quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Vozes do Cerrado

brasília! brasília!
onde estás
que não respondes?
em que bloco
em que superquadra
tu te escondes?


Nicolas Behr


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A FÁBRICA DE VERDADES

É isso mesmo que você leu: “Facebookracia”. Assim como democracia quer dizer “poder do povo” e plutocracia quer dizer “poder dos ricos”, a palavra Facebookracia é o poder controlado pelo Facebook. Não é bem um regime ou um sistema político, não é uma forma de governo estabelecida numa Constituição, como acontece com o parlamentarismo ou o presidencialismo. A Facebookracia vai se instalando aos poucos, de maneira mais ou menos informal, até que, quando a gente olha, já tomou conta dos processos pelos quais os eleitores tomam decisões. A Facebookracia é a democracia entregue à lógica das redes sociais. Em sua exuberância cibernética até parece democracia, mas é uma deformação da democracia.
(...)
Eugênio Bucci, Época,05/12/2016, 08:00 hs

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CLAMOR DAS RUAS?
(...)
Pela perspectiva das ruas, o ministro Marco Aurélio fez o que os senadores se recusavam a fazer – o Conselho de Ética do Senado não agia contra Renan. Assim, se os demais ministros confirmarem a decisão de Marco Aurélio, o Supremo terá se aliado às ruas num dos momentos mais decisivos da crise política – da transformação política – provocada pela Lava Jato.

Politicamente, Renan se enforcou quando partiu para cima da Lava Jato na quarta-feira passada, apesar dos apelos do presidente Michel Temer e da presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia. Renan, que sempre soube proteger seus interesses ao misturá-los habilmente com os interesses da instituição que presidiu, errou feio. Foi enquadrado pelas ruas neste domingo. Ganhou até pixuleco inflável na Avenida Paulista. Dificilmente duraria.
(...)

Diego Escosteguy, Época, 05/12/2016, 21:16 hs

LUIZ MELODIA - Dores de Amores


O sexo sem amor é uma experiência vazia. Mas como experiência vazia é uma das melhores.

Woody Allen
Paragem 

Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência.


Dante Milano

PSIQUIATRIA BIOLÓGICA


O ACONTECIMENTO NÃO VOLTA

Quando ocorrem grande acidentes, e a mídia faz a sua parte no negócio, é que o Acontecimento emerge em toda a sua complexidade, desconcertando o senso comum e boicotando o bom senso. Ele se faz notar, tonitruante, bombástico, mas isso é pouco, não é real. É uma casca. O acontecimento ocorre sempre, é eterno como o tempo que não volta, a irreversibilidade. Ao se dizer (a mídia adora esse raciocínio) que alguém perdeu a viagem trágica (um desastre de avião, por ex.) e se tivesse viajado, teria morrido, estamos diante de uma das grandes ilusões do pensamento da consciência. Ora, se ele não tivesse perdido o avião, e sim viajado, seria outro acontecimento, pois contaria com a sua presença. Você pode dizer que haveria de qualquer sorte o acidente. Mas aí está um pensar determinista. Mais ainda : é um pensar representativo a considerar o acontecimento (no caso, o desastre) como uma espécie de bloco de tempo e o sistema da consciência avaliando se deveria ou não embarcar naquele avião. Trata-se de uma ilusão aceita como verdade. Precisamos de ilusões. Tal determinismo lógico retira a nossa implicação subjetiva com o próprio fato. Um exemplo hipotético mostra isso. Suponhamos que essa pessoa que perdeu o vôo não o perdesse. Embarcando, sofre um mal-estar súbito ao longo do vôo e o piloto tem que voltar ao aeroporto de origem. Pronto: o acidente não acontece. É claro que nem sempre um fato relevante como esse pode acontecer. No entanto, por mais insignificantes que sejam os fatos decorrentes de existir mais alguém à bordo, o acontecimento continua existindo (embora outro) e ninguém sabe por onde e para onde iriam os seus efeitos. Portanto, a nível de probabilidade, com o novo passageiro ou sem ele, o acidente poderia acontecer, mas jamais teríamos a certeza total de que aconteceria. Esta é a base teórica para um pensamento do tempo, ou da irreversibilidade, ou da diferença, ou da singularidade. Ele atua em todos os níveis e dobras da realidade, sob a forma de micro-acontecimentos que nos passam despercebidos, tais como aquele atraso na hora de sair de casa e que por isso você se deparou com uma vizinha desconhecida pedindo carona no ponto de ônibus. Hoje você está casado com ela... Loucura?

A.M.
PRAZER DO TEXTO

Sabemos agora que um texto não é feito de uma linha de palavras a produzir um sentido único, de certa maneira teológico (que seria a "mensagem" do Autor-Deus), mas um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escrituras variadas, das quais nenhuma é original: o texto é um tecido de citações, saídas dos mil focos da cultura. 
(...)
Roland Barthes 

domingo, 4 de dezembro de 2016

PAVEL MITKOV


Subversiva

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.



Ferreira Gullar
A LEI, SEGUNDO OS BANDIDOS

(...) Assim que o luto se abrandar e todos se derem conta da traição que sofreram na madrugada, estaremos em condições de dar a batalha decisiva. O primeiro front essencial seria este: julgar todos os inquéritos sobre os deputados e senadores que votaram pela lei da intimidação. Legislaram em causa própria.
Assim como Eduardo Cunha, Renan está lutando sua última batalha enlouquecido. Ele precisa perdê-la logo. Mesmo na sua loucura, talvez saibam que foram longe demais. Vão se encontrar no Olimpo das celas de Curitiba. Ali outros delírios de poder e fortuna também acharam seu espaço.
A equipe da Lava-Jato não pode se demitir. A História não é uma repartição, o impacto do trabalho deles é um patrimônio da sociedade. É só ter um pouco de paciência que a própria sociedade vai se mover. Não ficará pedra sobre pedra, embora seja precisa tirá-las com cuidado para evitar grandes desmoronamentos.
(...)
Fernando Gabeira, 04/12/2016

TOM JOBIM - Eu Sei Que Vou Te Amar


sábado, 3 de dezembro de 2016

A DESMEMÓRIA

Chicago está cheia de fábricas. Existem fábricas até no centro da cidade, ao redor do edifício mais alto do mundo. Chicago está cheia de fábricas, Chicago está cheia de operários.
Ao chegar ao bairro de Heymarket, peço aos meus amigos que me mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo inteiro saúda a cada primeiro de maio.
— Deve ser por aqui — me dizem. Mas ninguém sabe. Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada.
O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos, o Primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo.
Após a inútil exploração de Heymarket, meus amigos me levam para conhecer a melhor livraria da cidade. E lá, por pura curiosidade, por pura casualidade, descubro um velho cartaz que está como que esperando por mim, metido entre muitos outros cartazes de música, rock e cinema.
O cartaz reproduz um provérbio da África: Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador. 
(...)

Eduardo Galeano