-feira após expirar o prazo de cinco dias da prisão temporária.
Foi justamente a proximidade com Odebrecht que contribuiu para levar BJ, como o executivo é mais conhecido, para trás das grades. Segundo os investigadores, há indícios de que Barbosa era quem fazia a ponte entre a empresa e os políticos, o homem a ser "acionado" quando houvesse necessidade de intermediação de autoridades públicas. "É possível verificar que Benedicto é pessoa acionada por Marcelo para tratar de assuntos referentes ao meio político, inclusive a obtenção de apoio financeiro", diz inquérito da PF assinado pelo delegado Filipe Hille Pace.
Segundo o advogado Nélio Machado, em depoimento na quarta-feira, BJ explicou à PF como a Odebrecht repassou recursos - segundo ele, legais - aos políticos. "Ele explicou como é que se faz. Durante décadas as empresas fizeram doações eleitorais, é um critério plural", disse o defensor. Em decisão desta sexta, o juiz federal Sergio Moro decidiu liberá-lo, com a ressalva de que ele não pode sair do país nem mudar de endereço. "Apesar apesar de seu posto executivo elevado no Grupo Odebrecht, consta que, aparentemente, os principais executivos da empresa envolvidos com as operações financeiras secretas já se encontram presos cautelarmente", escreveu Moro.
(...)
Veja.com/Brasil, 28/02/2016, 09:44 hs
RESISTIR

(...) de Cuba em diante, outros países também iniciaram por distintas vias e distintos meios a experiência de mudança: a perpetuação da atual ordem de coisas é a perpetuação do crime.

Os fantasmas de todas as revoluções estranguladas ou traídas, ao longo da torturada história latino-americana, ressurgem nas novas experiências, assim como os tempos presentes tinham sido pressentidos e engendrados pelas contradições do passado. A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será...

(...) Eduardo Galeano

LENINE- Hoje Eu Quero Sair Só


QUE ROSTIDADES?

Os manuais de rosto e de paisagem formam uma pedagogia, severa disciplina, e que inspira as artes assim como estas a inspiram. A arquitetura situa seus conjuntos, casas, vilarejos ou cidades, monumentos ou fábricas, que funcionam como rostos, em uma paisagem que ela transforma. A pintura retoma o mesmo movimento, mas o inverte também, colocando uma paisagem em função do rosto, tratando de um como do outro: "tratado do rosto e da paisagem". O close de cinema trata, antes de tudo, o rosto como uma paisagem, ele se define assim: buraco negro e muro branco, tela e câmera. Mas já as outras artes, a arquitetura, a pintura, até o romance: close que os anima inventando todas as correlações. E sua mãe é uma paisagem ou um rosto? Um rosto ou uma fábrica? (Godard). Não há rosto que não envolva uma paisagem desconhecida, inexplorada, não há paisagem que não se povoe de um rosto amado ou sonhado, que não desenvolva um rosto por vir ou já passado. Que rosto não evocou as paisagens que amalgamava, o mar e a montanha, que paisagem não evocou o rosto que a teria completado, que lhe teria fornecido o complemento inesperado de suas linhas e de seus traços?
(...)
Gilles Deleuze e Félix Guattari in Mil platôs nº 3

JONAS GERARD


O ELEFANTINHO

Onde vais, elefantinho
Correndo pelo caminho
Assim tão desconsolado?
Andas perdido, bichinho
Espetaste o pé no espinho
Que sentes, pobre coitado?


— Estou com um medo danado
Encontrei um passarinho!



Vinicius de Moraes

DESPACHA


A TRÉGUA

Aviões de guerra, de origem desconhecida, bombardearam neste domingo regiões do norte e do oeste da província de Aleppo (norte do país) e do sul da região central de Hama, no segundo dia do cessar-fogo, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos.

Os aviões tiveram como alvo as localidades de Dara Aza, Qabtn al Jabal, Hreitan, Andam, Maaret al Artiq e Kafr Hamra, em Aleppo, enquanto em Hama atacaram a cidade de Hirbnafsa.

Nessas regiões está presente a Frente al Nusra, braço sírio da Al Qaeda, mas também atuam outras facções de tendência islâmica e brigadas do Exército Livre Sírio (ELS).

