sábado, 18 de novembro de 2017

SEM FORMOL

Legiões de psiquiatrizados de toda parte ajoelham-se no altar dos psicofármacos e dos cérebros conservados em formol. Tudo conspira a favor do consumo de pacotes cientificamente autorizados para ações lucrativas.No entanto, mesmo desbotada e segregada nos grilhões macios da ciência positivista, a diferença resiste. A ética da potência de viver afirma-se nos versos de poetas itinerantes.O discurso e a prática da diferença  exploram o avesso da ordem do Estado capitalista e de suas instituições congêneres. Quem se interessa  em criar, fazer nascer? Pergunta  insana, na  medida em que os  poderes investem na repetição do Mesmo e  no  rigor  mortis do pensamento. Por isso, uma clínica da diferença considera as determinações sócio-políticas como a superfície da ação mais concreta. Em suas  pesquisas não encontra respostas exatas,mas problemáticas instigantes. Se a loucura é a experiência que atravessa a subjetividade, (mesmo que não estejamos loucos, entramos num devir-loucura), tudo muda na percepção fina da realidade do mundo. Um novo universo se  desvela.

A.M.

GEORGI PETROV


Terror de te amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa


Sophia de Mello Breyner Andresen
Você pode viver até os cem anos se abandonar todas as coisas que fazem com que você queira viver até os cem anos.

Woody Allen

STEVIE WONDER & AISHA MORRIS - Rock in Rio/2011


O POETA DA MADEIRA

Sob o silêncio das mortes tranquilas, tombou na quarta-­feira o artista irremovível, que viveu para gritar, em poemas de madeira, contra a destruição da floresta brasileira. Frans Krajcberg não morreu em vida antes de extinguir-se aos 96 anos; não permitiu que seu espírito apodrecesse sob o pesticida dos cinismos confortáveis. Viveu até o fim uma vida plena de amor e arte, de comunhão criativa com a natureza de sua terra em Nova Viçosa, no sul da Bahia. Sua obra – pinturas, fotografias, esculturas – fincou raízes definitivas na arte contemporânea. Os brasileiros, e o mundo, não precisavam dela para conhecer a devastação da Amazônia e nossa agressão incessante ao planeta. Esses fatos são notórios há muito tempo. Por meio de sua arte, Krajcberg nos ofereceu algo mais raro, precioso: sua dor – a dor humana – diante dessa tragédia. Ofereceu-nos a sempre estranha possibilidade de empatia com outros organismos vivos. Pelo engenho e pela sensibilidade de Krajcberg, uma árvore calcinada deixava de ser somente mais um pedaço de madeira retorcido, abandonada à irrelevância dos grandes cinzeiros amazônicos. A árvore calcinada ganhava, em morte, a vida que tivera antes de ser assassinada pelo homem. Krajcberg era um artista tão soberano de sua técnica que extraía de restos de madeira, a um só tempo, afeto, beleza e sofrimento. Algo de sublime atravessa todos os troncos que esculpiu. Graças à arte de Krajcberg, o Brasil e o mundo puderam não apenas ver, mas sentir o lento e seguro assassinar de tudo que é verde no país. Ainda que o desmatamento das florestas e o desprezo dos homens pelo meio ambiente persistam, hoje ambos são seguramente menores do que eram antes de Krajcberg.
(...)

Diego Escosteguy, Época, 17/11/2017, 22:11 hs

SALVADOR, MEU AMOR


Mar de primavera -
O dia todo
Lentamente ondula.

Yosa Buson
A PAIXÃO TRAÍDA


O cronista Nelson Rodrigues, há mais de 50 anos, já constatou: “o pior cego é o que só vê a bola”. Numa corte de Nova Iorque, nesta semana, é um senhor frágil, de cabelo e tez branca que se depara diante da juíza federal Pamela Chen. O julgamento contra José Maria Marin, entretanto, não é apenas contra um dirigente que comandou a CBF. Trata-se, na realidade, de um processo sobre o próprio futebol nacional, sobre seus cúmplices e suas entranhas do poder. Um processo contra aqueles que promoveram uma cegueira quase generalizada.

Conforme a data do julgamento se aproximava, não foram poucos os dirigentes da Fifa e da CBF que me admitiam que estavam preocupados sobre o que poderia surgir do processo. Hoje, depois de pouco mais de dez dias de audiências, tudo o que essas entidades temiam se transformou em realidade. Acusados e testemunhas passaram a usar a corte como um palco privilegiado para revelar um lado obscuro do esporte. O futebol como ele é.

