sábado, 31 de dezembro de 2016

NOVO ANO TUDO VELHO

Ao menos 35 pessoas morreram e 40 ficaram feridas após tiros serem disparados em uma casa noturna em Istambul, na Turquia, durante a comemoração do Ano Novo. O governador de Istambul, Vasip Şahin, diz que um atirador agiu sozinho e classificou o caso de "ataque terrorista", sem especificar quem seria o autor, de acordo com a Reuters.
O ataque aconteceu no Reina, um dos clubes mais populares de Istambul, e que também tem uma área de bar e restaurante. Os tiros começaram por volta da 1h30 da madrugada de domingo (20h30 horas de sábado em Brasília), quando havia centenas de pessoas dentro do estabelecimento.
De acordo com a CNN turca, testemunhas chegaram a dizer que dois homens fantasiados de Papai Noel entraram no local e atiraram aleatoriamente, sem escolher vítimas específicas. Um policial que estava na porta foi o primeiro a ser baleado e morrer.
(...)
Por G1, 31/12/2016, 21:19 hs

SANDRA DE SÁ - Olhos coloridos


A vida é agora, aprende. Ainda outra vez tocarão teus seios, lamberão teus pelos, provarão teus gostos. E outra mais, outra vez ainda. Até esqueceres faces, nomes, cheiros. Serão tantos. O pó se acumula todos os dias sobre as emoções.

Caio Fernando Abreu
E O TERROR

(...)
Para o próximo ano, analistas avaliam que a tendência se manterá, com novos elementos que tornam o cenário ainda mais complexo. Com o assassinato do embaixador russo na Turquia na semana passada num ataque motivado, ao que tudo indica, pelo apoio de Vladimir Putin ao regime de Bashar al-Assad, é factível presumir que o país também se torne um alvo crescente de ataques jihadistas.

Além disso, a retórica xenófoba e anti-imigração que vem ganhando proeminência na Europa nos últimos anos também tem um impacto duplo: além de complicar a discussão sobre imigração e refúgio, já bastante inflamada e permeada por desinformação, também se torna um terreno fértil de estímulo para a ação de grupos e terroristas de extrema direita, como o norueguês Anders Behring Breivik, responsável pelo morte de 76 pessoas em ataques simultâneos em 2011.
(...)

Teresa Perosa, Época, 28/12/2016, 14:01 hs

AMANHÃ VAI DAR PRAIA


Take Off

1. há quem faça obras
eu apenas
solto as minhas cobras

2. o futuro? já sei de cor:
só me interessa a metamemória
perdido no cosmos
a minha pátria é o jardim das delícias

3. que esperam de mim?
não sou ninguém
não me puxem pelo braço
sou revel
a minha consciência é o verme
e eu sou o cria corvos

4. já vivi duas vezes
e sonho com a terceira vida
visível só como sombra

5. façam de conta
que fui apenas um sonho
neste pesadelo da história
nem consegui gritar
fui enforcado com baader-meinhoff
ou pendurei-me em praça pública
com gérard de nerval?

6. quem não se contradiz
não diz
radicalmente sério
só o cemitério


Sebastião Uchoa Leite
SEM ROSTO

(...) O muro branco não pára de crescer, ao mesmo tempo que o buraco negro funciona várias vezes. A professora ficou louca; mas a loucura é um rosto conforme de enésima escolha (entretanto, não o último, visto que existem ainda rostos de loucos não-conformes à loucura tal como supomos que ela deva ser). Ah, não é nem um homem nem uma mulher, é um travesti: a relação binária se estabelece entre o "não" de primeira categoria e um "sim" de categoria seguinte que tanto pode marcar uma tolerância sob certas condições quanto indicar um inimigo que é necessário abater a qualquer preço. De qualquer modo, você foi reconhecido, a máquina abstrata inscreveu você no conjunto de seu quadriculado. Compreende-se que, em seu novo papel de detector de desvianças, a máquina de rostidade não se contenta com casos individuais, mas procede de modo tão geral quanto em seu primeiro papel de ordenação de normalidades. Se o rosto é o Cristo, quer dizer o Homem branco médio qualquer, as primeiras desvianças, os primeiros desvios padrão são raciais: o homem amarelo, o homem negro, homens de segunda ou terceira categoria. Eles também serão inscritos no muro, distribuídos pelo buraco. Devem ser cristianizados, isto é, rostificados. O racismo europeu como pretensão do homem branco nunca procedeu por exclusão nem atribuição de alguém designado como Outro: seria antes nas sociedades primitivas que se apreenderia o estrangeiro como um "outro" . O racismo procede por determinação das variações de desvianças, em função do rosto Homem branco que pretende integrar em ondas cada vez mais excêntricas e retardadas os traços que não são conformes, ora para tolerá-los em determinado lugar e em determinadas condições, em certo gueto, ora para apagá-los no muro que jamais suporta a alteridade (é um judeu, é um árabe, é um negro, é um louco..., etc). Do ponto de vista do racismo, não existe exterior, não existem as pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, e cujo crime é não o serem.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 3

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ORQUÍDEAS ETERNAS


ALEGRIA, ALEGRIA

MUITA GENTE FALA MAL DE 2016.
EU, NÃO.
EM 2016, O BAHIA VOLTOU À SERIE A.
O QUE HÁ MELHOR QUE ISSO?

A.M.
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino

Paulo Leminski
Quando mocinhas, elas podiam escrever seus pensamentos e estados d´alma (em prosa e em verso) nos diários de capa acetinada com vagas pinturas representando flores ou pombinhos brancos levando um coração no bico. Nos diários mais simples, cromos coloridos de cestinhos floridos ou crianças abraçadas a um cachorro. Depois de casadas, não tinha mais sentido pensar sequer em guardar segredos, que segredo de uma mulher casada só podia ser bandalheira. Restava o recurso do cadernão do dia-a-dia, onde, de mistura com os gastos da casa cuidadosamente anotados e somados no fim do mês, elas ousavam escrever alguma lembrança ou confissão que se juntava na linha adiante com o preço do pó de café e da cebola.

