quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

FLOR DE OBSESSÃO

- O adulto não existe. O homem é o menino perene.

- Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.

- A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença numerosa de um amigo real.

- Amar é ser fiel a quem nos trai.

- Toda autocrítica tem a imodéstia de um necrológio redigido pelo próprio defunto.

- Só acredito na bondade que ri. Todo santo devia ser jucundo como um abade da Brahma.

- O brasileiro é um feriado.

- Os jardins de Burle Marx não têm flores. Têm gramados e não flores. Mas para que grama, se não somos cabras?

- A burrice é a pior forma de loucura.

- No Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo. O mineiro só é solidário no câncer.

- O carioca é o único sujeito capaz de berrar confidências secretíssimas de uma calçada para outra calçada.

- Num casal, pior que o ódio, é a falta de amor.

- O amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira.

- Geralmente, o puxa-saco dá um marido e tanto.

- O carioca é um extrovertido ululante.

- As bodas de prata são, via de regra, uma festa cínica que finge comemorar um amor enterrado.

- O pior cego é o surdo. Tirem o som de uma paisagem e não haverá mais paisagem.

- Os que choram pouco, ou não choram nunca, acabarão apodrecendo em vida.

- Gosto do cigarro que me queime a garganta. O fumo suave não passa de um ópio de gafieira.

- Toda coerência é, no mínimo, suspeita.

- Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.

- Sexta-feira é o dia em que a virtude prevarica.

- Há homens que, por dinheiro, são capazes até de uma boa ação.

- A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.

- Eu, como artista, se tivesse de escolher um epitáfio, optaria pelo seguinte: — "Aqui jaz Nelson Rodrigues, assassinado pelos imbecis de ambos os sexos".

- Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado.

- Toda família tem um momento em que começa a apodrecer. Pode ser a família mais decente, mais digna do mundo. Lá um dia aparece um tio pederasta, uma irmã lésbica, um pai ladrão, um cunhado louco. Tudo ao mesmo tempo.

- A família é o inferno de todos nós.

- A fidelidade devia ser facultativa.

- O gordo só é cruel na mesa, diante do prato, com o guardanapo a pender-lhe do pescoço.

- Na mulher, certas idades constituem, digamos assim, um afrodisíaco eficacíssimo. Por exemplo:— quatorze anos!

- O jovem só pode ser levado a sério quando fica velho.

- Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar.

- O que se está fazendo aqui é uma música popular brasileira que não é popular, nem brasileira e vou além: — nem música.

- Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.

- Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe.

- O presidente que deixa o poder passa a ser, automaticamente, um chato.

- O ônibus apinhado é o túmulo do pudor.

- Num casamento, o importante não é a esposa, é a sogra. Uma esposa limita-se a repetir as qualidades e os defeitos da própria mãe.

- No Maracanã, vaia-se até minuto de silêncio e, se quiserem acreditar, vaia-se até mulher nua.

- Uma dor de viúva dura 48 horas.

- Todo óbvio é ululante.

- Toda mulher gosta de apanhar. O homem é que não gosta de bater.


Nelson Rodrigues

Frases selecionadas e organizadas por Ruy Castro,  extraídas do livro "Flor de Obsessão", Cia. das Letras - São Paulo, 1997, págs. diversas

MARIA BETHÂNIA - Meu Sonho Impossível


VITRINE DOS ZUMBIS

O desejo maquina entre os corpos e nos corpos. Exposto à luz do dia, mesmo à meia noite, ele  é produção incessante, formigamento nem sempre visível ; "o que não tem governo nem nunca terá". Uma criança. Por que a metamorfose? Não há porque, não há de que, aí onde a gratuidade empurra a existência por e para linhas insólitas.A morte não é substantiva, ela é o morrer, verbo infinito, mesmo que se fale de passados ressentidos  e/ou futuros impossíveis.Como desejar? Não é fácil, mesmo que pareça. Antes de tudo as sociedades modernas fizeram e fazem do consumo a produção de territórios estáveis onde alguém se reconhece: esse sou eu. No entanto, tal reconhecimento de si é tributário de forças sociais que, de longe,  fabricam o eu em seus estratos mais íntimos: meu mundo interior,meu ego, minha subjetividade, meu cérebro, minha profissão, meu tudo. A propriedade e a forma das coisas substituem o desejo como produção. Ninguém escuta o que não quer. Prossegue o empreendimento de sabotagem das multiplicidades ; “como dói, mas como é bom”. Isso funciona em toda parte onde existe o produto cristão, a “pessoa humana”. Mas, afinal, onde anda o desejo? Ele costuma ser trocado por dinheiro e transcendências astutas: a Esquerda. Em contrapartida, as novas gerações aceitam o mundo como o melhor dos possíveis  e para o qual não há fora, o fora, nem sequer é possível dar o fora. Trata-se de uma espécie de paralisia coletiva do pensamento. Este se revela como técnico-cognição: isso é um celular, esta é uma lição pedagógico-terapêutica-comportamental: “busque não pensar, busque morrer”. As práticas de vida norteiam-se, então, pelo pensamento da representação: identidades petrificadas, especialismos em oferta, produtos à espera do consumo imediato e serial em shoppings da alma. Proibido viver, pensar, sentir.Um desejo humanizado se imiscui em redes sinápticas (ou até em redes internéticas) como caução ao  deus-capital quando este dita a dor em normas implícitas do bom viver. E o mundo prossegue em busca da salvação. 

