quarta-feira, 29 de março de 2017

Nenhuma lição nesta paisagem
que não o fartamente conhecido:
as coisas nos lugares, engrenagens

do estar-em-si, do tudo-é-relativo,
etc. A mesma grafitagem
inconseqüente de sempre: rabisco

logo existo. — O mundo segue opaco,
imune à consciência e seus lampejos
de lógica, sua falta de tato,
sua avidez, seus deuses e desejos.

(Aqui termina o sonho. Fim das névoas,
caramelos e almofadas formidáveis.
Daqui pra frente, as portas sem remédio
e todas as maçãs assassinadas.)


Paulo Henriques Britto
O DELÍRIO AJUDA A VIVER

Lembro de um paciente, há alguns anos, me falando que havia uma tesoura enfiada e oculta na sua cabeça. Junto à queixa-crença, ele trazia exames de imagem do cérebro, como RM, TC, US, todos normais. Perguntei-lhe porque ele insistia que a tesoura continuava alojada no cérebro, já que os exames estavam normais. Respondeu-me que os exames é que estavam errados, haviam, sim, falhado já que provavelmente a tesoura estava escondida num locus cerebral de difícil acesso. Apesar de eu saber das limitações clínicas dos neuroexames por imagem na pesquisa da mente, já que o cérebro não é a mente, neste caso o cérebro era o foco material da clínica e a discrepância entre a vivência-convicção do paciente com a imagem projetada sobre o écran era impressionante. Uma tesoura oculta dentro da cabeça não é qualquer coisa. Pois bem: percebi que os argumentos racionais, intelectuais, técnicos, até mesmo argumentos de autoridade ("acredite porque sou médico"), eram completamente inúteis. Eu estava diante de um caso grave de delírio, cuja etiologia (origem) nada tinha a ver com o funcionamento cerebral, já que esse estava absolutamente intacto. Ora, na doença psicossocial petista, em que pese todas as evidências do desmoronamento político-ideológico do petismo atual, a crença- delírio prossegue como mecanismo subjetivo de negação de uma realidade muito dura. E mais, duma realidade esvaziada de sentido conforme os rumos possíveis para uma chamada esquerda que queria e quer mudar o mundo. Desse modo, as pessoas que  acreditavam no sonho petista pós-ditadura de 1964 migraram para o delírio petista dos dias atuais. E sequer desconfiam que estão delirando pois milhões também ainda estão assim. E do mesmo modo que o paciente da tesoura encravada no cérebro, não adianta usar argumentos racionais para convencê-los. Trata-se de um investimento delirante de afetos tristes e mortificantes (depressão) só elimináveis à medida em que a prova de realidade ( o devir da História) o mostrar.  Como o Tempo histórico de uma nação é defasado em relação ao Tempo histórico de uma pessoa, muitos carregarão até a morte o seu "precioso" delírio como algo importante e indispensável (ainda que um fardo) para ajudá-los a viver.

A.M.


P.S. - O texto enfoca o drama dos doentes petistas e não o dos criminosos petistas. Quanto a estes, a Lava-Jato já está tratando...

EMIL NOLDE



terça-feira, 28 de março de 2017

AFETOS  INUMANOS

Os afetos dão consistência ao real subjetivo que se expressa como real objetivo. Eles são o próprio real, encontro de corpos com corpos. No mais, é uma sombra espessa (a consciência) nascida da luz, do movimento e das imagens, que compõe os códigos do mundo, inclusive eu e você. Mas, eles, os afetos, não são passíveis de codificações fixas, como tenta fazer a psiquiatria biológica ao cunhar o logro da ansiedade-doença. Sempre vazam, muitas vezes, inomináveis, quando, por exemplo, nem uma só palavra expressa o que alguém está sentindo. São abstratos se usarmos esse termo fora da acepção ordinária (algo fora daqui, sem consistência). É que se o abstrato é o "sem-forma", os afetos não têm forma. São concretos, são fluxos de vida querendo querer em conexões infinitas para além do Homem. 

A.M.
Me mostram um cidadão desmotivado e eu vejo alguém que não está causando problemas.