Lygia Fagundes Telles

TZVIATKO KINCHEV


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

OS PREFEITOS SUMIRAM

Às vésperas da posse dos prefeitos eleitos, municípios da Baixada Fluminense enfrentam crises profundas. Apesar do cenário de caos, com serviços paralisados e salários atrasados, os prefeitos dessas cidades, prestes a deixar os cargos, não são encontrados para explicar a atual situação.

Sem salário há três meses e sem 13º, funcionárias da saúde de Itaguaí fizeram uma espécie de vigília na porta da prefeitura na quarta-feira (28), em busca de uma explicação para o atraso nos pagamentos, mas não encontraram o prefeito Weslei Pereira (PSB). Elas contaram que há colegas em dificuldades, ameaçados de despejo e sem dinheiro até para comprar comida.

Em Belford Roxo, a equipe do Bom Dia Rio encontrou funcionários, que não recebem salários há três meses, trabalhando na sede da prefeitura. Todos disseram a mesma coisa: há muito tempo o mandatário da cidade, Denis Dautman (PC do B), não é visto por lá. "Mais de 3 meses". 

Em Mesquita, onde os salários estão atrasados desde outubro e a coleta de lixo está paralisada, servidores do município dizem que o prefeito Gelsinho Guerreiro (PRB) desapareceu logo depois de ser derrotado nas últimas eleições, no início de outubro. O político também não é encontrado em sua casa, no município vizinho de Nova Iguaçu.

A Prefeitura de Itaguaí disse que pagou 76% da folha salarial de novembro e que pretende quitar o restante até sexta-feira (30). Ainda segundo a prefeitura, todos os serviços estão funcionando normalmente. Já as prefeituras de Belford Roxo e Mesquita não se manifestaram sobre os problemas.

Por G1 Rio, 29/12/2016, 07:49 hs
SINAPSES DA ALMA

Os transtornos mentais não explicam nada. Eles é que devem ser explicados. Isto significa que a psiquiatria biológica (bem entendido, a psiquiatria hoje hegemônica) funciona com entidades clínicas fixas, endurecidas, coisificadas, os chamados transtornos. Munida deste apriorismo metodológico, a pesquisa clínica não avança, não descobre, não cria, desconhecendo o que se passa de fato com o paciente (ele não é escutado) bem como com as origens (causas) do seu estado psíquico "alterado". É uma constatação prática, até certo ponto óbvia. Escute pacientes, leia artigos e livros de psiquiatria. Tudo atual. Um dado complicador é o seguinte: o enquadre teórico desta psiquiatria notoriamente conservadora (em termos políticos) conta com traços autísticos. Travam o diálogo. São as neurociências. Elas seguem, sem dúvida, um cortejo sináptico de importantes descobertas imagéticas. No entanto, tais imagens, feitas para serem vistas no écran, passam a ser vistas por toda parte, constituindo o próprio universo institucional da psiquiatria, e por extensão, os transtornos mentais-recheados-de-imagens, descarnados, desossados e que nada explicam. Deveriam ser explicados.

A.M.

HORA DO SHOW

quando eu estou aqui

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Súbito? Não. A coisa morre à míngua,
um risco vira traço e o traço, ponto.
Por exemplo: uma manhã de domingo, a
mesa posta pro café, tudo pronto
pra não se fazer nada – ou então
a noite de uma terça-feira inane,
sob o quebranto da televisão –
mas isso não importa; que se dane
o tempo, e o lugar também (um boteco?
o elevador?) – pois chegou ao final
um processo previsível, perverso,
trivial, que reduziu o universo
a uma bolinha de papel, da qual
você se livra com um peteleco.


Paulo Henriques Britto

FÉLIX GUATTARI

o pensador da transversalidade

O seres humanos nascem ignorantes, mas são necessários anos de educação para torná-los estúpidos.

George Bernard Shaw

A FELICIDADE AO ALCANCE DE TODOS

Mega da Virada pode pagar R$ 225 milhões no último dia de 2016

A Mega da Virada deve pagar ao menos R$ 225 milhões para quem acertar os seis números sorteados no principal concurso do ano, de acordo com a estimativa da Caixa Econômica Federal. No último sorteio do ano, o prêmio não acumula. Caso nenhum apostador acerte as seis dezenas, o valor será dividido entre os que acertarem cinco números, e assim por diante.

As apostas para a Mega da Virada começaram no dia 31 de outubro. As lotéricas federais devem receber bilhetes para o sorteio até as 14h do dia 31 de dezembro, no horário de Brasília, e os números ganhadores serão conhecidos às 20h do mesmo dia.

O bilhete mínimo para concorrer à Mega Sena ou à Mega da Virada custa R$ 3,50 e pode ser comprado nas casas lotéricas ou pela internet para os clientes da Caixa.
(...)

Isto É, 26/12/2016, 15:48 hs

IMAGENS DO BRASIL

retinas cansadas

DEUS É O MUNDO

(...)
Deus não está separado do mundo como um grande legislador. Não existe uma entidade criadora do mundo que agora o observa à distância, julgando-o e decidindo seu destino final. Até hoje não conseguimos definir a natureza de Deus porque sempre o confundimos com um ser à nossa imagem e semelhança. Os teólogos, claro, mas também os filósofos. Não surpreende pois o objetivo dos teólogos sempre foi a obediência. A escritura é mandamento. A tradição descreve Deus como se fosse um homem, um rei, um déspota: com vontades, sentimentos, objetivos, e atributos corporais.