A.M.

JOAN MIRÓ


Um grande artista é um grande homem numa grande criança.

Victor Hugo

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

LEVE

O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? não. Seu drama não era de peso, mais de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.
(...)

Milan Kundera

MEYTAL COHEN - solo - Tabitha Simmons


UMA ATRIZ

(...) As criaturas vulgares não nos impressionam a imaginação. Ficam limitadas ao seu século. Nenhum encanto as pode transfigurar: Conhecemo-lhes o espírito como os chapéus. Elas passeiam no parque de manhã e tomam chá, tagarelando à tarde. Têm sorrisos estereotipados e boas maneiras. São transparentes. Mas uma atriz! Como é diferente uma atriz... Por que não me diz que só vale a pena amar uma atriz?

Oscar Wilde
Noite sem lua ou estrelas
o bebedor de sakê
bebe sozinho.


Matsuo Bashô
INCONSCIENTE-PRODUÇÃO

(...) Não negamos que haja uma sexualidade edipiana, uma heterossexualidade e uma homossexualidade edipianas, uma castração edipiana - objetos completos, imagens globais e egos específicos. Negamos que sejam produções do inconsciente. Mais ainda, a castração e a edipianização engendram uma ilusão fundamental que nos faz crer que a produção desejante real é passível das mais altas formações que a integram, submetem-na a leis transcendentes e fazem-na servir a uma espécie de 'descolamento' do campo social em relação á produção do desejo, em nome de que todas as resignações são justificadas por antecipação.
(...)

G. Deleuze e F. Guattari  in O anti-édipo
DA CLÍNICA

Diante da impossibilidade de ser psiquiatra e da impossibilidade de não sê-lo, surgem linhas de risco, nem sempre visíveis.Elas atravessam práticas clínicas e a esquizofrenia do pensamento. Sem diálogo, retornam ao estágio zero do Encontro. E tudo recomeça.

A.M.
SEM RAZÃO

O conhecimento da verdade é a intenção mais elevada da ciência e considera-se mais uma fatalidade do que intenção se, na procura da luz,provocar algum perigo ou ameaça. Não é que o homem de hoje seja mais capaz de cometer maldades do que os antigos ou os primitivo. A diferença reside apenas no fato de hoje ele possuir em suas mãos meios incomparavelmente mais poderosos para afirmar a sua maldade. Embora sua consciência se tenha ampliado e diferenciado, sua qualidade moral ficou para trás, não acompanhadno o passo. Ese é o grande problema com que nos defrontamos. Somente a razão não chega mais a ser suficente

Carl Gustav Jung

LUCIANA RABELLO e RICARDO SILVEIRA



De qualquer modo, escrevi sobre uma rã que encontrei no jardim, com uma das pernas presa numa cerca de arame. Não podia se soltar. Eu tirei a perna dela da cerca, mas mesmo assim ela não podia se mover. Por isso eu peguei ela no colo e conversei com ela. Disse que eu também estava preso, que minha vida tinha ficado presa em alguma coisa. Conversei com ela durante um longo tempo. Finalmente, a rã saltou do meu colo e saiu saltando pela grama afora, e desapareceu num matagal. E eu disse a mim mesmo que ela era a primeira coisa de que eu já sentira saudade em minha vida.
(...)
Charles Bukowski
ANO NOVO

em 2015 tudo irá se repetir

porque tudo será diferente

em 2015 tudo será diferente

porque tudo irá se repetir

esse é o jogo



A.M.

FRANCISCO DE GOYA


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

DOBRAS DA ALMA

Nossa alma tem estranhas veredas.
Podemos ouvir ou ler, chocados em maior ou menor grau, a notícia de um massacre de crianças e esquecer o fato no instante seguinte, continuando a viver como se nada tivesse acontecido. 
No entanto, se na rua um amigo estimado nos nega o cumprimento, voltamos para casa abalados e passamos uma noite insone, a nos revolver na cama e pensar no "fato" com uma impressão de catástrofe.

