sábado, 28 de fevereiro de 2015

Uma ideia que não é perigosa, não merece nem mesmo ser chamada de ideia.

Oscar Wilde
INTENSIDADES

Eu sou uma pessoa excitável que só entende vida liricamente, musicalmente, em quem sentimentos são muito mais fortes que a razão. Eu estou tão sedenta para o maravilhoso que só o maravilhoso tem poder sobre mim. Qualquer coisa que eu não possa transformar em algo maravilhoso, eu deixo ir. Realidade não me impressiona. Eu só acredito em intoxicação, em êxtase, e quando vida ordinária me algemar, eu escapo, de uma maneira ou de outra.Nenhum muro mais.

Anaïs Nin

PIERRE VERGER


ESCRITO COM SANGUE

- Em que estavas pensando, menino? - Eu pensava no céu. - Não é necessário que penses no céu; já é bastante pensar na terra, estás cansado de viver, tu que mal acaba de nascer? - Não, mas qualquer um prefere o céu à terra. - Pois bem, eu não. Pois já que o céu foi criado por deus, assim como a terra, podes estar certo de que lá encontres os mesmos males que aqui embaixo. Depois da tua morte, não serás recompensado de acordo com teus méritos; pois, se cometem injustiças nesta terra (como tu o perceberás, por experiência própria, mais tarde), não há motivo para que, na outra vida, não se cometam outras tantas. O melhor que tens a fazer é não pensar em deus, e praticar a justiça por tuas próprias mãos, já que esta te é recusada... Desejas riquezas, belos palácios e a glória? Ou me enganaste quando afirmaste essas nobres pretensões? - Não, não, eu não o enganava. Mas queria alcançar o que desejo por outros meios. - Então, nada alcançarás. Os meios virtuosos e bem intencionados não levam a nada. É preciso por em ação alavancas mais enérgicas e tramas mais sábias. Antes que te tornes célebre pela virtude, e assim alcances tua meta, uma centena de outros terá tido tempo de saltar sobre tuas costas, e chegar ao fim da corrida antes de ti, de forma que não haverá mais lugar para suas idéias estreitas. 
(...)
Lautréamont in Os Cantos de Maldoror
OS SIGNOS, AINDA

(...) Quem procura a verdade é o ciumento que descobre um signo mentiroso no rosto da criatura amada; é o homem sensível quando encontra a violência de uma impressão; é o leitor, o ouvinte, quando a obra de arte emite signos, o que o forçará talvez a criar, como o apelo do gênio a outros gênios. As comunicações de uma amizade tagarela nada são em comparação com as interpretações silenciosas de um amante. A filosofia, com todo o seu método e a sua boa vontade, nada significa diante das pressões secretas da obra de arte. A criação, como gênese do ato de pensar, sempre surgirá dos signos. A obra de arte não só nasce dos signos como os faz nascer; o criador é como o ciumento, divino interprete que vigia os signos pelos quais a verdade se trai. 
(...)
G. Deleuze in Proust e os signos

AMY WINEHOUSE - Wake Up Alone


COMEÇANDO A FALTAR COMBUSTÍVEL
O aeroporto de Cascavel (PR) está sem combustível para jatos e aviões turboélices (usados pela Azul e Passaredo em voos comerciais) desde a tarde de ontem, devido à greve dos caminhoneiros, que tem impedido que novo carregamento de querosene de aviação possa normalizar o abastecimento.
De acordo com o diretor de Engenharia e Transporte da Cettrans (Companhia de Engenharia de Transporte e Trânsito) de Cascavel, Adão Josevan Kaliskievicz, um caminhão com o combustível está a caminho, mas tem ficado parado em diversos bloqueios espalhados por rodovias estaduais e federais do Paraná.
“Ontem à tarde tinha informação de que estava para ser recebido um carregamento de querosene para essas aeronaves, que estava em Irati, deslocando. Ainda não tem confirmação em relação a quando conseguirá chegar, devido a essa paralisação”, explicou o diretor.
Ainda segundo Kaliskievicz, na quinta-feira foi emitida uma notificação orientando os comandantes de aeronaves, com voos para Cascavel, a abastecerem no local de origem. Dessa forma, Azul e Passaredo continuam realizando o atendimento normal, fazendo com que os aviões estejam com combustível para ida e volta.
As aeronaves de menor porte, que podem ser abastecidas com gasolina de aviação, ainda possuem reserva no aeroporto de Cascavel. Outros aeroportos do Estado também enfrentam falta de combustível, entre eles os de Londrina, Foz do Iguaçu e Maringá.
CGN - Cascavel, Maycon Corazza, 28/02/201, 15:13 hs

ALEXEY SHALAEV


AFETOS LÍQUIDOS

Em psicopatologia clínica o "miolo" das vivências são os afetos. Neles formigam respostas aos complexos problemas etiológicos (causas) e terapêuticos em saúde mental. Mas, como acessá-los? Ora, talvez a maior dificuldade se encontre na torção que a realidade da consciência e do eu impõe à expressão livre. Mas não falamos de psicanálise, já que clínica e historicamente ela "broxou", afirmando uma adesão monumental aos poderes estabelecidos. Falamos de outra coisa, um trabalho pela instauração de multiplicidades subjetivas. Desse modo, em meio e apesar da máquina farmacológica, da máquina psiquiátrica e da máquina dos cido-diagnósticos, linhas institucionais, guiadas por uma concepção ético-estética da subjetividade, podem produzir efeitos de sentido. Um fluxo de sentimentos na contra-corrente dos tempos que correm. Literalmente.

