quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

LIBERDADE, AINDA

Só serei verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, forem igualmente livres, de modo que quanto mais numerosos forem os homens livres que me rodeiam e quanto mais profunda e maior for a sua liberdade, tanto mais vasta, mais profunda e maior será a minha liberdade.
(...)
M. Bakunin
ANO NOVO

em 2016 tudo irá se repetir
porque tudo será diferente

em 2016 tudo será diferente
porque tudo irá se repetir

esse é o jogo


A.M
O Brasil não tem povo, tem público.

Lima Barreto

DMITRY SPIROS


Oh minha senhora ó minha senhora

Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora 
minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso
redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal
vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais
de...não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha
não precisa também de despir o que é isso é verdadeiramente fora
de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante
emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o
que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlegos
sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente
na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito
Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh...esses seios são
seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád...tanta nudez me
deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja

Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...


Carlos Drummond de Andrade

PAULINHO DA VIOLA - Onde a dor não tem razão


(...) Durante toda a minha vida vi os homens, de ombros estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios. Aos motivos das suas acções chamam glória. Ao ver estes espectáculos, quis rir como os outros; mas isso, estranha imitação, era impossível. Peguei num canivete, cuja lâmina tinha um afiado gume, e rasguei a carne nos sítios onde os lábios se reúnem. Por um momento julguei ter atingido o objectivo. Contemplei num espelho esta boca ferida por minha própria vontade! Era um erro! O sangue que abundantemente corria dos dois ferimentos não deixava aliás distinguir bem se era realmente aquele o riso dos outros. Mas, após alguns instantes de comparação, vi claramente que o meu riso não se assemelhava ao dos humanos, que eu não ria. Vi os homens, de cabeça feia e terríveis olhos enterrados na órbita escura, ultrapassarem a dureza do rochedo, a rigidez do aço fundido, a crueldade do tubarão, a insolência da juventude, a fúria insane dos criminosos, as traições do hipócrita, os comediantes mais extraordinários, a força de carácter dos padres, e os seres mais escondidos por fora, os mais frios dos mundos e do céu; vi-os cansar os moralistas para descobrirem o seu coração e fazerem recair do alto sobre eles a cólera implacável. Vi-os todos ao mesmo tempo: ora, com o mais robusto punho erguido para o céu, como o de uma criança, já perversa, contra a mãe, provavelmente incitados por algum espírito do inferno, com os olhos carregados de um remorso agudo mas cheio de ódio, num silêncio glacial, sem ousarem emitir as meditações vastas e ingratas que abrigavam no peito, tão plenas de injustiça e de horror elas eram, e entristecerem de compaixão o Deus de misericórdia; ora, em cada momento do dia, desde o começo da infância até ao fim da velhice, espalhando inacreditáveis anátemas sem senso comum contra tudo o que respira, contra si próprios e contra a Providência, prostituírem as mulheres e as crianças e desonrarem assim as partes do corpo consagradas ao pudor. Então, os mares erguem as suas águas, engolem as tábuas nos seus abismos; os furacões e os tremores de terra derrubam as casas; a peste e as diversas doenças dizimam as famílias em oração. Mas os homens não dão por isso. Também os vi a corarem e empalidecerem de vergonha pelo seu comportamento sobre a terra; raramente. Tempestades, irmãs dos furacões; firmamento azulado, cuja beleza não admito; mar hipócrita, imagem do meu coração; terra, de misterioso seio; habitantes das esferas; universo inteiro; Deus, que com magnificência o criaste, é a ti que eu invoco: mostra-me um homem que seja bom!... Mas que a tua graça multiplique por dez as minhas forças naturais; pois, perante o espectáculo desse monstro, posso morrer de espanto; morre-se por menos.
(...)
C. de Lautréamont in Cantos de Maldoror

PODE ENTRAR...




ROBIN HOOD

Policiais contam que, meses atrás, durante depoimento à Lava Jato, Pedro Corrêa, ex-deputado federal pelo PP, foi indagado por um dos presentes:
—Desde quando o senhor tem conhecimento sobre esquemas de corrupção?
—Desde a época do Império, doutor! — respondeu o político.
Mesmo com a resposta inusitada, o investigador tentou seguir com a oitiva.
—E o senhor tem dinheiro guardado?
—Não tenho mais dinheiro, doutor. Dei tudo o que tinha aos pobres — replicou Corrêa, sem ruborizar.

Do Painel, Folha de S. Paulo, 31/12/2015, 02:00 hs

ORQUÍDEAS ETERNAS


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Gosto de ouvir. Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente. A maioria das pessoas nunca ouve.

Ernest Hemingway
Seja por esculacho ou escracho
Quero a escritura reveladora da ruptura dos sentidos
-- de absolutamente todos, inclusive dos preteridos!
A escritura fratura frutificamente póstuma
A escritura pós-prótese desfuturizada 
Sanitizada do status quo concretizado (quanta quimera!)
Quero anotar a causa mortis da ortografia ordinária
Da vida sedentária quero o desenlace 
Nua e suada a escritura da minha geração
A escritura puta que tenho nas mãos
Seja por esculacho ou escracho 
Quero a emancipação da palavra estigma
A escritura com feitio de crânio de pai na mão de filho 
Que declama (que drama!) poema apócrifo 
Que quer levantar defunto e levanta 
Quero levantes, quero levantes atrás de levantes 
Por o ponto no começo da conversa, não no final 
Como o quero-quero, repetir, quero quero