Érico Veríssimo

domingo, 28 de dezembro de 2014

OUTRO MUNDO AQUI

Cada louco traz em si o seu mundo e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é outro muito outro do que ele vem a ser após.

Lima Barreto

GRANDES ESCRITOS


RELÓGIO

com deus mi deito com deus mi levanto
comigo eu calo comigo eu canto
eu bato um papo eu bato um ponto
eu tomo um drink eu fico tonto.

Chacal
SEM FIM

Agora dê uma olhada nesse pessoal aí na frente. Estão preocupados, contando os quilômetros, pensando onde irão dormir esta noite, quanto dinheiro vão gastar em gasolina, se o tempo estará bom, de que maneira chegarão aonde pretendem. . . e, quando terminarem de pensar, já terão chegado aonde queriam, percebe? Mas eles têm que se preocupar e trair seus horários, cada minuto e cada segundo, entregando-se a tarefas aparentemente urgentes, todas falsas, ou então, a desejos caprichosos angustiados e angustiantes; suas mentes jamais descansam, não encontram paz, a não ser que se agarrem a uma preocupação explícita e comprovada, e, depois de encontrar uma, assumem expressões faciais adequadas, graves e circunspectas, e seguem em frente, e tudo isso não passa, você sabe, de pura infelicidade, e durante todo esse tempo a vida passa voando por eles, e eles sabem disso, e isso também os preocupa, num círculo vicioso que não tem fim.

Jack Kerouac
NOVOS POÇOS DE LAMA

A inédita passagem de executivos das maiores empreiteiras do país pela carceragem da Polícia Federal está prestes a produzir uma revolução nos costumes político-empresariais do país. Gigante do setor da construção pesada, a Camargo Corrêa negocia com o Ministério Público Federal os termos de um acordo de leniência, como são chamadas as delações premiadas de empresas. Significa dizer que o bloco das grandes empreiteiras, antes monolítico, pode trincar.
(...)
Fonte: Blog do Josias,28/12/2014, 03:40 hs

FLAMENCO DE NETA SHEZAF


O MURO

Sexualidade e angústia são funções do organismo vivo que operam em direções opostas; expansão agradável e contração angustiante.

Wilhelm Reich
DEVIR-MULHER

(...) O que chamamos de entidade molar aqui, por exemplo, é a mulher enquanto tomada numa máquina dual que a opõe ao homem, enquanto determinada por sua forma, provida de órgãos e de funções, e marcada como sujeito. Ora, devir-mulher não é imitar essa entidade, nem mesmo transformar-se nela. Não se trata de negligenciar, no entanto, a importância da imitação, ou de momentos de imitação, em alguns homossexuais masculinos; menos ainda a prodigiosa tentativa de transformação real em alguns travestis. Queremos apenas dizer que esses aspectos inseparáveis do devir-mulher devem primeiro ser compreendidos em função de outra coisa: nem imitar, nem tomar a forma feminina, mas emitir partículas que entrem na relação de movimento e repouso, ou na zona de vizinhança de uma microfeminilidade, isto é, produzir em nós mesmos uma mulher molecular, criar a mulher molecular. Não queremos dizer que tal criação seja o apanágio do homem, mas, ao contrário, que a mulher como entidade molar tem que devir-mulher, para que o homem também se torne mulher ou possa tornar-se.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil Platôs

O REFLEXO DO MAL

de Philip Ridley,1990

PERTENCER

Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado com papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, então raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Clarice Lispector

sábado, 27 de dezembro de 2014

DOMINAÇÃO

A norma está inscrita entre as “artes de julgar”, ela é um princípio de comparação. Sabemos que tem relação com o poder, mas sua relação não se dá pelo uso da força, e sim por meio de uma espécie de lógica que se poderia quase dizer que é invisível, insidiosa.
(...)
Michel Foucault

BILLIE HOLIDAY - Strange Fruit


EFEITOS CONCRETOS

Por causa do escândalo de corrupção na Petrobras, o polo naval de Charqueadas, no RS, está parado. Com isso, a cidade de 38 mil habitantes vai perder mil empregos diretos e mais cinco mil indiretos. Da esperança de produzir para o pré-sal e alavancar o desenvolvimento da cidade, surgiu o medo do desemprego.
(...)
Fonte: Globo.com- 14/12/2014
ENTRE OS SABERES