Como consequência dos ataques aéreos um jovem morreu em Qabtan al Jabal.

Nas imediações de Hirbnafsa, explodiram, além disso, confrontos entre as forças leais ao regime sírio e grupos armados islâmicos, nos quais o Exército está usando artilharia.

As autoridades também combatem em Hama contra o grupo terrorista Estado Islâmico (EI) no povoado de Al Tiba.

A cidade de Al Raqqa, principal reduto do EI na Síria, também foi alvo de bombardeios.

Tanto o EI como a Frente al Nusra estão excluídos do acordo de cessar-fogo, fechado por Rússia e EUA, e aceito pelo governo e a principal aliança opositora síria.
(...)
Da EFE, Beirute (Líbano) 28/02/2016, 05:14 hs

MILLÔR ATUAL


CÉTICO

Já tentei acreditar que existe um Deus que criou cada um de nós a sua imagem e semelhança, que nos ama muito e observa tudo. Eu realmente tentei acreditar. Mas tenho que lhes dizer a verdade: quanto mais você vive, quanto mais você olha ao seu redor, mais você percebe: alguma coisa está errada.(...) Isso não é um trabalho bem feito, se isso é o melhor que Deus pode fazer não me impressiona.
(...)
George Carlin
O TEMPO É CRIAÇÃO

Nas ciências naturais, o ideal tradicional era alcançar a certeza associada a uma descrição determinista, tanto que até a mecânica quântica persegue esse ideal. Ao contrário, as noções de incerteza, de escolha e de risco dominam as ciências humanas, quer se trate de economia, quer se sociologia. (...) Estou completamente de acordo com Karl R. Popper quando afirma que o problema central, que está na base da dicotomia entre as duas culturas, é o do tempo. O tempo é a nossa dimensão existencial e fundamental, é a base da criatividade dos artistas, dos filósofos e dos cientistas.
(...)
Ilya Prigogine in As Leis do Caos

STACEY KENT - Que reste-t-il de nos amours


CHANSON

Disse a meu peito, a meu pobre peito: 
- Não te contentas com um só amante? 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Gasta em desejos o prazer do amor? 

Ele respondeu: - Não! não me contento; 
Não me contento com um só amante. 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Empresta aos gozos um melhor sabor? 

Disse a meu peito, a meu pobre peito: 
- Não te contentas desta dor errante? 
Pois tu não vês que este mudar constante 
A cada passo só nos traz a dor? 

Ele respondeu: - Não! não me contento, 
Não me contento desta dor errante... 
Pois tu não vês que este mudar constante 
Empresta às mágoas um melhor sabor?


Alfred de Musset
DEITADO EM LEITO ESPLÊNDIDO

Pesquisa Datafolha indica que o brasileiro pode estar se acostumando com seu drama. No Brasil de hoje, basta abrir um jornal, uma janela, uma geladeira ou qualquer fresta para dar de cara com a crise. A Lava Jato exibe o pus no fim do túnel. A recessão congestiona a trilha rumo ao olho da rua. E a inflação faz sobrar mês no fim do salário. Porém…

A despeito da progressiva deterioração da conjuntura, houve, desde dezembro, uma redução do pessimismo do brasileiro em relação à situação econômica —pessoal e do país. A taxa de reprovação de Dilma ainda é alta, mas permaneceu praticamente inalterada, na casa dos 64%. Ficou congelado também o percentual de brasileiros favoráveis ao impeachment: 60%. (veja os detalhes aqui)

É como se o país estivesse na UTI, mas anestesiado. A vida cotidiana numa nação submetida à perversão perpétua acaba ganhando contornos de anormal normalidade. As ruas voltaram para casa. Estão sendo intimadas a roncar novamente no dia 13 de março. Mas parecem hesitar. Os primeiros atos de impaciência não surtiram efeito. Quando soube que o heroi da resistência da oposição era Eduardo Cunha, o asfalto foi dormir. Acordou sem culpa, virou o rosto e foi cuidar do seu feijão com arroz.

Nunca antes na história do país uma crise foi tão televisionada. A roubalheira, o desemprego e a carestia não transcorrem num cofre remoto, numa empresa desconhecida ou num supermercado distante. Os fenômenos acontecem, em cores vivas, na sala de estar de todos os brasileiros que escolhem não virar o rosto. O descalabro virou mais uma novela. A diferença é que é mais difícil distinguir mocinhos de bandidos.