Para se defender das acusações de corrupção, os advogados de Marin usaram um fato que qualquer um envolvido na CBF sempre via: ele jamais a governou sozinho. Seu braço direito, vice-presidente e homem que o acompanhava a todas as reuniões era Marco Polo Del Nero, o atual comandante do futebol brasileiro desde 2015. Para a defesa de Marin, quem “tomava as decisões” era o seu vice.

Ainda que seja uma estratégia dos advogados para reduzir a responsabilidade de seu cliente, a realidade é que a tática surpreendeu a muitos dentro da CBF e Del Nero foi jogado para o centro do debate.

Nos dias que se seguiram, coube ao argentino Alejandro Burzaco, ex-executivo que comprava direitos de TV de torneios sul-americanos, admitir que a corrupção era a regra do jogo. Na qualidade de testemunha, seu relato confirmou os pagamentos a Marin. Mas também indicou que o próprio Del Nero o procurou em 2014 para negociar um aumento da propina. O entendimento com o futuro chefe do futebol brasileiro ainda vinha com um pedido: adiar o pagamento do suborno para 2015, quando Marin não seria mais presidente da CBF. Assim, Del Nero não teria mais de dividir a propina com seu “amigo”.

As audiências ainda jogaram ao centro da arena Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF entre 1989 e 2012. Ele teria recebido, desde 2006, US$ 600 mil por ano em propinas para ceder contratos de transmissão da Copa Libertadores e da Copa Sulamericana.

Não escaparam nem mesmo grandes grupos de imprensa do Brasil e América Latina, citados pela única testemunha ouvida até agora como parte de um esquema de corrupção. No caso da TV Globo, ela foi mencionada como tendo destinado supostas propinas para ficar com o direito de transmissão das Copas de 2026 e 2030, algo que a empresa nega de forma veemente.

O processo também atinge em cheio as pretensões do Catar de sobreviver como sede da Copa até 2022. O ex-dirigente argentino, Julio Grondona, morto em 2014, foi apontado nesta semana como receptor de US$ 1 milhão em troca de seu voto aos árabes para que pudessem sediar o Mundial. Ele era o presidente do Comitê de Finanças da Fifa e, em outras palavras, era o dono da chave do cofre da entidade.

Ao relatar o caso, Burzaco revelou como Grondona o contou bastidores do dia da votação. Nas primeiras rodadas, o então presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, teria votado pelo Japão e Coreia do Sul. Num dos intervalos, Grondona e Teixeira chegaram até o paraguaio e o “chacoalharam”. “O que você está fazendo?”. Quando o processo eleitoral foi retomado, Leoz mudou de comportamento e votou pelo Catar.

O tsunami das declarações chegou ainda até a Argentina. Na noite de terça-feira, Jorge Alejandro Delhon, um dos executivos denunciados, teria se matado. As audiências ainda tiveram cenas de dramalhões latino-americanos, com Burzaco chorando diante do que poderia ser um ato de intimidação de um dos acusados, o ex-presidente da Federação Peruana de Futebol, Manuel Burga. O peruano o teria feito um sinal de cortar o pescoço, em plena audiência.

Horas depois, a testemunha não conseguiria segurar as lágrimas quando lembrou que fora avisada de que a polícia argentina o mataria se retornasse ao país.

Entre supostas ameaças, choros, mortes, relatos extraordinários e contas milionárias, não deixa de chamar a atenção o fato de que o processo está apenas em sua segunda semana. Por mais um mês, como num cenário de um jogo de Copa descrito pelo cronista, o mundo da cartolagem e seus cúmplices viverão “uma suspensão temporária da vida e da morte”.

Todos os citados, por enquanto, negam qualquer tipo de responsabilidade. Mas o que o processo começa a revelar é que, de fato, uma paixão nacional foi tomada por um grupo com um único objetivo: o enriquecimento próprio. De forma infesta, sequestraram uma das poucas coisas que é legítimo em um torcedor: sua emoção. A cada partida assistida em campo ou na televisão, em cada camisa comprada, em cada item adquirido, o torcedor aparentemente não financiou o futebol nacional. Mas seus donos, em contas secretas em Andorra, Suíça e paraísos fiscais.

Desde criança, foi vendida a história a todos nós de que aquele time de amarelo nos representa. Quando ganha, é o presidente da República quem os recebe, como heróis nacionais numa conquista “do país”. Quando é humilhado em campo, é uma nação que flerta com a depressão.

Em Nova Iorque, enquanto a cegueira começa a se dissipar, estamos vendo que esse futebol “nacional” tem dono. E não é o torcedor.