Esta visão é exageradamente antropomórfica e confessa uma ingenuidade para entender a essência das coisas. Por uma visão utilitarista, somos levados a crer que a natureza, e nós mesmos, temos um objetivo a ser cumprido, e concluímos que fomos criados com um destino a se cumprir. Sendo assim, achamos que um ser que nos criou à sua imagem e semelhança tem certo desígnios para nós. Mas Espinosa argumenta que se fosse dada a um triângulo a chance de definir Deus, este o faria dizendo que Ele possui três lados e a soma de seus ângulos internos resultam em 180 graus. E assim o homem, por ignorar as causas de seu conhecimento, o faz: Deus vê tudo, ouve tudo, sabe tudo, pode tudo e nos deu mandamentos que não podem ser quebrados.

Isto está de todo errado. Deus é o mundo, Deus é a Natureza. São dois nomes para uma única e mesma coisa. É preciso conhecer a natureza, o máximo que pudermos, se quisermos conhecer Deus. Ele não é exterior, ele é a causa interior de tudo que existe. A causa da essência e da existência de tudo, a causa imanente, não transitiva, ou seja, agindo em nós. Deus não gera o mundo por livre vontade, ele é o mundo por pura necessidade de sua essência. “Deus não produz porque quer, mas porque é” (Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 69).
(..)

Rafael Trindade, do blog Razão Inadequada

LEILA PINHEIRO - Besame


Consciência de bolha

Estamos propensos 
Ao Princípio de Incerteza 
Esmaga-nos 
A goela do Big Crunch 
Em que Não-localidade 
Nos achamos? 
Perplexos 
Vamos todos desconexos 
Nesse roldão universal


Sebastião Uchoa Leite
SALÁRIOS DE NOVEMBRO SÓ A PARTIR DO DIA 5 (1ª PARCELA)


RIO - Aos 93 anos, Judith Farias, que trabalhou parte de sua vida na lavanderia do Palácio Guanabara, saiu de casa, em Campo Grande, para buscar uma cesta básica no Sindicato dos Servidores do Judiciário (SindJustiça-RJ). Na sede da entidade, na Travessa do Paço, no Centro, voluntários distribuem as doações. A rede de solidariedade também já conseguiu arrecadar cerca de R$ 80 mil.

Sem condições físicas até para carregar os alimentos, Judith foi ajudada por uma amiga. A história da idosa de corpo franzino sensibilizou a todos. A cesta dela ganhou o reforço de latas de leite.

-Ganho cerca de R$ 900 por mês, pago aluguel e tenho gastos com remédios. Nunca pensei em passar por uma situação como essa na minha idade. A proprietária da casa onde eu moro está sendo tolerante, mas falta dinheiro para tudo. Meu Natal foi na casa de amigos, porque na minha casa não tinha nada — lamentou Judith.

Até agora, mais de 30 toneladas de alimentos já foram distribuídas. O dinheiro arrecadado será usado para a compra de cestas para servidores que vivem no interior.

A professora Sônia Alves, de 57 anos, enfrentou a fila e saiu levando comida para casa. Ela, que mora com um filho desempregado, foi ao sindicato acompanhada pelo caçula de 7 anos.

— Não fiz nada no Natal. Não tinha nada em casa. Trabalho desde os 14 anos e fiquei 26 anos atuando em escola pública. Agora, aposentada, fico sem o salário. Recebo dezenas de ligações de banco fazendo cobrança e não posso fazer nada. É muito constrangedor — disse.

Também estão sendo doados brinquedos. A pensionista Maria Inês Fausta Mendonça Machado, de 76 anos, saiu da sede do sindicato com cesta básica e presentes para os netos.

-Estou ameaçada de ter a luz cortada. Não tinha condições de comprar presentes de Natal. Agora, vou chegar em casa com uma surpresa para os meus netinhos — comemorou Maria Inês.

Conforme o calendário do estado, a primeira parcela do salário de novembro (R$ 264) só será paga no dia 5 de janeiro. A segunda parcela, de R$ 342, será depositada no dia 9; a terceira, de R$ 221, no dia 11; a quarta, de R$ 1.375, no dia 13; e o restante no dia 17. Sem receber salários, várias categorias ameaçam fazer greve. Os analistas da Secretaria de Fazenda anunciaram paralisação, a partir de amanhã, por tempo indeterminado.


Celia Costa, O Globo, 28/16/2016, 04:30 hs


O parto

Três dias de parto e o filho não saía:
— Tá preso. O negrinho tá preso — disse o homem.
Ele vinha de um rancho perdido nos campos,
E o medico foi até lá.
Maleta na mão, debaixo do sol do meio-dia, o médico andou até aquela longidão, aquela solidão, onde tudo parece coisa do destino feroz; e chegou e viu.
Depois, contou para Glória Galván:
— A mulher estava nas últimas, mas ainda arfava e suava e estava com os olhos muito abertos. Eu não tinha experiência nessas coisas. Eu tremia, estava sem nenhuma idéia. E nisso, quando levantei a coberta, vi um braço pequeninho aparecendo entre as pernas abertas da mulher.
O médico percebeu que o homem tinha estado puxando. O bracinho estava esfolado e sem vida, um penduricalho sujo de sangue seco, e o médico pensou: Não se pode fazer mais nada.
E mesmo assim, sabe-se lá por quê, acariciou o bracinho. Roçou com o dedo aquela coisa inerte e ao chegar à mãozinha, de repente a mãozinha se fechou e apertou seu dedo com força.
Então o médico pediu que alguém fervesse água, e arregaçou as mangas da camisa.