Aristides Klafke
TEMPERATURA SUBINDO

Em uma quarta-feira com previsão de sensação térmica de 50°C, o calor foi registrado logo pela manhã. Por volta de 10h30, a sensação térmica de 38,6°C foi marcada pelo Alerta Rio na estação Barra/Riocentro, Zona Oeste. Às 14h15, a estação de Guaratiba registrava a temperatura de 41°C e sensação térmica de 43,8°C, até então a máxima do dia.
Neste mesmo horário, Santa Cruz e São Cristóvão registravam 39,1°C. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), por sua vez, prevê que a sensação térmica pode chegar a até 50°C à tarde. Até 14h30, no entanto, ainda não havia o recorde da sensação térmica do dia.
Correntes de ar quente chegam do interior do continente em direção ao Rio de Janeiro e não há previsão de chuva. A temperatura vai subindo ao longo do dia: chega aos 36°C às 10h e por volta das 14h deve atingir o pico com 40°C.
A previsão de temperatura para o Noroeste do estado é de 38°C, na Região Serrana os termômetros podem chegar a 34°C. No Sul Fluminense, a temperatura fica em torno dos 36°C, enquanto que na Região dos Lagos chega a 37°C. A temperatura mais alta está prevista para a Região Metropolitana, com 40°C.

Do G1,Rio, 30/12/2015,14:41 hs

GRANDES ESCRITOS


terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O DEVIR É OUTRA HISTÓRIA

– Nós falamos muito de história. No entanto, o devir se distingue da história. Entre os dois, há toda espécie de correlações e de reenvios: o devir nasce na história e aí recai, mas não lhe pertence. É o devir e não o eterno que se opõe à história. A história considera certas funções segundo as quais os acontecimentos se efetuam, mas o acontecimento, na medida em que ele ultrapassa sua própria efetuação, é o devir como substância do conceito. O devir sempre foi o problema da filosofia.

G. Deleuze e F. Guattari,  entrevista, 1991
Não conto meus pesadelos ao acordar.
Não termino mais uma frase inteira.
O começo de uma conversa é difícil
Depois mais difícil se torna
quando ela aconteceu
sem começar.   


Fabrício Carpinejar

PHILIP GLASS- In The Upper Dance Nº 9


O HOMEM TROCADO

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. 
Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca
de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de
orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos
redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou
com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não
soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...
Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não
fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na
universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês
passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram
felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas
que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico
dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma
simples apendicite.
- Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou, hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?

Luis Fernando Verissimo

E 2016?


SEM IDENTIDADE

A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas mas não posso explicar a mim mesma...
(...)
Lewis Carroll
Não entendo o porque das pessoas pensarem sempre no pior e não no mais provável que é pior ainda.

George Carlin

JOAN MIRÓ


segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

NÚMEROS ESCATOLÓGICOS

O governo central (Tesouro, Banco Central e Previdência Social) teve déficit primário de 21,27 bilhões de reais em novembro, o pior dado mensal desde o início da série histórica, em 1997, segundo números divulgados pelo Tesouro nesta segunda-feira. O resultado foi novamente fruto de um descompasso entre despesas e receitas, em meio ao cenário recessivo. Antes dele, o maior rombo mensal havia sido registrado em setembro de 2014 (-20,4 bilhões de reais).
Em novembro, os gastos do governo central tiveram um declínio real (descontada a inflação) de 4,2% frente igual mês de 2014, a 95,633 bilhões de reais. Em contrapartida, a receita líquida sofreu queda de 19,6% sobre um ano antes, a 74,354 bilhões de reais. Na semana passada, a Receita Federal já havia apontado que a arrecadação federal teve o pior resultado para o mês em sete anos.
Com isso, o resultado primário até novembro foi deficitário em 54,33 bilhões de reais, também o pior resultado para o período da história. Em doze meses, o governo central apresenta déficit de 53,4 bilhões de reais, o equivalente a - 0,9% do PIB.
(...)
Veja.com, 28/12/2015, atualizado às 19:02 hs

EGBERTO GISMONTI - Infância


O LIMITE DO LIMITE

A esquerda fascista e corrupta traz o clássico pacote ideológico ornado de flores murchas. Isso atravessa e constitui a História, mas se locupletou em terras brasílicas qual um arcaísmo macabro assombrando mentes e corpos. Uma espécie de fundamentalismo da pobreza alimenta a retórica oca dos que se apaixonaram pelo poder e em nome dele, justificam o injustificável. Estamos falando dessa coisa chamada petismo e de suas inscrições subjetivas encharcadas de ódio ao Devir. Impossível , pois, romper a casca de religiosidade profana que se abriga num governo de fracos.

A.M.
QUADRADOS E ÂNGULOS

Casas enfileiradas, casas enfileiradas,
Casas enfileiradas.
Quadrados, quadrados, quadrados.
Casas enfileiradas.
O povo já tem a alma quadrada,
Ideias em fila
E ângulo nas costas.
Eu mesma verti ontem uma lágrima,
Meu Deus, quadrada!