Um trabalho transdisciplinar na Clínica começa com o devir, ou seja, com o encontro (conteúdo desejante) entre os saberes. Isso significa antes de tudo a dissolução das fronteiras entre as disciplinas e os papéis profissionais.Um devir-loucura cria um espaço-tempo onde estão suspensas as certezas estabelecidas sobre o paciente, inclusive o conceito deste e as suas atualizações técnicas. A implicação do técnico com a clínica é parte dela mesma e motor-combustível à prática. Esta pode (e deve) ser também teórica, pois o pensamento define as linhas do real. Que tipo de real? O virtual, as virtualidades que formigam aqui e ali na produção do inconsciente. Desse modo, para além dos espaços fechados do organismo,o conceito de loucura estabelece compromissos éticos e clínicos.  
(...)
A.M. in Trair a Psiquiatria

ZDISLAV BEKSINSKI


SEM EU

Nem esta obra, nem as que se lhe seguirão têm nada que ver com quem as escreve. Ele nem concorda com o que nelas vai escrito, nem discorda. Como se lhe fosse ditado, escreve; e, como se lhe fosse ditado por quem fosse amigo, e portanto com razão lhe pedisse para que escrevesse o que ditava, achava interessante - porventura só por amizade - o que, ditado, vai escrevendo.
(...)
Fernando Pessoa

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

ENGANOS

Há um ideal comum a todos, ideal que dispensa consumo de ideias: coisa em si materialíssima, que se chama ideal em virtude de tácita convenção, feita há cinco mil anos, de nos enganarmos uns aos outros, e cada qual a si.

Camilo Castelo Branco

SCARLETT MARTON; Foucault, Deleuze e Derrida frente à crise


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Até os canalhas envelhecem.

Nelson Rodrigues
NÃO HÁ MAIS FORA

(...) A passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle se caracteriza, inicialmente, pelo desmoronamento dos muros que definiam as instituições. Haverá, portanto, cada vez menos distinções entre o dentro e o fora. Trata-se, efetivamente, de um elemento de mudança geral na maneira pela qual o poder marca o espaço, na passagem da modernidade à pós-modernidade. A soberania moderna sempre foi concebida em termos de território – real ou imaginário – e da relação desse território com seu fora. É assim que os primeiros teóricos modernos da sociedade, de Hobbes a Rousseau, compreendiam a ordem civil como um espaço limitado e interior que se opõe à ordem exterior da natureza, ou que dela se distingue. O espaço circunscrito da ordem civil, seu lugar, se define por sua separação dos espaços exteriores da natureza. De modo análogo, os teóricos da psicologia moderna compreenderam as pulsões, as paixões, os instintos e o inconsciente metaforicamente, em termos espaciais, como um fora no âmbito do espírito humano, como um prolongamento da natureza bem no fundo de nós. A soberania do indivíduo repousa, aqui, em uma relação dialética entre a ordem natural das pulsões e a ordem civil da razão ou da consciência. Por fim, os diversos discursos da antroposofia moderna sobre as sociedades primitivas funcionam, freqüentemente, como o fora que define as fronteiras do mundo civil. O processo de modernização repousa nesses diferentes contextos, na interiorização do fora da civilização da natureza.
No mundo pós-moderno, entretanto, essa dialética entre dentro e fora, entre ordem civil e ordem natural chegou ao fim.
(...)
Michael Hardt
De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...

Matsuo Bashô

SHARON JONES e DAP-KINGS - Nancy Jazz - 2010


MULHER DE MATAR



Olhou distraidamente para o relógio e deu um pulo na cadeira: Ih, cacilda, quatro e meia da manhã! Mais um pouco e encontraria a mulher acordada.

Enquanto a noite durasse, nada a temer. Mas não podia se deixar se apanhar na rua quando a claridade do céu começava a anunciar o novo dia. A partir de então a mulher acordava a qualquer barulhinho. Houve um dia, por exemplo, em que mal havia tirado a roupa, ouviu a voz dela lá na cama, você vai sair a esta hora? Não teve remédio senão dizer que sim, tinha de estar bem cedo no escritório. E tornou a sair, foi mesmo para o escritório, dormir no sofá da sala de espera o restinho da manhã.

-- Gente, eu tenho de me mandar.

Chamou o garçom, pagou sua conta, despediu-se dos amigos que, já bêbados, nem deram por sua partida. Meio bebido, ele próprio, na rua firmou-se sobre as pernas e fez sinal para um táxi que passava.

Alguém mais se adiantou e acenou para o mesmo táxi. Era uma mulher que também acabava de sair da boate.

Pronto, pensou rápido: se perco este táxi, lá vai minha última chance de chegar ainda de noite.

Quando o táxi parou, fingiu que não via a mulher e avançou para abrir a porta. Ela também avançou, tocou-lhe o braço:

- Por favor, estou com pressa!