Jamil Chade, El País, 17/11/2017, 22:22 hs

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

NÃO SEREMOS SALVOS

(...)
Não importa tanto se um grande líder vai emergir dos escombros. Mesmo se aparecer, não será um anjo. Não elegeremos anjos em 2018. Nunca o faremos, creio eu.
A fronteira do pessimismo não nos deve desesperar. Há algumas instituições funcionando, há grupos trabalhando na busca da transparência, há a possibilidade real de que todos os que querem mudança encontrem pontos de contato, um denominador comum.
Como o poeta que fabrica um elefante de seus poucos recursos, a sociedade brasileira terá de construir seu sistema de defesa. Alguns móveis velhos, algodão, cola, a busca de amigos num mundo enfastiado que duvida de tudo – o elefante de Drummond é inspirador.
Quem sabe, como em Portugal, conseguiremos construir nossa própria geringonça? Prefiro essa visão modesta e realista a esperar dom Sebastião. Curado de sua megalomania, talvez o Brasil aceite, finalmente, tornar-se um grande Portugal.

Fernando Gabeira, 17/11/2017

ROBERTA SÁ & NEY MATOGROSSO - Peito Vazio


OH LULA 

O maior problema político de Lula não é o fato de ele ter ficado parecido com os políticos que atacava. Seu principal drama é a evidência de que Lula ficou muito diferente do que diz ser. Num instante em que Lula percorre o país como defensor dos pobres, a Procuradoria pede, em Brasília, o sequestro de seus bens e de seu filho Luís Cláudio no montante de R$ 24 milhões. A defesa de Lula contestou o pedido. Sustentou não haver provas contra ele na Operação Zelotes. Mas não disse nenhuma palavra sobre o valor requerido pelo Ministério Público Federal.

Lula atravessou ileso o escândalo do mensalão. Sobreviveu à ruína produzida por sua criatura Dilma Rousseff. Alvo de diversos inquéritos e ações penais, mantém a pose de perseguido. Condenado a 9 anos e meio de cadeia, conserva-se no topo das pesquisas. Mas deve tornar-se inelegível. E já perdeu aquela aura de político imbatível. Seu prestígio diminuiu na proporção direta do aumento do seu patrimônio.

Este não foi o primeiro pedido de bloqueio de bens. Sérgio Moro mandara sequestrar R$ 10 milhões em julho. Quando o Banco Central achou R$ 600 mil numa conta corrente de Lula, o PT disse em nota que seu líder supremo morreria de fome. No dia seguinte, descobriram-se mais de R$ 9 milhões em planos de previdência privada. Lula dizia ser um palestreante de sucesso. Mas delatores da Odebrecht informaram que as palestras eram mero truque para bancar com dinheiro sujo os confortos de um benfeitor. A fortuna de Lula não combina com os valores morais que ele acha que representa.

Do Blog do Josias de Souza, 17/11/2017, 00:48 hs
Desde Sempre em Mim

Contente. Contente do instante
Da ressurreição, das insônias heroicas

Contente da assombrada canção
Que no meu peito agora se entrelaça.
Sabes? O fogo iluminou a casa.
E sobre a claridade do capim
Um expandir-se de asa, um trinado

Uma garganta aguda, vitoriosa.

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento
Desde sempre, amor, redescoberto em mim.


Hilda Hilst

ROMEU FERREIRA


O FIM É O COMEÇO

Com o fim do diagnóstico psiquiátrico (enquanto instrumento terapêutico), restam os grandes conjuntos síndrômicos a balizarem a clínica. Eles surgem de um real atual atravessado pelo horror dos tempos. A morbidade psícossocial aniquila territórios subjetivos no cotidiano das velocidades caóticas. No caso brasileiro, uma opressão oficial sustentada pela democracia representativa traz à luz a sabotagem do desejo. Este sofre por ser interrompido, por não produzir produzindo e daí estancar em linhas patológicas a erosão crônica do Sentido. Em que acreditar? Nada mais resta exceto arcaísmos religiosos tanto quanto arcaísmos escolares, estatais, familiares, acadêmicos, jurídicos e tantos outros. Chamamos de arcaísmo a organização das transcendências (algo para além da vida, dores imaginárias, fantasmas, fetiches, idolatrias, etc) que, no caso da psiquiatria, substituem os verdadeiros problemas, espécie de mecanização tosca do pensamento. A entronização e a reificação do cérebro cumprem, pois, a função de imbecilizar modos de subjetivação (a figura do doutor, por ex.) através da fabricação de pseudo-diagnósticos neurológicos (alguém já viu um cérebro funcionando?) voltados à reparação de circuitos lesionados e à venda de códigos científicos como artigos de fé. Desse modo, o fim do diagnóstico é correlato ao começo de uma era onde tudo é tecnologia de controle ao gosto das populações consumidoras de ordens implícitas.


A.M.