Alfonsina Storni

A FOTO

água líquida em Marte, 28/09/2015, Nasa

POLÍTICAS VITAIS

(...) Há muitos doutores e eruditos que nos convidam a um olhar científico asseptizado, verdadeiros loucos também, paranóicos. É preciso resistir às duas armadilhas, a que nos arma o espelho dos contágios e das identificações, a que nos indica o olhar do entendimento. Nós só podemos agenciar entre os agenciamentos. Só temos a simpatia para lutar, e para escrever, dizia Lawrence. Mas a simpatia não é nada, é um corpo a corpo, odiar o que ameaça e infecta a vida, amar lá onde ela prolifera (nada de posteridade nem de descendência, mas uma proliferação...). Não, diz Lawrence, vocês não são o pequeno esquimó que passa, amarelo e gorduroso, vocês não têm que se tomar por ele. Mas talvez vocês tenham algo a ver com ele, vocês têm algo para agenciar com ele, um devir-esquimó que não consiste em se passar pelo esquimó, a imitar ou em se identificar, em assumir o esquimó, mas em agenciar alguma coisa entre ele e vocês – pois vocês só podem se tornar esquimó se o próprio esquimó se tornar outra coisa. O mesmo acontece com os loucos, com os drogados, com os alcoólatras. Há quem faça objeção: com sua miserável simpatia, você se serve dos loucos, faz o elogio da loucura, e depois os deixa de lado, permanece sobre a margem... Não é verdade. Tentamos extrair do amor toda posse, toda identificação, para nos tornarmos capazes de amar. Tentamos extrair da loucura a vida que ela contém, odiando, ao mesmo tempo, os loucos que não param de fazer essa vida morrer, de voltá-la contra si mesma. Tentamos extrair do álcool a vida que ele contém, sem beber: a grande cena da embriaguez com água pura, em Henry Miller. Abster-se do álcool, da droga, da loucura, é isso o devir, o devir-sóbrio para uma vida cada vez mais rica.
(...)
G.Deleuze e C. Parnet in Diálogos

PAUL KLEE


domingo, 27 de dezembro de 2015

SIM

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
(...)
Clarice Lispector

sábado, 26 de dezembro de 2015

RETRATOS

É instrutivo ver os vários retratos que fazem de nós pela vida fora. Com traços lisonjeiros ou desagradáveis, entram-nos sempre pelos olhos dentro como estranhos, a perturbar uma paz que tinha um rosto habitual, familiar, a que estávamos acostumados. À imagem tranquila, sobrepõem-se outras inquietantes que não servem no cartão de identidade, e, contudo, nos identificam publicamente mais até do que a que nele figura. É que não se trata de neutras fotografias. São perfis apaixonados, justos ou injustos, com as virtudes e os defeitos cruamente patenteados. Quem um dia nos lembrar, é por eles que nos lembra. Somos o que nós sabemos, e parecemos o que os outros dizem de nós.
(...)
Miguel Torga

SEM MANICÔMIOS



Escolhido por Dilma Rousseff para chefiar o Ministério da Saúde na cota do líder peemedebista Leonardo Picciani (RJ), o deputado Marcelo Castro (PMDB-PI) enfrenta sua primeira crise. Ao nomear o psiquiatra Valencius Wurch Duarte Filho para o cargo de coordenador Nacional de Saúde Mental, em 14 de dezembro, o ministro acendeu um pavio que ateou fogo no setor. O incêndio resultou na ocupação do órgão, que funciona num edifício anexo do ministério. Começou há dez dias, com sete profissionais de Brasília. Na noite desta quinta-feira, celebraram o Natal nas dependências da repartição 23 pessoas, a maioria proveniente de outros Estados. O que une os ativistas é a aversão aos manicômios.
Deve-se a revolta ao fato de Valencius Wurch, o escolhido do ministro, ter dirigido, entre 1993 e 1998, no Estado do Rio, a Casa de Saúde Dr. Eiras de Paracambi. Foi o maior hospital psiquiátrico privado da América Latina. Por ordem da Justiça, fechou as portas em 2012, depois da comprovação de graves violações aos direitos humanos dos pacientes, internados em condições subumanas.
(...)
Do Blog do Josias de Souza,25/12/2015, 00:35 hs
DEPRESSÕES À MÃO CHEIA

As depressões não constituem uma doença no sentido biomédico.No entanto, a maior parte dos atendimentos/cuidados a paciente deprimidos é realizada por médicos. Isto se deve ao fato do uso juridicamente autorizado de psicofármacos ser restrito a estes profissionais. O psiquiatra, óbvio, desponta como agente anti-depressões. Ocorre que, se as depressões não são uma doença, existe um sofrimento, sim, que é o do deprimido.Qual a causa? Qual é a sua origem?Ora, a pergunta remete ao ítem que a medicina chama de etiopatogenia (causa e mecanismo) das doenças.Então, mantendo esse raciocínio, continuarímos a girar no circuito médico da realimentação conceitual e clínica.Depressões - remédio químico - melhora ou cura. Diferentemente, propomos uma linha de fuga a esse sistema de pensamento nosológico (vide o extenso capítulo sobre depressões na CID-10) e prática clínica. As depressões são modos de existência determinados por fatores múltiplos que se condensam e se expressam na cultura atual, no mundo atual capitalístico como redução (maior ou menor) da vontade de viver. Desse modo é possível e desejável alargar a problemática depressiva rumo a uma visão transdisciplinar. Aí serão borradas as fronteiras entre os saberes em prol da análise e intervenção sobre o universo subjetivo daquele que sofre. Seja, no fim das contas, a Clínica, como prática social atravessada por multiplicidades. Tudo por fazer. O paciente está deprimido porque a mãe faleceu há 200 anos mas está vivíssima, ou porque sofreu um assalto ou porque sofreu estupro ontem-agora ou porque na infância algo aconteceu, ou porque seu pai lhe abandonou, ou porque os refugiados do oriente médio estão morrendo, ou porque o nosso país agoniza ou porque a namorada foi embora ou porque ninguém lhe ama ou porque todos roubam ou porque todos lhe enganam ou porque deixou o útero materno ou porque seu cérebro rompeu com a serotonina e ficou com a noradrenalina ou porque lhe falta um amor ou porque o velho testamento lhe acusa, ou porque está desempregado, ou porque assistiu o programa de roberto carlos no natal, ou porque o mundo está no fim ou porque há guerras infindas ou porque o luar não é mais o mesmo ou porque todos vão um dia morrer ou porque etc etc...