A novela atual tem um roteiro de terror. Mas é, essencialmente, um reencontro do brasileiro com a vocação da política para o mal —agora em versão revista e ampliada. Durante anos o país assiste, em capítulos diários, entre comerciais de sabão e inseticida, à mistura da roubalheira com a ineficiência. A propaganda é enganosa. A mancha não sai. E os insetos se multiplicam.

A longo prazo, estaremos todos mortos. A curto prazo, se você consegue manter a cabeça no lugar, provavelmente já virou o rosto. Terceirizou a reação ao juiz Sérgio Moro e à força-tarefa da Lava Jato. E foi cuidar do seu feijão com arroz. Muitos ainda tentam ver o lado bom das coisas. Mesmo que seja preciso procurar um pouco.

Do Blog do Josias, 28/02/2016, 02:06 hs

ZDZISLAW BEKSINSKI


sábado, 27 de fevereiro de 2016

Precisamos de algumas pessoas malucas, vejam só para onde as pessoas normais nos levaram.

George Bernard Shaw
À DERIVA

Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, até mesmo um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? E trabalho, amor, moradia? O que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar.
(...)
Caio Fernando Abreu

PHILIP GLASS- Dr. Van Helsing And Dracula


A LAVA JATO VAI COMEÇAR

De um procurador de Brasília:

"O sentimento é de que a Lava Jato vai começar agora.
Os próximos meses serão muito mais intensos e delicados que os dois anos já passados."

Do site "O Antagonista", 27/02/2016, 21:56 hs
FREUD NO AR

Necessitando pensar, pensei que é esquisito este costume de viverem os machos apartados das fêmeas. Quando se entendem, quase sempre são levados por motivos que se referem ao sexo. Vem daí talvez a malícia excessiva que há em torno de coisas feitas inocentemente. Dirijo-me a uma senhora, e ela se encolhe e se arrepia toda. 
Se não se encolhe nem se arrepia, um sujeito que está de fora jura que há safadeza no caso.
(...)
Graciliano Ramos

ALÉM DA IMAGINAÇÃO/2002 - "Sunrise"


O MEDO À LOUCURA

Em psiquiatria clínica, o signo "agitação psicomotora" encerra em si mesmo grande parte da carga preconceituosa e estigmatizadora sobre o chamado louco e a correlata rostificação psiquiátrica estabelecida ao longo do século XIX. Isso veio da Europa e tornou-se um signo-sintoma como conduta violenta ou pelo menos agressiva, destrutiva, constrangedora do paciente em relação aos que estão ou ao que está à sua volta: pessoas e coisas.Ora, a agitação psicotomora é um sintoma de várias patologias. Para melhor acessá-las e tratá-las num instante de emergência, por exemplo, há que contextualizá-las, ou seja, considerar o meio socio-institucional onde se expressam. O paciente agitou-se na sua casa, num hospital psiquiátrico, num espaço público, num Caps, e outros? Quem estava com ele? Fazendo o que? Quais as relações implicadas? É essencial separar o que é a violência reativa às condições sociais de vida (muitas vezes também violentas) da violência "patológica", entendendo esse termo como o que não encontra de pronto uma causa objetiva verificável: "passou a agredir do nada". Ocorre que esse "nada" pode ser "tudo" que não sabemos explicar e que acontece a partir de sensibilidades não cadastradas pelo senso comum da consciência normativa. Enumerar as patologias-causa de uma agitação psicomotora fica para outro texto. Por ora, nos parece mais importante trazer uma visão crítica da clínica antes de tentar fazê-la.

A.M.
O SOL

Todos os dias o sol amarelo aparece sobre a colina.
Bela é a floresta, o animal escuro,
O homem, caçador ou pastor.

Avermelhado, o peixe sobe no regato verde.
Sob o céu redondo
O pescador segue, silencioso, na canoa azul.

Lenta a uva amadurece , o grão,
Quando calmo o dia se inclina,
O mal e o bem estão preparados.

Quando anoitece,
O peregrino ergue suavemente as pálpebras pesadas;
do desfiladeiro sombrio o sol desponta.