George Carlin

MICHAEL NYMAN - A Winhed Victory For The Sullen - String Quartet Nº 2 III


SAIR DA LÍNGUA

A língua é, segundo uma fórmula de Weinreich, "uma realidade essencialmente heterogênea". Não existe uma língua-mãe, mas tomada de poder por uma língua dominante dentro de uma multiplicidade política. A língua se estabiliza em torno de uma paróquia, de um bispado, de uma capital. Ela faz bulbo. Ela evolui por hastes e fluxos subterrâneos, ao longo de vales fluviais ou de linhas de estradas de ferro, espalha-se como manchas de óleo. Podem-se sempre efetuar, na língua, decomposições estruturais internas: isto não é fundamentalmente diferente de uma busca das raízes. Há sempre algo de genealógico numa árvore, não é um método popular. Ao contrário, um método de tipo rizoma é obrigado a analisar a linguagem efetuando um descentramento sobre outras dimensões e outros registros. Uma língua não se fecha sobre si mesma senão em uma função de impotência.
(...)
G. Deleuze e F. Guattari in Mil platôs, vol 1

segunda-feira, 27 de março de 2017

Defesa do lobo contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?
o que exigem do chacal?
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
porque olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido,
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre lobos:
andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês
convidam para o estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.


Hans Magnus Enzensberger

GRANDES ESCRITOS


domingo, 26 de março de 2017

CRESCIMENTO ESPIRITUAL

RIO - A expansão da fé no Brasil acontece em ritmo intenso: uma nova organização religiosa surge por hora no país. A facilidade para a abertura de novas igrejas — a burocracia é pequena, ao contrário do que acontece em outras atividades —, o fortalecimento do movimento neopentecostal e até mesmo os efeitos da situação econômica são apontados como motivos que podem explicar o fenômeno.

De janeiro de 2010 a fevereiro deste ano, 67.951 entidades se registraram na Receita Federal sob a rubrica de “organizações religiosas ou filosóficas”, uma média de 25 por dia. Ao levar em conta apenas os grupos novos, que não são filiais daqueles já existentes, o número é de 20 por dia. O processo é simples: primeiro, obtém-se o registro em cartório, com a ata de fundação, o estatuto social e a composição da diretoria; depois, os dados são apresentados à Receita, para que o órgão conceda o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), item obrigatório para o funcionamento legal das instituições.

Com o CNPJ em mãos, basta procurar a prefeitura e o governo estadual para solicitar, caso necessário, o alvará de funcionamento e garantir também a imunidade tributária — a Constituição proíbe a cobrança de impostos de “templos de qualquer culto”. Igrejas não pagam IPTU, Imposto de Renda (IR) sobre as doações recebidas, ISS, além de IPVA sobre os veículos adquiridos. Aplicações financeiras em nome das organizações também estão livres do IR. Em alguns estados, há ainda isenção sobre o recolhimento de tributos indiretos, como o ICMS.
(...)

Marco Grillo, O Globo,26/03/2017, 13:42 hs



a luta de classes
oh marx
oh  cash


A.M.
HITLER ATUAL

Durante sua longa carreira de agitador, Hitler estudou os efeitos do veneno gregário e aprendeu a explorá-los em benefício dos seus próprios fins. Descobriu que o orador pode apelar para aquelas 'forças ocultas' que provocam as ações dos homens, muito mais eficientemente que o escritor. Ler é uma ocupação privada e não coletiva. O escritor dirige-se apenas a indivíduos, sentados em suas casas, num estado de sobriedade normal. O orador fala para massas de indivíduos, já bastante contaminados pelo 'veneno gregário'.
(...)
Aldous Huxley in O Admirável Mundo Novo

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


FUTURO DA LAVA JATO

É perda de tempo rememorar as inúmeras tentativas levadas a cabo nos últimos três anos com o objetivo de melar a Lava Jato. Foram e continuam sendo tantas que boa parte dos cidadãos já reage a elas sob o efeito anestésico produzido por manchetes que se repetem indefinidamente, perdendo capacidade de chocar, por mais escandalosos que sejam os fatos expostos.

Também não deve surpreender a diversidade de conspiradores, uma galera que inclui, em diversos níveis de envolvimento e discurso, presidentes, ex-presidentes, ministros, governadores, magistrados, juristas, partidos e, claro, políticos. Sendo tão articulada e poderosa essa frente ampla, tudo que a “República de Curitiba” não precisa é cometer erros que os fortaleça.

Moro, Dallagnol & seus Blue Caps, como é notório, fizeram movimentos que pareceram inspirados por seus inimigos. Da condução coercitiva de Lula à divulgação de grampos de Dilma; da coletiva do “power point” à prisão hospitalar de Guido Mantega, os erros de ação ou comunicação mais deram trunfos aos adversários do que fizeram avançar as investigações.

O juiz e os procuradores federais sabem o quanto de minas estão enterradas onde pisam e saltitar no terreno – prendendo blogueiros por causa de furos jornalísticos, por exemplo – é o menos recomendável.

Só os mal intencionados (ou comprometidos) negam o saldo altamente positivo que a Lava Jato acumula até aqui, mas a herança que vai deixar ainda depende de muitos capítulos a serem encenados em palcos onde os mocinhos nem sempre venceml
(...)

Ricardo Boechat, Isto É, 24/03/2017,18:12 hs