A.M.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

NITIN SAWHNEY - Homelands


NADA DE NOVO SOB O SOL

(...) Mesmo deixando de lado a experiência histórica, que nos demonstra que nunca uma classe privilegiada despojou-se, total ou parcialmente, de seus privilégios e que nunca um governo abandonou o poder sem ser obrigado a fazê- lo pela força, os fatos contemporâneos bastam para convencer quem quer que seja de que os governos e os burgueses procuram usar a força material para sua defesa, não somente contra a expropriação total, mas contra as mínimas reivindicações populares, e estão sempre prontos a recorrer às perseguições mais atrozes, aos massacres mais sangrentos. Ao povo que quer se emancipar, só resta uma saída: opor violência a violência. Disso resulta que devemos trabalhar para despertar nos oprimidos o vivo desejo de uma transformação radical da sociedade, e persuadi-los de que, unindo-se possuem a força de vencer. Devemos propagar nosso ideal e preparar as forças morais e materiais necessárias para vencer as forças inimigas e organizar a nova sociedade. Quando tivermos força suficiente, deveremos, aproveitando as circunstâncias favoráveis que se produzirão, ou que nós mesmos provocaremos, fazer a revolução social: derrubar pela força o governo, expropriar pela força os proprietários, tornar comuns os meios de subsistência e de produção, e impedir que novos governantes venham impor sua vontade e opor-se à reorganização social, feita diretamente pelos interessados. Tudo isso é, entretanto, menos simples do que parece à primeira vista. Relacionamo-nos com os homens tais como são na sociedade atual, em condições morais e materiais muito desfavoráveis; e nos enganaríamos ao pensar que a propaganda é suficiente para elevá-los ao nível de desenvolvimento intelectual e moral necessário à realização de nosso ideal. Entre o homem e a ambiência social há uma ação recíproca. Os homens fazem a sociedade tal como é, e a sociedade faz os homens tais como são, resultando disso um tipo de círculo vicioso: para transformar a sociedade é preciso transformar os homens, e para transformar os homens é preciso transformar a sociedade. A miséria embrutece o homem e, para destruir a miséria, é preciso que os homens possuam a consciência e a vontade. A escravidão ensina os homens a serem servis, e para se libertar da escravidão é preciso homens que aspirem à liberdade. A ignorância faz com que os homens não conheçam as causas de seus males e não saibam remediar esta situação; para destruir a ignorância, seria necessário que os homens tivessem tempo e meios de se instruírem. O governo habitua as pessoas a sofrerem a lei e a crerem que ela é necessária à sociedade; para abolir o governo é preciso que os homens estejam persuadidos da inutilidade e da nocividade dele. Como sair deste impasse?
(...)
Errico Malatesta  in Escritos Revolucionários - programa anarquista, 1903

ALDO BONADEI


A FORÇA MAIOR

A alegria é, por sua própria definição, de essência ilógica e irracional. Para pretender ao sério e à coerência, sempre lhe faltará uma razão de ser que seja convincente ou mesmo simplesmente que possa ser confessada e dizível. A língua corrente diz muito mais à respeito do que geralmente se pensa quando fala de "alegria louca" ou declara que alguém está "louco de alegria". Expressões desse tipo não são apenas imagens; elas devem ser entendidas literalmente. pois exprimem a verdade mesma: não há alegria senão louca - todo homem alegre é necessariamente e a seu modo um desatinado.
(...)
Clément Rosset in Lógica do Pior
DÚVIDA

Ela nos explicou que animais têm alma também. Ninguém contestou suas opiniões. A gente sabia que era possível. O que a gente não tinha certeza é se nós tínhamos uma.
(...)
Charles Bukowski

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

LUA CHEIA DE DELÍRIOS


O ASSASSINO ERA O ESCRIBA

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito
inexistente. 
Um pleonasmo, o principal predicado da sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjugação.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adver-
bial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido em sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas exple-
tivas, conetivos e agentes da passiva, o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.


P. Leminski
Os marginais sempre nos causaram medo, e um pouco de horror. Eles não são o bastante clandestinos.
(...)
G. Deleuze e C.Parnet  in Diálogos

NOVOS BAIANOS - Brasil Pandeiro (Assis Valente)


SAÚDE PÚBLICA: O PRESENTE


Marilda e Diogo deixam o hospital após peregrinação; ele teve uma fratura no braço e deixou o local engessado
Foram quatro horas de peregrinação até que Diogo, de apenas seis anos, fosse atendido na emergência do hospital Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio.

Com o braço quebrado, ele passou nesta quarta-feira (23) por duas UPAs (Unidade de Pronto Atendimento) que não tinham setor de ortopedia e acabou sendo encaminhado à unidade do Estado, cujo setor de emergência foi restrito a casos mais graves (quando há risco iminente de morte).