A.M.  
SEM UTILIDADE

O paradoxo da poesia consiste no seguinte: o poeta coloca a serviço de uma atividade – a atividade poética – uma disposição que nega todo valor à atividade – quaisquer que sejam suas formas – e que não tem mais sentido quando serve para alguma coisa. Ele anseia por se perder para se achar como colecionador de palavras e criador de mitos. (...) Uma tal conseqüência não pode deixar de ser insuportável para ele. Se a poesia é a mortificação das formas e dos valores de utilidade, não é possível que um homem, beneficiário do gênio poético, sonhe em "utilizá-la‟, em fazer dela um bem próprio, explorando-a como um reino ou uma conquista pessoal. É necessário obter dele o reconhecimento de que esse gênio não lhe pertence; o dom não é dado a ninguém porque ninguém poderia usá-lo como se o tivesse como uma propriedade sua.
(...)
Maurice Blanchot
AINDA MAIS

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.
(...)
Rui Barbosa

O BEBÊ DE ROSEMARY,de Roman Polanski, 1968


POÇO SEM FUNDO


BRASÍLIA - A onda de delações de réus da Operação Lava-Jato, que vem alimentando as investigações desde o ano passado, ainda não terminou. Dois executivos da construtora Camargo Corrêa - o presidente Dalton dos Santos Avancini e o vice-presidente Eduardo Leite - fecharam, na noite desta sexta-feira, acordos de colaboração com a força-tarefa que investiga fraudes em contratos de empreiteiras com a Petrobras. Já João Ribeiro Auler, presidente do Conselho Administrativo da construtora, ainda está negociando com os procuradores.

As delações podem tornar as investigações ainda mais explosivas. A Camargo Corrêa foi uma das primeiras empresas flagradas em transações financeiras com o doleiro Alberto Youssef, operador do pagamento da propina no esquema de desvios da Petrobras. A Camargo também é uma das empresas com mais doações para campanhas políticas. Os executivos teriam decidido colaborar por três motivos: prisão prolongada, dificuldade para enfrentar as investigações e risco de condenação à prisão em regime fechado.

Está sendo negociada a possibilidade de revelações de fraudes não só na Petrobras, mas também em outras áreas de atuação da Camargo Corrêa. Na mira dos procuradores estão obras e serviços em hidrelétricas, rodovias e ferrovias. Os executivos da empreiteira resistiam à ideia de falar sobre outros assuntos fora do tema principal da Lava-Jato.

Mas, nos últimos dias, o ambiente mudou e as partes já se entenderam sobre os pontos principais do acordo.

Estão sendo preparados acordos individuais. Os benefícios para os delatores deverão ser estabelecidos em função da importância das informações a serem fornecidas por eles. Nesta sexta-feira, as negociações giravam em torno dos benefícios, que vão da redução de penas até a não aplicação do regime fechado.

Nesta sexta-feira, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, ouviu funcionários da Camargo Corrêa arrolados como testemunhas de defesa dos executivos Dalton dos Santos Avancini e João Ricardo Auler. Os depoimentos de Alessandra Mendes da Silva, Eduardo Maghidman, Jorge Yasbek, Enes Faria e Rodoal Schlemm foram feitos por videoconferência. Segunda-feira, serão ouvidas as testemunhas de Eduardo Leite, outro executivo da Camargo Corrêa.

Até o momento, a força-tarefa da Lava-Jato fechou 13 acordos de delação premiada, entre eles as confissões do ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef. Os executivos das empreiteiras estão presos desde a nona fase da Lava Jato, deflagrada em 14 de novembro passado.

Jailton de Carvalho, O Globo, 27/02/02015,23:01 hs




Amar-amaro

porque amou por que amou
se sabia
p r o i b i d o p a s s e a r s e n t i m e n t o s
ternos ou desesperados
nesse museu do pardo indiferente
me diga: mas por que
amar sofrer talvez como se morre
de varíola voluntária vágula evidente?

ah PORQUE AMOU
e se queimou
todo por dentro por fora nos cantos ecos
lúgubres de você mesm(o,a)
irm(ã,o) retrato espetáculo por que amou?

se era para
ou era por
como se entretanto todavia
toda via mas toda vida
é indignação do achado e aguda espotejação
da carne do conhecimento, ora veja

permita cavalheir(o,a)
amig(o,a) me releve
este malestar
cantarino escarninho piedoso
este querer consolar sem muita convicção
o que é inconsolável de ofício
a morte é esconsolável consolatrix consoadíssima
a vida também
tudo também
mas o amor car(o,a) colega este não consola nunca de nuncarás.