Eduardo Galeano

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

MANABU MABE


O QUE É DELIRAR - IV

Delirar é falar. Toda fala é delirante, não num sentido biomédico, mas como expressão da verdade, pelo menos por quem fala. Esta produção "industrial" de verdade gera efeitos concretos em quem escuta. A subjetividade vem de fora. O mundo exterior é o interior. Tudo se mistura. Em tempos modernos, a fala não mais representa o mundo, mas faz o mundo. A experiência delirante, insubmissa à razão psiquiátrica, espalha-se pelos quatro cantos do tecido social ( materializada em relações de poder) produzindo verdades parciais e fragmentárias. Ora, é evidente que muitos discursos (em especial, o religioso) buscam totalizar a realidade em nome de uma verdade única, última e eterna. Isso pacifica corações angustiados, almas desgarradas, existências malogradas em busca de um sentido dado a priori. Por isso é necessário repetir: não há sentido, nada faz sentido, o sentido está a se fazer, produzir, criar, construir. Do contrário, o destino é o buraco negro das subjetividades-zumbis: consumos capitalísticos. Delirar é, pois, falar contra, ir contra, ser do contra, contra-a-corrente, dizer-fazer em seu próprio nome. Outra política, um desvario, quem suporta novas verdades?

A.M.

OBA!!! VOU PRA PRAIA!!!


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto (…) De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações, e a compreensão profunda de estar sentindo…Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter…
(...)
Fernando Pessoa

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

perda

há um instante
o tido-para-sempre
se afasta
o olfato não o restitui
torna-se pedra
desconhece-se a trama
foge o timbre
some a sombra
não se sabe mais narrá-lo


Vera Pedrosa
O TEMPO FORA DOS EIXOS

A perda da história significa que a imediatidade do presente tem primazia sobre o passado e sobre o futuro. Emerge assim a possibilidade de uma história “presentificada” que se denomina atualidade ou news. Encontra-se aqui a importância considerável da revolução das transmissões e do poder dos media. A história só se faz no presente..
O homem está inscrito nas três dimensões do tempo cronológico, o passado, o presente e o futuro. É evidente que a emancipação do presente – o tempo real ou o tempo mundial – corre o risco de nos fazer perder o passado e o futuro em benefício de uma presentificação, que é uma amputação do volume do tempo. O tempo é volume. Ele não é somente espaço-tempo no sentido da relatividade. É volume e profundidade de sentido, e a chegada de um tempo mundial único que vem liquidar a multiplicidade dos tempos locais é uma perda considerável da geografia e da história. 
(...)
Paul Virilio, 2000
Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.

Gabriel García Márquez

domingo, 25 de dezembro de 2016

ANIMAIS NOTURNOS - direção de Tom Ford, 2016


Ó MINAS GERAIS !

O governo de Minas Gerais planeja triplicar os gastos com bebidas e gêneros alimentícios para abastecer em 2017 os três palácios utilizados pelo governador Fernando Pimentel (PT): Tiradentes, usado como gabinete; Mangabeiras, residência oficial; e Liberdade, museu fechado ao público pelo petista no início de seu mandato, agora utilizado para recepções oficiais e reuniões da equipe de governo.

O aumento dos gastos acontece quando, pela primeira vez na história de Minas Gerais, o governador decretou calamidade financeira no Estado.

Os gastos previstos na categoria "bebidas e gêneros alimentícios", que prevê itens como vinho branco chileno (80 garrafas por R$ 5.600), cerveja belga (1.620 garrafas de 350 ml por R$ 9.072), bebida energética (240 latas de 250 ml por R$ 2.352), bebida isotônica (2.100 garrafas de 500 ml por R$ 8.400) e refrigerante (3.120 latas de 350 ml por R$ 8.424), cresceram 199% entre um ano e outro, pulando de R$ 133.457 para R$ 398.969.

A previsão de gastos com bebidas e gêneros alimentícios para os palácios ainda incluem pé de moleque (48 quilos por R$ 1.152), azeite virgem e extra virgem (1.252 garrafas de um litro por R$ 42.568), nozes (36 quilos por R$ 4.320), pistache (32 quilos por R$ 4.120) e orégano (13 quilos por R$ 1.280).

As compras de carnes, pescados e flores para os palácios, que ainda não foram licitadas para 2017, são as que implicam maiores gastos para os cofres públicos. Os valores previstos no ano passado alcançaram R$ 937.358, sendo R$ 381.128 em carnes, R$ 231.298 em pescados e R$ 191.474 em flores, além dos R$ 133.57 das bebidas.

As compras são feitas por meio de licitações, que vão sendo entregues no decorrer do ano seguinte para abastecer as cozinhas dos três palácios.
(...)

Carlos Eduardo Cherem, para o UOl/Belo Horizonte, 25/12/2016, 17:36 hs
Acreditei que se amasse de novo

esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos


Ana Cristina Cesar
Eu acho que o sexo é uma coisa muito bonita entre duas pessoas. Entre cinco, então, é fantástico.

Woody Allen

ENTREVISTA COM CLAUDE LÉVI-STRAUSS, 1972 (trecho)


SEM LEITOS

“De todas as formas de desigualdade, a injustiça na saúde é a mais chocante e desumana”. 

A escolha da frase do líder Martin Luther King, Jr. não é mero detalhe no artigo que a médica Flávia Machado publicou na edição de ontem do The New England Journal of Medicine. É a mais perfeita tradução da realidade que ela enfrenta numa das unidades de terapia intensiva (UTI) do Hospital São Paulo, na capital paulista.

O relato de Flávia dá a justa medida da precariedade enfrentada pelos médicos que tentam fazer o melhor num cenário de progressivo sucateamento da saúde pública. Se para os profissionais o dilema é moral, para os pacientes é questão de vida ou morte.