Georg Trakl

DMITRI DANISH


Interessa-me o futuro porque é o lugar onde vou passar o resto de minha vida.

Woody Allen
COM VATAPÁ, CAMARÃO E PIMENTA

A operação Acarajé, deflagrada na segunda-feira pela Polícia Federal, não é tema na Câmara dos Deputados apenas pela prisão do marqueteiro das campanhas da presidente Dilma Rousseff, João Santana. O deputado Valmir Assunção acaba de se queixar em Plenário do nome escolhido pela PF para essa etapa da Lava Jato.

Diz Assunção: "A Polícia Federal, na última operação, vinculou uma atividade cultural, um alimento da Bahia, a acarajé, à coisa ruim que é a corrupção. A acarajé é uma coisa deliciosa, muito boa para o consumo humano. É uma atividade que as baianas fazem na Bahia e em todo o Brasil. Não pode de forma nenhuma a Polícia Federal vincular a corrupção quando estabelceu que a operação chamaria Acarajé. Isso traz prejuízo muito grande para a cultura, para a atividade das baianas e para o povo negro da Bahia".

Na própria segunda-feira, o Coletivo de Entidades Negras (CEN) divulgou uma carta repudiando o uso do termo "acarajé" para batizar a operação.

A PF decidiu que a ação se chamaria Acarajé porque é o termo usado por investigados para se referir a dinheiro de propina.

Ricardo Della Coletta, Época, 26/02/2016, 10:49 hs

GRANDES ESCRITOS


PSICOPATOLOGIA DO TRABALHO

O sujeito pode transferir esse reconhecimento do trabalho para o registro da construção de sua identidade. E o trabalho se inscreve assim na dinâmica da autorrealização. A identidade constitui a armadura da saúde mental. Não há crise psicopatológica que não tenha em seu núcleo uma crise de identidade. E isto confere à relação com o trabalho sua dimensão propriamente dramática. Ao não contar com os benefícios do reconhecimento de seu trabalho nem poder aceder ao sentido da relação que vive com esse trabalho, o sujeito se confronta com seu sofrimento e só a ele. Sofrimento absurdo que só produz sofrimento, dentro de um círculo vicioso, e que será desestruturante, capaz de desestabilizar a identidade e a personalidade e causar doenças mentais. Por isso, não há neutralidade no trabalho em relação à saúde mental.
(...)
Christophe Dejours

NANA CAYMMI e MILTON NASCIMENTO - Cais


FERNANDO, O ILUSTRE ACADÊMICO

Polícia Federal abre inquérito para investigar ex-presidente FHC
Jornalista diz que ex-presidente usou empresa para bancá-la no exterior.

O Ministério da Justiça divulgou nota nesta sexta-feira (26) na qual informou que a Polícia Federal determinou a abertura de um inquérito para investigar "eventuais ilícitos criminais" que tenham sido cometidos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A nota do ministério afirma que o inquérito vai tramitar em sigilo e terá como base reportagem publicada pelo jornal "Folha de S.Paulo" na qual a jornalista Miriam Dutra diz que FHC utilizou uma empresa para bancá-la no exterior, assim como o filho dela, cujo pai, segundo a jornalista, é o ex-presidente (veja reportagem do Jornal Nacional ao final deste texto). De acordo com Miriam Dutra, essa empresa era a Brasif Exportação e Importação, concessionária à época do governo FHC das lojas duty free nos aeroportos brasileiros.
(...)
Do G1, em Brasília, 26/02/2016, 20:25 hs

VOCÊ SE QUEIXA DA VIDA?


Não ter sido compreendido
condenou-me a assumir verdades
que desconhecia, filhos que
não eram de minha boca,
compromissos que não quis ir.

