segunda-feira, 29 de agosto de 2016

NADA É PARA SEMPRE

Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja.
Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas - porque tenho uma mente fértil e delirante - e porque posso achar errado - e ter que me desculpar - e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia.
Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que "nada é para sempre".
(...)
Gabriel García Márquez

ARNALDO ANTUNES - Contato Imediato


domingo, 28 de agosto de 2016

MELOU

Nos seus áureos tempos de oposição, o PT grudou em Geraldo Brindeiro, procurador-geral da Era FHC, o apelido tóxico de “engavetador-geral da República”. Ao anular a delação de Léo Pinheiro, da OAS, o procurador-geral Rodrigo Janot teve o seu momento de Brindeiro. Deixou no ar uma dúvida incômoda: por que resolveu cometer velhos erros se há tantos erros novos a cometer? Ou Janot abre a gaveta ou acabará provando que é errando que se aprende. A errar!

Faltou nexo à justificativa de Janot. Irritou-se com a notícia de que a delação da OAS incluiria um capítulo sobre Dias Tóffoli, o ministro do Supremo Tribunal Federal. Tachou a informação de inverídica, chamou o vazamento de “estelionato delacional” e deu por encerrada a negociação com Léo Pinheiro. Ora, francamente! Nada mais comum na Lava Jato do que os vazamentos. E Janot resolve rodar a baiana por conta de uma goteira que expeliu o que diz ser uma inverdade?!?

A decisão de Janot tornou-se ainda mais incompreensível diante da revelação dos segredos que o barão da OAS já compartilhou com a Procuradoria. Por exemplo: é mesmo de Lula o tríplex que ele jura não possuir no Guarujá. O imóvel e a reforma feita nele saíram das petropropinas destinadas ao PT. A empreiteira borrifou verbas sujas no caixa da reeleição de Dilma. Os grão-tucanos Aécio Neves e José Serra estão na lista de beneficiários de propinas. Delação, como se sabe, não é prova. Mas a obrigação do procurador-geral é procurar.

Num dos grampos que o doutor Sérgio Moro jogou no ventilador há cinco meses, Lula soa na fita questionando o advogado-companheiro Sigmaringa Seixas, de Brasília, sobre uma demanda que deveria ser encaminhada a Rodrigo Janot. Sigmaringa sugeriu a via institucional de uma petição. Lula queria saltar a “formalidade”. Sigmaringa alertou: “Ele vai dizer não, ele não vai receber.” E Lula: “Essa é a gratidão. Essa é a gratidão dele [Janot] por ele ser procurador…”

O pior pecado que um procurador-geral da República pode cometer é o de passar à sociedade a impressão de que é agradece com a caneta ao poderoso que o indicou para o cargo. Gente na posição de Janot não deve gratidão senão ao contribuinte, que lhe paga os vencimentos. E tudo o que esses brasileiros desejam é que o procurador Janot procure. E não esconda o que já foi encontrado.

Do Blog do Josas de Souza,28/08/2016, 05:58 hs

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


OUTRORA E HOJE

Meu dia outrora principiava alegre;
No entanto à noite eu chorava. Hoje, 
                                            [ mais velho, 
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente.


EHMALS UND JETZT

In jüngern Tagen war ich des Morgens froh,
Des Abends weint ich; jetzt, da ich älter bin,
Beginn ich zweifelnd meinen Tag, doch
Heilig und heiter ist mir sein Ende.


F. Holderlin
Tradução de Manuel Bandeira
                             

DA SÉRIE: O BRASILEIRO É CORDIAL!


OUTRAS AMPLIDÕES
(...)
Se o desejo é recalcado, não é por ser desejo da mãe e da morte do pai; ao contrário, ele só devém isso porque é recalcado e só aparece com essa máscara sob o recalcamento que a modela e nele a coloca. Aliás, pode-se duvidar que o incesto seja um verdadeiro obstáculo à instauração da sociedade, como dizem os partidários de uma concepção de sociedade baseada na troca. Vê-se cada coisa... O verdadeiro perigo não é este. Se o desejo é recalcado é porque toda posição de desejo, por menor que seja, pode pôr em questão a ordem estabelecida de uma sociedade: não que o desejo seja a-social, ao contrário. Mas ele é perturbador; não há posição de máquina desejante que não leve setores sociais inteiros a explodir. Apesar do que pensam certos revolucionários, o desejo é, na sua essência, revolucionário — o desejo, não a festa! — e nenhuma sociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que suas estruturas de exploração, de sujeição e de hierarquia sejam comprometidas. Se uma sociedade se confunde com essas estruturas (hipótese divertida), então, sim, o desejo a ameaça essencialmente. Portanto, é de importância vital para uma sociedade reprimir o desejo, e mesmo achar algo melhor do que a repressão, para que até a repressão, a hierarquia, a exploração e a sujeição sejam desejadas. É lastimável ter de dizer coisas tão rudimentares: o desejo não ameaça a sociedade por ser desejo de fazer sexo com a mãe, mas por ser revolucionário. E isto não quer dizer que o desejo seja distinto da sexualidade, mas que a sexualidade e o amor não dormem no quarto de Édipo; eles sonham, sobretudo, com outras amplidões e fazem passar estranhos fluxos que não se deixam estocar numa ordem estabelecida. O desejo não “quer” a revolução, ele é revolucionário por si mesmo, e como que involuntariamente, só por querer aquilo que quer.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in O Anti-édipo
Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar,um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
(...)
Mia Couto

GEORGE CARLIN: "Eu não voto"