A voz, aflita, era educada e insinuante. Então ele reparou que era uma mulher bonita. Ainda assim resistiu: pediu-lhe também de maneira educada que o desculpasse, mas sua pressa era maior. A menos que seguissem juntos no táxi, e ele a deixaria no caminho, se é que iam para o mesmo lado. Vacilaram ambos:

-- Se não se incomoda...

-- Incômodo nenhum.

-- Bem, nesse caso...

Estavam nisso quando surgiu um grandalhão, de terno xadrez e segurou a mulher pelo braço. Ignorou a presença dele e falou com a voz carregada:

-- Eu agorra te matarr.

Notou que o homem tinha à ilharga algo avolumado sob o paletó, só podia ser revolver. E a manopla já avançando para sacá-lo.

-- Não faça isso! -- gritou, com a mão espalmada no ar, como um guarda de trânsito: -- O senhor não pode fazer uma coisa dessas!

-- O homem se voltou, como se o visse só então:

-- Não poderr porr quê? Quem é senhorr?

Agora era distrair o gringo e tomar o táxi:

-- Tenho mulher e filhos em casa me esperando, e o senhor quer me envolver num crime?

- Sernhor não saberr que esta mulherr fazerr comigo.

-- Seja o que for, não vá matá-la, pelo menos na minha vista.

Mesmo que fosse embora, estaria envolvido: o chofer do táxi seria testemunha. E a mulher não tinha a menor reação, ia morrer sem um pio. O jeito era ficar:

-- Do you speak English?

-- Eu serr alemon.

-- Neste caso vai em português mesmo. Vamos tomar um drinque.

Dispensou o táxi e conduziu ambos pelo braço de volta à boate.

Era dia claro quando se viu noutro táxi, em companhia da mulher e do alemão, reconciliados graças à sua intervenção. A idéia era deixá-la primeiro, para evitar que o homem, sozinho com ela, tivesse novo ímpeto homicida.

Quando ela saltou, o alemão quis descer também, foi um custo contê-lo:

-- Você prometeu, Fritz.

Ela se foi, sã e salva, e os dois seguiram viagem. Ele convidou o alemão para tomar o café da manhã em sua casa -- única maneira de sua mulher acreditar naquela história:

-- Quero que você conheça minha mulher. Esta sim, é de matar.


Fernando Sabino

MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE

de Werner Herzog, 2009

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

CRISE

Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar ‘superado’. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais os problemas do que as soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência... Sem crise não há desafios; sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um...
(...)
Albert Einstein
NÃO VOTE

O direito ao voto me parece um direito ao envilecimento ; votar é abdicar; é eleger-se um amo; é dar-se um amo, é mais vil que suportá-lo; um homem livre não pode se aproximar de uma urna eleitoral se não é para Quebrá-la; votar é perpetuar a vida do tirano; daquele tirano que nos escraviza e nos envilece a todos: o Estado.
(...)
Vargas Vila

WASHINGTON MAGUETAS


O FINGIDOR

O ermo que tinha dentro do olho do menino era um
defeito de nascença, como ter uma perna mais curta.
Por motivo dessa perna mais curta a infância do 
menino mancava.
Ele nunca realizava nada.
Fazia tudo de conta.
Fingia que lata era um navio e viajava de lata.
Fingia que vento era cavalo e corria ventena.
Quando chegou a quadra de fugir de casa, o menino
montava num lagarto e ia pro mato.
Mas logo o lagarto virava pedra.
Acho que o ermo que o menino herdara atrapalhava
as suas viagens.
O menino só atingia o que seu pai chamava de ilusão.

Manoel de Barros
À MARGEM

É curioso: sou um isolado que conhece meio mundo, um desclassificado que não tem uma dívida, uma nódoa - que todos consideram, e que entretanto em parte alguma é admitido...(...) Nos próprios meios onde me tenho embrenhado, não sei por que senti me sempre um estranho...

Mário de Sá-Carneiro
HERANÇA DE ERROS

Contrariamente à crença geral, a verdade não se impõe por si mesma. O erro que entra no domínio público permanece nele para sempre. As opiniões transmitem-se, hereditariamente, como as terras. Constrói-se nelas. As construções acabam por formar uma cidade - e ditar a história.
(...)
Henri Bergson