Ao longo da fala,
abri correspondências alheias.
A ausência de clareza
me perturbou a viver de favor
em meu corpo


Fabrício Carpinejar
VIDA

Se não houvesse tristeza nem miséria, se em todo lugar corressem águas sobre as pedras, se cantassem aves, a vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas, por serem já sabidas as repostas, ou por serem estas de tão pouca importância, que descobrí-las não valeria a vida duma flor.
(...)
José Saramago
AS PERIPÉCIAS DO ÓBVIO

O governo assaltou e arruinou a Petrobras. A tese mais elementar era esta: parte do dinheiro roubado foi desviada para as campanhas de Lula, Dilma e tutti quanti.
No Brasil, o elementar nem sempre se impõe. Almas generosas dizem: não há provas de que os milhões roubados da Petrobrás foram usados em campanha. Todo o dinheiro foi registrado no TRE: contribuições legais. As empresas que doaram são as mesmas do escândalo. O dinheiro da propina foi simplesmente lavado. As almas delicadas não acreditam que tenha havido dinheiro sujo na campanha e não fazem a mínima ideia de para onde voaram milhões de dólares. E consideram que está tudo bem com a lavagem de dinheiro, embora isso seja um crime punido por lei.
Agora a casa caiu. A prisão do marqueteiro João Santana mostra que ele recebeu dinheiro do escândalo do petróleo como pagamento pela sórdida campanha de 2014.
Fechou-se o quadro. Ele já estava desenhado no celular de Marcelo Odebrecht. Numa das anotações falava que as contas na Suíça poderiam atingir a campanha dela. Quem é ela? Se afirmar que é Dilma, as almas generosas vão dizer: há milhões de outras mulheres no Brasil.
Delcídio Amaral já havia advertido Dilma de que a prisão de Marcelo Odebrecht atingiria sua campanha, porque a empresa pagou a João Santana no exterior. Mercadante teria dito: a Odebrecht é problema do Lula. Solidariedade zero entre eles.
Agora, vão dizer que o dinheiro de Santana foi ganho em campanhas no exterior. Ele fez algumas, no universo da esquerda latino-americana. Todas pagas regiamente. Acontece que ele enviou o dinheiro do Brasil. Por que as campanhas lhe pagariam aqui? Acontece que recebeu durante a campanha de Dilma. Por que as campanhas de fora pagariam fora do tempo?
E como se não bastasse: que outras campanhas levaram dinheiro de propina de Keppel Fels, que tem um estaleiro no Brasil, opera com a Petrobrás, e seu lobista Swi Skornicki, destinatário de um bilhete da mulher de João Santana, Mônica, orientando-o a depositar os dólares no exterior?
As descobertas da Lava Jato apenas demonstram com provas uma tese cristalina: roubaram para permanecer no poder e acumular fortunas. Mas, sobretudo, para prosseguir no governo, entupindo as campanhas de dinheiro sujo.
Tecnicamente, a Lava Jato seguiu o caminho real: o dinheiro. É em torno da grana que eles giram como mariposas.
Além da cooperação suíça, as autoridades norte-americanas foram rápidas em enviar seus dados. Os suíços mantiveram sua disposição de colaborar.
Enfim, o cerco se fechou, uma parte considerável do mundo se alia ao povo brasileiro no esforço não só de punir os responsáveis, mas também de recuperar o dinheiro roubado.
E o governo, os políticos, os brasileiros, em tudo isso? O que era apenas uma tese que já balançava Dilma se tornou um fato comprovado com documentos. Aliás, mais documentos do que em outros casos da Lava Jato.
Se fosse uma partida de xadrez, diria que o governo levou um xeque-mate. Antes apenas se falava que a campanha de Dilma foi feita com dinheiro roubado. Agora todos sabem.
Mas o PT não é um jogador de xadrez comum , e não só porque atropela regras. Ele se distancia da própria realidade. Xadrez? Não estou vendo o tabuleiro. Antena no sítio de Atibaia? Lula não usa celular. Prisão do marqueteiro? O PT não tem marqueteiro, é apenas um senhor que nos ajuda.
De qualquer forma, será difícil acordar todas as manhãs, num país mergulhado em crise econômica, e pensarmos que ele está nas mãos de um grupo que roubou para vencer.
E não será apenas uma certeza política. Estarão lá, diante de nós, as contas no exterior, os dólares enviados, as transferências, conversões – enfim, toda a trajetória do fio condutor a que eles estão ligados: a grana.
De qualquer forma, o episódio é um momento de otimismo, na medida em que precipita a queda de Dilma. Como as crises estão entrelaçadas, uma solução política poderia dar algum alento à economia e se um projeto de transição sério fosse levado até 2018.
O PSDB voltou do recesso dizendo que votaria os projetos de interesse do País ao lado do governo. Isso me parece correto, pois sempre fui contra as pautas-bomba que explodem no bolso dos contribuintes. No entanto, não se deve acreditar ser esse o grande problema da oposição. Seu problema é não focar na saída da crise: o impeachment. E não trabalhar com uma ideia mais clara da transição.
Olhando para o futuro próximo, não faz sentido dizer que vota a reforma da Previdência só se o PT votar também. É um tema inescapável na transição.
Orientar-se pela posição do PT é, de uma certa forma, antecipar uma disputa em 2018. Não sabemos direito como será 2018 nem se haverá PT. O problema é achar um rumo para a transição e fazê-la acontecer com a queda de Dilma.
Os acontecimento da semana mostram que o jogo de empurrar com a barriga é apenas um esforço para levar Dilma até 2018, tudo bonitinho, faixa passada. A realidade, por meio de uma investigação competente, com apoio internacional, mostrou mais uma vez que é preciso pegar o touro à unha.
Os que esperam 2018 deveriam considerar apenas como ele será muito pior se nada for feito. Com que cara o Brasil chegará lá, dirigido por um governo corrupto, incompetente, politicamente nulo?
Quem sabe faz a hora ou espera acontecer? Ao contrário da canção, às vezes, acho melhor esperar acontecer. Mas, no caso específico, há um sentido de urgência.
Continuar com esse governo vai desintegrar o País. Uma terrível animação de Hong Kong já mostra a Baía de Guanabara poluída, atletas vomitando, a estátua do Cristo Redentor fazendo toneladas de cocô. É uma peça de humor. Mas se parece muito com o pesadelo que vivemos no Brasil.