Carlos Drummond de Andrade
PARADA

A Bíblia me ensinou; "Cada coisa tem seu tempo." Paro hoje - em verdade parei ontem - o ciclo de pequenas lições de civismo para cego-surdo-mudos. Paro porque há uma hora de parar. Espero em Deus não ter que recomeçar. Foi bom sentir que alguns puderam ver, outros ouvir, uns raros se indignar. Quando surgem vozes mais competentes e aparelhadas do que a minha, cedo a vez. E posso dar ao meu leitor (na presunção de tê-los) descanso do enfado a que o submeti por tema, atualmente, quase irrelevante; a prepotência a serviço do crime. Paro com a melancolia de perder a admiração que tinha por dois ou três amigos. Paro com a satisfação de que, por mais erros que cometa, por mais contaminada que esteja pela metástase do país - nenhum de nós escapa - ainda é na imprensa, e quase só na imprensa, que o cidadão encontra um espaço de choque contra a insensibilidade patológica do nosso poder político-econômico.

Millôr Fernandes

NANA E ERASMO - Este Seu Olhar


DO QUE SE TRATA

Falamos da vida — e não de ideias, de teorias, de práticas ou de técnicas. Falamos para que olhe esta vida total, que é também a sua vida, para que lhe dê atenção. Isso significa que não pode desperdiçá-la. Tem pouquíssimo tempo para viver, talvez dez, talvez cinquenta anos. Não perca esse tempo. Olhe a sua vida, dê tudo para a compreender.

Jiddu Krishnamurti
Crer é muito monótono, a dúvida é apaixonante.

Oscar Wilde

ORQUÍDEAS ETERNAS


MEIO ASSIM

tava atrasado.
o metrô ia sair.
corri.
a porta se fechou.
metade de mim foi.
outra ficou.

uma que já era,
ficou mais ensimesmada.
olhando o relógio
falando no celular.

a outra, tagarela,
levantava leviana
a saia das moças,
uivando intempestiva.

se alguém
encontrar uma delas,
avise a outra.
eu vou ver
se estou na esquina.


Chacal
REPOUSO

No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!

Emil Cioran

PIORANDO


TREVAS 

Contas de luz sobem, em média, 23,4% no país a partir de segunda
Aneel aprovou nesta sexta (27) revisão extraordinária das tarifas.

 As contas de luz no Brasil vão aumentar, em média, 23,4% a partir da próxima segunda-feira (2), quando começa a vigorar a revisão extraordinária aprovada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) nesta sexta-feira (27).

Para os consumidores do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a alta vai ser de 28,7%, na média, 4,5 vezes maior que a aplicada para aqueles que vivem em estados do Norte e Nordeste, que será de 5,5%, também na média.

Ao todo, a Aneel autorizou o reajuste das tarifas de 58 das 63 distribuidoras de energia do país. Os cerca de 1,2 milhão de consumidores da AES Sul, que atende em 118 cidades do Rio Grande do Sul, terão o maior reajuste, de 39,5%.
(...)
Fabio Amato, do G1 de Brasília,27/02/2015,21:35 hs

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

LINHAS SINGULARES DA EXISTÊNCIA

(...) (...) São a materialidade subjetiva do individuo, a qual compreende elementos visíveis e invisíveis; ela sempre acontece no plural. São muitas linhas singulares funcionando num movimento incessante. O organismo visível fornece o lastro concreto para uma subjetividade. Contudo, ele é composto por partes infinitamente divisíveis as quais chamamos corpo.O organismo não é o corpo. Este ultrapassa os limites  do organismo de onde a medicina extrai a sua  mais-valia  de prestígio. As linhas singulares inscrevem-se num corpo não imediatamente visível nem tampouco separado do meio por uma linha de fronteira bem demarcada. Elas são antes de tudo micro-potências que impulsionam o funcionamento motor, afetivo, cognitivo, intelectual, existencial, enfim, tudo que signifique produção incessante de vida. O paciente é composto por elas e são elas  que se expressam como devires. Um sintoma é uma linha singular, já que, apesar de ser signo de uma doença cadastrada  na CID-10, ao mesmo tempo é expresso como território  existencial.”Eu sou  meu  delírio”, “Eu sou  minha  tontura”, etc. 
(...)
A.M.

MIROSLAW SZEIB


O GUARDADOR DE REBANHOS

V

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do Universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo dos coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me: Aqui estou!