A situação do Getúlio Vargas e de outros hospitais da rede estadual é o ápice de uma crise financeira que vem afetando a saúde pública no Rio há pelo menos dois meses. Servidores estão com salários atrasados, há falta de insumos e relatos de redução de leitos, fechamento de emergências e cancelamento de cirurgias e consultas.

"A gente sabia que seria difícil conseguir atendimento. O hospital está escolhendo quem deve ou não ser atendido. Mas precisávamos tentar, não havia outra opção", afirmou a avó de Diogo, Marilda Dias Lettras.

Inicialmente, na porta do hospital, Marilda recebeu informação de que a criança não poderia entrar. Revoltada, a mãe do menino, Daniela, pressionou os funcionários da unidade até que, enfim, Diogo foi encaminhado ao setor de ortopedia.

Ele teve uma fratura no braço e deixou o local engessado, após ter feito exames.

"Só conseguimos porque vocês [imprensa] estavam aqui. Isso aqui é uma vergonha. Este é o presente de Natal que o governo nos deu. Agora está proibido ficar doente", comentou Marilda.

Do UOL no Rio, 23/12/2015, 16:24 hs
Enquanto houver esperança não haverá solução.

Nietzsche

GRANDES ESCRITOS


MIGRANTES TRÁGICOS

O número de migrantes que morreram nesta quinta-feira (24) em um naufrágio no Mar Egeu, na costa da Turquia, subiu para 18. O grupo seguia para a ilha grega de Lesbos.
A pequena embarcação sobrecarregada, que zarpou da cidade turca de Bademli (oeste), virou em consequências das condições meteorológicas desfavoráveis, informou a agência turca Dogan.
A nacionalidade dos migrantes não foi estabelecida até o momento.
Apesar do frio do inverno, que transforma a travessia pelo Egeu em uma viagem perigosa, os migrantes continuam se arriscando para tentar entrar na União Europeia (UE), mas em menor número do que nos últimos meses.
(...)
Da France Press, 24/12/2015, 09:54 hs
NELSON RODRIGUES

Abro o jornal na página errada
onde assoma um cidadão flácido e viscoso
abraçado a uma granfina com narinas de cadáver.
Em suas faces brilha o suor da volúpia.
Viro a página e lá está a loura desbotada
com um falso sorriso e um olhar paranóico.
Ela sabe que está marcada para morrer
apunhalada pelo cunhado.
E o Destino aquele fracassado
vai tombar em espasmos de humilhação
ao atravessar a rua e ser atropelado
por uma carrocinha de Chica-Bom.


Eudoro Augusto

EDWARD HOOPER


LUTAR

Costurar as feridas e amar o inimigo que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinez imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares. Não chores que a vida é luta renhida.
(...)
Lygia Fagundes Telles

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

ROEDORES

- Meu senhor - respondeu-me um longo verme gordo - nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhemos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
(...)
Machado de Assis in Dom Casmurro

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Na tapera vejo que aranha é mato
Picumã cobre as cumeeiras, janelas sem batentes
Portas, só os vãos, e no chão batido, tocos de vela 
Cacos de telhas por todo o canto

O telhado pilhado evaporou... 
No centro do que era sala 
Um crânio de cachorro, ossos variados
Garrafas vazias, carvão da mobília queimada

Na tapera, no meio do mato, o cheiro é de cinza 
O silêncio é de cinza, o vazio é de cinza... é de cinza 
A poesia retida na lembrança que o escombro revela

De súbito )volúpia de vôo( o ruflar de asas: 
Curiango, morcego, coruja, assombração? O que passou?
Mera imaginação… ou recordação do susto que passei?
Talvez a voz das teias que agora uso 
para sonorizar estas linhas

Os grilos, invisíveis, indivisíveis, infinitos
Ainda cantam na reminiscência


Aristides Klafke

PHILIP GLASS - In The Upper Dance Nº 2


UMA SÓ VOZ PARA O SER

(...) Com efeito, o essencial na univocidade não é que o Ser se diga num único sentido. É que ele se diga num único sentido de todas as suas diferenças individuantes ou modalidades intrínsecas. O Ser é o mesmo para todas estas modalidades, mas estas modalidades não são as mesmas. Ele é "igual" para todas, mas elas mesmas não são iguais. Ele se diz num só sentido de todas, mas elas mesmas não têm o mesmo sentido. É da essência do ser unívoco reportar-se a diferenças individuantes, mas estas diferenças não têm a mesma essência e não variam a essência do ser  como o branco se reporta a intensidades diversas, mas permanece essencialmente o mesmo branco. Não há duas "vias", como se acreditou no poema de Parmênides, mas uma só "voz" do Ser, que se reporta a todos os seus modos, os mais diversos, os mais variados, os mais diferenciados. O Ser se diz num único sentido de tudo aquilo de que ele se diz, mas aquilo de que ele se diz difere: ele se diz da própria diferença.
(...)
G. Deleuze in Diferença e Repetição 
NORMALIDADE DA LOUCURA

Para nós, aqui e agora, são muitos os de mentalidade sã e poucos os loucos. Mas os julgamentos, aqui e agora, são por sua natureza provisórios e relativos. O que nos parece sanidade mental, a nós, porque é o comportamento de muitos, pode parecer, sub specie oeternitalis, uma loucura. Nem é preciso invocar a eternidade como testemunho. A História é suficiente. A maioria auto-intitulada de mentalmente sã, em qualquer dado momento, pode parecer ao historiador, que estudou os pensamentos e acções de inumeráveis mortos, uma escassa mão-cheia de lunáticos. (...) Onde esta herança social é uma loucura, o indivíduo naturalmente mais normal está moldado à semelhança de um louco. Em relação à sociedade em que vive, ele é, sem dúvida, normal, porque se parece com a maioria dos seus pares. Mas eles são todos, falando em absoluto, conjuntamente loucos.
(...)
Aldous Huxley