Fernando Gabeira, 26/02/2016

ALEXI ZAITSEV


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A VIDA NÃO É CORRUPTA

Acerca de uma espécie de "psicopatologia do corrupto" e a partir das reflexões de Eugênio Bucci (veja postagem recente) temos a dizer que a corrupção não é um fenômeno individual, mas coletivo. Isso implica em assumir uma visão do poder como elemento intrínseco das ações humanas. Ou seja, as sociedades (em geral) são atravessadas por ações corruptas (micro ou macro) que se expressam (ou tendem) através do Direito como Juizo. A questão da corrupção, tão presente no Brasil atual, não é, pois, assunto da psiquiatria, não é um problema do lítio (não saque a receita!) ou do superego (não interprete!)) mas da Ética, ética a ser inventada por aqueles que desejam uma vida fora do aparelho capitalístico ou dos mandamentos judaico-cristãos. Neste sentido, ela é uma potência de viver, ela, a Ética, antecede toda e qualquer análise moral individualista da política. Estamos nisso, somos isso (a política) e não há como escapar ao destino implacável e irreversível da Vida, diria Prigogine, exceto, claro, com a morte e os seus mil disfarces.  Olhe o mundo, cara...Isso é DESEJO?

A.M.
TUDO MENTIRA

A construtora Odebrecht realizou pagamentos no valor de R$ 4 milhões para o marqueteiro João Santana no Brasil entre outubro e novembro de 2014, no auge das eleições, segundo documentos encontrados pela Polícia Federal. Esse dinheiro, de acordo com os investigadores, seria oriundo de contratos firmados entre a empreiteira e a Petrobras. Naquele ano, Santana trabalhou na reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Uma planilha apreendida na Odebrecht, com o título "Feira-evento 14", lista sete pagamentos na cidade de São Paulo que somam R$ 4 milhões. Em 7 de novembro de 2014, logo após a vitória apertada de Dilma sobre o senador Aécio Neves (PSDB-MG), o documento registra um repasse de R$ 1 milhão para "Feira". Segundo a PF, "Feira" é o apelido de João Santana, dado por Marcelo Odebrecht. O publicitário nasceu em Tucano, na Bahia, a 150 quilômetros do município de Feira de Santana.