(...)
Fernando Pessoa

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

Woody Allen

GRANDES ESCRITOS


SIGNOS DISPERSOS

É possível que a amizade se nutra de observação e de conversa, mas o amor nasce e se alimenta da interpretação silenciosa. O ser amado aparece como um signo, uma "alma"; exprime um mundo possível, desconhecido de nós. O amado implica, envolve, aprisiona um mundo, que é preciso decifrar, isto é, interpretar. Trata-se mesmo de uma pluralidade de mundos; o pluralismo do amor não diz respeito apenas à multiplicidade dos seres amados, mas também à multiplicidade das almas ou dos mundos contidos em cada um deles. Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado. É por essa razão que é tão comum nos apaixonarmos por mulheres que não são do nosso "mundo", nem mesmo do nosso tipo. Por isso, as mulheres amadas estão muitas vezes ligadas a paisagens que conhecemos tanto a ponto de desejarmos vê-las repetidas nos olhos de uma mulher, mas que se refletem, então, de um ponto de vista tão misterioso que constituem para nós como que países inacessíveis, desconhecidos.
(...)
G. Deleuze in Proust e os signos
PODER  PODER

Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio, é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura com o fito de salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder.
(...)
George Orwell in 1984

MARC CARY´S FOCUS TRIO - Noodles/17


CONTRA O PODER DA LINGUAGEM

O que é uma semiótica, isto é, um regime de signos ou uma formalização de expressão? São ao mesmo tempo mais e menos do que a linguagem. A linguagem se define por sua condição de "sobrelinearidade"; as línguas se definem por constantes, elementos e relações de ordem fonológica, sintática e semântica. E sem dúvida cada regime de signos efetua a condição da linguagem e se utiliza dos elementos da língua, mas nada além disso. Nenhum regime pode se identificar à própria condição, nem ter a propriedade das constantes. Como Foucault bem aponta, os regimes de signos são somente funções de existência da linguagem, que ora passam por línguas diversas, ora se distribuem em uma mesma língua, e que não se confundem nem com uma estrutura nem com unidades dessa ou daquela ordem, mas as cruza e as faz surgir no espaço e no tempo. É nesse sentido que os regimes de signos são agenciamentos de enunciação dos quais nenhuma categoria lingüística consegue dar conta: o que faz de uma proposição ou mesmo de uma simples palavra um "enunciado" remete a pressupostos implícitos, não-explicitáveis, que mobilizam variáveis pragmáticas próprias à enunciação (transformações incorpóreas). Exclui-se, então, a idéia de o agenciamento poder ser explicado pelo significante, ou antes pelo sujeito, já que esses remetem, ao contrário, às variáveis de enunciação no agenciamento. É a significância ou a subjetivação que supõem um agenciamento, não o inverso.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 4
ela tem os olhos azuis
mais verdes que vi
a poesia arrebenta
em suas praias de carne

A.M.
LINHA DE RISCO

O poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sentimento, de loucura; ele procura ele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências.

Arthur Rimbaud

GRUPO CORPO - Santagustin


MÁSCARAS

Não há como escapar. Você não pode ser um vagabundo e um artista e ainda ser um cidadão sólido, um homem íntegro saudável. Você quer ficar bêbado, então você tem que aceitar a ressaca. Você diz sim à luz do sol e puras fantasias, então você tem que dizer sim para a sujeira e as náuseas. Tudo está dentro de você, o ouro e a lama, a felicidade e a dor, o riso da infância e da apreensão da morte. Diga sim para tudo, não fuja de nada. Não tente mentir para si mesmo. Você não é um cidadão sólido. Você não é um grego. Você não é harmonioso ou o mestre de si mesmo. Você é um pássaro na tempestade. Deixá-lo invadir! Deixe-o levá-lo! Quanto você mentiu! Mil vezes, mesmo em seus poemas e livros, você já jogou o homem harmonioso, o sábio, o feliz, o homem iluminado.
(...)
Hermann Hesse
Estranho é que o cérebro, feito essencialmente pra produzir idéias, exulte quando tem uma.

Millôr Fernandes

WASSILY KANDINSKY


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

SABEDORIA

Pode-se alcançar a sabedoria por três caminhos.O primeiro caminho é o da meditação, que é o mais nobre. O segundo é o da imitação, que é o mais fácil e o menos satisfatório. Em terceiro lugar existe o caminho da experiência, que é o mais difícil.

Confúcio
INTERTEXTO

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertolt Brecht

CAMINHONEIROS DO BRASIL

Br 116 - Ceará

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

BUROCRACIA DA PAZ

 "Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz", diz o clássico de 1971 "Imagine", de John Lennon. Quase 44 anos depois, evoluímos pouco. Na verdade, nos afastamos cada vez mais desse sonho. Segundo o Índice Global de Paz (IGP), divulgado anualmente pelo Instituto de Economia e Paz (IEL), desde 2007, a caminhada mundial rumo à paz, que começou no final da Segunda Guerra Mundial, se interrompeu e passamos a nos afastar deste objetivo.

Nesse sentido, no Dia da Paz e da Compreensão Mundial, comemorado nesta segunda-feira (23), os países mais pacíficos têm muito o que comemorar. Entre eles, segundo o IGP, estão Islândia, Dinamarca e Áustria. O Brasil, em 91º lugar dentre os 162 países avaliados em 22 critérios, está mal no ranking graças à alta taxa de homicídios, a facilidade de acesso às armas de fogo e a sensação de violência da população. 
(...)
Jessica Freitas, terra/mundo, 23/02/2015, 09:01 hs
AUTO-TERAPIA

Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta feia ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentas e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, abro todos os portões e quando vejo a alegria está instalada em mim.