São 7 horas da manhã e, mais uma vez, precisamos decidir quem ocupará um leito na unidade de terapia intensiva (UTI) depois de uma cirurgia eletiva. Uma avó de 55 anos com câncer de intestino? Um idoso com metástase no fígado? Uma jovem que sente dor e precisa de cirurgia numa articulação para continuar a trabalhar e sustentar a família?

Deveríamos escolher ou recusar os pacientes que têm câncer? Deveríamos fazer escolhas baseadas na idade? Na qualidade de vida prévia? Ou no impacto social, se, por exemplo, o doente tem quatro crianças para criar? Devemos oferecer o leito a quem já o negamos antes? Ou devemos simplesmente deixar de brincar de Deus e conceder a vaga a qualquer pessoa que tenha pedido antes?

Escolhas – por vezes, trágicas – são feitas. “Na maioria dos dias alguém fica sem leito”, me disse Flávia. Ela não trabalha num hospital perdido no meio do sertão no estado mais pobre do país. Pelo contrário. Flávia dirige o setor de terapia intensiva da disciplina de anestesiologia da Escola Paulista de Medicina, uma instituição de referência ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
(...)

Cristiane Segatto, Época, 23/12/2016, 08:01 hs

SOS ALEPPO


A morte é, de tudo na vida, a única coisa absolutamente insubornável.

Otto Lara Resende
SOBRAL, DORES DO TURVO, CONCEIÇÃO DOS OUROS

(...)
O Brasil das pessoas que trabalham, inventam e se debatem no cotidiano torna-se muito distante. E temos uma falsa impressão de termos sido jogados num eterno enredo policial. Isso não significa que a sociedade seja pura, que andando por aí não se encontrem sujeira, sacanagem e cinismo. Mas há muitas experiências interessantes, muito mais potencial visível do que no horizonte de Brasília.
Um exemplo disso é o fracasso do Brasil no ranking internacional de educação. Era importante trombeteá-lo. Mas em Sobral, onde foram conquistados avanços, e mesmo nas cidades que visitei, Dores do Turvo e Conceição dos Ouros, há histórias de progresso. Exceções que confirmam a regra, posso admitir. No entanto, são exemplos de que é possível dar grandes passos, alcançar uma educação de melhor qualidade mesmo num panorama desolador.
(...)
Fernando Gabeira, 25/12/2016

JOÃO BOSCO - Latin Lover



ninguém morre ao travesseiro

só os sonhos

isto quando há travesseiro

ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...

essas ervas que socorrem

a Santa Mãe Natureza



Isabel Câmara

A SECA NO NORDESTE


O QUE É DELIRAR - III

A experiência delirante escapa do molde psiquiátrico.Ela se expressa no cotidiano do nosso tempo. Basta atentar, por exemplo, para as semióticas religiosas. Funcionando, na sua maioria, sobre valores transcendentes (para além da vida) tais modos de subjetivação (movidos pelo desejo do absoluto) estabelecem um sentido para a falta de sentido da existência. Garantidas as condições institucionais, é possível delirar à vontade, desde que se obedeça às formas sociais (estado, escola, polícia, machismo, entre outras) componentes do capitalismo mundial integrado. Ou seja, tais formas de relação social ( naturalizadas: pode-se imaginar uma sociedade sem estado? ) acabam por estancar os fluxos do delírio, evitando o desembarque do cidadão num caso psiquiátrico. É que para a psiquiatria biológica interessa manter e produzir alguns (essenciais) signos de conduta: Ela diz: 1- seja responsável; 2- seja adequado; 3- obedeça. A religião também. Assim, o controle do delírio finca uma união estável entre a psiquiatria e a religião num tipo de ladainha subjetiva contínua; de um lado os psicofármacos, do outro a fé.

A.M.

JONAS GERARD


sábado, 24 de dezembro de 2016

O ROSTO É UMA POLÍTICA
(...)
Desfazer o rosto não é uma coisa à toa. Corre-se aí o risco da loucura: é por acaso que o esquizo perde ao mesmo tempo o sentido do rosto, de seu próprio rosto e do dos outros, o sentido da paisagem, o sentido da linguagem e de suas significações dominantes? É porque o rosto é uma organização forte. Pode-se dizer que o rosto assume em seu retângulo ou em seu círculo todo um conjunto de traços, traços de rostidade, que ele irá subsumir e colocar a serviço da significância e da subjetivação. Que é um tique? É precisamente a luta sempre recomeçada entre um traço de rostidade, que tenta escapar da organização soberana do rosto, e o próprio rosto que se fecha novamente nesse traço, recupera-o, barra sua linha de fuga, impõe-lhe novamente sua organização. (Na distinção médica entre o tique clônico ou convulsivo, e o tique tônico ou espasmódico, talvez seja necessário ver no primeiro caso o predomínio do traço de rostidade que tenta fugir; no segundo caso, o da organização de rosto que procura fechar novamente, imobilizar). Entretanto, se desfazer o rosto é um grande feito, é porque não é uma simples história de tiques, nem uma aventura de amador ou de esteta. Se o rosto é uma política, desfazer o rosto também o é, engajando devires reais, todo um devir-clandestino. Desfazer o rosto é o mesmo que atravessar o muro do significante, sair do buraco negro da subjetividade. O programa, o slogan da esquizoanálise vem a ser este: procurem seus buracos negros e seus muros brancos, conheçam-nos, conheçam seus rostos, de outro modo vocês não os desfarão, de outro modo não traçarão suas linhas de fuga.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 3

PEDRO LEMOS: comemorar o Natal


Atirador de Facas

Arrancar as vendas 
e acompanhar, 
de olhos abertos, 
a trajetória do punhal, 
cravado em nosso corpo, em nosso peito, 
a cada amor desfeito. 