Outro documento encontrado pelos investigadores que reforça a suspeita de que Feira é, na verdade, João Santana é uma anotação feita supostamente por Maria Lúcia Guimarães Tavares, secretária da empreiteira e responsável por controlar pagamentos de propinas, segundo a PF. A funcionária da construtora foi presa temporariamente na Lava Jato.
(...)
Thiago Bronzatto, Época, 26/02/2016, 09:42 hs

LIBERADO O PROGRAMA DO IMPOSTO DE RENDA


UM BRILHO

Os cabelos, cor de prata fosca, emolduravam lhe o rosto sereno, algum tanto arrugado, não por desgostos, que os não tivera, mas pelos anos. Os olhos luziam de muita vida, e eram a parte mais juvenil do rosto.
(...)
Machado de Assis
o poeta é um atravessador de paredes
fantasma de si mesmo
entre lençóis de linho
não tem mulher que quer

tá mijadinho
bichado
bicudo


Charles Peixoto

GRANDES ESCRITOS


Por que um corrupto não sente culpa? Será doença psiquiátrica? Falta de lítio? De superego? De vergonha?

O que se passa na cabeça de um político ladrão? Você já parou para pensar nisso? De que maneira ele se justifica diante do espelho? Que ginástica mental ele realiza para encostar a cabeça no travesseiro e pegar no sono? Como consegue paz de espírito para usufruir da lancha que roubou do hospital, do conversível de luxo que afanou da merenda escolar, da mansão em Miami que surrupiou dos aposentados?

Já sabemos que a maior parte dos corruptos prima pelo mau gosto. Gosta de apartamentos de pé-direito duplo em edifícios neoclássicos. Arremata coberturas atulhadas de vidro blindex. Só compra obras de arte (feias, no mais das vezes) para lavar dinheiro. Engole vinhos caríssimos sem saber a diferença entre branco e tinto, manda importar aparelhos de som de US$ 100 mil e nem desconfia da frequência que separa um acorde em sétima de um harpejo com uma nona intercalada. Corruptos viajam de primeira classe para visitar igrejas das quais não sabem o nome e contratam prostitutas pelas quais se apaixonam pelos motivos errados. Fumam charutos raros puxando a fumaça com força e acham que são gente simples porque falam palavrões. À sua falta de modos, dão o nome de autenticidade.

O mais incrível é que corruptos acreditam, e acreditam piamente, que trabalham pela felicidade do povo que os elege. Isto posto, eles roubam, roubam às fartas, roubam como um hipopótamo que gargalha sobre uma poltrona de couro “premium”. Roubam porque é assim que é, porque é assim que sempre foi, porque é assim que funciona. E, até que a solidão venha surpreendê-los na antessala da morte, num desvão de esquecimento ou numa cela de cadeia, dão de refestelar-se no alheio com sua alegria infantil.

Agora é com você. Qual seu palpite? O que se passa na cabeça desse tipo tão comum na cena brasileira? Por que é que ele não tem nenhum drama de consciência? Por que não sente culpa? Terá sido acometido de uma doença psiquiátrica? Será falta de lítio? De superego? De vergonha? O que você diria?

Na falta de uma descrição científica dos autoenganos que mantêm de pé a autoestima das autoridades desonestas, segue uma tentativa sumária de listar as justificativas mais prováveis. Vamos lá.

1. “Eu preciso guardar algum para o advogado.”

“Fazer política no Brasil sem ser processado no futuro é impossível”, alega o corrupto em seus momentos de recolhimento estratégico. “Se vou ser processado por trabalhar como eu trabalho em nome do bem comum, não é justo que eu tenha de pagar o advogado do meu bolso. Preciso fazer um caixa para me defender. É só uma questão de justiça.”

2. “Não há mal nenhum em aceitar um presentinho, um mimo, depois de tudo o que fiz pelo Brasil.”

“Graças a mim, a economia deslanchou, as exportações aumentaram, milhões de empregos foram criados, veja bem, diante de tanta riqueza, esse presente que estão me dando tem um valor meramente simbólico, isso é troco, não vai fazer diferença para ninguém. Fora isso, minha família merece um pouco de conforto depois de tanto sacrifício.”

3. “Meus correligionários dependem de mim, e eu não vou deixá-los na rua da amargura.”

“Não é por vaidade ou por ambição que vou arrecadar. Quer saber? Eu tenho o dever moral de fazer esse pé-de-meia. Não é para mim. Além das minhas despesas, que são muitas, existem as despesas dos que sempre me apoiaram e que não podem ficar à míngua. Eu não vou abandoná-los no acostamento. Agora, que tenho o poder, é hora de pensar no futuro dos meus seguidores fiéis. Se eu não tiver negócios que os sustente amanhã, o que vai ser deles?”