Lygia Fagundes Telles

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

LOUCURA SÃ

A loucura é diagnosticada pelos sãos, que não se submetem a diagnóstico. Há um limite em que a razão deixa de ser razão, e a loucura ainda é razoável. Somos lúcidos na medida em que perdemos a riqueza da imaginação.

Carlos Drummond de Andrade

MARC CARY - Melancholia


INSTITUIÇÕES E INSTITUIÇÕES 

Usamos o conceito de "instituição" conforme a Análise Institucional. Assim, "instituição" é uma forma social abstrata, ou uma forma de relação social que se operacionaliza em organizações e/ou dispositivos. Exemplificando: a psiquiatria é uma forma social abstrata que se operacionaliza (torna-se concreta) em organizações (Caps e outras) e dispositivos (clínica farmacoterápica e outros). A "vantagem" dessa definição é compreender as instituições num modo de operar subjetivo, ou seja, numa subjetivação, ou modo de subjetivação. No caso da especialidade médica referida, existe uma subjetivação psiquiátrica que percorre linhas psíquicas inconscientes e se expressam na prática (o atendimento ao paciente) e na teoria (o conhecimento sobre os ditos transtornos mentais), o que faz com que não seja necessário ser psiquiatra para pensar psiquiatricamente. A equipe técnica tende a pensar, perceber e sentir psiquiatricamente. O próprio paciente muitas vezes pensa, percebe e sente psiquiatricamente.A família, ídem. Daí a "verdadeira" luta anti-manicomial ser, ante de tudo, uma luta pela criação de singularidades, ou de novos modos de subjetivação. Mas, quem suporta tal linha de radicalidade político-existencial?

A.M.
DOAR

Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo.

Hermann Hesse
MORDÊNCIA

Quero ouvir música rouca, ver rostos, a escova contra corpos. Mulheres bonitas e homens bonitos despertam desejos ferozes em mim. Eu quero dançar, quero drogas, quero conhecer pessoas perversas, ser íntima com eles. Eu nunca olho para o rosto ingênuo. Quero morder a vida, para ser rasgada por ele - Estou indo para o inferno, para o inferno, para o inferno - selvagem, selvagem, selvagem.
(...)
Anaïs Nin

GUI DEMETER


domingo, 22 de fevereiro de 2015

ESTRANHO

De tudo que existe, nada é tão estranho como as relações humanas, com suas mudanças, sua extraordinária irracionalidade.

Virginia Woolf
Essas coisas

“Você não está na idade
de sofrer por essas coisas.”

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas ?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer ?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma ?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?


Carlos Drummond de Andrade

JOÃO BOSCO - Memória da Pele


SOCIEDADE DE CONTROLE

Diz-se que as revoluções têm um mau futuro. Mas não param de misturar duas coisas, o futuro das revoluções na história e o devir revolucionário das pessoas. Nem sequer são as mesmas pessoas nos dois casos. A única oportunidade dos homens está no devir revolucionário, o único que pode conjurar a vergonha ou responder ao intolerável.  O devir revolucionário é uma máquina de guerra que tem à sua frente um grande inimigo, um novo regime de dominação. Não mais, apenas, o confinamento e a vigilância que seqüestram a vida do indivíduo e da massa a qual ele pertence, mas o controle, que na virtualidade do real modulam ilimitadamente a vida . Estamos na vergonha e no intolerável, estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por confinamento (não que os mesmos ainda não persistam), mas por controle contínuo e comunicação instantânea.
(...)
G. Deleuze
O QUE É?

Para usar o velho jargão da reforma psiquiátrica, podemos dizer que o Caps é a "negação" do modelo hospitalocêntrico em saúde mental. Ora, o hospital como centro, teve, (e tem) a psiquiatria como centro. Quanto ao Caps, na medida em que enfatiza o aspecto psicossocial (o título o diz) na produção e cuidado aos transtornos mentais, não deveria mais ter a psiquiatria como centro. Na pratica atual, não é bem assim. A visão biomédica assola as inteligências, tornando-as estúpidas. Sendo assim, ela é, mais que nunca, hegemônica, haja visto o derrame industrial e comercial de psicofármacos. A questão psicopatológica é mais funda e abrange a produção de subjetividades na sociedade de controle (cf. G. Deleuze). É política...

A.M.

O QUE É O QUE É?