Leila Míccolis

NESTE NATAL


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

PARTIDO AO MEIO

Um dos efeitos mais nefastos da crise moral brasileira é a ruína dos partidos políticos. Na origem, as legendas diziam representar ideias, grupos e corporações. Agora, representam apenas interesses mesquinhos e inconfessáveis. Os partidos brasileiros converteram-se em paraísos fiscais custeados por propinas, caixa caixa dois e déficit público.

Não há mais ideologia. O problema não é saber se os partidos são de esquerda ou de direita. O problema é constatar que estão sempre por cima, esmagando o interesse público, sempre por baixo. Os partidos são contados em mais de três dezenas. Já não são a mosca na sopa. Viraram a própria sopa.

Correm no TSE processos contra os três partidos mais enrolados no petrolão: PT, PMDB e PP. O escândalo da Petrobras apodreceu essas logomarcas. Você percebe pelos vermes. Os partidos serão julgados depois que a Justiça Eleitoral der um veredicto sobre o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer. Pela lei, podem perder o registro.

A tradição do TSE é de complacência. Mas talvez seja hora de começar a extinguir partidos em vez de criá-los. Sob pena de se consolidar a ideia de que os partidos políticos brasileiros se resumem mesmo a um abracadabra para a caverna de Ali-Babá.

Do Blog do Josias de Souza,23/12/2016, 22:18 hs
O que você mentir eu acredito.

Caio Fernando Abreu

DJAVAN - Alumbramento


A BATALHA DO ARMAGEDON

Washington: “Que haja uma corrida armamentista”. Foi dessa forma que o presidente eleito dos EUA, Donald Trump, respondeu ao ser questionado sobre seu misterioso, mas ameaçador tuíte sobre armamentos nucleares. Na quinta-feira, o futuro homem mais poderoso no mundo usou sua conta na rede social para pedir que as forças armadas do país expandam sua capacidade nuclear.

— Que haja uma corrida armamentista — disse Trump, em entrevista à emissora MSNBC nesta sexta-feira. — Iremos ser superiores em cada passagem e superar a todos.

O Globo,23/12/216, 13:31 hs
O QUE É DELIRAR - II

O "delírio" é um sintoma que deve ser eliminado. Esta é, pelo menos, a palavra-de-ordem que funciona como motor da psiquiatria biológica. Atrelada ao modelo biomédico, não se poderia esperar dela nada diferente. Ocorre que o delírio é um fenômeno que extrapola os biolimites da medicina. Ele é sócio-político, cultural, racial, geográfico, institucional, tudo porque a questão da verdade atravessa a experiência delirante. É a sua materialidade existencial mais espessa. A pergunta passa a ser: em que (ou em quem) acreditar? Ela está presente desde a vida esplendorosa dos pequeninos, tantas vezes massacrados, ainda que por "bons" pais. Está também presente (mais que nunca) no mundo industrial da modernidade.Somos colonizados por informações, comunicações plugadas em mentes consumidoras de ordens.Falar em "delírio" é, pois, falar sobre a "verdade" de quem enuncia algo (diz) ou faz (acontece). Todos deliram. Os terroristas estão em toda parte, não só os do oriente... Em que crêem? Em Maomé? Ou no Deus-capital?  A era do grande hospício se aproxima.

A.M.
Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.

Nelson Rodrigues

PAVEL MIKTOV


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

As coisas sempre podem piorar.
Não há limite para o abismo estreito
que se abre justamente no lugar
onde a relação entre causa e efeito
parece indicar que a crosta é mais dura
e é mais remoto o risco da ruptura.

E no entanto, aberta a fenda, uma vez
desmascarada a aparência enganosa
de integridade e estrita solidez,
a mente busca uma saída honrosa
e com algo assim por fim se contenta:
Agora sei onde a corda arrebenta.

Refeita, pois, do golpe, e sem temer mais nada,
expõe um novo flanco à próxima porrada.


Paulo Henriques Britto

PRIMEIRA CARTINHA DE NATAL


O MAPA DA PROPINA

Um documento produzido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou que a Odebrecht e a Braskem pagaram 1 bilhão de dólares em propina a políticos, funcionários de governo e estatais, e intermediários de doze países, incluindo o Brasil. Os valores ilícitos teriam como objetivo conseguir contratos e benefícios em mais de cem projetos. A informação era mantida em sigilo até esta quarta-feira, quando o órgão americano assinou um acordo de leniência (uma espécie de delação premiada de pessoas jurídicas) com as duas empresas junto com autoridades brasileiras e suíças.

De forma genérica e sem revelar o nome dos envolvidos, o documento detalha o pagamento de vantagens ilícitas em cada um dos doze países. Na Argentina, por exemplo, a empreiteira teria pago cerca de 35 milhões de dólares a intermediários que repassaram a cifra a agentes do governo, entre 2007 e 2014. A propina referia-se ao contrato de pelo menos três projetos de infraestrutura e teria gerado cerca de 278 milhões de dólares em benefícios à empresa. Na Venezuela, a propina paga chegou ao montante de 98 milhões de dólares e se deu entre os anos de 2006 e 2015. O suborno teria servido para obter contratos de estatais venezuelanas.

Segundo o documento, os pagamentos saíram do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht, estrutura que foi descoberta pela Operação Lava Jato e cuja função era mascarar a propina paga pelas empresas do conglomerado.


Eduardo Gonçalves , Veja.com, 21/12/2016, 20:21 hs

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Eu não só não sei o que está acontecendo, mas também não saberia o que fazer se soubesse.

