quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A SERVIDÃO DESEJADA

Por que os homens combatem por sua servidão como se se tratasse da sua salvação? Como é possível que se chegue a gritar: mais impostos!  Menos pão! Como diz Reich, o que surpreende não é que uns roubem e outros façam greve, mas que os famintos não roubem sempre e que os explorados não façam greve sempre: por que os homens suportam a exploração há séculos, a humilhação, a escravidão, chegando ao ponto de querer isso não só para os outros, mas para si próprios?
(...)

G. Deleuze e F. Guattari in O anti-édipo


RELAXE!


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

DESENCONTRO VIRTUAL

Sem dúvida, a solidão será o grande negócio do século XXI. Há alguns meses lia uma reportagem em uma revista norte-americana que dizia que nos EUA já há pessoas que, por dinheiro, passeiam com outras do mesmo modo que levam os cachorros de outras para dar uma volta, as que não têm tempo para fazer isso. Nesse caso, os clientes pagam para ter uma pessoa com quem conversar por algum tempo, realizar alguma atividade ou tomar um café.

Mas se as relações pessoais estão complicadas na era das comunicações, as amorosas estão ainda mais. As redes sociais que prometiam conectar as pessoas acabaram por isolá-las, e os sites de encontros que se vislumbravam como eficientes e rápidos arranjadores virtuais de um par transformaram o divertido flerte em uma tarefa mais típica de agência. Registrar-se, preencher formulários, responder a e-mails e passar horas e horas diante de uma tela antes de chegar ao difícil, e já pouco comum, exercício do cara a cara e traduzir o relacionamento digital para o mundo real. Algo que costuma desapontar.
(...)

Rita Abundancia, El País, 16/01/2018, 21:33 hs
Nunca soube por que tanta gente teme o futuro.
Nunca vi o futuro matar ninguém,
Nunca vi o futuro roubar ninguém,
Nunca vi nada que tivesse acontecido no futuro.
Terrível é o passado ou, pior, o presente!

Millôr Fernandes

MARC CARY ´s solo piano

QUE POÉTICAS? 

Não falamos sobre poetas ou poesia. Falamos de uma poética, ou de poéticas espalhadas em sementes pelos cantos do mundo. Profusão de versos em manhãs. Eles deslizam para fora dos porões formais da carcaça humana. Construir poéticas é ir além do humano e arrancar do inumano a máxima intensidade. Experimentar, mesmo sem escrever, o sabor do texto. Os chamados grandes poetas tornam-se, então, menores porque tocam o mistério e porque "grande só o menor". Expandem a vida em sua delicadeza mais expressiva, em suas dobras, em suas alegrias minúsculas. São partículas do universo infinito em cada um. E em nós. Convidados a escrever a aventura da escrita-movimento, a que frequenta e satura os átomos da natureza, os viajantes do desejo estão logo ali.


A.M.

A IGREJA E AS CRIANÇAS

O papa Francisco, que chegou nesta segunda-feira ao Chile, abordou abertamente, já no seu primeiro discurso, o assunto mais delicado da visita. “Sinto dor e vergonha perante o dano irreparável causado a crianças por parte dos ministros da Igreja”, clamou o Pontífice em sua primeira intervenção pública, no Palácio de La Moneda, diante da presidenta Michelle Bachelet e de seu sucessor eleito, Sebastián Piñera. Os escândalos devoraram a imagem da Igreja sobretudo dede a eclosão, em 2011, do caso Karadima, nome de um sacerdote condenado por cometer abusos reiterados contra adolescentes e jovens de classe média acomodada e famílias muito conhecidas e tradicionais de Santiago. A crise afundou o índice de confiança na Igreja, que já vinha caindo, até fazer do Chile o país com menos pessoas que se declaram católicas em toda a América Latina.
(...)

Carlos Cué e Rocío Montes, El País, Santiago do Chile, 16/01/2018, 17:02 hs

SUGESTÃO DE LEITURA


FRAGMENTO DE CANÇÕES E POEMAS 

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam:
O movimento das folhas 
O silêncio de onde acabas de voltar 
E a luz que divide o corpo do nascente

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
São os pássaros assustados, assustados, 
Tuas mãos que descobrem o convite da terra 
E os poemas como ilhas submersas…

São mil coisas impressentidas 
Que me escutam: 
Sou eu apreensivamente 
Solicitado pela inflorescência 
Redescoberto pelo bulir das folhas…


Manoel de Barros
FICÇÃO CIENTÍFICA

O Ministério Público Federal (MPF) no Distrito Federal pediu a condenação dos ex-deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) em alegações finais apresentadas à Justiça Federal na ação penal derivada da operação Sépsis, que investiga desvios no Fundo de Investimentos do FGTS (FI-FGTS), administrado pela Caixa Econômica Federal.

Para Eduardo Cunha, o Ministério Público pediu pena de 386 anos de prisão e para Henrique Eduardo Alves 78 anos por crimes como corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os dois políticos estão presos e são investigados em várias frentes.

A defesa de Eduardo Cunha afirma que o documento do MPF é uma “ficção científica, sem provas, com afirmações inverídicas que não podem sustentar uma condenação”.
(...)

Camila Bonfim, TV Globo, Brasília,16/012018, 13:01 hs

OLHA O ETERNO CARNAVAL AÍ, GENTE !


A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.
(...)

Mia Couto

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

CAETANO VELOSO - Enquanto seu lobo não vem.

CHOQUE NAS TÊMPORAS

A eletrochoqueterapia (ECT), técnica usada (ainda hoje) pela psiquiatria, não tem qualquer base científica. Foi criada em 1937, na Itália, pelo médico Ugo Cerletti, a partir do experimento em porcos anestesiados antes de serem abatidos nos matadouros de Roma. Em seguida, foi usada em larga escala nos antigos hospícios como instrumento de punição, repressão e violência sobre pacientes internados. Apesar desse Horror pregresso, o seu uso atual pode ( dizem...) beneficiar o paciente psiquiátrico em casos extremos, quando já foram esgotados todos os recursos de tratamento. A indicação maior seria (ou deveria ser) as depressões graves, refratárias aos antidepressivos e quando há risco evidente de suicídio. Esta nos parece a atitude clínica mais prudente, a qual está além e aquém da imagem apenas negativa do Choque (da luta antimanicomial) ou da imagem apenas positiva (da psiquiatria biológica). De todo modo, a questão do eletrochoque nos parece secundária à do Diagnóstico Psiquiátrico, que é secundária à do Poder que é secundária à da Ética. Esquemáticamente, pode-se estabelecer a seguinte discussão: 1-Que hipótese diagnóstica indica o uso da ECT? 2-Com que direito o psiquiatra decide dar choque em alguém? 3- Que potências de vida são ou serão promovidas pela ECT? 4- Ou,ao inverso: que potências de vida são ou serão destruídas pela ECT? Concluindo, a discussão, antes que técnica (clínica), é ético-política. Nesse mister, os sequazes da psiquiatria biológica costumam ser semi-analfabetos. Eles são regidos por um pensamento conceitual raso.

A.M.

Obs. : texto republicado

HENRYK GOTLIB