RASPAGEM

É preciso cavar para mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual razão inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer aparecer o inteligível sob o fundo da vacuidade e negar uma necessidade; e pensar o que existe está longe de preencher todos os espaços possíveis. Fazer um verdadeiro desafio inevitável da questão: o que se pode jogar e como inventar um jogo?
(...)
Michel Foucault

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A VERDADE PRODUZIDA

A instituição Saúde Mental produz subjetividades psiquiatrizadas, farmacologizadas, não só como paciente, mas também como técnico em saúde mental. Esta função básica lhe autentica uma verdade aparentemente inquestionável, fechando o circuito da produção “transtorno mental – psiquiatria -  psicofármaco”. Ora, a verdade da saúde mental é a da psiquiatria acrescida e metabolizada com outras verdades (direito, família, estado,escola, etc) chegando à clínica como via terminal comum.   
(...)
A.M. in Trair a psiquiatria

PHILIP GLASS- Akhnaten: Prelúdio


O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

Manoel de Barros
ENCONTRO DAS DIFERENÇAS

...só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro.
(...)
Lou Andreas-Salomé

MARISA MONTE - Velha Infância


EMOÇÃO E POESIA

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem quão mais fácil é escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual está profundamente apaixonado. A melhor espécie de poema de amor é, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstrata.

Uma grande emoção é por demais egoísta; absorve em si própria todo o sangue do espírito, e a congestão deixa as mãos demasiado frias para escrever. Três espécies de emoções produzem grande poesia - emoções fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emoções falsas, isto é, emoções sentidas no intelecto. Não a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, é a base de toda a arte.

Fernando Pessoa
DIFÍCIL

(...)Nunca compreendi a luta senão como um meio de acabar com ela. 
Nunca aceitei o rigor senão como meio para deixar de existir o rigor.
Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura.
Luto pela bondade ubíqua, extensa, inexaurível.

Pablo Neruda
CONTROLE

Os chamados transtornos mentais não são transtornos mentais, e sim transtornos sócio-desejantes. "Sociais" por que o termo "homem-e-sociedade" é inteiramente abstrato, idealista, imaginário, nada real. Ao invés, chamar-se-ia homemsociedade, relação indissolúvel, mesmo que se parta. "Desejante" porque o desejo é a instância psíquica que nos faz viver, mesmo que se viva mal. Neste sentido, a redução da díade sócio-desejante ao funcionamento cerebral, ou mais amplamente, ao funcionamento do organismo, atende a formações de poder interessadas no controle de corpos e mentes. Para o lucro. Isso todo o tempo e em toda parte, sob o argumento do progresso da ciência e da tecnologia. Aldous Huxley já falava da droga soma no Admirável Mundo Novo que se avizinhava. Chegou.

A.M.