ESTADO TERMINAL

O julgamento da presidente Dilma Rousseff já não tem a menor importância, em si, para os petistas que a defendem no Senado. Por se tratar de um processo essencialmente político, as favas já estão para lá de contadas. Portanto, os senadores do PT estão ali com o único objetivo de encenar a “paixão de Dilma”: diante das câmeras de documentaristas simpáticos à causa lulopetista, encarregados de registrar os estertores de Dilma na Presidência, esses histriões querem converter o julgamento em um dramalhão épico, numa tentativa de ditar a história deste triste período.
Pode-se imaginar que o roteiro cinematográfico do “martírio” de Dilma preveja como clímax a presença da presidente no Senado para se defender, amanhã. Consta que a petista trará uma comitiva de três dezenas de pessoas, entre as quais vários correligionários que foram seus ministros, que certamente se comportarão, diante das câmeras, como devotados apóstolos. E há ainda uma chance de ver Lula da Silva, a prima-dona da companhia, que planeja aparecer no Senado para testemunhar o calvário de sua criatura. Como Lula jamais será coadjuvante, em especial quando contracena com a inexpressiva Dilma, pode-se deduzir que sua intenção seja roubar a cena – é ele, afinal, quem julga ter um legado e uma história a defender, ao passo que Dilma, todos sabem, é apenas um pedaço de sua costela.
Todos esses atores, portanto, estão a desempenhar o papel que não lhes cabe: o de vítimas. Como Lula e grande elenco jamais admitiram responsabilidade pelos grosseiros erros dos governos petistas, muito menos pela corrupção sistêmica que carcomeu o Congresso e a administração pública nos últimos dez anos, qualquer acusação de roubalheira ou de irresponsabilidade só pode ser interpretada como campanha anti-PT.
(...)
Estadão, (Editorial) 28/08/2016,03:00 hs

sábado, 27 de agosto de 2016

NELSON FARIA & CELSO FONSECA - Breezin`


CONFISSÃO

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro – vinha azul e doido –
que se esfacelou na asa do avião.


Carlos Drummond de Andrade
OS ASTROS IMPÕEM

Quando Dilma Rousseff colocar os pés no Senado na segunda-feira 29, ela usará de todas as estratégias para a defesa do seu mandato, por ora suspenso. Com eloquência pregará a tese de inocência, mas não será tarefa fácil.

No campo político, para muitos, o jogo está definido. Ao contrário do que afirmou Michel Temer em sua primeira reunião ministerial em maio, na quinta-feira 25 vários retratos de Dilma foram retirados das paredes do Palácio do Planalto, sobretudo no 3º e 4º andares, onde funcionam a Presidência da República, a Casa Civil e a Secretaria Geral de Governo.

Olhando para os astros, o momento também é pobre para a petista. Nativa de Sagitário (14/12/47) pisará no Congresso no dia em que a Lua Minguante em Leão estará entrando em conjunção a Saturno e Plutão. Segundo a astróloga Susie Verde, a quem a Coluna pediu um estudo a respeito dos acontecimentos celestiais que cercam Dilma, “tudo indica o final de um ciclo”.

De seu consultório nos EUA, explica: “estamos em uma fase chamada de sombra de Mercúrio retrógado, o que sugere muita confusão no ar. Não será decisão fácil e haverá muita discussão. A presidente afastada conta com o apoio do seu bloco, de que poderá suportar o grave momento. Porém, está fragilizada e sob forte tensão. Tudo indica que este processo poderá ser mais difícil do que se imagina, na medida em que o jogo se desenrola”.

Além do mais, diz Susie, no dia 1º de setembro, “e já com influência agora”, haverá um eclipse de Lua Nova perto de Marte, em sua casa 12. “Dilma Rousseff deverá sofrer um golpe de seus inimigos. As traições significativas virão em função de grandes interesses políticos”.

Em outras palavras, por mais que a presidenta afastada se esforce, tanto na terra quanto no céu, parece tudo caminhar para a sua saída definitiva do cargo.

Se Dilma vai virar uma estrela um dia na história política do País, ninguém sabe, mas a que traz no peito, a do PT, já perdeu o brilho. Independente de ser – como parece – condenada no julgamento do Senado.

Ricardo Boechat, Isro É, 26/08/2016, 18:30 hs

EMIL NOLDE


TODOS JOGAM FUTEBOL

O futebol,  esporte-maior pelo altíssimo grau de imprevisibilidade dos resultados, sofre os efeitos da modernidade tecnológica. Talvez o principal seja o da escassez do chamado craque. Podemos chamá-lo de artista da bola, ou o que cria. Trata-se de uma questão estética. A seleção brasileira de 82 é um caso emblemático. Não ganhou a Copa, mas deixou a marca da criatividade e da alegria de tocar de "prima", de calcanhar, driblar, enfiar uma "caneta", lançar no vazio, cabecear, simplesmente fazer gols (foram 15 em 4 jogos), enfim, construir obras de arte. No entanto, evitando um saudosismo romântico e estéril, é possível ver no futebol atual (brasileiro e estrangeiro) o aumento do acesso de muitos jovens ao aprendizado da bola. Mais times, mais países na Cena Verde. Tal fenômeno, junto ao progresso da medicina esportiva, da fisioterapia, da educação física, e até da psicologia esportiva, fazem do futebol algo cada vez mais voltado ao apogeu tecnológico. Isso nos parece irreversível. Desse modo, mais que nunca é necessária a garimpagem fina pelos chamados olheiros (profissionais ou não)  do jogador verdadeiramente talentoso, aquele que faz a diferença, ou, como se diz no jargão futebolístico, o que desequilibra... Então, por onde anda o ARTISTA? Não é toda hora ou em qualquer lugar que aparece um Messi, por exemplo. Como identificá-lo?

A.M.