ELIS REGINA - Como Nossos Pais


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

PENSAR É UM EXERCÍCIO PERIGOSO

A psiquiatria oficial ( a que é referendada pelo Estado, Faculdades de Medicina, Conselhos de Medicina, Associações de classe, etc) necessita fabricar diagnósticos psiquiátricos, independendo de que tenham base clínica ou não.O que importa a esses poderes, acoplados ao funcionamento planetário do capital (um axioma: vender, vender) é que esses diagnósticos sejam creditados e acreditados pelos consumidores, os doentes, ou melhor, os clientes. "Eu sou bipolar". Deste modo, a psicopatologia clínica se alastra num emaranhado de sintomas outrora bem demarcados entre si,( como é o caso da depressão e o da angústia, esta, aliás, já com o termo em desuso, embora o afeto exista mais que nunca). Tal pletora de sintomas é o produto da diluição dos limites entre as "velhas"categorias diagnósticas (como era o caso da divisão psicose/neurose). Não havendo mais fronteiras clínicas, entramos no campo do pensamento único e da clínica mais estulta. O pensamento clínico dos transtornos mentais tende hoje rapidamente para a percepção tosca de um comportamento socialmente inaceito (proscrito). Assim, mais que nos tempos foucaultianos, a psiquiatria tornou-se uma peça tecnológica da Sociedade de Controle, onde todos são controlados e todos controlam todos sob a égide científica do Império na acepção que lhe deu Antonio Negri e Michael Hardt. Supondo-se estarmos num congresso de psiquiatria, erguer tais hipóteses equivaleria o encaminhamento do autor ao hospício mais próximo, ao seu assassinato simbólico (desprezo intelectual) ou, por fim, ao estabelecimento de um novo diagnóstico que contemple signos emitidos fora da Ordem Médica e que com ela componha um Ogro invisível.

A.M.

JÁ É NATAL


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A FRAUDE CÓSMICA

Leiam os Evangelhos como o livro da sedução usando a moral como recurso: a moral foi coberta com uma capa por essa gentinha, eles conhecem a importância da moral! Através da moral conduz-se a humanidade mais facilmente pelo bico! Na verdade, o que temos aqui é a pretensão da elite disfarçada de modéstia: colocaram definitivamente a "comunidade", os "bons", e os "justos", de um só lado, do lado da "verdade", e o resto, o "mundo", do outro lado... Isso foi a forma mais calamitosa de megalomania que já existiu sobre a Terra: uma pequena multidão disforme de hipócritas e mentirosos começou a monopolizar os conceitos de "Deus", "verdade", "luz", "espírito", "amor", "sabedoria", "vida", como se fossem seus sinônimos, para com isso delimitar o "mundo" com respeito a si; os partidários da nova doutrina, maduros para toda espécie de manicômio, fazem girar os valores em torno de si, como se o cristão fosse o único sentido, o sal, a única e última medida de julgamento para o resto do mundo..."
(...)
Friedrich Nietzsche
FALA, JOAQUIM!


“Que degradação institucional! Nossa presidente vai consultar órgão de persecução criminal antes de nomear um membro do seu governo!!!”. O comentário ácido foi veiculado na internet pelo ministro aposentado Joaquim Barbosa, nas pegadas da entrevista em que Dilma Rousseff revelou, na manhã desta segunda-feira (22), a intenção de “consultar'' o procurador-geral da República Rodrigo Janot antes de nomear seus ministros.

“Há sinais claros de que a chefe do Estado brasileiro não dispõe de pessoas minimamente lúcidas para aconselhá-la em situações de crise”, acrescentou o ex-presidente do STF. Sem mencionar-lhe o nome, Barbosa deu uma estocada no ministro José Eduardo Cardozo (Justiça): “Onde estão os áulicos tidos como candidatos a uma vaga no STF, que poderiam esclarecer: ‘Ministério Público não é órgão de assessoria!!!’.”

Egresso da carreira de procurador, Joaquim Barbosa deu uma consultoria gratuita à presidente: “Ministério Público é órgão de contenção do poder político. Existe para controlar-lhe os desvios, investigá-lo, não para assessorá-lo.'' Encerrou com uma expressão em francês: “Du jamais vu!”. Significa “coisa jamais vista''. Uma variação esnobe do bordão preferido de Lula: “nunca antes na história desse país''.

Fonte: Blog do Josias,22/12/2014,20:37 hs

ONDA DE CORRUPÇÃO


domingo, 21 de dezembro de 2014

FRATURA EXPOSTA

SÃO PAULO - Dirigentes e executivos de empreiteiras presos na Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, lutam na Justiça para derrubar o bloqueio de suas contas bancárias e aplicações financeiras. No total, incluindo recursos depositados no exterior, cerca de R$ 100 milhões estão sendo mantidos à disposição da Justiça. Às vésperas do recesso de fim de ano, os advogados impetraram recursos tentando liberar esses valores, mas não obtiveram sucesso.
(...)
Fonte: Cleide Carvalho, O Globo,21/12/02014, 15:21 hs

MATAR

(...) Onde agora? Onde? Tenho uma casa de campo, tenho um diamante do tamanho de um ovo de pomba... Eu pintava os olhos diante do espelho, tinha um compromisso, vivia cheia de compromissos, ia a uma boate com um banqueiro. Enrodilhada na cama, ele tocava na surdina. Meus olhos foram ficando cheios de lagrimas. Enxuguei-os na fralda do saxofone e fiquei olhando para a minha boca que achei particularmente fina. Se voce me ama mesmo, eu disse, se você me ama mesmo entao saia e se mate imediatamente.
(...)
Lygia Fagundes Telles
Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma.