GERHARD RICHTER


MINORIAS

(...) Nossa era torna-se a era das minorias. Vimos várias vezes que estas não se definiam necessariamente pelo pequeno número, mas pelo devir ou a flutuação, ou seja, pelo desvio que as separa desse ou daquele axioma que constitui uma maioria redundante ("Ulisses ou o europeu médio de hoje, habitante das cidades", ou então, como diz Yann Moulier, "o Trabalhador nacional, qualificado, macho e com mais de trinta e cinco anos"). Uma minoria pode comportar apenas um pequeno número; mas ela pode também comportar o maior número, constituir uma maioria absoluta, indefinida. É o que acontece quando autores, mesmo ditos de esquerda, retomam o grande grito de alarme capitalista: em vinte anos, "os Brancos" não formarão mais que 12% da população mundial... Eles não se contentam, assim, em dizer que a maioria vai mudar, ou já mudou, mas, antes, que ela é agitada por uma minoria proliferante e não numerável que pode destruir a maioria em seu conceito mesmo, isto é, enquanto axioma. Com efeito, o estranho conceito de não-branco não constitui um conjunto numerável. O que define então uma minoria não é o número, são as relações interiores ao número. Uma minoria pode ser numerosa ou mesmo infinita; do mesmo modo uma maioria. O que as distingue é que a relação interior ao número constitui no caso de uma maioria um conjunto, finito ou infinito, mas sempre numerável, enquanto que a minoria se define como conjunto não numerável, qualquer que seja o número de seus elementos. O que caracteriza o inumerável não é nem o conjunto nem os elementos; é antes a conexão, o "e", que se produz entre os elementos, entre os conjuntos, e que não pertence a qualquer dos dois, que lhes escapa e constitui uma linha de fuga. Ora, a axiomática só manipula conjuntos numeráveis, mesmo que infinitos, enquanto as minorias constituem esses conjuntos "leves" não numeráveis, não axiomatizáveis, em suma, essas "massas", essas multiplicidades de fuga ou de fluxo. — Seja o conjunto infinito dos não-brancos da periferia, ou o conjunto reduzido dos bascos, dos corsos, etc, vemos por toda parte as premissas de um movimento mundial: as minorias recriam os fenômenos "nacionalitários" que os Estados-nações se haviam encarregado de controlar e de sufocar. O setor socialista burocrático não é certamente poupado por esses movimentos e, como dizia Amalrik, os dissidentes não são nada, ou servem somente de peões na política internacional, se se lhes abstraem as minorias que agitam a URSS. Pouco importa que as minorias sejam incapazes de constituir Estados viáveis do ponto de vista da axiomática e do mercado, uma vez que elas promovem a longo prazo composições que não passam mais pela economia capitalista que pela forma-Estado. A resposta dos Estados, ou da axiomática, pode ser, evidentemente, conferir às minorias uma autonomia regional, ou federal, ou estatutária, em suma, adicionar axiomas. Mas, precisamente, esse não é o problema: o que haveria aí seria uma operação consistindo em traduzir as minorias em conjuntos ou subconjuntos numeráveis, que entrariam a título de elementos na maioria, que poderiam ser contados numa maioria. Do mesmo modo, um estatuto da mulher, um estatuto dos jovens, um estatuto dos trabalhadores precários..., etc. Pode-se mesmo conceber, na crise e no sangue, uma reversão mais radical que faria do mundo branco a periferia de um centro amarelo; essa seria sem dúvida toda uma outra axiomática. Mas nós falamos de outra coisa, que ainda assim não seria regulada: as mulheres, os não-homens, enquanto minoria, enquanto fluxo ou conjunto não numerável, não receberiam qualquer expressão adequada ao tornarem-se elementos da maioria, ou seja, conjunto finito numerável. Os não-brancos não receberiam qualquer expressão adequada ao tornarem-se uma nova maioria, amarela, negra, conjunto numerável infinito. É próprio da minoria fazer valer a potência do não-numerável, mesmo quando ela é composta de um só membro. É a fórmula das multiplicidades. Minoria como figura universal, ou devir de todo o mundo. Um devir mulher de nós todos, quer sejamos masculinos ou femininos. Um devir não-branco de nós todos, quer sejamos brancos, amarelos ou negros. — Ainda aí, não se trata de dizer que a luta no nível dos axiomas seja sem importância; ela é, ao contrário, determinante (nos níveis mais diferentes, luta das mulheres pelo voto, pelo aborto, pelo emprego; luta de regiões pela autonomia; luta do terceiro mundo; luta das massas e das minorias oprimidas nas regiões do Leste ou do Oeste...). Mas também há sempre um signo para mostrar que essas lutas são o índice de um outro combate coexistente. Por modesta que seja uma reivindicação, ela apresenta sempre um ponto que a axiomática não pode suportar, quando as pessoas protestam para elas mesmas levantarem seus próprios problemas e determinar, ao menos, as condições particulares sob as quais aqueles podem receber uma solução mais geral (ater-se ao Particular como forma inovadora). Ficamos sempre estupefatos com a repetição da mesma história: a modéstia das reivindicações de minorias, no começo, ligada à impotência da axiomática para resolver o menor problema correspondente. Em suma, a luta em torno dos axiomas é tanto mais importante quanto manifeste e cave ela mesma o desvio entre dois tipos de proposições: as proposições de fluxo e as proposições de axiomas. A potência das minorias não se mede por sua capacidade de entrar e de se impor no sistema majoritário, nem mesmo de reverter o critério necessariamente tautológico da maioria, mas de fazer valer uma força dos conjuntos não numeráveis, por pequenos que eles sejam, contra a força dos conjuntos numeráveis, mesmo que infinitos, mesmo que revertidos ou mudados, mesmo que implicando novos axiomas ou, mais que isso, uma nova axiomática. A questão não é de modo algum a anarquia ou a organização, nem mesmo o centralismo e a descentralização, mas a de um cálculo ou concepção dos problemas que concernem aos conjuntos não numeráveis, contra a axiomática dos conjuntos numeráveis. Ora, esse cálculo pode ter suas composições, suas organizações, mesmo suas centralizações, mas ele não passa pela via dos Estados nem pelo processo da axiomática, mas por um devir das minorias.

G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 5
EXAMES

Na terça chegou assobiando
deu bom-dia
e recebeu de cara a novidade:
esquizofrenia.


Eudoro Augusto

MISCHA MAISKY toca BACH


A COCAINA E O ESTADO

O governo da Indonésia protestou contra o gesto da presidente Dilma Rousseff, de não receber as credenciais do embaixador indonésio designado para o Brasil, Toto Riyanto, em cerimônia realizada na manhã desta sexta-feira (20) no Palácio do Planalto. Além de publicar uma nota de repúdio em seu site oficial, o Ministério das Relações Exteriores da Indonésia convocou o embaixador brasileiro em Jacarta para "transmitir os termos mais fortes possíveis de protesto para o ato hostil do governo do Brasil" e também chamou Riyanto de volta ao país.

"A maneira pela qual o ministro das Relações Exteriores do Brasil, de repente, informou o adiamento da apresentação de credenciais pelo embaixador da Indonésia designado para o Brasil, quando o embaixador já estava no palácio, é inaceitável para a Indonésia", informou o ministério indonésio, acrescentando que Riyanto havia sido convidado formalmente para apresentar suas credenciais na cerimônia.

O embaixador brasileiro em Jacarta, Paulo Soares, foi convocado pelo ministério indonésio às 22h (13h em Brasília) para uma conversa dura, na qual foi demonstrada toda a insatisfação do governo da Indonésia com o constrangimento vivenciado por seu representante no Brasil. Soares também recebeu uma nota oficial de protesto.