George Carlin

PINA BAUSCH - Café Muller


O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO

O cenário atual vivido pelos servidores do Estado é de dívidas e preocupação. O Natal, segundo eles, será de tristeza. Nas redes sociais, os funcionários já estão apelidando a celebração deste ano de “Ceia da Miséria”. O drama deixa muitos com saudade das bonificações recebidas no passado.
— Há três anos, não tinha crise. A gente ficava na esperança de receber a famosa cesta de Natal da Polícia Militar e isso acontecia normalmente. A crise nos tirou até isso. Temos saudades da Cesta. No ano passado recebemos R$ 100. Hoje não recebemos nada — disse o tenente reformado Nilton da Silva, de 55 anos.
Nilton enfrenta dificuldades com as contas mensais. A nova dor de cabeça será lidar com as constantes crises respiratórias da esposa, Elizabeth Medeiros, de 67 anos.
— Passamos pelo hospital da PM que é um auxílio ao servidor. Ela está com problemas respiratórios. Agora teremos mais uma preocupação em meio a essa crise toda - — disse ele.

Do Extra, Rio,21/12/2016, 05:00hs



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O QUE É DELIRAR - I

O "delírio" é um elemento importantíssimo da clínica psicopatológica. Por que? Porque ele diz respeito à questão da verdade, no caso, a verdade do paciente. A pergunta "isso é verdade?" se insinua, mesmo que por meios enviesados, estranhos, imperceptíveis. De acordo com o modelo organicista da psiquiatria tradicional (ressuscitado, hoje, sob o nome de psiquiatria biológica), o delírio é um sintoma, assim como a cefaléia, a tontura, a náusea, etc. Ora, na prática clínica, tal enfoque não só é insuficiente, como muitas vezes torna-se nocivo ao paciente ( via intoxicação com fármacos, efeitos adversos e colaterais), já que o objetivo a obter é apenas a remissão ou melhora do sintoma, nada mais do que o sintoma. No entanto, desde a invenção da psicanálise (faz tempo...) é sabido que o sintoma psíquico remete a outra coisa (daí a sua utilização como material na psicoterapia), ou por outra, ele pode até mesmo ser "necessário", pois ajuda a viver. Pensar dessa forma, dispensando o senso comum da razão médica, implica em trabalhar a subjetividade como modo de produção de um processo existencial, e não como coisa, mesmo a mais valiosa. 

A.M.

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL

controlar as mentes, supliciar os corpos, ou o contrário

O GÊNERO LUZ

Ele (gênero da velocidade da luz) suprime, primeiro, a importância do intervalo espaço, esta extensão que fez as fronteiras, os cadastros, que dispôs as populações no mundo como no man´s land e com uma organização geográfica. Mas ele suprime também o intervalo tempo que fez a história! Os calendários, as efemérides e os relógios estiveram na base da história dos homens. Esta organização dos relógios, que permite organizar a vida dos homens em períodos diferentes e em nações diferentes, é liquidada instantaneamente pelo terceiro intervalo do gênero luz, que elimina, então, simultaneamente, os intervalos de espaço e de tempo. É um acontecimento sem referência. 

Paul Virilio, 2000
Coordenadas


Conheço 
os começos 

— o chegar as chuvas 
as migrações, o mugir 
de parelhas atreladas 
aos varais da madrugada. 

Conheço onde começa 
o medo o estupor o soco! 
Onde o homem no ar 
parado, rodopia 

      — e tomba 

quando assoma 
o zinabre ao gesto 
e a lâmina se limpa 
de espessa fúria. 

Também conheço 
antiga promessa 
de urtiga às costas, 
premissa de colheita 
proposta pelos caules. 

E mais conheço 
onde a terra exaure 
o corpo que nela deita, 

onde o íntimo de nosso 
ser em pó começa a ser 
sopro de ossos. 

Mas desconheço 
o remanso das tréguas 
o descanso dos remos 
o ponto de equilíbrio 

       onde estou 



Carlos Saldanha Legendre

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

GOVERNO TEMER


O AMOR E A MULTIPLICIDADE

(...)
Essa é uma intuição que ainda não desenvolvemos completamente. Seria possível articular uma série de terrenos que o tema do amor pode abrir no campo da ciência política: amor como livre expressão dos corpos, como inteligência somada ao afeto, como geração contra a corrupção. Mas há um peso cultural que dificulta o desenvolvimento de uma concepção política do amor. Precisamos livrar o conceito dos limites do casal romântico e despojá-lo de sentimentalismo. Precisamos de uma concepção inteiramente materialista do amor, ou de uma concepção verdadeiramente ontológica: o amor como poder da constituição da existência.

Sim, como vocês mesmos sugerem, o Cristianismo (bem como o Judaísmo e provavelmente também as outras religiões) realmente oferece uma concepção política do amor. Pensamos em nossa própria concepção de amor como uma concepção primordialmente espinosana, mas vocês sabem, é claro, o quão profundamente enraizado ele está nas tradições cristãs e judaicas. O amor, para Espinosa, está baseado num reconhecimento duplo: reconhecimento do outro como diferente e reconhecimento de que a relação com esse outro aumenta nosso próprio poder. Assim, para Espinosa, o amor é o aumento de nosso próprio poder acompanhado do reconhecimento de uma causa externa. Notem que isso não é uma noção de amor na qual toda a diferença se perde ao abraçar uma unidade que amarra seus movimentos – uma noção comum para a maior parte dos teólogos cristãos. Não. Esse é um amor baseado na multiplicidade. E isso é exatamente como concebemos a multidão: singularidade somada a cooperação, reconhecimento da diferença e do benefício de uma relação comum. É nesse sentido que dizemos que o projeto da multidão é um projeto do amor.