Bakunin

GRANDES ESCRITOS


CABELOS 

Cabelos! Quantas sensações ao vê-los! 
Cabelos negros, do esplendor sombrio, 
por onde corre o fluido vago e frio 
dos brumosos e longos pesadelos... 
Sonhos, mistérios, ansiedades, zelos, 
tudo que lembra as convulsões de um rio 
passa na noite cálida, no estio 
da noite tropical dos teus cabelos. 
Passa através dos teus cabelos quentes, 
pela chama dos beijos inclementes, 
das dolências fatais, da nostalgia... 
Auréola negra, majestosa, ondeada, 
alma de treva, densa e perfumada, 
lânguida noite da melancolia!

Cruz e Sousa
TRISTE

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos. "Eu não sou pessimista, sou triste".
(...)
Fernando Pessoa

VLADIMIR VOLEGOV


PULSAÇÕES

Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas.
(...)
Charles Bukowski
DELAÇÕES EM SÉRIE: 12 ACORDOS FECHADOS

RIO - Responsável por investigar o esquema de corrupção na Petrobras, a força-tarefa da Operação Lava-Jato não conseguiu apenas identificar desvios de, pelo menos, R$ 286 milhões na estatal, mas também, pela primeira vez, amarrar mais de uma dezena de acordos de delação premiada. Dado inédito do Ministério Público Federal (MPF) no Paraná mostra que, até semana passada, foram firmados 12 acordos.

Trata-se da maior quantidade de delações premiadas numa investigação de um grande caso de corrupção recente. Os primeiros acordos — fechados com o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa e com o doleiro Alberto Youssef — são tidos como fundamentais para o sucesso da investigação e levaram a novas colaborações. Uma vez incriminados, não restou a alguns dos acusados relatar o que sabiam em troca de uma possível redução de pena.

Além deles, os empresários Julio Camargo e Augusto Mendonça, ambos da Toyo Setal; Pedro Barusco, ex-gerente da diretoria de Serviços da Petrobras; Carlos Alberto Pereira da Costa, gestor de empresas de Youssef; e Luccas Pace Júnior, assistente da doleira Nelma Kodama, já fizeram acordo. Os demais cinco nomes são sigilosos. Mas não é só. Empresas do grupo Toyo Setal, seis no total, firmaram acordos de leniência com o MP, pelos quais se comprometem a colaborar para tentar evitar punições como a de serem proibidas de firmar novos contratos públicos.
(...)
Fonte:Carolina Benevides e Leticia Fernandes, O Globo, 21/12/2014,07:00 hs




LADY GAGA - Bad Romance


VIA LÁCTEA

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Olavo Bilac
NÃO EXISTE, GRAÇAS A DEUS 

(...) Da mesma forma o senhor poderia dizer que um agnóstico é uma pessoa profundamente religiosa que possui um conhecimento ao menos rudimentar da falibilidade humana. Quando digo que sou agnóstico, quero apenas dizer que não disponho de provas. Não existem provas contundentes da existência de Deus... pelo menos da sua espécie de deus... como também não existem provas convincentes de sua inexistência. Como mais da metade da população da Terra não é formada de judeus, cristãos ou muçulmanos, eu diria que não há argumentos conclusivos para a existência do deus em que o senhor acredita. Se não fosse assim, todos os habitantes da Terra teriam sido convertidos.
(...)
Carl Sagan

HSIN-YAO TSENG


SEM OUTREM

Seria difícil conceber castigo mais demoníaco, pudesse uma tal coisa ser posta em prática, do que abandonar uma pessoa à deriva na sociedade por forma a passar despercebida a todos os seus membros. Se ninguém se voltasse para nós ao ver-nos entrar em casa, se ninguém nos respondesse quando nós falássemos, ou se preocupasse com o que nós fizéssemos, mas se toda a gente que conhecêssemos nos «desligasse do mundo» e agisse como se fôssemos entidades inexistentes, não tardaríamos a ser tomados de uma espécie de desespero de raiva e impotência, de que a mais cruel das torturas corporais seria um alívio.