WILLIAM TURNER


domingo, 20 de dezembro de 2015

CRIME DELICADO

A Justiça encontrou R$ 0,01 (um centavo de real) em uma conta do pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A informação consta de planilha com resultados do rastreamento realizado pelo Banco Central por ordem do juiz federal Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato na primeira instância. Moro mandou sequestrar R$ 53,5 milhões de Bumlai, preso preventivamente desde 24 de novembro.
Ele é acusado formalmente de corrupção e gestão fraudulenta. Bumlai tomou empréstimo de R$ 12 milhões que no Banco Schahin em outubro de 2004, cujo destinatário final, segundo ele, foi o PT.
(...)
Globo.com, 20/12/2015, 12:40 hs

O homem explora o homem e por vezes é o contrário.

Woody Allen
A DISFUNÇÃO


Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos.
Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.

Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.

1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.

2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.

3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.

4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.

5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.

6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.

7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.


Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância
aos passarinhos do que aos senadores.


Manoel de Barros 

GRANDES ESCRITOS


ACEITAR O BRASIL

Da mesma forma que devemos compreender alguém que possui alguma deficiência, tratando tal pessoa de maneira educada, inserindo no grupo e não cobrando coisas que ela não pode realizar, devemos aceitar o Brasil. Até porque, no fundo, todos têm defeitos. Nas análises dos economistas, em matérias e blogs, vê-se uma bonita esperança de sermos desenvolvidos em breve.

Ao menos nos próximos duzentos anos, dando um chute aproximado, não dá pra falar em desenvolvimento real por aqui. É que precisaríamos não só ficar educados e produtivos, mas também ver os dias atuais como um passado muito distante, sem qualquer influência, uma espécie de “pedra lascada” brasileira. Isso demora.

Para não ser pessimista, podemos viver sob outra perspectiva. Talvez esse país, apesar da coletividade sofrer, seja um dos lugares mais divertidos do mundo, com clima quente, festas, território grande e variado. Podemos ser muito felizes por aqui, talvez até mais do que os nativos dos países desenvolvidos. É só evitar ser assaltado.

O Brasil, se fosse uma pessoa, seria alguém não muito culto, até ignorante às vezes, mas bastante animado; todos chamam pra ir ao bar tomar uma cerveja. É uma pessoa em quem não se pode confiar, mas na maioria dos momentos é gente boa; bastante bonita também, apesar de insegura. É daquelas que um dia somem, e ninguém sabe qual foi o fim.

Do Blog Zensentidowordpress.com, 18/12/2015
Na Corte de Bolívar

“Existe um projeto de bolivarização da Corte. Assim como se opera em outros ramos do estado, também se pretende fazer isso no tribunal e, infelizmente, ontem tivemos mostras disso”.

A frase não é de um oposicionista (personagem, aliás, em extinção), contrariado com as manobras anti-impeachment do STF, perpetradas quinta-feira passada, mas de um ilustre integrante daquela Corte, de que já foi presidente, o ministro Gilmar Mendes.

De fato, o Supremo, ao se atribuir a prerrogativa, que não tem, de estabelecer o rito do processo de impeachment, que a Constituição atribui às duas casas do Congresso, bagunçou – e aviltou - ainda mais o quadro político-institucional do país.

Legislou, reinterpretou a Constituição e, ao final, ainda nas palavras de Mendes, ao “fazer artificialismos jurídicos para tentar salvar (a presidente)”, colocou “um balão de oxigênio em quem já tem morte cerebral”. Ou seja, deu sobrevida a um cadáver político e reduziu ainda mais a taxa de esperança do país.

O julgamento do recurso impetrado pelo PCdoB, que pedia (e obteve) a impugnação da sessão da Câmara, que deu início ao rito processual do impeachment, teve ares de pantomima.

Quando se soube que a relatoria caberia ao ministro Edson Fachin - um dos prováveis seis ministros a que a presidente Dilma aludiu recentemente como seus -, pensou-se que faria exatamente o contrário do que fez. Ele e Dias Toffoli são vistos como os mais identificados com o PT – e Fachin chegou a subir em um palanque, em 2010, para pedir votos a Dilma.

Pois bem: foram eles que, para surpresa geral, se opuseram com mais veemência às pretensões do PCdoB. Eles e Gilmar Mendes, só que aí não houve surpresa, já que Mendes não é da turma. Essa isenção inesperada deixou mais à vontade os menos suspeitos para a ação intervencionista/governista, que, embora não impeça, dificulta o desenrolar do processo.

Não é a primeira vez que o governo apela à sabotagem. Tentou-a antes no TCU, quando do julgamento das pedaladas, obtendo sucessivos adiamentos e fazendo do advogado geral da União, Luiz Inácio Adams, um lobista, no corpo a corpo com aqueles ministros. Não funcionou e a presidente foi condenada por unanimidade, dando lastro jurídico ao impeachment.

Na mesma quinta-feira em que o STF dava uma rasteira na Constituição, o TSE fazia sua parte: mandava arquivar representação contra a campanha eleitoral de Dilma Rousseff por uso indevido dos Correios na eleição do ano passado.