Michael Hardt e Antonio Negri, trecho de entrevista sobre  o livro "Império",  concedida a Nicholas Broww e Imre Szeman, 2006

domingo, 18 de dezembro de 2016

LAVA-JATO NÃO É "MÃOS LIMPAS"

Renan Calheiros ou Berlusconi? Eduardo Cunha ou Berlusconi? Lula da Silva ou Berlusconi? Paulo Maluf ou Berlusconi? Não tem para ninguém. Silvio Berlusconi ganha de todos. É o mais ardiloso, endiabrado e corrupto político na história recente em todo o mundo – ou, pelo menos, em países democráticos. O mais paradoxal é que sua ascensão na Itália, onde foi eleito três vezes primeiro-ministro, só se tornou possível graças à maior devassa anticorrupção no país: a Operação Mãos Limpas, nos anos 1990. Estudioso da Mãos Limpas, o juiz Sergio Moro se inspirou no exemplo italiano para levar adiante a Operação Lava Jato. A dúvida óbvia diante do brasileiro hoje é: terá a Lava Jato o mesmo destino da Mãos Limpas? Que fazer para evitar fracasso semelhante? Como impedir que a reação da classe política enfraqueça nossas instituições e, como na Itália, torne o Estado uma presa ainda mais vulnerável?

A Mãos Limpas guarda inúmeras semelhanças com a Lava Jato, mas também há diferenças importantes.
(..)

Helio Gurovitz,Época, 18/12/2016,10:00 hs

IVAN DODOV


Uma prece pelos rebeldes de coração enjaulados.

Tennessee Williams
UMA ÉTICA DA REVOLTA

(...)
Toda filosofia que seja uma filosofia para a vida não pode tolerar a morte de outros para alcançar o que quer que seja. Recusar a morte implica, concomitantemente, recusar tudo que faça morrer. “Assassinato e suicídio são a mesma coisa, ou se aceitam ambos ou se rejeitam ambos” (Albert Camus, Homem Revoltado). Quando matamos alguém, mato a ideia que fazia dele, mas também o ser humano real que havia por trás. Se a filosofia rejeita o suicídio e a morte, então o filósofo não deve colocar-se nem como vítima nem como carrasco. Não há inimigos, seu lugar é ao lado dos homens.

Portanto, não poderia haver perigo maior para a revolta que o fanatismo. Por fanatismo podemos entender desde o nazismo até o marxismo, passando por interpretações religiosas extremas. Não há filosofia que justifique a morte e a opressão sem cair no mais profundo niilismo. É necessário manter-se fiel à Terra para afastar de si todo niilismo. Isto evita que a filosofia torne-se arma dos fanáticos que matam justificando uma transcendência injustificável. Não podemos jamais confundir este conceito tão caro a Camus com alguma forma de religião ou busca por transcendência. Revoltar-se significa ir contra aquilo que nega o mundo, isto é uma das mais potentes formas de afirmação: negar aquele que nega o homem, é a mais pura forma de afirmação da vida.
(...)

Rafael Trindade, do blog "Razão inadequada", 14/12/2013
Quando se deseja realmente dizer alguma coisa, as palavras são inúteis. Remexo o cérebro e elas vêm, não raras, mas toneladas. Deixam sempre um gosto de poeira na boca - a poeira do que se tentava expressar, e elas dissolveram. Quanto mais palavras ocorrem para vestir uma ideia, mais essa ideia resiste a ser identificada. As sucessivas roupas sufocam a sua nudez. E todas as palavras são uma grande bolha de sabão, às vezes brilhante, mas circundando o vazio.
Ah, se eu pudesse escrever com os olhos, com as mãos, com os cabelos - com todos esses arrepios estranhos que um entardecer de outono, como o de hoje, provoca na gente.

Caio Fernando Abreu

VINTAGE CAFE LOUNGE AND JAZZ BLENDS - Tainted Love (DjoleeVedit)


À noite 

todas as palavras são pretas 
todos os gatos são tardos 
todos os sonhos são póstumos 
todos os barcos são gélidos 
à noite são os passos todos trôpegos 
os músculos são sôfregos 
e a máscaras, anêmicas 
todos pálidos, os versos 
todos os medos são pânicos 
todas as frutas são pêssegos 
e são pássaros todos os planos 
todos os ritmos são lúbricos 
são tônicos todos os gritos 
todos os gozos são santos 


Antonio Carlos Secchin
O GÊNIO FORA DA GARRAFA

Todo mundo já ouviu meia dúzia de histórias de gênios que saem de garrafas. Duda Mendonça, mago da marquetagem política, parecia ser um caso raro de gênio que volta voluntariamente para dentro da garrafa. Pilhado no escândalo do mensalão recebendo uma valeriana de R$ 10,5 milhões numa conta secreta nas Bahamas, Duda confessou o mau passo numa CPI, pagou os impostos sonegados, safou-se no julgamento do mensalão, tomou distância do petismo, virou fumaça e sumiu.

Quando se imaginava que Duda estivesse abaixo do nível do gargalho, ele ressurge em cena na pele de um gênio reincidente. Em delação premiada, executivos da Odebrecht contaram à força tarefa da Lava Jato que parte dos R$ 6 milhões que Michel Temer mandou borrifar nas arcas eleitorais de Paulo Skaf, candidato derrotado do PMDB ao governo de São Paulo em 2014, foi destinada a Duda numa conta no exterior. A novidade foi relatada em notícia veiculada nas página de Veja.

No mensalão, Duda safara-se dos crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas porque conseguiu convencer o Supremo Tribunal Federal de que não sabia que o dinheiro que recebia de Marcos Valério era sujo. No petrolão, a lorota perdeu o prazo de validade. Depois de assistir à estadia de seis meses do ex-pupilo João Santana na hospedaria da PF’s Inn de Curitiba, Duda apressou-se em oferecer ao Ministério Público Federal o suor do seu dedo-duro. Por ora, não colou. A delação da Odebrecht chegou antes. E o gênio talvez tenha de passar uma temporada em local menos confortável do que a garrafa.

Do Blog do Josias de Souza, 18/12/2016, 02:49 hs