William James
O SENTIDO DAS DEPRESSÕES

As depressões atuais se espalham num amplo espectro de acontecimentos, onde a etiologia (causa) e o quadro clínico (sintomas) são múltiplos. Desse modo, é essencial para uma clínica da diferença em psiquiatria não considerar as depressões no sentido biomédico. Dupla traição: à psiquiatria como especialidade médica e à psiquiatria como instituição (forma social). As depressões não são, pois, uma doença do cérebro, mesmo que este se mostre alterado em seu funcionamento. Ora, qualquer afeto produz efeitos sobre o cérebro, mesmo  um "bom" afeto, como, por exemplo,a alegria. Na análise semiológica do Encontro com o paciente, as perguntas devem partir do mundo para o eu, e não o contrário. Onde você vive, com quem vive, como vive, como trabalha, em que acredita, quais seus amores, etc, são linhas existenciais que mapeiam subjetivações cotidianas. Sim, talvez haja necessidade de um anti-depressivo...  se houver, o será na contextualização do tempo desejante, devires nem sempre objetiváveis.

A.M.

O ESPÍRITO DA COISA



DOBRAS SUBJETIVAS

Como o perigo de desagradar provém principalmente da dificuldade em avaliar quais as coisas que se notam e quais as que não são notadas, pelo menos por prudência nunca deveria a gente falar de si mesmo, pois esse é um tema em que seguramente a nossa visão e a alheia não coincidem nunca.
Ao mau costume de falar de si mesmo e dos próprios defeitos, cumpre acrescentar, como formando bloco com o mesmo, esse outro hábito de denunciar nos carácteres alheios defeitos análogos aos nossos. E constantemente estamos a falar nos referidos defeitos, como se fora uma espécie de rodeio para falar de nós mesmos, em que se juntam o prazer de confessar e o de absolvermo-nos.

Marcel Proust

GRANDES ESCRITOS


sábado, 20 de dezembro de 2014

A TENTAÇÃO

Diante do crucifixo 
Eu paro pálido tremendo 
“ Já que és o verdadeiro filho de Deus 
Desprega a humanidade desta cruz”. 

Murilo Mendes
SEXO

No meu julgamento, o sexo foi mais bem entendido, mais bem expressado no mundo pagão, no mundo dos primitivos e no mundo religioso. No primeiro, era exaltado no plano estético; no segundo, no plano mágico, e no terceiro, no plano espiritual. Em nosso mundo, onde apenas o nível bestial impera, o sexo funciona num vazio.
(...)
H.Miller in O mundo do sexo

ALINE CALIXTO - Tudo o que sou


SOBRE O AMOR

Vou ensinar uma coisa sobre o amor para você.
Claro que há exceções para o que vou dizer, mas são exceções, não a regra.
O amor, apesar do que dizem, não vence tudo.
Ele nem mesmo costuma durar.
No final, as aspirações românticas da nossa juventude, são reduzidas ao que pode dar certo.

Woody Allen
Erudição é a poeira sacudida de um livro para dentro de um crânio vazio.

Ambrose Bierce

ZDZISLAW BEKSINSKI


NATAL EM FAMÍLIA

(...) Com a proximidade das festas de fim de ano a vida fica mais difícil para os diretores e executivos das maiores empreiteiras do País. Até o início da semana passada, apesar do sofrimento provocado por um mês de confinamento, havia entre eles um certo otimismo com a possibilidade de obterem algum benefício jurídico. Na terça-feira 17, dois advogados disseram a seus clientes que dificilmente será concedida a liberdade. A informação transmitida aos presos foi a de que a Justiça só deverá se manifestar, sobre os recursos que procuram tirá-los da carceragem, em fevereiro. “Recebi recados dos tribunais superiores dizendo que nada mudará até o fim do recesso judicial”, disse à ISTOÉ na quinta-feira 18 um dos advogados que atuam a favor dos empreiteiros. Entre os delegados e procuradores da Operação Lava Jato, a avaliação é a de que a manutenção das prisões nesse período de festas possa provocar uma avalanche de delações premiadas logo no início de 2015. ISTOÉ apurou que se depender do estado psicológico dos presos é possível que novas denúncias surjam antes mesmo da virada do ano.
(...)
Fonte:Mario Simas Filho,Isto É Brasil,atualizado em 20/12/2014,10:22 hs

PHILIP GLASS- Etude 16 - Maki Namekawa


Noite morta. 

Junto ao poste de iluminação
Os sapos engolem mosquitos.

Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.

No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
Sombras de todos os que passaram.
Os que ainda vivem e os que já morreram.

O córrego chora.
A voz da noite...
(Não desta noite, mas de outra maior.)

Manuel Bandeira
VISTA CANSADA

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Otto Lara Resende