Uma decisão estarrecedora, já que desconsiderou confissão do próprio réu – no caso, os Correios. As acusações do PSDB contra os Correios basearam-se em vídeos; portanto, em evidências.

Num deles, registra-se uma reunião com dirigentes dos Correios em Minas Gerais, em que o deputado estadual petista Durval Ângelo, na presença do presidente daquela estatal, Wagner Pinheiro, afirma que Dilma só chegou a 40% das intenções de votos no estado porque "tem dedo forte dos petistas dos Correios".

E pede a Wagner Pinheiro que informe à direção nacional do partido sobre "a grande contribuição que os Correios estão fazendo" nas campanhas – mencionando também a de Fernando Pimentel, hoje governador de Minas e investigado pela Polícia Federal.

O TSE considerou, vejam só, que o vídeo não deixa claro qual é a "grande contribuição" que os Correios estariam fazendo. De fato, um enigma. Por aí, assunto encerrado. Resta ver como o TSE avaliará os aportes de dinheiro roubado do Petrolão, que, segundo delações premiadas (isto é, confissões) de empreiteiros, nutriram a campanha de Dilma. Espera-se que haja clareza nesse quesito.

No caso do STF, não havendo a quem apelar, já que se trata da Corte Suprema, resta aguardar que os dois fatores que escapam ao controle palaciano – economia e Lava Jato - façam sua parte.

A economia acaba de sofrer mais um revés, com novo rebaixamento do país por uma agência de avaliação de risco, acrescida da saída do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. E a Lava Jato efetuou mais uma operação, de nome Catilinárias, esta semana, cercando gente graúda do PMDB e do governo.

Como não há oposição parlamentar – à exceção de meia dúzia de voluntariosos -, o cenário político transformou-se numa corrida de gato atrás do rato. Os gatos são os camburões da Polícia Federal, e os ratos os que chamam impeachment de golpe.

Ruy Fabiano, do Blog do Noblat, 19/12/2015, 01:10 hs

sábado, 19 de dezembro de 2015

PHOENIX

Direção de Cristian Petzold, 2014

VELOCIDADE E PODER

DIPLOMATIQUE: O que preocupa o senhor são os limites do tempo humano?

VIRILIO: Sim, é preciso trabalhar sobre a natureza do poder da velocidade atualmente, porque a velocidade da luz é um absoluto e é o limite do tempo humano. Nós estamos no “tempo-máquina”; o tempo humano é sacrificado como os escravos eram sacrificados no culto solar de antigamente. Eu o digo, nós estamos num novo Iluminismo em que a velocidade da luz é um culto. É um poder absoluto que se esconde atrás do progresso, e é por isso que eu afirmo que a velocidade é a propaganda do progresso. Eu não tenho nada contra o progresso. Quando eu digo que é preciso “ir mais devagar”, alguns zombam de mim. Pensam que eu condeno a revolução dos transportes, dos trens, dos carros, dos aviões, que eu sou contra os computadores e contra a Internet. Não é nesse nível que as coisas estão em jogo...
(...)
Trecho da entrevista de Paul Virilio concedida ao Le Monde Diplomatique Brasil em 15/06/2011

BILL EVANS - Peace Piece


 GUERRA

Sou espada
sou abebé

sou flor amarela
que desabrocha
para dentro

eu tenho
uma sutileza
de explosão.


Daniela Galdino
COMÉRCIO DE AR

Pela segunda vez em menos de um mês, a China está em alerta vermelho por causa da poluição. A previsão é que de sábado até a próxima terça-feira o índice de poluição em Pequim pode chegar a mais de 500 – quando a Organização Mundial da Saúde recomenda que não passe de 25.
Uma grande área vai ser atingida, do centro até o leste do país. As escolas vão ter que suspender as aulas, as fábricas vão ter que diminuir a produção e caminhões vão ter que ser retirados das estradas.
A revista “The Economist” disse que respirar o ar de Pequim pode causar o mesmo estrago que fumar quarenta cigarros por dia.
Por isso, tem gente até vendendo ar. Um restaurante foi pego cobrando taxa de ar puro na conta. O dono instalou um filtro de ar e começou a cobrar o equivalente a cinquenta centavos pelo "serviço". As autoridades disseram que a cobrança é ilegal. Mas os chineses tentam de tudo.
Uma dupla vende garrafas de alumínio com ar puro comprimido das montanhas canadenses. Elas custam de R$ 40 a R$ 200. Os donos disseram que os chineses acabaram com os seus estoques e ainda fizeram uma lista de espera.
Essa não é a primeira vez que alguém lucra vendendo ar. Em 2013, um empresário chinês ficou milionário vendendo ar em latinhas de refrigerante. Em apenas dez dias, ele vendeu dez milhões de latas por R$ 3, cada.

Do Globo.com, 18/12/2015,08:38 hs

EMIL NOLDE


POLÍTICAS  DO  EU

"Tudo é político": tal frase expressa, sobretudo, a inserção visceral dos modos de subjetivação nas relações de forças. Estas constituem o poder em suas faces múltiplas, desde as grandes representações sociais (por ex., o congresso nacional) até as linhas nem sempre perceptíveis que constituem a chamada "pessoa humana". Há, pois, uma política da subjetividade compreendendo  o que o ideário cristão chama de "mundo interior". Ora, o mundo interior é gestado de "fora", como nos ensina a formação da personalidade nas crianças. Assim, na prática cotidiana pode-se dizer que sempre nos deparamos, de algum modo, com o poder pois são forças em relação que se expressam em nós. Esta concepção de política tem suas bases em autores como Maquiavel, Marx, Nietzsche, Foucault, Deleuze, Guattari, Stengers, entre outros .O que importa, no fim das contas, é tentar fugir da FORMA cristã que retira o homem do mundo e promete recompensas no céu. Ao contrário, não há salvação.