4. “Alguém vai roubar de qualquer jeito. Melhor que esse dinheiro venha para nós.”

“Ah, vá. Vem dizer que você não conhece o Brasil? A política brasileira é corrupta até a alma. Se não mudarmos a legislação eleitoral e o financiamento de campanha, ela nunca será debelada. A caixinha vai existir de qualquer jeito. Se nós não pegarmos isso para nós, esse dinheiro vai para os nossos inimigos, que são os inimigos do povo. Então, vamos usar o sistema a nosso favor para depois derrotá-lo.”

5. “Não existe dinheiro mais honesto do que o meu.”

“Uma pessoa com a minha competência, com o meu trânsito, com o meu prestígio, se estivesse na iniciativa privada, estaria ganhando no mínimo dez vezes mais. O que é que um vice-presidente de multinacional tem de melhor do que eu? E, depois, que fortuna neste país foi construída com trabalho honesto? Francamente, o dinheiro que recebi pelos enormes favores que prestei é muito mais honesto e muito mais suado do que o dessa elite branca. Desonesta é ela.”

Eugênio Bucci, Época, 15/02/2016,08:02 hs

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

DEMI LOVATO - Stone Cold


Ecos D'Alma

Oh! madrugada de ilusões, santíssima,
Sombra perdida lá do meu Passado,
Vinde entornar a clâmide puríssima
Da luz que fulge no ideal sagrado!

Longe das tristes noites tumulares
Quem me dera viver entre quimeras,
Por entre o resplendor das Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus sonhares.

Mas quando vibrar a última balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça

Quem me dera morrer então risonho
Fitando a nebulosa do meu sonho
E a Via-Látea da Ilusão que passa!

Augusto dos Anjos
Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto.

Otto Lara Resende


EMIL NOLDE


HÁ SÓ PRODUÇÃO

Não há nenhum processo físico, biológico ou antropológico que não esteja mediado por signos. Toda cultura, por sua vez, resulta de uma certa estratificação semiótica ordenadora de comportamentos pessoais e coletivos. As subjetividades, igualmente, se constituem a partir de processos antropossemióticos sem os quais nenhum indivíduo poderia reconhecer-se como sujeito ou agir com autonomia.
Se reduzirmos a subjetividade à sua dimensão mais abstrata, chegaremos a matérias e funções organizadas como substâncias e formas sob regimes de signos. Esta compreensão formulada por Gilles Deleuze e Félix Guattari enfatiza a historicidade inerente a cada subjetividade, considerando o movimento de constituição de identidades e singularidades a partir de múltiplas relações, fluxos e agenciamentos mediados por signos - movimento que se caracteriza como produção de subjetividades.
Se reduzirmos um corpo a seu elemento mais simples chegamos à sua materialidade organizada sob um jogo de funções. Essa funções todas, organicamente, conformam o corpo. Tem-se portanto diversos órgãos e aparelhos que se articulam entre si. Trata-se pois de uma matéria ordenada nesse conjunto de funções. Mas somente isso não estrutura uma subjetividade. Essas matérias e funções são ordenadas a partir de regimes de signos. Em nível de biossemiose, tem-se como signos ordenadores, os códigos genéticos; em nível de zoosemiose tem-se os signos que - sob linguagens sinalizadoras e expressivas - organizam a vida dos grupos de animais possibilitando a sua sobrevivência e reprodução. Contudo, se considerarmos o nível da antropossemiose, veremos que inúmeras funções do organismo são de algum modo modelizadas pelos diversos signos das culturas humanas. O modo de comer, de vestir, de se reproduzir, enfim, de realizar todas as atividades necessárias à existência e convivência humanas é semioticamente organizado. Assim, quando se fala em subjetividade há que se pensar nesse conjunto de matérias e funções - nesse conjunto das necessidades orgânicas - e por outro lado nas dimensões da cultura - nos diversos códigos socialmente ordenadores - que, de algum modo, modelizam o corpo; neste processo estruturam-se as subjetividades.
(...)
Euclides Andre Mance in O capitalismo Atual e a Produção de Subjetividade, 1998