"Como um Estado democrático soberano, com seu próprio soberano, sistema de Justiça independente e imparcial, nenhum país estrangeiro, nem partido, pode e deve interferir na implementação das leis vigentes da Indonésia dentro de sua jurisdição, inclusive na aplicação de leis para lidar com o tráfico de drogas", ressaltou o governo indonésio por meio de nota.

Segundo o ministério da Indonésia, o embaixador Toto Riyanto, chamado de volta para Jacarta, voltará ao Brasil somente quando o governo brasileiro confirmar uma nova data para a apresentação de suas credenciais.

As relações entre os dois países se deterioraram depois da execução de Marco Archer, condenado à pena de morte por tráfico de drogas, fuzilado em 17 de janeiro. Atualmente, outro brasileiro, Rodrigo Gularte, também condenado à morte pelo mesmo crime, aguarda no corredor da morte.

Danilo Macedo, Agência Brasil em Brasília, 20/02/2015, 19:43 hs
HOJE, AGORA

Um dia, dirão: "Bukowski está morto", e daí serei verdadeiramente descoberto e pendurado em fedorentos e brilhantes postes de luz. E daí? A imortalidade é uma estúpida invenção dos vivos. Não estou competindo com ninguém, não tenho ilusões com a imortalidade, não estou nem aí pra ela. É a ação enquanto você está vivo. Os partidores se abrindo na luz do sol, os cavalos mergulhando na luz, todos os jóqueis, bravos e pequenos diabos em sua seda brilhante, indo fundo, fazendo acontecer. A glória é o movimento e a audácia. Que a morte se foda. É hoje o que importa. É hoje e hoje. Sim.

Charles Bukowski

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

ANTI-CRISTO

O solo amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basílicas deve ser destruído pedra por pedra, tornando-se o lugar mais infame da terra ,o terror de toda posteridade. Deve-se criar cobras venenosas nesse lugar.
(...)
F. Nietzsche
ISSO, FREUD!

Nunca dominaremos completamente a natureza, e o nosso organismo corporal, ele mesmo parte desta natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de realização e adaptação.
(...)
Sigmund Freud

GRANDES ESCRITOS


ENTRE ERÓTICA E MÍSTICA

As palavras,
Poesia, não só combato.
Durmo com elas.

Olga Savari
CASA DA MÃE JOANA

Não é preciso muito esforço para perceber que a “obrigação” que o ministro José Eduardo Cardoso tem de receber advogados transformou a antessala do seu gabinete numa espécie de sucursal da casa da Mãe Joana.

Graças às artimanhas da veneranda senhora, o doutor Sérgio Renault, advogado do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC e coordenador do bilionário cartel de propinas da Petrobras, materializou-se na sala de espera do titular da pasta da Justiça.

O doutor não tinha nada a tratar com o ministro. Em verdade, estava a caminho de um restaurante. Dividiria a mesa com outro advogado, o ex-deputado federal petista Sigmaringa Seixas. Que esteva no gabinete de Cardozo. Ele, sim, tinha assuntos a resolver com o ministro. Coisa “pessoal”, explicou o ministro. Nada a ver com a Lava Jato.

Sigmaringa poderia ter sugerido a Renault que o aguardasse na mesa da casa de repastos onde dividiriam o feijão com arroz. Mas, por alguma insondável razão, sugeriu que o encontrasse na antessala de Cardozo. O ministro levou Sigmaringa até a porta. E trocou um dedo de prosa com Renault. Coisa de três minutos, disse Cardozo. Nada a ver com Ricardo Pessoa, o cliente de Renault. Que dorme no colchonete da PF desde novembro de 2014.
(...)

Blog do Josias de Souza,20/02/2015,05:40 hs 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

DELÍRIO-PRODUÇÃO

Falamos da subjetividade-em-processo: "seu" delírio é uma produção do desejo. Ou melhor, o delírio é o desejo como produção, o desejo-produção, ao invés do desejo-produto, o desejo como produto. A produção é o trabalho abstrato (sem forma) de signos a-significantes. Isto se dá em e através de todos os corpos (humanos e inumanos) circulando livres e sem volta: um tempo irreversível. Trata-se de um real-vertigem, real-trágico onde, por isso mesmo, é mais confortável estabelecer territórios do eu e escrúpulos da consciência. Ora, a produção tanto pode ser a do horror, apocalipse, fim de mundo, como pode ser a da inocência das flores, da velocidade das crianças, da doçura das mulheres. Não há uma produção "boa" e uma produção "má". Tudo chega já misturado. Entrementes,  a Mercadoria-produto, esta sim, a burguesia universal, se apresenta...

A.M. 


ROBERTO MATTA



VERDADES

(...) Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado . Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro. Mas cada um via uma coisa diferente, e cada um portanto, tinha razão. 
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.

Fernando Pessoa
O mistério do amor é maior que o mistério da morte.

Oscar Wilde