A.M.

MARCHINHA DO JAPONÊS DA FEDERAL


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ERRARUM  HUMANUM  EST

“Governo novo, ideias novas”, anunciava Dilma Rousseff na campanha de 2014. Decorridos os primeiros 12 meses do segundo mandato, as ideias ainda não apareceram. A presença de Joaquim Levy na Fazenda indicava que o novo seria a adoção da plataforma do adversário. Foi como se Dilma decretasse sua própria morte.
Pois bem. A substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa, cúmplice de pedaladas, revela que a presidente acredita em vida depois da morte. Mais: Dilma avalia que já está vivendo essa vida. Não é só: decidiu viver a vida pós-morte exatamente como a anterior: temerariamente. Errar é humano. Mas escolher planejadamente o mesmo erro, só mesmo Dilma.
(...)
Blog do Josias de Souza, 18/12/2015, 19:57 hs
Tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal.

Maquiavel

ANA CAÑAS - Urubu Rei


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

BLUES FÚNEBRES

Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.

Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.

Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.


W.H.Auden

OPERAÇÃO SANGUE NEGRO

PF NAS RUAS

Polícia Federal cumpre mandados em operação sobre a SBM e a Petrobras
Empresa holandesa já confessou propina em troca de contratos com a estatal.
Operação desta quinta-feira cumpre mandados no Rio de Janeiro.

A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quinta-feira (17) uma operação relacionada às investigações de um esquema de corrupção envolvendo a empresa holandesa SBM e a Petrobras. De acordo com as primeiras informações, há mandados sendo cumpridos no Rio de Janeiro.
A SBM atua como prestadora de serviços para empresas petrolíferas – oferece aluguel de plataformas, entre outros – e já confessou, durante as investigações da Operação Lava Jato, ter pago propina a funcionários da Petrobras em troca de contratos.
Em junho deste ano, o ex-representante da SBM no Brasil Júlio Faerman, suspeito de ser um dos operadores do esquema da Lava Jato, afirmou à CPI da Petrobras que garantiu “ganhos expressivos” à estatal brasileira enquanto atuava em nome da empresa holandesa.
Um mês antes, integrantes da CPI foram a Londres (Inglaterra) colher depoimento de Jonathan David Taylor, ex-diretor da SBM que denunciou supostas irregularidades em contratos assinados entre a companhia da Holanda e a Petrobras.
(...)
Camila Bonfim, da TV Globo, em Brasília,17/12/2015, 07:02 hs
NÃO É GOLPE


À falta de outro, o governo e o PT continuarão insistindo com o discurso do golpe. O impeachment da presidente Dilma seria um golpe e pronto.

Não, não importa que, logo mais, pela maioria ou unanimidade dos votos, o Supremo Tribunal Federal (STF) decida que o rito do impeachment foi cumprido com correção até aqui.

Pelo menos assim concluiu, ao dar seu voto ontem, o ministro Edson Fachin, relator do caso e eleitor assumido de Dilma.

Mas fazer o quê se o PT e o governo nada têm para inventar em defesa da presidente? Alegam, como a própria Dilma, que faltam motivos para tirá-la do cargo. E que por isso seria golpe.

Na verdade, ela é acusada do crime de ter feito despesas sem autorização do Congresso – as famosas “pedaladas fiscais”. E isso, por si só, pode configurar crime de responsabilidade, sim.

A palavra final será do Congresso.

No caso do mensalão, a palavra final foi do STF. E, no entanto, até hoje, Lula e outros caciques do PT repetem que o mensalão jamais existiu; e que o STF errou ao condenar os mensaleiros.

De fato, Dilma, o PT e o governo parecem estar a poucas horas de colher a derrota catastrófica desenhada por Fachin.

Em resumo, o ministro disse:

* que o Senado não pode barrar a instauração do procedimento de impeachment como queria o governo;

* confirmou a votação secreta para a formação da Comissão Especial do Impeachment na Câmara ao contrário do que o governo defendia;

* negou o pedido do governo de afastamento do deputado Eduardo Cunha da comissão;

* contrariando a vontade do governo, argumentou a favor do afastamento de Dilma quando a Câmara autorizar o processo e enviar ao Senado;

* e rejeitou a necessidade de defesa prévia de Dilma na fase em que se encontra o processo de impeachment na Câmara. Se tivesse acolhido, o processo teria que recomeçar.

Não houve um só ponto do voto de Fachin que tenha favorecido o governo.

Uma vez que seja derrotado no STF, o governo começará a assistir a silenciosa migração de votos dentro do Congresso na direção da defesa do impeachment de Dilma.

Para detê-la, restará ao governo o uso de duas armas: apelar para a militância dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais, que ontem saiu às ruas “contra o golpe”; e oferecer mais e mais cargos na administração pública para deputados e senadores dispostos a apoiá-lo.

A reta final do impeachment ficará para depois do carnaval, quando a crise econômica terá piorado, assim como o mau humor dos brasileiros.

Ricardo Noblat, 17/12/2015, 04:11 hs